Arquivo de junho de 2018

Você sabe mesmo ler?

sexta-feira, 22 de junho de 2018

Você pode até pensar que esta é uma pergunta um tanto irônica que lhe faz o Blogueiro. Não é. É séria. Considere-a um alerta para pequenos problemas que você pode ter ao fazer suas provas. É claro que você aprendeu a ler e escrever há muito tempo, como todos os que prestam exames vestibulares. Mas também é claro que pode ter adquirido certos vícios de leitura que costumam ser muito prejudiciais. Um deles é a projeção, vale dizer, a impressão de que uma palavra ou expressão está escrita no texto, quando se trata apenas de um engano de leitura. Muitas vezes, ao lermos, contentamo-nos com a primeira ou as primeiras sílabas de uma palavra deixando que nossa imaginação complete o resto. Erradamente. Somos até capazes de jurar que a palavra estava escrita, quando, de fato, não estava. Por exemplo, no texto aparece a palavra eloquência e nós lemos enlouquecia. Terrível engano, não é? Pode inutilizar uma resposta inteira, em prova discursiva, ou levar a entender erradamente o enunciado de uma prova objetiva. O Blogueiro lembra de uma prova de redação anulada, porque o candidato cometeu esse tipo de erro, que alterou completamente o tema proposto. Outro exemplo: no texto está escrito dispersadas e nós lemos dispensadas. E assim outros tantos enganos que podem nos levar a erros graves de interpretação de questões.

Além de lapsos de leitura como os acima comentados, podemos cometer outros, principalmente quando as questões são baseadas em textos. Nestes casos, é imprescindível a leitura atenta dos textos e a comparação dos enunciados das questões com as passagens correspondentes desses textos. Essa comparação atenta é fundamental para atingir a resposta adequada. Qualquer distração, tanto na leitura dos textos, quanto na dos enunciados pode nos conduzir a uma interpretação completamente equivocada. Os enunciados, de fato, contêm pistas sobre a resposta adequada, e é em busca dessas pistas que podemos fazer o caminho correto. Não esqueça, portanto, de que há uma estreita associação entre textos e enunciados.

Nas provas objetivas, as bancas costumam explorar essa associação, criando alternativas muito parecidas, das quais apenas uma é a correta. Por isso, é preciso comparar com todo o cuidado essas alternativas com o que dizem os textos. Por vezes uma só palavra não correspondente basta para nos conduzir a escolher a alternativa incorreta.

Compreendeu? Não devemos ter pressa na leitura dos textos e dos enunciados. Com atenção e cuidado, acabamos descobrindo o real objetivo da pergunta. Você pode até desenvolver uma técnica pessoal para fazer essa leitura. Pense nisso.

 

Alea jacta est? Nem tanto!

quinta-feira, 21 de junho de 2018

Se você gosta de empregar expressões e frases latinas, por certo conhece a que serve de título a este artigo: Alea jacta est. E é claro que sabe também a tradução: os dados estão lançados, ou, traduzindo a metáfora, a sorte está lançada. Consta que esta frase foi empregada por Júlio César, ao atravessar o rio Rubicão, que marcava a fronteira entre a Gália Cisalpina, em que estavam as legiões de César, e o território da Itália, sede do poder do império. Atravessar este rio com soldados em direção a Roma, segundo as leis da época, equivalia a desafiar o poder constituído. E Júlio César estava justamente com essa intenção. Com a frase mencionada, portanto, e o ato da travessia, César colocava, de modo prático e também simbólico, seu desafio. O grande general romano, de acordo com a História, acabou conquistando o poder, escudado em suas legiões. Alea jacta est, portanto, tinha este significado para César: meu destino é desafiar o império e conquistá-lo.

Os candidatos que, como você, conhecem esta frase e o que ela simboliza costumam empregá-la tão logo terminam de prestar seus exames: “Bom, fiz o que podia, alea jacta est”. Na verdade, porém, este emprego não é lá muito adequado, já porque o vestibular não é, propriamente, um desafio, já porque o candidato não vê a universidade como um inimigo a conquistar, já porque um vestibular não é uma guerra, mas uma tentativa de comprovação de competência para obter uma vaga no curso escolhido.

A universidade, neste sentido, não é um alvo a ser abatido e conquistado, mas, simplesmente, mais um degrau a ser galgado na vida do estudante. Não é o poder a derrotar, mas um lugar de acolhida, de recepção e preparação para atuar num campo profissional, talvez até pelo resto de sua vida. Não se trata, por isso, nem de sorte, nem de acaso, mas de comprovação de competência para ser recebido (observe o parentesco entre prova e comprovar).

