Archive for November, 2017

Os verbos: fontes de ideias

Wednesday, November 29th, 2017

De modo didático, os professores de português muitas vezes representam a oração como um sistema solar, com o verbo no centro e os complementos orbitando em torno. Esta imagem tem algum fundamento, pois no sistema da oração o verbo é realmente o ponto principal e em seu entorno, fortemente relacionados com ele, se alojam os complementos oracionais. Neste sentido, o próprio sujeito, que semanticamente é um dos principais elementos criadores e condutores do sentido, faz vassalagem ao verbo, principal condutor da oração.

A reflexão manifestada pelo Blogueiro no parágrafo anterior tem como objetivo alertar o estudante para a grande importância semântica do verbo, que pode, conforme o papel que venha a assumir, mudar completamente o sentido de uma oração. Note, por exemplo, o comportamento dos verbos aspirar e contar nos exemplos seguintes:

 

A menina aspirou com prazer o perfume da orquídea.

Meu filho aspira a um cargo de executivo numa empresa multinacional.

 

O caixa contou o dinheiro.

Meu pai contou uma lenda sobre o Capa-Preta.

 

Percebeu? Nos primeiros dois exemplos verifica-se a transformação do verbo aspirar de transitivo direto, com o sentido de cheirar, para transitivo indireto, com o sentido de desejar, objetivar, por meio da preposição a. Já nos dois exemplos seguintes, embora o verbo não mude de regência (em ambos os casos é transitivo direto), o sentido muda de uma frase para outra.

É esse um dos pontos que os professores têm mais dificuldade de explicar a seus alunos: em boa parte, talvez maioria, dos verbos pode haver significados diferentes com a mesma regência ou com regências diferentes.

Esse fato, embora à primeira vista pareça um complicador para suas redações ou respostas a questões discursivas, é na realidade uma fonte de riqueza expressiva: quanto maior variedade de significados de cada verbo você conhecer, maior a possibilidade de expressar-se com segurança e criatividade. Certo professor do Blogueiro dizia e repetia, em aulas, que a leitura do dicionário era uma de suas preferidas, porque aumentava seu poder verbal (ele era também jornalista que assinava artigos em jornais e revistas). Na verdade, o professor tinha muita razão: os dicionários não estão nas estantes, ou nos devedês, ou na mídia digital da internet para ser olhados de longe, são fontes permanentes de consulta e, como dizia o professor, leitura.

Observe, por exemplo, o que podemos extrair de dicionários sobre as regências e significados do verbo acusar:

 

O promotor acusou-os e pediu justiça.

O exame de sangue acusou a doença.

O delegado acusou-os do crime de lavagem de dinheiro.

Neste momento eu não acuso: apenas ouço seu depoimento.

Nenhum dos dois rapazes se acusou.

Notou como um simples e usual verbo pode acusar surpresas? No primeiro exemplo, acusar é transitivo direto (os, como você sabe, funciona como objeto direto) e significa imputar culpa. No segundo caso, o verbo continua transitivo direto, mas o significado é completamente diferente: acusar, nessa oração, significa revelar, apontar. No terceiro exemplo o verbo assume dois objetos: os, direto, e do crime de lavagem de dinheiro, indireto. Já no quarto exemplo o verbo acusar aparece como intransitivo, sem objeto, portanto, no sentido de incriminar, apontar falta. E na última oração o verbo volta a ser transitivo direto, mas com objeto direto reflexivo (o objeto representa o próprio sujeito): o significado passa a ser assumir a culpa, o erro, o crime, etc.

O Blogueiro acredita que, com os exemplos apresentados e os comentários feitos, você se interessou pelo tema e passou a valorizar mais os dicionários, não como meras fontes de informação produzidas por velhos pesquisadores, mas de aumento de conhecimentos e poder de expressão. Mãos à obra, quer dizer, aos verbos, portanto.

 

 

Primeira fase, segunda fase – não é fase demais?!

Wednesday, November 15th, 2017

Você com certeza já tentou imaginar a razão por que alguns vestibulares, como o da Unesp, se realizam em duas fases, uma com questões objetivas, outra com questões discursivas e redação. Não seriam fases demais? Não seria melhor fazer tudo numa fase só?

À primeira vista, podemos até pensar que sim. Na verdade, porém, basta um pouco de reflexão para perceber que andam certos os principais vestibulares do país ao dividir as provas em duas fases distintas, ambas classificatórias. Por quê? Por muitas razões, que o Blogueiro gosta de comentar. A primeira delas é o grande número de candidatos, que complicaria e encareceria a realização numa fase só. Imagine quantos profissionais seriam necessários para uma banca de correção de redações e outra para a correção de questões discursivas de cento e tantos mil candidatos! O encarecimento em virtude do aumento brutal do número de profissionais seria repassado, neste sentido, para o valor das taxas de inscrição. Nada recomendável, não é?

