Archive for September, 2017

Sinônimos: use e abuse!

Thursday, September 28th, 2017

Você por certo já fez muitos exercícios com sinônimos, desde o ensino fundamental. Os professores, acertadamente, o levaram a ver que, em vez de repetir desnecessariamente uma mesma palavra, podemos empregar outras que apresentam o mesmo ou quase o mesmo valor no contexto.

Esta é a questão: o mesmo ou quase o mesmo? Uma professora de linguística muito radical ralhou certa vez com o Blogueiro, que havia falado em sinônimos: Sinônimos não existem! disse ela, como quem encontra um menino roubando biscoitos da lata. O Blogueiro ficou ofendido pelo modo da repreensão e, para não deixar por menos, retrucou: Sim, mas nós os empregamos diariamente!

É claro que a professora tinha certa razão: não existem duas palavras com exatamente, 100%, o mesmo significado. Mas o Blogueiro também tinha parte da sua: em nosso uso tanto oral quanto escrito da língua, vivemos substituindo umas palavras por outras, sem que isso cause grandes males à nossa comunicação. Ao contrário, o emprego da sinonímia serve para evitar repetições que, ao fim e ao cabo, tornariam um texto muito fastidioso, de cansativa leitura.

O estudioso luso Rodrigues Lapa, em seu manual de Estilística Portuguesa, chama atenção para o fato de que há, entre os vocábulos que consideramos sinônimos, diferenças de sentido maiores ou menores. Exemplifica ele com a série: belo, lindo, formoso, bonito em exemplos como:

 

O lutador ergueu-se, belo como uma estátua.

Eram duas raparigas, qual delas a mais formosa.

Simples e linda, a noiva saía da igreja.

Laura trazia um bonito vestido de seda azul.

 

Evidentemente, examinando à primeira vista, notamos que entre estas quatro palavras as diferenças de significação podem ser maiores ou menores, particularmente nas frases dadas. Isso significaria que não podem ser usadas como sinônimas? Nada disso. Significa apenas que em determinadas frases ou contextos, podemos usar umas pelas outras, sem grande prejuízo de significação, mas até com ganhos expressivos. O mesmo se pode dizer para outra série, como casa, residência, lar, domicílio, morada, moradia. Cada uma delas tem sua própria característica e até domínio de uso, mas a grande semelhança de sentido permite alterná-las em muitos contextos. Se queremos ressaltar o aspecto afetivo, dizemos: meu lar; se o aspecto particular: minha casa; se o aspecto jurídico: meu domicílio. Essa possibilidade de alternância é provocada por outro aspecto importante da língua: o acúmulo de usos e significados por uma palavra. Observe o exemplo fornecido por Lapa:

 

A cabeça é a parte superior do corpo.

Toda gente o louva: é uma grande cabeça.

Sabia de cabeça todos os versos do poema.

Ele vinha à cabeça de todos os concorrentes.

Essa vila é a cabeça da comarca.

Pagaram dez tostões por cabeça.

Feriu-se na cabeça do dedo.

O cabeça da conspiração foi aprisionado.

Isso não tem pés nem cabeça.

Deu-lhe agora na cabeça fazer versos.

Cada cabeça, cada sentença.

Então perdeu por completo a cabeça.

 

Deu para notar? Em cada frase, a palavra cabeça assume um sentido diferente, demonstrando a riqueza semântica da palavra. Isso ocorre com muitíssimas outras palavras do idioma, o que abre campo imenso para a conquista de expressividade, tal como ocorre com o emprego dos sinônimos.

Os grandes escritores são muito hábeis, de fato, no emprego dos sinônimos, sabendo o que extrair, em  termos expressivos, de cada exemplo. Mire-se no exemplo deles e passe a observar melhor seu texto, evitando repetições desnecessárias, buscando palavras mais adequadas ao contexto de cada frase que usa. Isso ajudará em muito a tornar-se mais que um mero redator, mas o tornará um escritor capaz de produzir soluções criativas. Para começar, em cada um dos doze exemplos de emprego de cabeça, acima fornecidos, busque substituir esta palavra por outra ou por expressão equivalente. Experimente.   

 

 

Vestibular é uma tarefa normal

Friday, September 22nd, 2017

Muito se fala sobre o que significa o vestibular em termos pessoais? Para alguns, é um momento ímpar, é o momento de suas vidas. Para outros, é apenas uma tarefa a mais ao longo das muitas que teve e ainda terá. A primeira atitude é bastante emotiva; a segunda, bastante ponderada. Com qual você ficará? É melhor assumir a segunda hipótese, menos dramática que a primeira.

