Arquivo de agosto de 2018

Pronome relativo e preposição: que perigo!

quinta-feira, 30 de agosto de 2018

Já examinou com atenção o que acontece quando você emprega pronomes relativos em seu discurso, tanto oral, quanto escrito? Se não prestou, deve prestar. E muito. Claro que você sabe o que são pronomes relativos e os identifica facilmente, como, por exemplo, os seguintes: que, quem o qual (a qual, os quais, as quais), cujo (cuja, cujos, cujas). Em frases como

 

O professor que chegou estava doente.

Não conheço a pessoa a quem você se refere.

A igrejinha, cuja torre se pode ver deste morro, está em obras.

você identifica facilmente os relativos que, quem e cuja. Parecem tão fáceis de reconhecer, que nem é preciso estudar muito.

Aí é que mora o perigo. E este surge quando a regência de um nome ou de um verbo solicita a presença de uma preposição antes do relativo. Se a omitimos, a frase fica manca e quem corrige nosso texto pode nos penalizar com um desconto de nota. Observe os exemplos seguintes:

 

Esta regra, que discordamos, não tem fundamento algum.

Não sei quem você brigou, mas não acredito muito.

A garota a qual meu vizinho se refere não estava lá nesse dia.

No discurso oral, frases como essas acabam passando sem que haja reclamação dos interlocutores, embora esteja em todas elas faltando uma preposição antes dos pronomes relativos. No discurso escrito, porém, especialmente em uma prova discursiva ou numa redação, a lacuna é detectada e penalizada de imediato. O adequado seria empregar

Esta regra, de que discordamos, não tem fundamento algum.

Não sei com quem você brigou, mas não acredito muito.

A garota à qual meu vizinho se refere não estava lá nesse dia.

 

Percebeu? O verbo discordar solicita a preposição “de”; já brigar implica “com”; e referir-se pede “a”. Por isso os relativos que, quem e a qual devem vir precedidos das referidas preposições: de que, com quem, à qual.

O perigo, porém, é ainda maior quando uma vaga ideia da necessidade de preposição surge na mente do usuário (falante, escritor), de modo que ele tenta consertar o esquecimento com um remendo. Essa atitude é comum no discurso coloquial, mas pode também chegar ao escrito. Observe:

 

A garota que eu saí com ela estuda Direito.

O futebol é um esporte que gostamos muito dele.

 

Notou? No primeiro exemplo, o usuário deveria ter dito ou escrito A garota com que eu saí estuda Direito. Mas acabou produzindo uma sequência absurda, em que uma personagem é referida três vezes, de três modos diferentes: a garota, que, ela. E a preposição, que deveria preceder o relativo, acabou precedendo o pronome ela, que invadiu indevidamente a frase. No segundo exemplo, a forma adequada deve ser O futebol é um esporte de que gostamos muito.

Viu que perigos se correm nesses casamentos entre preposições e pronomes relativos? Faça uma revisão criteriosa de suas redações para verificar se não caiu numa dessas armadilhas.

 

Qual a disciplina mais importante?

quarta-feira, 29 de agosto de 2018

Você já se perguntou qual a disciplina mais importante em um vestibular ou outro concurso? Provavelmente deve ter sua opinião. Se o curso buscado se situa na área de Exatas, por certo julgará que é Matemática a disciplina mais importante; se na área de Biológicas, não terá dúvidas em dizer que é a Biologia; se em Humanas, é claro que vai depender da natureza do curso.

Nada mais natural. Essa questão, porém, pode ser observada por você sob outro ponto de vista: o da utilidade da disciplina no vestibular ou concurso como um todo. E não será necessário pensar muito para concluir que a mais importante, em termos de utilidade para praticamente todas as provas de todas as áreas, é realmente a Língua Portuguesa. Por quê? Muito simples, até óbvio: porque suas respostas, quaisquer que sejam tais disciplinas, são feitas em Língua Portuguesa. Deste modo, não adianta muito saber a resposta de qualquer pergunta, se não for capaz de demonstrar esse conhecimento com um discurso claro e adequado, que não deixe margem de dúvidas para a banca de correção. Basta um equívoco, uma palavra empregada indevidamente, uma regência verbal errada ou uma sequência que produza duplo sentido para lhe tirar pontos preciosos, até mesmo toda a nota.