Mas as justificativas não ficam por aí. Imagine você, em segundo lugar, que fazer tudo numa fase só aumentaria o número de questões e do período de realização da prova. Se quatro horas já são difíceis de enfrentar, imagine uma prova que durasse cinco ou seis horas. Também nada recomendável, não é?

Em terceiro lugar, imagine que, mantido o período da prova em quatro horas, seria muito complicado abranger todo o programa das disciplinas. Uma das consequências seria uma prova com menor poder de avaliação. A outra, você bem sabe, seria o aumento do número de reclamações sobre o horizonte de avaliação da prova. Em quarto lugar, é preciso ter em mente que na primeira fase não haveria período de tempo adequado para uma boa redação, criada e revisada.

Bastam esses quatro aspectos, portanto, para demonstrar que um vestibular em duas fases é o mais indicado. Na primeira, com uma prova abrangente formada por questões objetivas, ocorre a seleção inicial, tendo como parâmetro o número de vagas disponíveis. Na segunda, os melhores da primeira fase passam por uma nova triagem, com vistas a elaborar a relação dos que comprovam mais condições de obter as vagas. Além do mais, sendo uma fase formada por questões objetivas, outra por questões discursivas e uma redação, o perfil de competência do candidato é estabelecido com muito maior precisão.

Se tudo ficou bem claro, as perguntas colocadas no primeiro parágrafo deste artigo estão perfeitamente respondidas: duas fases representam o ideal. E você se sente plenamente convencido de que tem muito mais chances com um vestibular assim estruturado e realizado. Boas provas!

 

 

Falar bem ou falar mal, saiba o que fala!

Friday, November 10th, 2017

No artigo anterior, o Blogueiro focalizou um assunto muito importante, que andou e anda preocupando os candidatos aos exames vestibulares: o receio de ver recusadas redações que, por exemplo, argumentem contra a ética vigente e os próprios fundamentos da democracia. E assim também outros posicionamentos considerados abomináveis pela sociedade atual. A questão estava pendente: deveriam receber nota zero redações com tais teores? Nas bancas de que participou, o Blogueiro sempre achou que não, argumentando que não se corrigem opiniões, mas redações, já porque pode haver, por exemplo, bons textos que opinem contra a democracia, já porque pode haver maus textos que a defendam

No final da semana, uma decisão da presidente do Supremo Tribunal Federal, ministra Cármen Lúcia Antunes Rocha, sobre essa matéria, pôs fim a todas as especulações e preocupações a respeito, já que reafirmou o princípio constitucional da livre manifestação de opinião. A partir dessa decisão do STF, nenhuma redação de vestibular ou de concurso público pode ser zerada por defender argumentos que se oponham aos fundamentos democráticos vigentes. Em conclusão: mesmo que defenda uma tese abominada pela sociedade democrática, a redação tem de ser corrigida como texto, não como opinião.

Não poderia ser de outro modo: o sistema democrático se baseia, por princípio e natureza, no respeito às liberdades individuais, entre as quais a liberdade de pensar e opinar. Os políticos costumam dizer e repetir à saciedade que a democracia se fundamenta na convivência de contrários. Nada mais verdadeiro: no exato instante em que uma opinião, por mais extrema e abominável que seja, é censurada, não estamos mais num sistema democrático, mas num regime de força, numa ditadura.

Beleza! exclamará algum candidato e concluirá: Então vou poder dizer o diabo em minha redação sem que a banca corretora possa zerá-la. Não é bem assim, retrucará o Blogueiro, lembrando o dito popular: aí é que a porca torce o rabo. O candidato deve observar que, ao expressar sua opinião, pode estar infringindo em parte o regulamento da correção no que diz respeito ao desenvolvimento do tema. Nesse caso, bem como noutros semelhantes, sua redação não receberá zero, mas, em virtude da própria proposta, poderá ser penalizada com a perda de alguns pontinhos por não atender a um requisito. E ninguém quer saber de perder alguns pontinhos em vestibular, em que uma vaga pode ser decidida por minúsculas frações de pontos.

