Archive for June, 2017

Literatura é para ler!

Thursday, June 22nd, 2017

O Blogueiro, quando ainda começava a carreira, ouvia um colega, da área de Exatas, dizer e repetir: Gente! Literatura não é para estudar. É para ler!

A frase vinha no meio de discussões sobre a importância dos estudos literários nos ensinos fundamental e médio, bem como universitário. E o colega, de fato, queria chamar a atenção para o erro de perspectiva que por vezes as escolas cometem, obrigando os estudantes a pesquisar em obras literárias temas como personagens, enredo, espaço, tempo, etc., etc. O colega, professor de matemática, era o maior crítico desse sistema de ensino, sempre afirmando que os textos literários, uma vez lidos, eram ensinamentos por si mesmos, sem necessidade de ficar, como ele dizia, escarafunchando a estrutura das obras, o que só fazia os estudantes desgotarem da leitura e do hábito de ler. A garotada precisa gostar de ler, e não de fazer a análise das obras! dizia ele.

Não se pode deixar de dar razão, ainda hoje, ao colega. Nos próprios vestibulares, nem sempre as obras são focalizadas como tais, nem é verificado o importante: se os candidatos realmente as leram. Algumas universidades colocam, para seus vestibulares, relações de obras literárias, e isso é quase sempre justificado como incentivo à prática da leitura. Seria, quase sempre, mas quase sempre não é. Basta sair uma nova relação de obras para o vestibular de uma universidade e logo toda uma série de livrinhos surge com interpretações de todas elas, de sorte que, frequentemente, os estudantes, em vez de lerem as obras, apenas lêm os livros que as analisam e interpretam para “facilitar” o trabalho dos estudantes. Na verdade, o resultado é afastar os estudantes do verdadeiro prazer da leitura.

Nada mais contraproducente. Se você se enquadra nesses leitores de livros sobre obras literárias, mude seu foco. Pode até ler. Mas, antes, leia integralmente as obras literárias focalizadas. É neste sentido que o colega do Blogueiro dizia que literatura é para ler, não para estudar. Nem mil livros de crítica e interpretação juntos conseguem nos revelar o que uma obra de Machado de Assis, de Saramago, de Gonçalves Dias, de Fernando Pessoa nos revela à simples leitura. Os livrinhos que circulam por aí apresentando análise e interpretação das obras não passam de meros simulacros, tentativas sempre frustradas de substituir o insubstituível. Como foi dito acima, você pode até se servir desses livrinhos, depois que fizer a leitura das obras, para auxiliá-lo a observar melhor este ou aquele detalhe que poderá ser focalizado numa prova. Apenas isso.

Diria hoje aquele colega, com muita razão, que uma canção é criada para ser ouvida, uma pintura é criada para ser vista, um romance é criado para ser lido. Nada pode substituir o que denominamos, singelamente, contemplação da obra de arte, já que ela é destinada exatamente a isso.

Você deve ter inferido, com os comentários do Blogueiro, que o hábito da leitura não é um fato para morrer após os vestibulares, mas, ao contrário, algo que levará para toda a sua vida, algo que o fará experimentar conhecimentos e emoções sobre a própria natureza do ser humano. A literatura revela, por meio do discurso, a humanidade verdadeira e autêntica. Perguntas em exames vestibulares e concursos são meros incidentes que não devem afastá-lo do hábito de fruição das próprias obras, ou seja, um hábito formador, um modo de refletir permanentemente sobre o mundo, a vida e a relação entre o homem e o universo.

É claro que você não quer ser para sempre um iletrado. Pense bastante nisso!

 

De que o quê

Wednesday, June 14th, 2017

Enquanto espera a classificação do Vestibular de Inverno da Unesp, você certamente não vai ficar parado. O vestibular de 2018 ocorrerá logo, assim como os de outras universidades, que sua situação de vestibulando obriga a também prestar. Como é óbvio, você quer ser aprovado e não medirá esforços e vestibulares para consegui-lo.  Se for aprovado agora, agarre sua vaga.

Num caso ou noutro, vale aqui um bom lembrete para auxiliá-lo com o aprimoramento da sua capacidade de responder com clareza e correção a respostas a questões discursivas e em redações, quer no curso universitário, quer em vestibulares: o emprego errado da preposição de antes da conjunção que. Trata-se de um equívoco que pode comprometer o charme de seu discurso, tanto oral como escrito.

Já prestou bastante atenção às falas de personalidades em entrevistas a rádios e televisões? Se prestou, deve ter muitas vezes percebido que os entrevistados brasileiros, alguns muito conhecidos e ilustres, escorregam ao introduzir um de completamente desnecessário em muitas passagens de suas falas. Será que o fazem também ao escreverem? Muito provavelmente, a não ser que se sirvam de ghost-writers para traduzir suas opiniões em textos e documentos. Observe alguns exemplos do que o Blogueiro está apontando:

 

Meu grande amigo Jonas disse de que está preocupado com a situação nacional.