Por que o Blogueiro está fazendo este comentário todo? Em primeiro lugar, para deixar você mais tranquilo com relação a seus exames: não há nada de sobrenatural neles, são meros exames. Em segundo lugar, para alertá-lo sobre o emprego de locuções, expressões e frases latinas. Fica bonitinho, de fato, usá-las em nossos textos, parece que demonstram intelectualidade, grande conhecimento. Parece, mas não necessariamente. O latim, língua da qual descende o português, não mais faz parte do currículo dos ensinos fundamental e médio, o que é uma lástima. Alguns professores, para enfatizar o parentesco, afirmam que o português é o latim do século XXI (assim como o francês, o espanhol, o italiano, o romeno, todas estas línguas resultantes da modificação do latim nas respectivas regiões). Ora, não sendo mais lecionado no ensino básico, nossos estudantes só têm acesso a ele por meio de dicionários especializados ou pela verificação do uso em textos de jornais, revistas e outros. Apenas quem estuda Letras ou Direito recebe hoje algum ensino de latim.

Deste modo, se você gosta de entender e empregar expressões latinas, deve tomar muito cuidado para fazê-lo adequadamente, sem possibilidade de uso equivocado, que só poderá atrapalhar ou até atravancar seu texto. É bom, por isso, estudar com atenção a escrita correta, o significado e a procedência do emprego dessas expressões. Deste modo, poderá enriquecer seu texto com, por exemplo, mutatis mutandis (= mudando o que deve ser mudado), Amicus Plato, sed magis amica  veritas (=Platão é amigo, porém mais amiga é a verdade; Sou amigo de Platão, mas sou mais amigo da verdade), a priori (= antecipadamente, antes de argumentar, sem anterior conhecimento), ad libitum (= à escolha, à vontade), ad litteram (= à letra, ao pé da letra, literalmente, conforme o texto), habeas corpus (= que tenhas o corpo), in totum (= por inteiro, inteiramente, no todo, abrangendo tudo), etc., etc.

Percebeu? É interessante, para seu texto, empregar locuções, expressões, frases latinas, como também provérbios? Pode até ser. Mas é preciso fazê-lo com o máximo possível de conhecimento sobre os significados e sobre a pertinência desse emprego no contexto de sua redação. E bem assim o mesmo com relação a outros idiomas.

No momento de lançar os dados, portanto, mesmo sem ser um César, verifique se os utiliza do modo mais adequado possível para obter os pontos necessários. Caso contrário, é melhor não arriscar, fique apenas com o português.

 

Vestibulares, “desconfiômetro” e “adivinhômetro”

quinta-feira, 7 de junho de 2018

O Blogueiro está iniciando este artigo com a criação de um neologismo, isto é, de uma palavra não existente no vocabulário da língua portuguesa. E faz isso baseado em outras criações que não são dele, como, por exemplo, desconfiômetro, que já é relativamente frequente, pelo menos no português oral brasileiro, a ponto de estar contemplado no Dicionário Aurélio. Quando dizemos Fulano não tem desconfiômetro, queremos significar que Fulano não é capaz de avaliar devidamente algo de errado, inoportuno, inconveniente ou até desastrado que fez ou que disse. É como se algumas pessoas não tivessem um dispositivo mental para evitar enganos ou tropeços. O povo, com sua eterna capacidade de debochar, acaba dizendo que, nesses casos, Fulano não tomou semancol, vale dizer, não foi capaz de perceber sua inconveniência. Semancol, metaforicamente, seria um remédio para evitar o problema. No Aurélio, “mancar-se” tem entre suas acepções justamente a de perceber que foi inoportuno, inconveniente.

Pois é. Então o que o Blogueiro quer dizer com adivinhômetro? Não é difícil de entender. É como se houvesse um aparelhinho capaz de fazer adivinhações. Por que o Blogueiro se deu ao trabalho de criar esse neologismo referido a vestibulares? Só por brincadeira? Nada disso. Para chamar atenção sobre tentativas de adivinhar questões que poderão cair neste ou naquele vestibular. Alguns sites costumam tentar prever questões que podem surgir nos vestibulares de uma universidade, simplesmente abordando os últimos exames. Baseados na frequência de questões sobre determinados assuntos, tentam apresentar aos estudantes dicas a respeito. Isso é feito até para vestibulares da Unesp.

