Arquivo de maio de 2018

Você não pode escrever isso!

terça-feira, 22 de maio de 2018

Ultrapassada a primeira fase, com méritos, diga-se de passagem, agora você tem de enfrentar a segunda, que lhe dará a classificação para a vaga pretendida.

Se as primeiras provas se resumiram a ler perguntas e marcar respostas, as que vêm agora vão solicitar bem mais: ler e responder com seu próprio discurso. Uma pessoa do povo diria, neste caso, agora é que a porca torce o rabo. É uma metáfora que espelha a pura verdade. Ao usar seu discurso nas respostas e na redação, as possibilidades de erro aumentam bastante, não apenas em encontrar as soluções adequadas, mas também, particularmente, no que se refere a seu domínio do idioma, que estará em julgamento. O problema se agrava pelo fato de, embora aparentemente independentes, esses dois aspectos poderem interferir em seu discurso, propiciando erros inesperados.

Em alguns eventos a que o Blogueiro assistiu neste ano, deparou-se com escorregões de discurso lamentáveis. Apesar de flagrados no discurso oral de debatedores e entrevistados, tais deslizes podem passar para o texto escrito, e justamente nele causam perturbações que as bancas de correção detectam e punem com descontos de nota. Você deve, por isso, precaver-se. Vamos examinar alguns desses infelizes deslizes (a rima vem bem a propósito para alertá-lo).

O verbo ser tem no modo subjuntivo a forma seja (seja, sejas, seja, sejamos, sejais, sejam). Muita gente boa, porém, no discurso oral, carrega o vício de dizer seje, como por exemplo em: Espero que ele seje mais disciplinado. Esse erro está grassando como epidemia, hoje, em entrevistas e debates. Passa quase despercebido. Mas não passará despercebido numa entrevista para obtenção de emprego, e muito menos em respostas discursivas e redações de concursos em geral e de vestibulares. Tome cuidado e escreva sempre: Espero que ele seja mais disciplinado.

Problema semelhante ocorre com o subjuntivo de querer: queira, queiras, queira, queiramos, queirais, queiram. Não é raro ouvirmos pessoas na mídia dizerem: Não acho que ele quera fazer isso. Horrível na oralidade, esse cochilo torna-se ainda pior no discurso escrito. Cuidado, pois. E assim também com o verbo deixar, que não se deve pronunciar dexar. O presente do indicativo desse verbo é deixo, deixa, deixas, deixamos, deixais, deixam. E o subjuntivo: deixe, deixes, deixe, deixemos, deixeis, deixem. Portanto, nada de dizer eu dexo, que eu dexe. E muito menos escrever.

Mais comum que o anterior é a forma errada aleja usada em lugar da correta aleija. E mais comum ainda a forma verbal robo em vez de roubo. Note que o verbo é roubar, que no presente do modo indicativo é roubo, roubas, rouba, roubamos, roubais, roubam. No modo subjuntivo é roube, roubes, roube, roubemos, roubeis, roubem. Os professores, desde o ensino fundamental, lutam com toda a sua força argumentativa para evitar que os alunos digam Eu robo. Espero que ele não me robe. Apesar disso, alguns estudantes teimam em pronunciar erradamente e correm o sério risco de transportar tal erro para o discurso escrito.

Assim também é muito comum na oralidade pronunciar, equivocadamente, popar, popo, popança, em vez das formas corretas poupar, poupo, poupança. Não esqueça que o presente do modo indicativo de poupar é poupo, poupas, poupa, poupamos, poupais, poupam. E no subjuntivo: poupe, poupes, poupe, poupemos, poupeis, poupem.

Os exemplos desses escorregões verbais são numerosos e encheriam algumas páginas. Por isso, o Blogueiro vai acrescentar apenas outros três. Primeiro: cuidado com o verbo agourar. Não é agorar. No presente do modo indicativo devemos dizer agouro, agouras, agoura, agouramos, agourais, agouram. E no subjuntivo: agoure, agoures, agoure, agouremos, agoureis, agourem. Segundo: o verbo medir se conjuga, no presente do modo indicativo: meço, medes, mede, medimos, medis, medem. E no presente do subjuntivo: meça, meças, meça, meçamos, meçais, meçam. Não vá falar, como muita gente, nem tampouco escrever: eu mido. Horrível, não é?