O acusado confirmou de que não pode mais suportar tantos processos.

Todos os representantes das classes profissionais consideram de que esse projeto de lei será prejudicial.

 

Notou? Em todos os três exemplos forjados pelo Blogueiro com base em textos reais publicados via internet ocorre a preposição de sem qualquer justificativa, o que é lamentável. Os verbos dizer, confirmar e considerar, quando têm seu objeto direto representado por uma oração substantiva precedida do conectivo que não precisam desse de. Observe o que aconteceria se os objetos diretos, em vez de orações, fossem sintagmas nominais:

 

Meu grande amigo Jonas disse a verdade.

O acusado confirmou sua decepção.

Todos os representantes consideram esse projeto de lei prejudicial.

 

Ficou claro? Os três verbos mencionados pedem como complemento um objeto direto (justamente chamado direto por não necessitar de preposição para relacioná-lo ao verbo). Assim, quando tal objeto direto é representado por uma oração substantiva, não existe a menor necessidade de inventar a preposição antes do que. Exatamente o contrário ocorre com as orações subordinadas substantivas objetivas indiretas, que são sempre precedidas de uma preposição solicitada pelo verbo. Tal preposição pode ser, inclusive, de, como nos exemplos: Desconfio de que a outra equipe falsificou os resultados (desconfio disso); Ela não precisa de que a protejam (não precisa disso). Nestes dois casos entre parênteses fica claro que o verbo é transitivo indireto e solicita a preposição de antes do complemento.

Como sair dessa enrascada? Você já descobriu a solução pelo modo como o Blogueiro explicou: empregando um objeto não oracional, se a preposição desaparecer, não deve surgir quando o objeto for oracional, já que a oração será uma subordinada substantiva objetiva direta. O oposto é também verdadeiro: se a preposição se mantiver quando o objeto for não oracional,  justifica-se também no objeto oracional, revelando-se, portanto, como subordinada substantiva objetiva indireta. Dê uma boa estudada em exemplos de subordinadas objetivas diretas e também nas indiretas, para firmar bem esse conhecimento. Chega desse vício de inventar de que para cá, de que para lá.

 

As perigosas concordâncias

Thursday, June 8th, 2017

Outro dia o Blogueiro, verdadeiro maníaco por encontrar exemplos de equívocos, flagrou em noticiário na internet um cochilozinho de revisão. Observe:

 

Explosões em um  funeral mata pelo menos 12 pessoas no Afeganistão.

 

Notou também? Já que o sujeito é “explosões”, no plural, o verbo deveria estar também no plural:

 

Explosões em um funeral matam pelo menos 12 pessoas no Afeganistão.

 

Um lapso de concordância, como você deve ter notado. E por que será que aconteceu? Porque o redator, por um segundo, iludiu-se, tomando o plural pelo singular, vale dizer, considerando as explosões como um fato só. Nesse segundo de distração, que pode ocorrer a qualquer de nós, a flexão do plural foi enfraquecida pela ideia de uma só explosão e, quando o verbo foi escrito, recebeu essa influência de singularidade, flexionando-se no singular e causando uma ruptura da concordância com o sujeito. Como diz o povo, o revisor pisou na bola, deixando como estava. Além da mencionada, uma boa saída teria sido

 

Explosão em funeral mata pelo menos 12 pessoas no Afeganistão.

Percebeu você o problema com clareza? Sim, mas avaliou também que, pelo fato de estar na rede, não deve ter sido considerado um grande problema. Os textos nela publicados não têm revisões muito exigentes, razão por serem uma verdadeira plantação de cochilos para ser colhidos pelos professores de português. Os revisores, nesses casos, recebem apenas um figurado puxão de orelha.

O maior problema estará se o texto for de uma redação sua, ou de uma resposta a questões discursivas de história, geografia, filosofia, biologia, etc., etc. Esse é um território perigoso, em que não se pode errar sem receber penalização, ou seja, desconto na nota. E ainda mais se a concordância equivocada influir no conteúdo do período como um todo, alterando o teor de sua resposta.

Para confirmar o perigo, observe este outro exemplo, agora forjado, mas bem possível:

 

Ações de hackers europeus causa prejuízos a empresas brasileiras.

 

Notou? Muito provavelmente aqui, outro fator somou-se aos acima comentados: a distância entre o núcleo do sujeito (ações) e o do predicado (causa). Esse distanciamento enfraqueceu a noção de plural e levou o escritor a flexionar o verbo no singular, erradamente, é claro. O correto seria escrever

 

Ações de hackers europeus causam prejuízos a empresas brasileiras.