Por tudo isso, o Blogueiro reafirma o que disse no texto postado anteriormente, sugerindo ao candidato avalie muito bem a proposta de redação e desenvolva seu texto de acordo com esses parâmetros. De fato, embora não seja proibido, ainda mais após a decisão do STF, a redação de vestibular não é o local ideal para defender ideias extremamente contrárias ao status quo. É o local, porém, para o candidato demonstrar que é capaz de produzir um ótimo texto ao explorar o tema proposto. O maior valor, portanto, está no texto, e não na natureza da opinião.

É claro, todavia, que o Blogueiro apenas está dando um conselho brotado de sua experiência, já que também há certo tempo prestou seu vestibular. O candidato poderá ter raciocínio diverso: Sei bem que minha redação pode perder alguns pontos, mas vou manifestar minha opinião livremente e fazer um texto chocante. E, como escrevo muito bem, posso convencer a banca a não me penalizar de nenhum modo. Neste caso, o Blogueiro lhe deseja boa sorte. A conclusão de outros candidatos poderá ser muito diferente: Sou capaz de defender muito bem qualquer ponto de vista do tema proposto. Vou escolher o que me permita fazer um texto de melhor e maior qualidade, para receber o máximo possível de pontos. Esta é uma atitude muito mais ponderada e mais em acordo com os reais interesses dos candidatos em obterem suas vagas nos cursos pretendidos.

O assunto, portanto, está agora resolvido, sendo responsabilidade do próprio candidato o caminho a seguir: arriscar-se, confiando no seu taco, como se costuma dizer, ou escolher um trajeto mais seguro, menos sujeito a surpresas. Pense bem a respeito e tome sua decisão de acordo com sua própria personalidade e interesses.

 

 

Sua redação x sua opinião

Wednesday, November 1st, 2017

Preste muita atenção a este conselho nascido da experiência de um velho professor: na vida, nem sempre vale o que é, mas o que tem de ser.

Por que o Blogueiro está se valendo desse princípio? Porque está sendo muito discutido, nos meios de comunicação, o problema das opiniões dos vestibulandos em suas redações. E o tema é a aceitação ou não de opiniões dos candidatos que contrariem a ética e o estado democrático, só para citar dois dos pontos considerados nevrálgicos. Em resumo: tem o vestibulando e qualquer candidato a concursos o direito de defender, em sua redação, opiniões opostas a esses pontos? Trata-se de uma questão que, como diz o povo, dá muito pano pra mangas.

Algumas pessoas argumentam que nossa Carta Magna, a Constituição brasileira, estabelece a liberdade de opinião. É verdade. Todos temos o direito de escolher nossas opiniões e manifestá-las, mesmo que contrariem o status quo, vale dizer, o que se pensa e se defende comumente no estado de direito democrático. Aí é que reside o problema verdadeiro: mesmo que tenhamos o direito de defender certos pontos de vista que o senso comum abomina como antiéticos e antidemocráticos, será aconselhável fazê-lo em todas as situações? Claríssimo que não. Nossa vida é uma sequência de situações, e em cada uma delas nossas atitudes nem sempre podem ser as mesmas: dependem do que esteja em jogo em cada caso.

Alguém poderia até dizer: É, mas a Constituição brasileira me dá o direito de defender meus pontos de vista. Agora o Blogueiro chega ao ponto. É a redação de concurso público ou de vestibular o meio adequado para a defesa de pontos de vista extremos, contrários, por exemplo, à igualdade de direitos no que se refere a credo religioso, a escolhas sexuais e opções políticas? Não é. Qualquer de nós pode ter suas opiniões, por mais absurdas que sejam, mas nem todo meio e nem todo momento serão adequados para defendê-las. E a redação de vestibular não é seguramente esse meio, por muitas razões, inclusive a mais importante: obter o máximo possível em termos de pontuação.

Se o candidato sabe, deste modo, que em determinado vestibular haverá perda de pontos em caso de opiniões que contrariem os princípios éticos vigentes, deverá ter a perspicácia de conduzir sua argumentação sem correr esse risco. Para falar a verdade, o melhor mesmo será assumir tal atitude em qualquer vestibular ou concurso que venha a prestar. Com isso, um possível perigo será 100% neutralizado, podendo o candidato, em seu texto, cuidar de outros aspectos que possam levá-lo a uma pontuação maior.

Conclusão: do mesmo modo que, para não ser penalizado na nota, o candidato procura respeitar a ortografia, os princípios gramaticais, a coesão textual, deve tomar todos os cuidados para evitar que o conteúdo de seu texto possa ser penalizado pela adoção de posturas negadas e até combatidas pela sociedade atual.

Não se trata, portanto, de uma questão de direitos, mas de postura realista e de discernimento: nem sempre vale o que é em todas as situações, mas o que deve ser em situações determinadas. Valeu a observação?