E como somos o país do futebol, não podia faltar um último exemplo de uso na linguagem desse esporte. É comum ouvirmos eu treno, que ele trene, quando deveria o falante dizer: eu treino, que ele treine, pois o presente do indicativo de treinar é treino, treinas, treina, treinamos, treinais, treinam. E o presente do subjuntivo: treine, treines, treine, treinemos, treineis, treinem.

É isso aí. Não queira menosprezar essas possibilidades de erro, dizendo que sabe de tudo. O Blogueiro não agoura, apenas alerta para que você meça bem as consequências desses erros crassos. Não poupe esforços para evitá-los, consultando sempre gramáticas e dicionários, nem deixe que distrações desse tipo roubem sua nota. Treine bastante para não cometer lapsos de conjugação como os apontados neste artigo. Não vai querer perder pontinhos preciosos em sua média final, não é? E seja feliz em suas provas.

 

 

A hora das objetivas

quarta-feira, 9 de maio de 2018

Com a chegada da primeira fase do Vestibular Meio de Ano da Unesp, todas as atenções dos candidatos estão voltadas para o melhor modo de enfrentar as diversas questões, ditas objetivas pelo fato de o estudante ter de marcar respostas previamente apresentadas pela banca elaboradora, sem haver necessidade, portanto, de intervenção estritamente pessoal do candidato, como ocorre com as questões ditas discursivas. Já se parte do princípio de que uma das respostas é a correta e se torna necessário apenas reconhecê-la e marcá-la como tal.

Evidentemente, as questões objetivas não deixam de focalizar aspectos relevantes da subjetividade do candidato, pois é isto, afinal, que está em jogo no processo de análise e escolha das respostas corretas, bem como da avaliação: o grau de conhecimento, a capacidade de análise e de síntese, a capacidade de atenção e até uma certa malícia ao examinar o que se pede na raiz e o que se oferece nas alternativas.

As questões objetivas, deste modo, implicam um tipo específico de abordagem pelo candidato, o que significa uma forma de leitura diferenciada, na qual a atenção é altamente relevante. Ler uma questão objetiva requer o máximo possível de cuidados. Um ligeiro cochilo de leitura pode levar a um lamentável engano. Vale dizer: para questões objetivas, leitura objetiva.

Como o Blogueiro já disse mais de uma vez, uma questão objetiva se apresenta em duas partes perfeitamente entrosadas: um enunciado, também chamado raiz, e um conjunto de respostas possíveis, uma das quais, e apenas uma, é a correta, por entrar em perfeito acordo de forma e significado com a raiz. É esse acordo entre forma e significado que deve ter o candidato em mente ao analisar e responder. Além da correspondência de sentido, a resposta correta apresenta acordo perfeito, sob o ponto de vista sintático, com a raiz. Esta é a melhor pista, sobretudo no caso de discernir, entre duas respostas que parecem corretas, a absolutamente correta. Por isso mesmo, você deve tomar cuidado em não se deixar levar pela aparência de correção, mas pela relação objetiva entre a alternativa e a raiz. Resumindo, de modo um tanto irônico: uma alternativa poder ser até bonitinha, mas, como diz o povo, beleza não põe mesa, isto é, convém observar com precaução a correspondência formal e semântica entre alternativa e raiz para chegar a uma conclusão adequada.

Percebeu? O papel da banca elaboradora é formular cinco respostas (alternativas), sendo quatro erradas e uma certa. Mas não se trata apenas de apresentar uma resposta perfeita e outras cheias de imperfeições para o candidato descobrir com facilidade. Há toda uma técnica de elaboração de questões que permite criar respostas muito parecidas, muito próximas, o que dificulta o trabalho do candidato no processo de “descoberta” da resposta adequada. Já o papel do candidato se situa no sentido inverso: identificar, com base na relação entre raiz e alternativas, qual a que realmente se encaixa.  Esses dois papéis é que sustentam o processo: o trabalho do candidato em analisar e descobrir é o foco da avaliação, pois demonstrará não apenas seu conhecimento, como também sua capacidade em usar esse conhecimento para resolver problemas concretos.

Boa prova!