É claro que isso tem muito a ver com sua personalidade, vale dizer, sua maior ou menor propensão a observar os fatos por meio dos filtros da emoção ou da razão. O Blogueiro decidiu focalizar este tema hoje, pelo fato de ter verificado, nas referências que se fazem na rede sobre vestibulares, haver um certo exagero, que pode até ser prejudicial aos vestibulandos.

É claro que cada candidato observa e sente os vestibulares de um modo distinto. O problema é saber se, bem colocado e orientado, pode alterar esse modo de observar e sentir para um nível em que não possa haver prejuízo em seu desempenho. Isso equivale a dizer que todas as atitudes que assumimos sobre os vestibulares têm de fazer também parte de nosso método de estudar e de prestar as provas. Ora, se você é muito emotivo, não pode deixar de preparar-se antecipadamente para assumir o controle, procurando reduzir ao máximo a possibilidade de a emoção atrapalhá-lo no decorrer dos exames. Não deve atrapalhá-lo, aliás, no decorrer de seus próprios estudos. Mude sua visão, passe a considerar os exames como um fato normal, que poderá até se repetir, caso não seja aprovado na primeira vez. Não deve ser considerada anormal a reprovação numa primeira vez. Trata-se de uma ocorrência corriqueira. Claro que é desagradável não ser aprovado, mas a consideração dessa possibilidade não deve ser motivo de qualquer reação emocional antecipada.

O contrário também é verdadeiro: ausência total de emoções pode ser também fator prejudicial, já que implica excessivo desprezo pelos riscos e pelas possibilidades de erro. Prestar vestibulares como quem apenas está se divertindo, fazendo por fazer, levará fatalmente a aumentar os riscos.

O ideal, portanto, é saber equilibrar-se entre a razão e a emoção, de modo a assumir uma atitude tranquila, calma, ponderada. Estar ciente de que vai resolver uma tarefa normal, uma das muitas tarefas que ainda terá de resolver ao longo da vida.

 

 

 

Rimas e repetições: um horror!

Friday, September 15th, 2017

O Blogueiro vem insistindo, nos artigos que posta, em aspectos estilísticos da redação. Observa sempre que não basta escrever de acordo com a norma-padrão, nem tampouco conforme as regras de ortografia e de gramática. Escrever vai muito além dessa base, requer cuidados com o estilo de quem cria o texto. Os grandes escritores são justamente aqueles que se distinguem por dominarem um estilo, um modo muito particular e pessoal de elaboração do texto, quer na criação dos períodos, quer na organização destes em parágrafos, quer nas escolhas vocabulares que faz.

Pois você tem também seu modo próprio de escrever, ou seja, seu estilo, que requer cuidados muito especiais e se vai elaborando e enriquecendo ao longo do tempo e de seu hábito de criar textos.

Que quer dizer, afinal, o Blogueiro? Muito simples: que um texto pode estar correto sob diferentes aspectos gramaticais e de coesão textual, mas ainda pode não estar satisfatório sob o ponto de vista estilístico. Observe, abaixo, um exemplo que um velho professor sempre apresentava, ao manifestar-se a seus alunos sobre o assunto:

 

Cruz! Faltou a luz quando eu propus a solução que não reduz a produção.

 

É claro que todos os alunos (o Blogueiro entre eles) riam bastante, em função do exagero da frase apresentada, que está cheia de rimas. Alguns alunos diziam que jamais diriam ou escreveriam uma frase como aquela. Será? Na verdade, o que o velho professor queria alertar era simples: o perigo que a língua portuguesa apresenta em função do grande número de palavras terminadas em –uz, -us e em -ão. Essa profusão de vocábulos nos faz cair muitas vezes em armadilhas como a que gerou o exemplo apresentado. O português, além disso, possui também numerosas palavras terminadas em –ente, -ida, -ido, -indo, -ando, -endo, etc., etc. Cair na armadilha dos ecos e das rimas, por isso, é muito fácil. Todo o cuidado é pouco para evitar essas repetições que empobrecem estilisticamente nosso texto.

Você poderá dizer que isso não acontece mais hoje. Claríssimo que acontece. O Blogueiro escreveu este artigo exatamente por ter sido provocado pela leitura de notícias de jornais publicadas na rede. Observe os dois exemplos abaixo, encontrados nos últimos dias (algumas palavras foram mudadas, para evitar reclamações):

 

Acompanhou, par e passo, cada passo do andamento dessa operação.

