Arquivo de julho de 2018

Repetições: virtudes ou defeitos?

terça-feira, 31 de julho de 2018

Você já conhece o valor das repetições na poesia, não conhece? Então veja esta bela sequência do Canto VI de Os Lusíadas, de Luís de Camões:

 

No mais interno fundo das profundas

Cavernas altas, onde o mar se esconde,

Lá donde as ondas saem  furibundas,

Quando às iras do vento o mar responde,

Netuno mora (…)

Lindo exemplo, não é? Dá vontade de ficar repetindo a leitura por muito tempo, para sentir a força expressiva destes versos. Aproveite para observar este exemplo, mais recente, de nosso poeta Manuel Bandeira:

 

A onda

 

a onda anda

aonde anda

a onda?

a onda ainda

ainda onda

ainda anda

aonde?

aonde?

a onda a onda

Também muito bonita a sugestão das ondas por meio dos ecos das repetições. Os poetas, de fato, adoram repetições, porque podem criar com elas uma espécie de orquestração como base do significado que  os versos transportam.

Pois é. E já lhe falaram sobre as repetições, sobretudo de palavras, em suas redações ou respostas a questões discursivas? Provavelmente. E lhe disseram, com certeza, que em textos dissertativos não cabem esses recursos tão caros aos poetas. É bom então tomar bastante cuidado, pois o que é virtude na poesia pode ser um grande atrapalho para a avaliação de seus textos. E você não quer que uma banca de correção se atrapalhe com seus textos, não é?

Isso não quer dizer que não possa haver nenhuma repetição em suas redações, mas, se surgirem, deverão ter um peso na sua exposição e na sua argumentação. Compreendeu? Então acostume-se, na revisão de seus rascunhos, a eliminar as repetições desagradáveis, como, por exemplo, e e mas. Redações cheias de e e mas causam atrapalhos e aborrecimentos à leitura. E você tem formação suficiente para evitá-las¸ quer trocando esses conectivos por outros, quer mudando a construção das frases. Um texto cheio de mas é realmente irritante de se ler. E sempre é possível trocar, por porém, contudo, todavia, entretanto, no entanto.

Os perigos não param por aí. Sem nos darmos conta, costumamos repetir em demasia palavras como quando, talvez, vez, sempre, mais, ainda, demais, mesmo, apenas, apesar, embora, só, somente, entre outras. Trate então, de praticar bastante, nas revisões de seus textos, a substituição dessas palavras por outras, ou também a modificação da estrutura das frases em que surgem. Observe como é fácil, por exemplo, com quando:

 

Quando ele me agredir, vou revidar na mesma altura.

Se ele me agredir, vou revidar na mesma altura.

 

Quando ele chegar, receberá o pagamento devido.

Logo que ele chegue, receberá o pagamento devido.

Quando ele correu, comprovou que era o traidor.

Ao correr, comprovou que era o traidor.

 

Notou bem? Claro que notou. Por isso mesmo, verifique suas redações já corrigidas para observar se nelas há muitas repetições. Se houver, comece sua prática de limpeza. Seus textos ficarão muito melhores. Mãos às obras!

 

Seu pensamento x Seu discurso

quinta-feira, 19 de julho de 2018

Os professores procuraram ensinar-lhe como escrever bem, ao longo de todo o ensino fundamental e médio. Você deve, portanto, ter aprendido o suficiente para escrever redações razoáveis e respostas adequadas a questões discursivas. Eventualmente, você pode ser daqueles estudantes que se orgulham de suas redações e por isso não manifestam nenhuma preocupação a esse respeito em vestibulares. Ótimo. Todavia, sempre há algo a aprender, para tornar ainda melhor seu desempenho.

Quando falamos ou escrevemos, elaboramos mentalmente nossas frases e as expressamos. Alguns pensam até que as frases pensadas são exatamente iguais às faladas ou escritas. Não é bem isso. Na transformação de pensamento em discurso, muitas vezes, deixamos de nos guiar por um fator importantíssimo: o ouvinte, no caso da fala, ou o leitor, no caso da escrita. Esse fato conduz frequentemente a problemas de interpretação de nosso discurso. Quantas vezes alguém que conversa com você lhe pede para “explicar” o que falou? Ou lhe aponta alguma dúvida sobre o que acaba de proferir? Na comunicação oral, tudo fica mais fácil, é só explicar o que não foi entendido ou corrigir o que não conseguiu expressar direito. Na comunicação escrita, por meio de redações ou de respostas a questões discursivas, isso não é possível. A banca de correção de um vestibular ou outro tipo de concurso estará só com seu texto e o interpretará objetivamente em função do que estiver escrito.