São úteis tais previsões? Podem ser, não resta dúvida. Todavia, não podem ser considerados uma panaceia, vale dizer, um aconselhamento que renda 100% de acertos. Panaceia tem entre seus sentidos o de remédio para todos os males. Isso não existe, nem mesmo para vestibulares. Não deixa de ser útil saber quais temas foram abordados nas propostas de redações nos últimos exames desta ou daquela universidade, ou quais conteúdos mais fornecem questões em cada disciplina. Útil, neste caso, não significa certeza absoluta. Pode significar até o oposto. As bancas elaboradoras de vestibulares das universidades públicas são formadas por profissionais com toda a competência para variar os conteúdos de vestibular a vestibular. Se você acreditar demais nas previsões, poderá, como costuma dizer o povo, até cair do cavalo, pois, muitas vezes, o que é esperado não se confirma e o que não é esperado aparece. As bancas sabem exatamente o que perguntar para avaliar a capacidade e o preparo dos candidatos.

O método fundamental só pode ser, portanto, procurar abranger todos os conteúdos em sua preparação para as provas. Informações complementares, ao longo dessa preparação, serão bem-vindas, mas não a ponto de se tornarem o principal objetivo dos estudos. Estudar só o que é possível cair nas provas é acreditar em milagres. O melhor e mais seguro para você é acreditar na extensão de seus estudos e na sua competência para encarar questões inesperadas. No caso da redação, por exemplo, de nada vale conhecer antecipadamente o tema, se o candidato não escreve adequadamente. É melhor aperfeiçoar sua capacidade de redigir do que ficar tentando adivinhar o tema.

Valeu? Então tenha desconfiômetro suficiente para não acreditar demais em adivinhômetros. Até hoje, ao que o Blogueiro saiba, não nasceu nenhum vidente capaz de antecipar todas as questões dos vestibulares, bem como o tema da redação. Tome Semancol.

 

Sinônimos, devo usá-los?

terça-feira, 5 de junho de 2018

Desde os primeiros anos do ensino básico nossos professores nos ensinaram a empregar sinônimos. Fizemos exercícios e exercícios com eles, sem saber exatamente para quê.  Linguistas, hoje, porém, costumam nos dizer que sinônimos não existem, que aqueles vocábulos que consideramos como tais na verdade não têm exatamente o mesmo sentido. Deste modo, a existência de sinônimos seria uma espécie de ilusão: julgamos que certos vocábulos têm o mesmo significado, mas, de fato, não têm.

É claro que os linguistas estão certos. É muito fácil, até, demonstrar que os vocábulos considerados sinônimos na realidade são apenas parecidos em maior ou menor grau pelos significados. E daí? Quer dizer então que nossos professores e os estudiosos antigos estavam errados? Ensinaram errado? A verdade não é bem essa. O fato de vocábulos considerados sinônimos não terem o mesmo sentido apenas significa que palavras diferentes não têm sentido igual. Não igual, porém, neste caso, não quer dizer absolutamente diferente. Bonito, lindo, belo, realmente não apresentam o mesmo significado, mas estão semanticamente muito próximos, a ponto de, em determinados casos, poderem ser trocados, sem que haja diferença muito relevante para o conteúdo da frase em que se inserem. Podemos dizer, por exemplo, frases como Bonita moça! ou Linda moça! ou Bela moça, com os vocábulos bonita, linda, bela muito próximos pelo sentido. Já não seria a mesma coisa em frases como Maravilhosa moça! em que a ideia ainda é de “beleza”, embora o significado represente um grau maior dessa beleza do que em bela, linda ou bonita. São diferenças como essa que se devem perceber em séries de vocábulos como bonita, linda, bela, formosa, pulcra, maravilhosa, encantadora.

Se você entendeu bem os comentários acima, deve ter percebido que os manuais escolares de língua portuguesa, quando solicitam mudar uma palavra por seu sinônimo, estão somente solicitando a troca de uma palavra por outra que tenha o significado mais próximo possível. Um exercício, por exemplo, para substituir casa por um sinônimo vai revelar toda uma série de vocábulos: casa, residência, morada, domicílio, lar, moradia, habitação. Apesar das diferenças relevantes de significados desses vocábulos, sempre é possível encontrar contextos onde possam substituir-se sem grande prejuízo para o significado global da frase. Ao contrário, muitas vezes, a troca de uma palavra por outra pode fazer bem à frase.

Agora você mesmo pode responder à questão formulada como título, dizendo que é lícito, sim, empregar sinônimos, desde que ciente dos fatos acima comentados. E que o emprego de sinônimos contribui bastante para o enriquecimento de seu vocabulário, além fazer com que você desenvolva um discurso cada vez mais variado e expressivo. Numa revisão do rascunho de sua redação experimente trocar algumas palavras por seus sinônimos. Pode ser extremamente vantajoso para o texto. Faça disso um modo de tornar mais eficiente sua expressão e argumentação.

Que concluir de todos estes comentários? Simples. Sinônimos existem, sim, não pela igualdade de sentido, mas pela semelhança e possibilidade de trocas  com maior ou menor dose de efeitos. Use e abuse.