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Sou bom pra burro!

Monday, August 21st, 2017

Pesquisas realizadas em todos os continentes e constantemente repetidas mostram que, mesmo em países muito desenvolvidos, nem sempre boa parte dos habitantes demonstram formação suficiente para apresentar cultura superior. Ao contrário, muitas vezes revelam que pouco sabem do próprio país em que vivem, e mais ainda das demais regiões da Terra e do próprio universo. Muitas pessoas, nesses lugares, quando alguém lhes pergunta sobre o que sabem a respeito do Brasil, por exemplo, só respondem com noções vagas e grosseiras, tais como futebol, carnaval e mulheres bonitas. Por vezes, nem imaginam em que regiões do globo ficam o nosso e outros países. A formação escolar, nesse caso, não lhes deu mais que um precário verniz, uma verdadeira ilusão de cultura.

Essa forma de ignorância cultural, todavia, não é privilégio dessas nações, mas também nos atinge. Em programas de televisão, sempre que se fazem enquetes sobre determinados assuntos, verificamos que boa parte das pessoas não denotam adequado conhecimento do mundo nem tampouco noções elementares sobre arte, literatura, ciência, filosofia, geografia, história, biologia, física, química, etc., etc. Todas estas disciplinas, porém, são focalizadas nos ensinos fundamental e médio, obrigatórios para os jovens brasileiros.

Esta é a introdução necessária do artigo aqui postado: Sou bom pra burro. Trata-se de uma expressão popular que é usada figuradamente por alguém que quer revelar grande qualidade ou capacidade em uma profissão ou área de conhecimento ou atividade. Dizer Fulano de Tal é bom pra burro é reconhecer tal qualidade. Uma das publicidades do dicionário Aurélio, aliás, serviu-se dessa expressão como slogan, fazendo trocadilho com o duplo sentido, literal e figurado: Bom pra burro.

Ora, afinal, que têm a ver o vestibular e o vestibulando com isso? Muito. Muitíssimo. Qualquer pessoa reconhece que, para alguém ser aprovado em vestibular de universidade pública, tem de ser bom pra burro, vale dizer, dominar conteúdos que fazem parte do programa e demonstrar nas provas alto índice de rendimento. Mas para que tanta prova? pergunta-se muitas vezes o próprio vestibulando, e completa: Não seria mais lógico fazer as provas sobre conteúdos que envolvam o curso que pretendo fazer, e apenas ele?

Não. Não seria, mesmo que o candidato fosse bom pra burro em tais conteúdos. As questões exigidas em exames vestibulares pretendem saber se assimilou adequadamente o que lhe foi ensinado ao longo dos ensinos fundamental e médio, seja em termos cienfícos, seja em termos culturais. Não se avaliam particularidades, mas formação integral. Já por isso são exigidos, por exemplo, conteúdos de Filosofia. É impensável que um formando do ensino médio não domine noções básicas de Filosofia e não tenha aprendido a examinar problemas que exigem reflexões de ordem filosófica.

E aqui se revela a conclusão: se o candidato tem de se mostrar bom pra burro para ser aprovado em vestibular, tem também a obrigação de continuar sendo bom pra burro ao logo do curso superior e, mais ainda, de sua trajetória profissional depois de formado. Um engenheiro não pode ser apenas um engenheiro, tem de ser um cidadão culto, conhecedor dos problemas de toda ordem que envolvem o Brasil e o mundo; tem de saber apreciar uma obra de arte (pintura, escultura, música, literatura, etc.), tem de assumir opiniões políticas, filosóficas, estéticas, científicas; tem de acompanhar os desenvolvimentos e inovações da tecnologia, com perfeita noção sobre o seu alcance para o presente e para o futuro; tem de saber olhar a seu redor a própria sociedade e compreender suas carências; tem, enfim, de contribuir na sua medida para que a humanidade encontre o caminho da paz, da justiça, da igualdade e da fraternidade entre as pessoas e os povos. É desse homem que o século XXI necessita.

Tarefa impossível? Grande demais para uma só pessoa? Sim, mas possível desde que cada pessoa dê sua contribuição, por pequena que seja, para tal. Um indivíduo que vive voltado apenas a seus próprios objetivos e interesses, divorciado de preocupações com a comunidade que o cerca e lhe dá respaldo, não vive realmente em sociedade. Vive numa ilha de egoísmo e isolamento.

É isso aí. Ser apenas um profissional bom pra burro, mas destituído de maior formação cultural e apagado como cidadão não é suficiente. O mundo atual precisa, como jamais precisou, de indivíduos bons para toda a humanidade e a civilização.