Não está percebendo muito bem aonde o Blogueiro pretende chegar? Então examine a seguinte frase, colhida em um texto de notícia na internet:

 

A vítima frequentava o hotel onde foi encontrada morta regularmente.

 

Observou bem o problema? Uma leitura atenta nos faz entender perfeitamente a frase, mas também nos leva a perceber o deslize cometido pelo escritor: um deslocamento inoportuno de palavra, que prejudica as primeiras tentativas de interpretação do que foi dito. Um leitor bem-humorado debochará, perguntando: Quantas vezes a vítima foi morta “regularmente”? A estas alturas, você já percebeu a natureza do problema: a palavra “regularmente”, no local em que está, não infringe nenhuma regra gramatical; a frase é gramaticalmente correta e pode ser compreendida com auxílio da lógica; no entanto, em tal posição, a palavra dá margem a interpretações que não correspondem ao que realmente o escritor quis dizer. Em resumo, há um local melhor, mais adequado, para colocar o advérbio regularmente e, assim, eliminar qualquer possibilidade de interpretação equivocada:

 

A vítima frequentava regularmente o hotel onde foi encontrada morta.

 

Compreendeu o que o Blogueiro tentou explicar? Nem sempre os erros detectados em frases são de natureza gramatical. No caso exemplificado, trata-se de uma questão por assim dizer estilística: a escolha da ordem das palavras e termos mais adequada à compreensão do leitor. A ordem das palavras na frase, portanto, é algo com que precisamos sempre nos preocupar.

Exatamente por isso o Blogueiro sugeriu, no título deste artigo, uma espécie de conflito entre pensamento e expressão. Quando escrevemos, vamos elaborando do pensamento ao texto nossas frases. Isso não quer dizer necessariamente que estejam prontas para funcionar de modo adequado. Há um segundo nível de trabalho, que o escritor deve fazer lendo o que acaba de escrever, para verificar incongruências como a apontada no exemplo. E as incongruências de ordem das palavras e termos são as mais perigosas, por gerarem ambiguidades e prejudicarem o entendimento.

O Blogueiro encerra este comentário servindo-se de um exemplo deste mesmo artigo. Observe:

Você deve, portanto, ter aprendido o suficiente para escrever redações razoáveis e respostas adequadas a questões discursivas.

 

Imagine, só por um instante, que estivesse escrito:

 

Você deve, portanto, ter aprendido, para escrever redações razoáveis e respostas adequadas a questões discursivas, o suficiente.

 

Evidentemente, o leitor, num primeiro momento, estranharia um pouco a disposição dos elementos. Acabaria entendendo, por uma leitura lógica, o que teria querido expressar o Blogueiro. A frase, porém, estaria um pouco truncada com a deslocação de o suficiente para o final. Justamente por isso não foi escolhida.

Tome todo o cuidado, portanto, com a ordem das palavras e termos em suas frases. Releia o que escreveu, prevendo as dúvidas que seu leitor poderá ter. Deixe as inversões violentas de palavras para os poetas, que adoram hipérbatos e sínquises, como se pode observar até na letra do Hino Nacional, de Osório Duque-Estrada: Do que a terra, mais garrida / Teus risonhos, lindos campos têm mais flores. Ou nOs Lusíadas, de Camões: A grita se alevanta ao Céu, da gente.

Captou?

 

Essa disciplina não serve pra nada! Não, mesmo??

quarta-feira, 18 de julho de 2018

É muito comum ouvir dos estudantes manifestações como a que serve de título para este artigo: Esta disciplina não serve pra nada! Alguns dizem isso da matemática, outros, da língua portuguesa, outros, da história, outros, ainda, da filosofia, e assim por diante. Sempre existe um conteúdo que este ou aquele estudante abomina como inútil, sem serventia alguma. O Blogueiro não pensa assim. Por isso mesmo, fechou o título, ironicamente, com Não, mesmo??