Foi exatamente por isso que os professores de Língua Portuguesa tanto insistiram em que você desenvolvesse em alto nível sua capacidade de ler e interpretar, bem como dominasse seu discurso, evitando obscuridades, ambiguidades, prolixidades, laconismos. Muitos estudantes julgam que os professores de português exageram nessas exigências. Alguns até ironizam, sugerindo que querem torná-los literatos. Sou um cara simples, não sou poeta, quero apenas saber o suficiente de português para prestar meus exames! dizem. E estão enganados. Não têm consciência, por exemplo, de que grandes poetas ou prosadores eram advogados, médicos, engenheiros, que, além de conhecerem muito bem os conteúdos de sua formação, dominavam o discurso em língua portuguesa. Guimarães Rosa era médico. Monteiro Lobato era formado em Direito e foi promotor público, Carlos Drummond de Andrade era formado em Farmácia, Joaquim Cardozo era engenheiro (fez os cálculos de projetos de Niemeyer na Pampulha e em Brasília), só para citar alguns grandes escritores nacionais.

É preciso, portanto, repensar a importância que você atribui à Língua Portuguesa em sua formação nos ensinos fundamental e médio, bem como na participação em exames vestibulares. A Língua Portuguesa é seu instrumento fundamental, qualquer que seja a profissão escolhida. Estudá-la a fundo não é obrigação, é necessidade.

Além de tudo o que o Blogueiro disse, é preciso lembrar que nos vestibulares além de toda essa importância para as outras disciplinas, você tem de fazer uma prova de redação que vale muito em pontos para a média. Pense em tudo isso e agradeça a seus professores pelo grande favor que fizeram a você, insistindo no aperfeiçoamento de sua capacidade de ler, compreender, interpretar e escrever.

 

Respostas inseguras: um ponto negativo

sexta-feira, 17 de agosto de 2018

Talvez você nunca tenha pensado muito a respeito, mas, independentemente de estar certo ou errado, o modo como responde uma questão de prova pode interferir no julgamento de sua resposta. O ideal é escrever com convicção, mostrando segurança. Mesmo que não tenha plena certeza de ter entendido inteiramente a questão, é preciso escrever com clareza, para valorizar sua resposta. Isso, porém, nem sempre acontece e, preocupado com o que não sabe, acaba não conseguindo demonstrar o que sabe.

Este é exatamente o caso das respostas que o Blogueiro denomina inseguras, por revelarem mais as dúvidas do que as certezas do candidato. A insegurança pode revelar-se em pedidos de desculpas ou, menos mal, no uso de palavras ou expressões que materializam a hesitação. Típica manifestação de insegurança é o emprego de formas verbais no futuro do pretérito (seria, haveria, poderia, etc.), de advérbios de dúvida (talvez, provavelmente, possivelmente, etc.) ou de expressões como acho que, penso que, creio que.

Um exemplo de resposta em vestibular antigo da Unesp pode servir para que você entenda melhor esse perigo. A questão focalizava um texto de Darcy Ribeiro sobre a colonização portuguesa, particularmente a respeito da aproximação e convivência entre portugueses e indígenas. Darcy empregou o termo “guerra biológica” como imagem do fato de os portugueses haverem trazido consigo vírus e bactérias que causaram extermínio de parte da população indígena. Observe uma resposta insegura a tal questão:

 

Seria o confronto entre os índios saudáveis e os brancos impregnados de doenças. Vivendo no meio da natureza por vários anos, os índios não estavam imunes às doenças do velho mundo que seriam trazidas pelos europeus. Dessa forma os índios morreriam facilmente com qualquer doença, até mesmo as mais fracas gripes. Esse fator seria decisivo para a dizimação dos nativos.

Dá para perceber que o candidato compreendeu o significado de “guerra biológica”, mas o uso excessivo do futuro do pretérito nos verbos (seria, seriam, morreriam, seria) atrapalha bastante sua resposta, que dessa forma parece revelar indecisão, podendo provocar um desconto de nota. Com menos insegurança, o candidato deveria ter escrito foi, era, morriam, foi.

Percebeu o risco de usar o futuro do pretérito? Então passe a tomar bastante cuidado com ele a partir de agora. E cuidado também com os advérbios de dúvida e expressões que denotam falta de certeza. Note o que fazem quando empregados:

(A) Os indígenas eram pessoas generosas.