De propriedade do empresário, que também foi denunciado, a indústria foi, segundo o promotor, o canal utilizado para receber e distribuir a propina.

 

Notou? Na primeira frase, o jornalista, para mostrar competência no escrever, se deu ao luxo de empregar a locução par e passo, quando deveria empregar pari passu, expressão latina que significa simultaneamente, a passo igual. E escorregou também ao empregar novamente a palavra passo na sequência, o que criou um eco indesejável. Com um pouco mais de cuidado, perceberia que poderia substituir pari passu por a passo igual ou por simultaneamente, ao mesmo tempo. Ou então deixar pari passu e substituir cada passo por cada fase.

Já na segunda frase, temos a repetição indesejável e desnecessária da forma verbal foi, quando seria muito fácil substituir que também foi denunciado por também denunciado, o que deixaria até mais leve a sequência. E assim poderiam ser feitas outras modificações para evitar o eco entre as duas formas verbais. Note também a rima entre denunciado e utilizado, que poderia ser evitada com a substituição de uma dessas duas formas por outra com diferente terminação.

Pois é. O Blogueiro tem certeza de que você entendeu direitinho os recados: primeiro, evitar repetições desnecessárias, que geram ecos e rimas em seu texto; segundo, não tentar demonstrar competência no emprego de certas expressões, particularmente de origem latina, se não tem plena certeza do que está fazendo.

Conclusão: ter estilo não significa exibir-se, mas ser autêntico, fazer com que seu texto reflita exatamente quem você é. Valeu?

 

Pontuação: não invente problemas

Monday, September 11th, 2017

Vocêjáteveproblemascomossinaisdepontuaçãoporcertotrata-sedeumaspecto importanteparaaclarezadodiscursovaledizerparaqueosleitoresdenossostextosnãotenham dificuldadedeentendernossamensagem.

O parágrafo acima parece um pouco confuso, não parece? Claro que sim. O Blogueiro o fez assim, retirando os espaços entre os vocábulos, as maiúsculas que marcam início de período e os sinais de pontuação, para que você perceba, de um modo brincalhão, mas didático, como são necessários tais expedientes para a compreensão dos textos escritos. Então observe como deveria ter sido escrito o parágrafo:

Você já teve problemas com os sinais de pontuação? Por certo. Trata-se de um aspecto importante para a clareza do discurso, vale dizer, para que os leitores de nossos textos não tenham dificuldade de entender nossa mensagem.

Percebeu? Pois é. Então não duvide de que tal forma de sinalização foi criada com objetivos bastante lógicos. Em primeiro lugar, os espaços servem para distinguir entre si os vocábulos, o que facilita tremendamente a compreensão ao longo da leitura. Em segundo lugar, os sinais de pontuação identificam orações (por meio da vírgula ou do ponto-e-vírgula) e períodos (por meio do ponto). As iniciais maiúsculas, neste segundo caso, auxiliam a pontuação, marcando inícios de períodos. Resultado: nosso leitor tem seu trabalho de leitura e interpretação de nosso texto bastante facilitado, evitando-se a dificuldade e a confusão do exemplo inicial deste artigo.

Claro que você entendeu. Então note que, mesmo aparentemente desprezíveis, os espaços entre palavras são absolutamente necessários. Mais ainda quando você redige com uma caneta. Aceite, deste modo, um conselho: procure deixar os espaços bastante claros; não caia na armadilha de escrever as palavras juntinhas, com um mínimo de espaço, porque a tensão de uma prova pode fazer você unir sem querer duas palavras e gerar uma terceira que nada tem a ver com o seu texto. Um exemplo forjado com base no quarto parágrafo deste artigo, suprimindo-se um dos espaços entre vocábulos e, sem querer, gerando um inexistente: Então não duvide de quetal forma de sinalização. Sem querer (por hipótese), o Blogueiro, ao suprimir o espaço, criou o vocábulo quetal. Imagine o que poderia acontecer em qualquer outro caso, até mesmo a produção de um vocábulo vulgar ou uma palavra de baixo calão. Perigoso, não?

Outro problema é usar sem muito controle o ponto-de-exclamação. Alguns estudantes apanham a mania de terminar períodos com esse sinal, o que tumultua seu discurso. Não esqueça: o ponto-de-exclamação serve para sinalizar emoção, sentimento, na expressão do período. Então, use-o com moderação, sobretudo em um texto dissertativo, em que se requer lógica, raciocínio, argumentação. Isto vale também para o emprego de reticências: cuidado com elas. Melhor até não empregar em texto dissertativo.