Não é preciso condenar o aluno que assim se manifesta, sobretudo porque está sendo sincero em sua manifestação. É necessário, no entanto, advertir para o engano, nascido provavelmente mais de um gosto ou desgosto pessoal do que de uma análise dos conteúdos ensinados nas escolas e exigidos em vestibulares e concursos. Vamos então fazer uma análise fria dos fatos, usando como exemplos as quatro disciplinas mencionadas. Comecemos pela matemática. Matemática não serve mesmo para nada? Brincadeira. Claro que serve, e como serve! Imagine você o que deixaria de fazer sem a matemática, a começar pelas quatro operações básicas. A matemática está presente em todas as nossas atividades. Vai comprar um terreno e não sabe calcular a área. Vai fazer uma compra em prestações e nem faz ideia de como é o cálculo dos juros. Tem um carro e não sabe estabelecer o gasto de combustível. Compra e vende objetos e não consegue aferir o lucro. Isso só para falar em fatos triviais em que a matemática lhe servirá, quanto mais em outras tantas atividades bem mais complexas. Conclusão: não importa a profissão que venha a exercer no futuro; você não viverá bem sem um razoável conhecimento de matemática.

E a língua portuguesa. Ora, ora! Você já parou para pensar que a língua é o instrumento fundamental de sua comunicação com seus semelhantes, sejam seus familiares, sejam seus amigos, sejam seus colegas de trabalho. Sem um domínio regular da língua portuguesa você nem leria adequadamente, nem estudaria, pois todas as disciplinas dela se servem em seus livros, manuais, apostilas. E esse domínio implica seguir a norma padrão, que regula o modelo mais amplamente usado na escola, na mídia, nos livros. Dominar a língua portuguesa em sua norma padrão implica também colocá-lo num patamar significativo socialmente, razão por que os professores enfatizam que falar e escrever bem é um meio de ascensão social e profissional. Por isso mesmo, não menospreze o poder da língua portuguesa.

E a história? O Blogueiro já ouviu de muitos jovens que história não serve para nada, que não dá dinheiro a ninguém. Balela. Imagine-se completamente alheio à história universal e à história do Brasil. Você estaria alheio também à própria humanidade. Os conhecimentos de história fornecem ao indivíduo um gigantesco lastro de cultura. Esta disciplina faz com que nos identifiquemos com toda a humanidade em todas as épocas. Torna-nos, ao mesmo tempo, sábios e humildes na avaliação do papel que exercemos na sociedade e, assim também, nos ajuda a estabelecer objetivos na vida, em virtude da identificação com os vultos e os eventos históricos. Em um dos artigos anteriores deste Blogue, você percebeu quanto conteúdo, quanta experiência, quanto valor humano carrega uma expressão como Alea jacta est. É preciso dizer mais?

Sim, dirá alguém, mas a filosofia mesmo não tem serventia alguma. Nem sei por que devemos estudá-la. Novo equívoco. É por meio da filosofia que o ser humano busca compreender a si mesmo e a realidade que o cerca. A filosofia busca entender, por meio da reflexão e do raciocínio, expostos de forma argumentativa, as razões e os fundamentos da existência do homem e do mundo, do homem no mundo. Imagine você completamente neutro a essas dúvidas, a essas indagações, a essa busca de razões e explicações sobre a existência e a existência humana. Você seria praticamente um autômato, até capaz de realizar múltiplas tarefas, mas completamente alheio a si mesmo e ao universo. De certo modo, os filósofos nos ensinam a pensar, a duvidar, a questionar, a indagar sobre as razões de tudo o que nos cerca. É impensável, neste sentido, um estudante de curso superior ou mesmo um profissional já formado que não tenham lido pelo menos algumas páginas de Platão, de Aristóteles e de tantos filósofos do passado e contemporâneos. E ainda há quem diga que a filosofia não serve para nada!

O Blogueiro já se dá por satisfeito com as palavras acima, que são uma espécie de provocação para que você examine com cuidado todas as demais disciplinas que estuda, para verificar a grande e variada utilidade que exercem em sua formação e continuarão exercendo ao longo de sua vida pessoal e profissional. Pense bem.