(B) Provavelmente os indígenas eram pessoas generosas.

(C) Eu acho que os indígenas eram pessoas generosas.

Notou? Na frase (A) a afirmação é categórica, mas, se acrescentado o advérbio “provavelmente”, transforma-se, na frase (B), numa possibilidade, uma hipótese; e, na frase (C), “Eu acho que” sugere falta de confiança na própria declaração. Imagine isso ocorrendo, por insegurança, numa resposta discursiva. Esta sofrerá perda de pontos na correção.  Neste caso, vale o alerta: você sabe integral ou parcialmente a resposta correta ou não sabe; qualquer que seja o caso, é melhor jogar fora esses seria, poderia, haveria, talvez, provavelmente, eu acho que, etc., etc., e procurar ser claro, direto e positivo em todas as respostas. Isso não o fará ganhar mais pontos, mas, seguramente, também não o fará perder.

Faça experiências a respeito, utilizando respostas que já deu em provas e simulados. Você só terá a ganhar.

 

Pronúncia ruim, escrita pior

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

O Blogueiro não se cansa de alertar os candidatos para deslizes que podem prejudicar suas notas, tanto em redações quanto em respostas discursivas. Tais deslizes, muitas vezes, passam despercebidos aos estudantes, em virtude da relação estreita, mas errônea, entre sua fala e sua escrita. Preste bastante atenção nas seguintes frases:

Espero que meu novo colega não seje preconceituoso.

Quando eu ver você na escola, entregarei o caderno.

Se ele por algum defeito em meu trabalho, ficarei triste.

Se você supor que eu o enganei, poderei explicar.

Todos esperamos que nossa colega esteje bem.

Pedro disse que eu robo, mas não é verdade.

Minha irmã foi ao cabelereiro.

Há pessoas que gostam de agorar.

A chegada de minha colega foi um estoro.

Meu professor disse que o uso de aerosol é proibido.

Em frente à catedral há uma pessoa mendingando.

Pode baixar, que esse game é gratuíto.

Colocados todos juntos, os erros que aparecem nessas frases parecem óbvios. Nem tanto. São lapsos comuns em concursos e provas de vestibulares. Por quê? A razão é simples: como nossa fala diária é menos tensa, nem sempre nos damos ao cuidado de pronunciar corretamente. Vamos falando, falando, e deixamos escapar enganos como esses. Em nossa comunicação ordinária, raramente alguém nos adverte para os equívocos, porque muita gente os comete. O maior problema surge quando, numa prova escrita, cochilamos e acabamos escrevendo como às vezes pronunciamos. Aí, como diz o povo, é que o bicho pega. Erramos e somos penalizados na nota. Observe as mesmas frases com as palavras grafadas corretamente:

Espero que meu novo colega não seja preconceituoso.

Quando eu vir você na escola, entregarei o caderno.

Se ele puser algum defeito em meu trabalho, ficarei triste.

Se você supuser que eu o enganei, poderei explicar.

Todos esperamos que nossa colega esteja bem.

Pedro disse que eu roubo, mas não é verdade.

Minha irmã foi ao cabeleireiro.

Há pessoas que gostam de agourar.

A chegada de minha colega foi um estouro.

Meu professor disse que o uso de aerossol é proibido.

Em frente à catedral há uma pessoa mendigando.

Pode baixar, que esse game é gratuito.

Ficou claro? Então comece a prestar atenção nas conversas com seus colegas ou com outras pessoas. Você observará, por exemplo, que é bastante comum pronunciarem erradamente seje em vez de seja, e também ver, por, supor no futuro do modo subjuntivo, quando o correto é vir, puser, supuser (vir, vires, vir, virmos, virdes, virem; puser, puseres, puser, pusermos, puserdes, puserem; supuser, supuseres, supuser, supusermos, supuserdes, supuserem); não é raro também pronunciarem esteje, quando o certo no presente do subjuntivo de estar é  esteja (esteja, estejas, esteja, estejamos, estejais, estejam), e assim também cabelereiro, agorar, estoro, aerosol, mendingando, gratuíto, em lugar das formas corretas agourar, estouro, aerossol, mendigando, gratuito.

Muita cautela, portanto, e mais atenção em pronunciar corretamente para escrever também corretamente essas e muitas outras palavras. Pronunciar mal já é ruim, mas escrever mal é ainda pior.