Archive for July, 2017

Dicionário: um instrumento de trabalho.

Thursday, July 27th, 2017

Se você é daqueles que consulta o dicionário só de vez em vez, para conhecer o significado de um vocábulo “difícil”, mude seu modo de ver. O dicionário é uma fonte inestimável de conhecimentos que podem fazê-lo evoluir muito mais em seus estudos e em suas próprias concepções. É um exclente instrumento de trabalho. Essa estória de chamá-lo de “pai dos burros” é uma piadinha de mau gosto, empregada por preguiçosos que não querem perder tempo para outros aspectos de seus estudos e julgam desnecessário, no caso de encontrarem palavras desconhecidas, ir além do que o próprio contexto sinaliza.

Isso está muito errado, pois resulta de um desconhecimento das reais utilidades dos dicionários, que são muitas. Quer ver um exemplo? Procure no Aurélio Eletrônico o verbete “democracia”:

[Do gr. demokratía.]

S. f.

1. Governo do povo; soberania popular; democratismo. [Cf. vulgocracia. ]

2. Doutrina ou regime político baseado nos princípios da soberania popular e da distribuição eqüitativa do poder, ou seja, regime de governo que se caracteriza, em essência, pela liberdade do ato eleitoral, pela divisão dos poderes e pelo controle da autoridade, i. e., dos poderes de decisão e de execução; democratismo. [Cf. (nesta acepç.) ditadura (1).]

3. País cujo regime é democrático.

4. As classes populares; povo, proletariado.

  • Democracia autoritária.  Ciênc. Pol.

1. Sistema de governo surgido após a 1ª Guerra Mundial, em geral anticomunista, firmado na supremacia do poder executivo em relação aos demais poderes.

  • Democracia popular.  Ciênc. Pol.

1. Designação comum aos regimes políticos monopartidários dominantes nos países da área socialista. [Cf., nesta acepç., república popular. ]

Notou bem o que o Aurélio diz no verbete? Se notou, percebeu que a palavra democracia não é tão simples como pode parecer à primeira vista. Não basta, portanto, entendê-la ou empregá-la com o sentido de “governo do povo”. É pobre demais tal acepção.

O verbete é, assim, uma verdadeira aula sobre a palavra, inclusive pelas necessárias referências históricas, já que “democracia” tem uma longa história, quer como conceito político, quer como palavra ou expressão empregada para representá-lo. Assim colocadas, essas informações vão auxiliá-lo também no entendimento de questões de história que focalizem as formas e os sistemas de governo ditos ou autodenominados democráticos. Como você por certo deve ter também notado, o verbete do Aurélio ainda manda comparar os sentidos de democracia com os de “vulgocracia” (preponderância das classes populares) e “ditadura” , como se pode verificar no próprio dicionário:

[Do lat. dictatura.]

S. f.

1. Forma de governo em que todos os poderes se enfeixam nas mãos dum indivíduo, dum grupo, duma assembléia, dum partido, ou duma classe.

[Cf. democracia (2).]

2. Qualquer regime de governo que cerceia ou suprime as liberdades individuais.

3. Fig. Excesso de autoridade; despotismo, tirania.

  • Ditadura do proletariado.

1. Regime político, social e econômico desenvolvido teórica e praticamente por Lenin (v. leninismo), e que se baseia no poder absoluto da classe operária, como primeira etapa na construção do comunismo.

Percebeu como são importantes os dicionários? Claro que percebeu! E quando ouvir de alguém que gosta de ler dicionários, não mais assuma um ar debochado, nem diga que essa pessoa é amiga do “pai dos burros”, já que, bem pensado, muito provavelmente o “burro” não é o que consulta dicionários, mas o que os ignora. Cobre consciência de que os dicionários são fontes de palavras, de conceitos, de cultura, porque apontam caminhos e fazem esclarecimentos por vezes mais eficientes do que os próprios livros que focalizam o tema.

Conclusão: valorize esse instrumento de estudo. Você só terá a ganhar. Já pensou se o tema da redação de algum vestibular que você prestará implicar o domínio do conceito de “democracia”?