 

Os exemplos contidos neste artigo, portanto, devem servir para você tomar o máximo cuidado com essas perigosas concordâncias, provocadas  por distrações ao longo das orações que escrevemos. Como evitar esse perigo? Simples. Leia sempre duas vezes, atentamente, o período que acabou de escrever. Estes e outros equívocos vão se revelar e você terá tempo de fazer os necessários reparos.

 

Não deixe isar dar azar!

Thursday, June 1st, 2017

Alguns estudantes costumam reclamar por não entenderem completamente a diferença entre os finais de palavras isar e izar e por isso acham que essa é a origem de seus erros no emprego dessas terminações. Será? Isso tem sua parcela de verdade. Quem conhece bem as razões gramaticais e ortográficas para o emprego de isar e izar com certeza não errará. Mas, convenhamos, não é muito fácil conhecer todas essas razões. Até bons estudiosos por vezes vacilam.

Que fazer, então? Para quem não consegue dominar todos os aspectos gramaticais e ortográficos, há outro lado para essa moeda. Pode-se não errar, servindo-se de um artifício. Vamos ver se você percebe.

Em primeiro lugar, você já deve ter observado que as palavras com essas duas terminações são verbos. Em segundo, já sabe que os verbos em izar correspondem a uma quantidade muitíssimo mais numerosa que os terminados em isar. Por quê? Porque se trata de verbos derivados de substantivos ou de adjetivos que ganham o sufixo izar. E você sabe que substantivos e adjetivos são as palavras mais numerosas do idioma. Assim, do adjetivo americano se forma americanizar; de eterno, eternizar; de símbolo, simbolizar; de temor, atemorizar; de urbano, urbanizar; de vândalo, vandalizar; de visual, visualizar, e assim uma enorme quantidade de outros.

Aqui surge uma informação fundamental. Nos verbos terminados em isar as palavras primitivas já possuem o s final, de sorte que o verbo se forma com o sufixo ar. Ou então, em uns poucos casos, os verbos em isar já vieram formados de outros idiomas com essa terminação ou equivalente.

Outra grande vantagem que você pode tirar desse conhecimento, que evita a gramatiquice, está no fato de os verbos em isar constituírem um conjunto pouco numeroso e limitado, apenas vez por outra aumentado por palavra de terminologia científica. Assim, basta conhecer a lista para resolvermos facilmente nossas dúvidas. Eis os principais verbos, por mais usados, com terminação em isar, com as origens indicadas entre parênteses:  alisar (liso), analisar (análise), anisar (anis), avisar (aviso), bisar (bis), catalisar (catálise), precisar ( preciso)cutisar (cútis), descamisar (camisa), dialisar (diálise), divisar (divisa), eletrolisar (eletrólise), encamisar (camisa), escamisar (camisa), frisar (frisa), frisar (friso), improvisar (improviso), grisar (gris), guisar (guisa), irisar (íris), hidrolisar (hidrólise), lambrisar (lambris), lapisar (lápis), paralisar (paralisia), pesquisar (pesquisa), pisar (lat. pinsare), propolisar (própolis), psicanalisar (psicanálise), repisar (pisar), reprisar (do francês repriser), revisar (do espanhol revisar), tamisar (do francês tamiser), televisar (tele + visar), visar (do francês viser).

Percebeu? São poucas palavras, e essa lista poderia ainda ser diminuída com a eliminação de algumas cujo uso é raro ou técnico ou científico, que provavelmente nunca aparecerão em textos que você ler. Não é nada difícil, portanto, a memorização.

O que se depreende deste fato? Algo bastante elementar, como diria Sherlock Holmes: o pequeno número de verbos terminados em isar funciona como parâmetro para ter certeza dos que devem ser escritos com izar. Compreendeu agora? Isso sem nenhuma gramatiquice, vale dizer, sem necessidade de dominar normas de formação das palavras. Seu objetivo, ao estudar, não é compreender a regra ortográfica originada pela formação dessas palavras, mas, simplesmente, saber escrevê-las. Evidentemente, sempre poderá haver uma duvidazinha aqui, outra ali, mas a grande maioria dos casos estará resolvida com as recomendações colocadas neste artigo pelo Blogueiro.

Conclusão que é, de fato, uma introdução: a ortografia não é algo aleatório, criado pelo capricho dos gramáticos e filólogos, mas, na verdade, é uma organização muito lógica, cujos segredos se pode dominar sem excessivo esforço e sem ser preciso decorar regras. Pense nisso quando tentar resolver outras dúvidas, pense que a ortografia é, de fato, o que está escrito nos textos, pense que por trás disso há uma lógica que, uma vez devassada, torna o grafar muito mais fácil.