Finalmente, não descuide de marcar os inícios de período com inicial maiúscula da primeira palavra. Trata-se de um erro reprovável, porque perturba o fluxo da leitura, fazendo o leitor parar, em dúvida.

Valeram os alertas? O Blogueiro acha que sim. O principal objetivo dessas formas sinalizadoras é a facilidade e clareza da leitura. E é exatamente isso que você pretende da banca de correção.

 

Livre-se dos coloquialismos

Friday, September 1st, 2017

Um dos problemas que mais incomodam quem escreve é a presença indevida de coloquialismos. Você sabe que deve seguir, em suas respostas a questões discursivas e na redação, a norma-padrão da língua portuguesa, vale dizer, o modelo de discurso, também chamado formal, que é utilizado nas escolas, na universidade, nas comunicações pela mídia, etc., etc., em todo o território nacional. Seus professores, desde o ensino fundamental, utilizaram a norma-padrão para que você, com o tempo, também se acostumasse a utilizá-la. Já a utilização coloquial da língua ocorre nas conversas informais, em casa, com os amigos, em todas as situações de utilização do discurso em que a formalidade seja desnecessária. O discurso coloquial, assim, não tem compromisso com a norma-padrão. Está errado, então? Claro que não. É apenas uma outra forma de utilização da língua, uma utilização informal, descompromissada. Erro, sim, será empregar termos e soluções do discurso coloquial no discurso formal, regido pela norma-padrão. Não é, portanto, um erro gramatical, mas um lapso de utilização indevida de um elemento lá onde deveria ser utilizado outro.  Algo como um jogador do São Paulo voltar para o segundo tempo com a camisa do Palmeiras.

Você sabe disso, pois seus professores do ensino médio e dos cursos preparatórios fizeram muitas exposições a respeito, sobretudo no ensino e na prática de redação. Devem ter-lhe dito também que os coloquialismos são bastante insidiosos, razão por que volta e meia se insinuam em suas redações e respostas discursivas. É preciso, deste modo, ter bastante cuidado com eles, para evitar que uma penalização possa por em perigo sua aprovação no vestibular.

Coloquialismo com que devemos tomar muito cuidado, por exemplo, é o do emprego do verbo ter com o sentido de existir. Os professores gostam de citar a frase Felicidade é algo que não tem como um desses exemplos insidiosos. A norma-padrão impõe, nessa frase, o emprego do verbo haver: Felicidade é algo que não há. Você poderá até gostar mais, como gosta o Blogueiro, da primeira frase, mais ainda inserindo a palavra coisa: Felicidade é coisa que não tem. Bonitinho, não é? Claro que é, mas no seu devido lugar, na comunicação ordinária, familiar, popular. Não numa redação de vestibular.

Outro coloquialismo perigoso é a gente. Utilizamos muitíssimo essa expressão de valor pronominal em nossas conversas diárias, descompromissadas: a gente vai, a gente quer, a gente não entende o que aconteceu, etc., etc. De tão empregada, nem mesmo a pronunciamos de um só modo: dizemos a gente, a genti, a enti, enti. Não acredita? Então comece a reparar como seus familiares, amigos e o povo em geral a pronunciam. Perceberá que o Blogueiro sabe das coisas. Pois bem, em suas redações e respostas discursivas, basta empregar o pronome nós: nós vamos, nós queremos, nós não entendemos o que aconteceu, etc., etc.

Tão enganador quanto os dois exemplos dados é o de uso da palavra tipo para expressar comparação: Essa sensação é tipo uma dor de estômago. Era um aparelho tipo celular. Era um animalzinho tipo um ratinho. Observou bem? O uso de tipo em todos esses exemplos é para expressar uma semelhança ou parecença. Seu emprego já está muito disseminado coloquialmente em nosso país, o que não o torna adequado à norma-padrão. Deve ser evitado inclusive numa entrevista para obtenção de estágio ou emprego, pois será fatalmente considerado indicador de pobreza de vocabulário e discurso. A língua portuguesa nos fornece muitos recursos para eliminar tal uso impróprio e empobrecedor: É uma sensação semelhante à dor de estômago, Era um aparelho parecido com um celular, Era um animal muito semelhante a um ratinho.

Percebeu? Então trate de fazer uma visita a sites que focalizam as diferenças entre o discurso coloquial e o discurso formal. Você irá aperfeiçoar mais ainda sua capacidade de expressão e evitará que estes e outros traiçoeiros usos coloquiais prejudiquem suas provas.