 

 

Você sabe o que é uma universidade?

quinta-feira, 3 de maio de 2018

Você sabe muitas coisas, não é verdade? Exato, pois estuda pra valer para obter sua vaga no curso superior de sua preferência; se possível, na universidade de sua preferência. É aqui que entra a pergunta do título deste artigo: Você sabe o que é uma universidade? É possível que sim, mas também é possível que não. Se pensa na universidade apenas como escola de ensino superior que oferece o curso por você pretendido, está pensando muito pouco. Uma universidade é muito mais que isso. E será, de fato, muito mais que isso para você, caso consiga ingressar.

De certo modo, a história das universidades no mundo tem semelhanças com a sua. Você, nasceu, cresceu, lá pelos três anos foi colocado num curso pré-escolar, o chamado jardim da infância, e finalmente, três anos após, estava no primeiro ano do Ensino Fundamental, que cursou ao longo de 9 anos. Nessa fase, já sabia muita coisa, podia até assumir, se a lei permitisse, algum tipo de trabalho. Resultado: seu aprendizado, aos 15 anos, era considerado, na lei e na prática, ainda insuficiente, e por isso deveria cursar o Ensino Médio, quando então, obtido o diploma, caso não estudasse mais, poderia pleitear trabalho e começar uma carreira qualquer. Era, porém, ainda pouco. Faltava muito para aprender sobre o mundo, a vida, as ciências, as profissões superiores. Uma vez formado num curso de graduação, poderia partir para o trabalho na carreira que escolheu e seguir uma vida normal. Mas você, independentemente de estar ou não trabalhando, poderia julgar insuficiente o que havia aprendido e buscar conhecimento e aperfeiçoamento maior em cursos de mestrado e de doutorado, pois assim sua competência aumentaria muito mais. O mestrado e o doutorado poderiam ainda fazê-lo seguir carreira universitária,  como professor e pesquisador.

Pois essa sua história (pressupondo que venha a ocorrer de fato) é bastante parecida com a da própria universidade no mundo. Na infância da humanidade, os conhecimentos eram traduzidos e transmitidos oralmente de pessoa a pessoa ou por mitos. Crescendo a civilização, quando em diversos lugares do mundo já se dominava a escrita e se começava a cultivar a aritmética, a astronomia, a filosofia, a botânica e algumas outras formas ainda um tanto rudimentares  de ciência, os homens mais experientes percebiam que aquilo ainda era pouco, que precisavam aumentar seus saberes e, mais, disseminá-los entre os jovens. As primeiras escolas tiveram essa motivação e, ao longo dos séculos, em diferentes lugares, foram evoluindo e se organizando em diferentes níveis.

Assim nasceram as universidades atuais, que não são apenas ministradoras de cursos, mas instituições onde se conservam, cultivam e aumentam os mais altos conhecimentos que a humanidade veio acumulando ao longo dos milênios. Um professor universitário não é apenas um ministrador de aulas, mas um pesquisador que atua no desenvolvimento de uma área e divide, com seus alunos, os resultados que vem alcançando. Por isso, o ensino da ciência, nesse nível, é sempre novo, renovado, e seus beneficiários, os estudantes, não devem limitar-se, em suas profissões, a utilizar apenas o que aprenderam, mas buscar o aperfeiçoamento do que aprenderam nos bancos acadêmicos.

É por isso que você ouvirá, logo que ingresse em seu curso, que a universidade se fundamenta em três pilares: a pesquisa, o ensino e a extensão de serviços, por meio da qual se busca uma relação direta com a comunidade, repassando conhecimentos, técnicas e uso de tecnologias para o desenvolvimento de setores dessa comunidade.

Ficou claro, então? Se você for formado como engenheiro, professor, advogado por uma universidade, não fez apenas um curso de engenharia, licenciatura ou direito, mas passou a pertencer ao quadro dos cidadãos de mais alto nível de saber do país e do mundo. Além de motivo de orgulho, isso deve significar responsabilidade e dever. A manutenção, produção e disseminação de conhecimentos para benefício da humanidade constitui o próprio espírito que animou a criação da universidade e a faz continuar laborando por um mundo cada vez melhor.       