 

 

Curso universitário é muito necessário?

quarta-feira, 4 de julho de 2018

Você por certo já se fez a pergunta que serve de título a este artigo. O Blogueiro, só para ilustrar, dividiu tal título em dois versos rimados de seis sílabas, chamados hexassílabos ou também heroicos quebrados, pelo fato de os poetas por vezes os usarem combinados com os decassílabos heroicos, variantes mais empregadas dos versos de dez sílabas. Pois é. Você algumas vezes deve ter pensado ou até perguntado a um colega ou professor: Afinal, é tão necessário assim fazer curso universitário? E se eu não fizer? Muita gente não faz e tem sucesso na vida do mesmo jeito.

A dúvida é perfeitamente cabível, em primeiro lugar pelo simples fato de as universidades públicas e privadas em nosso país ainda não terem vagas suficientes para acolher todos os estudantes. Em segundo, porque muitos estudantes decidem não fazer curso universitário e partem para o trabalho direto, por escolha ou por necessidade. E daí? Quer dizer que estão fracassando na vida, por não poder ou não querer ser aprovados em vestibulares e seguir um curso superior? Nada disso. O problema tem de ser analisado sob outra ótica. Evidentemente, as universidades formam profissionais de alto nível para competir no mercado de trabalho de alto nível. Não há dúvida.  As pessoas mais velhas costumam dizer aos jovens que é importantíssimo fazer curso universitário. E é. Aqueles que não fazem, seja por que motivo seja, têm de conduzir suas vidas a um mercado de trabalho diverso.

É preciso dizer, contudo, que é muito importante chegarem os estudantes pelo menos ao final do ensino médio, para que tenham uma formação razoável, que facilitará suas atividades no trabalho, qualquer que seja este. Convém, neste sentido, enfatizar que não há nenhum demérito em arranjar emprego que não requer ensino superior. Nem demérito, nem tampouco derrota. Pode ocorrer, – e muitas vezes ocorre, – que o indivíduo se dê muito bem em determinada atividade e alcance um grande sucesso, até mesmo enriquecendo. O Blogueiro pode dar um exemplo real a respeito: certo garoto, que ele conheceu, não era lá de estudar muito, quebrava o galho na escola, como se diz popularmente. Os pais, de classe média, faziam de tudo para que estudasse mais e ingressasse num curso universitário. O garoto, porém, não dava grandes sinais de convencimento. Até chegou a fazer vestibular, conseguiu vaga em um curso de administração de uma universidade pública, mas acabou desistindo no meio do primeiro ano, por achar que era muito difícil. Os amigos e parentes criticaram. Os pais ficaram muito preocupados, ainda mais porque o garoto ficou no ostracismo, no fazer nada. Depois de um ano, de repente, disse aos pais que queria ir a um país estrangeiro para trabalhar como pedreiro, porque o salário era razoável e tinha amigos que já faziam aquilo. Meio sem jeito, os pais financiaram a passagem e lá se foi o garotão. Todos os familiares diziam que iria fracassar. Trabalhou duro por quase um ano como pedreiro, depois arranjou um emprego como garçom de uma rede de restaurantes. Deu-se tão bem nesse trabalho, que acabou sendo promovido a cargos mais altos, inclusive para ministrar cursos a novatos. E do jeito que vai, parece que encontrou o que procurava e vai ter bom sucesso em suas atividades.

O Blogueiro está, com esse exemplo, querendo fazer propaganda contra o curso superior? Nada disso. Muito pelo contrário. Voltando ao título: Curso universitário é muito necessário? É, sim, é o mais indicado para os jovens. O País precisa muito de profissionais formados por universidades, para o seu desenvolvimento cada vez maior. Mas é necessário ter bom senso para compreender adequadamente que nem todas as atividades num país são de profissionais formados por universidades. E muito mais bom senso ainda para entender que o importante é o trabalho em si mesmo, seja de que nível for. Uma nação em progresso permanente é uma nação de trabalhadores, de pessoas que lutam pelos seus ideais, pelas suas famílias e, fazendo isso, lutam também pela própria coletividade. Pense nisso.