 

Seja mais observador

Monday, July 24th, 2017

Você sabia que uma das maneiras de aprender é observar os erros dos outros? Pois é. Com relação ao escrever, isso é bastante verdadeiro. Você por certo já notou que o Blogueiro vive se aproveitando dos erros que encontra em jornais e revistas, quer em papel, quer na rede, para fundamentar os conselhos que lhe dá neste Blogue. Vamos então fazer uma experiência diferente hoje: o Blogueiro fornece os exemplos e você aponta os erros ou cochilos dos escritores. Para evitar problemas com os autores das frases, estas sofreram alterações que as tornaram “um pouco” diferentes, sem, no entanto, descaracterizar os erros verificados:

O empresário recorreu da sentença que condenou ele.

Se tem uma pessoa que merece ser ouvida, sou eu.

Isso com certeza não aconteceu no meu mandado de 4 anos.

O iceberg gigantesco que se desprendeu na Antártida.

Valores de temperatura mais baixos que os 9,5 desta tarde ocorreu há dez anos.


Agora é com você. Leia bem cada frase, verifique os enganos cometidos e reescreva empregando as formas corretas. E reflita bem sobre os motivos que levaram os escritores a tais escorregadelas. Esta reflexão o ensinará a desenvolver uma atenção maior quando escrever, para evitar que pequenas distrações possam causar equívocos semelhantes.

Na verdade, os lapsos apontados não indicam de nenhum modo que se trata de maus escritores ou jornalistas. Poderíamos até criar um provérbio a respeito: Quem muito escreve, por vezes erra. Escrever, como qualquer outro trabalho intelectual ou braçal, implica a possibilidade de se perder de vez em quando em pequenos enganos. Se você cometer um equívoco semelhante aos que descobriu nas frases acima, isto não significará que escreveu mal, mas tão somente que teve um momento de distração. O problema verdadeiro, no seu caso, é que ao fazer uma redação ou responder a uma questão discursiva, o julgamento pertencerá a uma banca corretora, que está ali exatamente para apontar e penalizar erros.

Esta é a razão para perceber que tem de criar um método pessoal para evitar que isso aconteça. Se um jornalista comete um errinho num texto, terá a desculpa de que na prática não tem oportunidade nem tempo de fazer repetidas revisões. Já o escritor de um texto literário, que também comete falhas na primeira redação, tem tempo de sobra para reler e corrigir. No seu caso, o método tem de ser antecipado, com uma prática constante de detectar cochilos em textos alheios e em seus próprios na prática de redação. Lá na prova, porém, você estará quase na mesma situação do jornalista, que tem de digitar rapidamente um texto e enviá-lo para edição.

Que fazer? Lamentar-se? Nada disso. Tudo tem remédio. Seja a partir de agora mais observador do que comumente, quer de textos alheios, quer dos seus próprios. Esta é também uma forma de estudar. E de aprender!

 

É melhor usar períodos curtos para errar menos?

Thursday, July 13th, 2017

Um dos mitos que percorre os estudos dos vestibulandos é o de empregar períodos curtos “para errar menos”.  Há até quem defenda e ensine essa prática. Teria ela alguma base lógica?

O primeiro ponto fraco que você deve observar nesse mito é o de que, se alguém tem bom domínio de discurso e da norma-padrão, não fará diferença usar períodos curtos ou longos, pois o índice de erros de ordem gramatical e ortográfica será o mesmo. O conselho, porém, de usar períodos curtos diz respeito à elaboração da redação. Muitos acreditam que, com períodos curtos, poderão melhor concatenar suas ideias e argumentos, e além do mais errarão menos na coesão e nos aspectos gramaticais e ortográficos. Certo? Nada disso: errado. Mais uma vez errado.

Períodos curtos podem vir a calhar em poemas líricos, descrições e até mesmo alguns gêneros de narrativas. Os exames vestibulares, porém, costumam solicitar redações dissertativas. e aí a coisa muda de figura. A dissertação é por natureza argumentativa, expressa-se sob forma de raciocínios, demonstrações animadas por argumentos. Por essa virtude, precisa de períodos longos, compostos por subordinação e períodos mistos, para carregar em seu bojo o fio da argumentação. Evidentemente, numa dissertação podem aparecer alguns períodos curtos, mas estes serão períodos de ligação entre os longos, que a encorpam.

Você quer uma prova disso? Leia os artigos assinados de jornais, bem como os editoriais, todos de natureza dissertativa, e perceberá que os períodos mais longos predominam para expressar as opiniões dos jornalistas e das personalidades que assinam os textos.

Eis a questão: ninguém consegue expressar uma argumentação sem o emprego dos períodos longos e, em seu conjunto, do discurso indicado para fazê-lo. Por isso, se até agora vem trocando a dificuldade pela facilidade, mude imediatamente de escolha. Leia mais textos dissertativos e observe como os autores concatenam os períodos com o objetivo de demonstrar um argumento. Com isso, alcançará um domínio cada vez maior do discurso dissertativo.

