Arquivo de 3 de maio de 2018

Você sabe o que é uma universidade?

quinta-feira, 3 de maio de 2018

Você sabe muitas coisas, não é verdade? Exato, pois estuda pra valer para obter sua vaga no curso superior de sua preferência; se possível, na universidade de sua preferência. É aqui que entra a pergunta do título deste artigo: Você sabe o que é uma universidade? É possível que sim, mas também é possível que não. Se pensa na universidade apenas como escola de ensino superior que oferece o curso por você pretendido, está pensando muito pouco. Uma universidade é muito mais que isso. E será, de fato, muito mais que isso para você, caso consiga ingressar.

De certo modo, a história das universidades no mundo tem semelhanças com a sua. Você, nasceu, cresceu, lá pelos três anos foi colocado num curso pré-escolar, o chamado jardim da infância, e finalmente, três anos após, estava no primeiro ano do Ensino Fundamental, que cursou ao longo de 9 anos. Nessa fase, já sabia muita coisa, podia até assumir, se a lei permitisse, algum tipo de trabalho. Resultado: seu aprendizado, aos 15 anos, era considerado, na lei e na prática, ainda insuficiente, e por isso deveria cursar o Ensino Médio, quando então, obtido o diploma, caso não estudasse mais, poderia pleitear trabalho e começar uma carreira qualquer. Era, porém, ainda pouco. Faltava muito para aprender sobre o mundo, a vida, as ciências, as profissões superiores. Uma vez formado num curso de graduação, poderia partir para o trabalho na carreira que escolheu e seguir uma vida normal. Mas você, independentemente de estar ou não trabalhando, poderia julgar insuficiente o que havia aprendido e buscar conhecimento e aperfeiçoamento maior em cursos de mestrado e de doutorado, pois assim sua competência aumentaria muito mais. O mestrado e o doutorado poderiam ainda fazê-lo seguir carreira universitária,  como professor e pesquisador.

Pois essa sua história (pressupondo que venha a ocorrer de fato) é bastante parecida com a da própria universidade no mundo. Na infância da humanidade, os conhecimentos eram traduzidos e transmitidos oralmente de pessoa a pessoa ou por mitos. Crescendo a civilização, quando em diversos lugares do mundo já se dominava a escrita e se começava a cultivar a aritmética, a astronomia, a filosofia, a botânica e algumas outras formas ainda um tanto rudimentares  de ciência, os homens mais experientes percebiam que aquilo ainda era pouco, que precisavam aumentar seus saberes e, mais, disseminá-los entre os jovens. As primeiras escolas tiveram essa motivação e, ao longo dos séculos, em diferentes lugares, foram evoluindo e se organizando em diferentes níveis.

Assim nasceram as universidades atuais, que não são apenas ministradoras de cursos, mas instituições onde se conservam, cultivam e aumentam os mais altos conhecimentos que a humanidade veio acumulando ao longo dos milênios. Um professor universitário não é apenas um ministrador de aulas, mas um pesquisador que atua no desenvolvimento de uma área e divide, com seus alunos, os resultados que vem alcançando. Por isso, o ensino da ciência, nesse nível, é sempre novo, renovado, e seus beneficiários, os estudantes, não devem limitar-se, em suas profissões, a utilizar apenas o que aprenderam, mas buscar o aperfeiçoamento do que aprenderam nos bancos acadêmicos.

É por isso que você ouvirá, logo que ingresse em seu curso, que a universidade se fundamenta em três pilares: a pesquisa, o ensino e a extensão de serviços, por meio da qual se busca uma relação direta com a comunidade, repassando conhecimentos, técnicas e uso de tecnologias para o desenvolvimento de setores dessa comunidade.

Ficou claro, então? Se você for formado como engenheiro, professor, advogado por uma universidade, não fez apenas um curso de engenharia, licenciatura ou direito, mas passou a pertencer ao quadro dos cidadãos de mais alto nível de saber do país e do mundo. Além de motivo de orgulho, isso deve significar responsabilidade e dever. A manutenção, produção e disseminação de conhecimentos para benefício da humanidade constitui o próprio espírito que animou a criação da universidade e a faz continuar laborando por um mundo cada vez melhor.       