 

 

Poesia e verso em vestibulares

quinta-feira, 3 de maio de 2018

Por vezes, nas provas de literatura e língua portuguesa nos exames vestibulares, podem surgir questões que envolvem a interpretação de poemas, tanto em versos livres, como em versos tradicionais. Quase sempre essas questões se voltam para a elucidação do conteúdo, mas, vez por outra, surgem questões sobre ritmo.

As escolas, desde o ensino fundamental, focalizam o mesmo tema e tentam, aos poucos, fazer com que os alunos compreendam a natureza do ritmo e sejam até mesmo capazes de criar versos e poemas. O Blogueiro não está dizendo nada de novo, apenas quer esclarecer alguns aspectos que podem ajudar os candidatos a resolver tais questões.

Ora, quando falamos em ritmo no discurso, estamos simplesmente reconhecendo que o ritmo faz parte inerente da própria linguagem. Por isso, a versificação não surgiu do nada, foi apenas um aproveitamento dessas possibilidades de ritmo que se abrem quando falamos ou escrevemos. Vamos a um exemplo, inventando um nome próprio:

 

Antônio Sousa do Prado

 

Trata-se de um nome simples, que pode até corresponder, na realidade, a grande número de pessoas no Brasil e em Portugal. Quando pronunciamos esse nome inteiro, sentimos certa harmonia na sucessão das sílabas fracas e fortes que o constituem. Marcamos as fortes com negrito e grifo:

 

An/to/nio/Sou/sa/do/Pra/do

 

Compare esse nome com os versos de “A Banda”, Chico Buarque:

 

Estava à toa na vida

o meu amor me chamou

pra ver a banda passar

cantando coisas de amor.

Antonio Sousa do Prado.

 

O ritmo é o mesmo! diria você. Correto. Exatamente o mesmo. Todas essas sequências possuem como fortes a 2, a 4 e a 7 sílabas, cuja repetição produz a percepção do ritmo. Trata-se de um verso heptassílabo, também denominado redondilho maior, para diferenciá-lo do do redondilho menor, de cinco sílabas métricas. O verso heptassílabo é o verso por excelência, tanto da literatura, quanto da música popular e do folclore. Até mesmo a música sertaneja atual o utiliza.

Outro verso que geralmente serve de objeto para perguntas é o decassílabo. Podemos criar outro nome próprio como exemplo de verso de dez sílabas, marcando com negrito e grifo as sílabas fortes, que são a terceira, a sexta e a décima sílabas:

 

Godofredo Sampaio de Oliveira

 

Trata-se do chamado verso decassílabo heroico, cujo acento predominante é o da sexta sílaba. A outra variedade é a do chamado decassílabo sáfico, com acentos predominantes na quarta e oitava sílabas, como neste nome próprio criado agora:

 

Jo Alfredo Aparecido Filho

 

Compare estes dois nomes próprios com os versos de Raimundo Correia:

 

Invergável ao pulso dos tiranos (3-6-10)

Godofredo Sampaio de Oliveira                   (3-6-10)

 

E voa, e rasga o luminoso ingresso (2-4-8-10)

José Alfredo Aparecido Filho                       (2-4-8-10)

 

Percebeu? O ritmo é parte inerente do discurso. E você encontra nele sequências com a mesma estrutura acentual de versos.

Um verso que também pode ser objeto de questões é o alexandrino clássico, com acento dominante em duas sílabas, que formam dois meios-versos denominados hemistíquios. E agora nem precisamos forjar exemplo, porque o próprio nome de um grande poeta constitui um alexandrino clássico:

 

Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac

 

Olavo Bilac, de resto, foi um dos mestres no emprego desse verso. Examine o exemplo do poema  Alvorada do Amor, observando que a sexta sílaba é sempre marcada por acento forte:

 

Ah! Bendito o momento em que me revelaste

O amor com o teu pecado, e a vida com o teu crime!

Porque, livre de Deus, redimido e sublime,

Homem, fico na terra, à luz dos olhos teus,

— Terra, melhor que o Céu! homem, maior que Deus!

 

Lindo, não é? Lindíssimo. No poema mencionado, o poeta reconta a lenda da expulsão de Adão do Paraíso, atribuindo-lhe um novo e original contorno.

É isso aí. Pela beleza de suas imagens, conceitos e ritmos, a poesia sempre dignifica o homem.