E não se esqueça: mitos como o dos períodos curtos, podem ser muito atraentes, como costumam ser todos os mitos, mas também, como estes, são ficções que tentam parecer verdades absolutas, sem jamais o conseguirem.

E um conselho que o Blogueiro gosta de dar e repetir: não tema a dificuldade, acautele-se contra a facilidade. A Ciência nem sempre será um passeio agradável, mas será  usualmente uma jornada longa, trabalhosa, repleta de obstáculos que podemos e devemos superar.

 

Educar ou educar-se?

Thursday, July 6th, 2017

O Blogueiro, viajando, como de costume, pelos dicionários, reencontrou no Aurélio Eletrônico estes conceitos sobre o termo “educação”:

 

[Do lat. educatione.]

S. f.

1.  Ato ou efeito de educar(-se).

2.  Processo de desenvolvimento da capacidade física, intelectual e moral da criança e do ser humano em geral, visando à sua melhor integração individual e social: 2

3.  Os conhecimentos ou as aptidões resultantes de tal processo; preparo: 2

4. O cabedal científico e os métodos empregados na obtenção de tais resultados; instrução, ensino: 2

5.  Nível ou tipo de ensino: 2

6.  Aperfeiçoamento integral de todas as faculdades humanas.

7. Conhecimento e prática dos usos de sociedade; civilidade, delicadeza, polidez, cortesia: 2

8.  Arte de ensinar e adestrar animais; adestramento: 2

9. Arte de cultivar as plantas e de as fazer reproduzir nas melhores condições possíveis para se auferirem bons resultados.

 

É bem interessante, com base neste e noutros exemplos, verificar como os dicionários não são apenas fontes de definições sobre os significados das palavras, mas também verdadeiras lições sobre a própria realidade das coisas. Aprendemos muito, se somos frequentadores assíduos de suas páginas.

Você estará se perguntando por que razão o Blogueiro deu agora para falar sobre palavras e dicionários. Muito simples: ao aprendermos suas lições sobre a realidade das coisas, não podemos ignorar que somos parte dessa realidade e que muito do que os dicionários dizem nos alcança diretamente, podendo nos trazer ótimas reflexões. Aprendemos que educação é “ato ou efeito de educar ou educar-se” e isso nos leva a fazer ilações sobre nossa própria ânsia de conquistar uma vaga em curso universitário. Quando chegamos aos dezoito anos, imaginamos um futuro próximo iniciado pela alegria da aprovação e continuado nos bancos universitários pela formação em determinada carreira. Chegamos até a perder de vista que o trajeto iniciado no ensino fundamental e que nos leva à obtenção do diploma universitário representa a nossa própria educação.

Mas, afinal, o que é mesmo educação? Aqui entra a utilidade de um dicionário como o Aurélio: educação é desenvolvimento de capacidade física, intelectual  e moral do ser humano, visando à sua melhor integração individual e social; é o aperfeiçoamento integral de todas as faculdades humanas; é o conhecimento e prática dos usos de sociedade; é civilidade, delicadeza, polidez, cortesia; é o conjunto de conhecimentos ou as aptidões resultantes de tal processo; é preparo; é o cabedal científico e os métodos empregados na obtenção de tais resultados; instrução, ensino.

Obviamente, os ensinos fundamental, médio e universitário lhe fornecem uma parte de tudo isso, vale dizer, o educam. A outra parte, porém, tão importante quanto, é você mesmo que obtém por sua vontade e empenho, ou seja, você se educa ao longo de todo o processo de ensino.

Percebeu até onde o Blogueiro quer chegar? A educação é um veículo dirigido por dois motoristas: a escola e você mesmo. Você é educado ao mesmo tempo em que se educa, para tornar-se um verdadeiro cidadão. Um engenheiro não pode ser apenas um engenheiro, um médico não pode ser apenas um médico, um geógrafo não pode ser apenas um geógrafo, mas todos têm de ser cidadãos plenos habilitados para a engenharia, medicina e geografia, o que implica responsabilidades sociais e morais que vão muito além de uma habilitação em qualquer que seja o campo.

Em conclusão: ao ingressar num curso universitário, será preciso que você tenha esse fato sempre em mente, para atingir a plenitude de sua existência como cidadão complexo e completo.