 

 

Poesia e verso em vestibulares

quinta-feira, 3 de maio de 2018

Por vezes, nas provas de literatura e língua portuguesa nos exames vestibulares, podem surgir questões que envolvem a interpretação de poemas, tanto em versos livres, como em versos tradicionais. Quase sempre essas questões se voltam para a elucidação do conteúdo, mas, vez por outra, surgem questões sobre ritmo.

As escolas, desde o ensino fundamental, focalizam o mesmo tema e tentam, aos poucos, fazer com que os alunos compreendam a natureza do ritmo e sejam até mesmo capazes de criar versos e poemas. O Blogueiro não está dizendo nada de novo, apenas quer esclarecer alguns aspectos que podem ajudar os candidatos a resolver tais questões.

Ora, quando falamos em ritmo no discurso, estamos simplesmente reconhecendo que o ritmo faz parte inerente da própria linguagem. Por isso, a versificação não surgiu do nada, foi apenas um aproveitamento dessas possibilidades de ritmo que se abrem quando falamos ou escrevemos. Vamos a um exemplo, inventando um nome próprio:

 

Antônio Sousa do Prado

 

Trata-se de um nome simples, que pode até corresponder, na realidade, a grande número de pessoas no Brasil e em Portugal. Quando pronunciamos esse nome inteiro, sentimos certa harmonia na sucessão das sílabas fracas e fortes que o constituem. Marcamos as fortes com negrito e grifo:

 

An/to/nio/Sou/sa/do/Pra/do

 

Compare esse nome com os versos de “A Banda”, Chico Buarque:

 

Estava à toa na vida

o meu amor me chamou

pra ver a banda passar

cantando coisas de amor.

Antonio Sousa do Prado.

 

O ritmo é o mesmo! diria você. Correto. Exatamente o mesmo. Todas essas sequências possuem como fortes a 2, a 4 e a 7 sílabas, cuja repetição produz a percepção do ritmo. Trata-se de um verso heptassílabo, também denominado redondilho maior, para diferenciá-lo do do redondilho menor, de cinco sílabas métricas. O verso heptassílabo é o verso por excelência, tanto da literatura, quanto da música popular e do folclore. Até mesmo a música sertaneja atual o utiliza.

Outro verso que geralmente serve de objeto para perguntas é o decassílabo. Podemos criar outro nome próprio como exemplo de verso de dez sílabas, marcando com negrito e grifo as sílabas fortes, que são a terceira, a sexta e a décima sílabas:

 

Godofredo Sampaio de Oliveira

 

Trata-se do chamado verso decassílabo heroico, cujo acento predominante é o da sexta sílaba. A outra variedade é a do chamado decassílabo sáfico, com acentos predominantes na quarta e oitava sílabas, como neste nome próprio criado agora:

 

Jo Alfredo Aparecido Filho

 

Compare estes dois nomes próprios com os versos de Raimundo Correia:

 

Invergável ao pulso dos tiranos (3-6-10)

Godofredo Sampaio de Oliveira                   (3-6-10)

 

E voa, e rasga o luminoso ingresso (2-4-8-10)

José Alfredo Aparecido Filho                       (2-4-8-10)

 

Percebeu? O ritmo é parte inerente do discurso. E você encontra nele sequências com a mesma estrutura acentual de versos.

Um verso que também pode ser objeto de questões é o alexandrino clássico, com acento dominante em duas sílabas, que formam dois meios-versos denominados hemistíquios. E agora nem precisamos forjar exemplo, porque o próprio nome de um grande poeta constitui um alexandrino clássico:

 

Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac

 

Olavo Bilac, de resto, foi um dos mestres no emprego desse verso. Examine o exemplo do poema  Alvorada do Amor, observando que a sexta sílaba é sempre marcada por acento forte:

 

Ah! Bendito o momento em que me revelaste

O amor com o teu pecado, e a vida com o teu crime!

Porque, livre de Deus, redimido e sublime,

Homem, fico na terra, à luz dos olhos teus,

— Terra, melhor que o Céu! homem, maior que Deus!

 

Lindo, não é? Lindíssimo. No poema mencionado, o poeta reconta a lenda da expulsão de Adão do Paraíso, atribuindo-lhe um novo e original contorno.

É isso aí. Pela beleza de suas imagens, conceitos e ritmos, a poesia sempre dignifica o homem.