Archive for April, 2017

Os problemas da decoreba

Wednesday, April 26th, 2017

Um dos termos mais empregados na gíria dos estudantes é decoreba, que significa hábito ou mania de decorar, de estudar memorizando fórmulas, datas, aspectos, características, sem ir ao fundo dos conteúdos para aprender de fato. Vale dizer: estudar sem aprender o principal, o núcleo, mas apenas os aspectos periféricos. Isso realmente é válido?

Na verdade verdadeira, como dizemos brincando, não é. Realmente não é. Quem vive da decoreba ignora que não só os estudantes evoluem em seus modos de estudar, mas também as bancas elaboradoras em seus modos de perguntar. Se você examinar com atenção as provas de diferentes exames vestibulares atuais, verificará com certeza que as questões exploram o que é principal nos conteúdos, deixando de lado o que é apenas marginal, complementar.

Em qualquer ciência, ao assimilar e dominar fundamentos e conteúdos teóricos, os elementos periféricos são assimilados automaticamente, em virtude das estreitas relações que mantêm com tais conteúdos. Bom exemplo é a Medicina. Se você encontrar uma terminologia, uma relação de termos usados na Medicina, poderá memorizar o significado desses termos, não necessariamente a ciência que os utiliza para denominar os conceitos com que trabalha.

Há, evidentemente, em qualquer ciência, muitos dados que se memorizam, não pelo simples memorizar, mas pelo fato de estarem indissoluvelmente inseridos na atividade científica, razão por que, com a ajuda desta, são registrados na memória com menor esforço.

Percebeu? A memorização só é válida, em qualquer estudo de qualquer disciplina, na medida em que os elementos decorados não se fechem em si mesmos, mas impliquem e evoquem suas relações com os fatos, fenômenos e conceitos dessa disciplina. Fazendo um trocadilho, podemos dizer que o decorar não pode ser decorativo. A própria palavra decoreba, que quase sempre pronunciamos em tom jocoso, debochado, constitui prova disso.

Com base nestes lembretes, você deve mudar um pouco a ótica de seu método de estudo, passando a considerar a memorização apenas uma ferramenta auxiliar, e não o fundamento de seu aprendizado. Aprender é muito mais profundo.

 

 

 

 

 

Afinal, que é um parágrafo?

Wednesday, April 19th, 2017

Alguns estudiosos costumam comparar o parágrafo, entendido como unidade de um texto em prosa, com a estrofe, unidade de um texto em verso. É fácil entender a estrofe como unidade do texto em verso. Num soneto, por exemplo, verificamos com facilidade que a separação dos versos em quatro conjuntos, dois de quatro versos (quadras ou quartetos) e dois de três versos (tercetos) não é arbtrária, mas corresponde a quatro planos de significado, unidos numa sequência semântica da qual o último terceto encerra a chamada chave de ouro, magnífica conclusão do poema. Leia qualquer soneto de Camões, de Bocage ou de Gregório de Matos para verificar esse fato.

O problema, porém, é o parágrafo. Sua comparação com a estrofe não é lá muito fundamentada: são fenômenos bastante diferentes. Muitos estudiosos já tentaram estabelecer uma teoria do parágrafo, mas fracassaram, não tendo conseguido ir além do fato de que há certa unidade de sentido em cada um deles na sequência que os faz constituir um texto.

Isso é muito pouco e pouco preciso, os escritores que o digam! Se houvesse indicadores exatos de quando sair de um parágrafo para outro, o problema nem existiria, mas, na verdade, não há. As lições que lemos a respeito em livros sobre redação nos dizem que devemos sentir, de certo modo intuir o ponto em que um parágrafo se encerra e se inicia outro. Acrescentam que cada parágrafo é uma unidade de sentido. Não há, entretanto, normas e regras invariáveis para paragrafar. E é justamente por isso que, quando saímos dos livros e apostilas para o ato de criação de um texto, temos dúvidas e mais dúvidas. Que fazer?

O primeiro ponto a extrair dos comentários acima é que não há critérios cem por cento objetivos para elaborarmos a divisão de um texto em parágrafos. O segundo, que cada um deve perceber por si mesmo, conforme a sequência de períodos que vai gerando o texto, o momento de fazer a transição, iniciando um novo parágrafo. A verdadeira unidade de um texto, neste sentido, é o período. É a sequência de períodos que vai conduzindo o sentido de um texto para o seu encerramento. Os parágrafos são conjuntos de períodos estabelecidos de acordo com o que vai percebendo o escritor à medida em que escreve. É por esse motivo que encontramos textos em que predominam extensos parágrafos e outros em que os parágrafos apresentam formas mais variadas.

Para falar francamente, os parágrafos de um texto poderiam ser até suprimidos, escrevendo-se tudo numa só sequência, sem qualquer prejuízo para o significado global e unitário de um texto. É o que, aliás, alguns escritores experimentaram fazer, na modernidade, excluindo a divisão de narrativas em parágrafos e até mesmo suprimindo sinais como o travessão de diálogo e as aspas. É claro que você não vai fazer isso em sua redação de concurso ou de vestibular, pois não está de fato criando uma narrativa literária. O melhor caminho, portanto, é seguir mesmo sua própria percepção do texto que vai sendo criado e dividi-lo em parágrafos que se ajustem melhor à sequência, até mesmo para facilitar o trabalho do seu leitor.

Quer saber de uma coisa? Não se preocupe muito com a exatidão da divisão em parágrafos, mesmo porque esta não existe, mas siga sempre seu próprio julgamento, ou, como dizem os ingleses, seu feeling. É isso aí!

 

 

Muito cuidado com os senões

Wednesday, April 12th, 2017

Usos bastante comuns na fala corriqueira podem, na escrita, causar confusões bastante perigosas. Isto se explica pelo fato de que a escrita acrescenta aspectos de que a fala não tem nenhuma necessidade.

A todo instante você emprega, por exemplo, a palavra senão, que pode funcionar na frase como substantivo, preposição, conjunção. É claro que você não se dá conta disso quando fala, nem tampouco quando escreve: simplesmente fala e simplesmente escreve. Na fala, por isso, nada a comentar. Mas na escrita… bom, aí teremos outra estória. Por isso, você acaba sendo obrigado a perceber que há diferença relevante entre senão e se não.

O Dicionário Aurélio exemplifica muito bem os usos de senão:

Nenhum senão no todo dela existe. (Vale dizer: nenhum defeito, nenhuma mancha, nenhuma mácula. Senão, neste exemplo, é um substantivo, cujo plural é senões).

Ninguém senão os irmãos Correias compareceu à cerimônia. (Vale dizer: ninguém exceto os irmãos Correias, ninguém salvo os irmãos Correias, ninguém a não ser os irmãos Correias. Senão, neste exemplo, funciona como preposição).

Lute, senão está perdido. (Vale dizer: de outro modo está perdido, caso contrário está perdido. Senão, neste exemplo, funciona como conjunção).

 

Se fosse apenas isso, não haveria grandes problemas, não é? Você já estudou bastante estes usos e sabe como resolver as eventuais dúvidas. Na fala, você não se dá conta de haver qualquer problema, pois a pronúncia é a mesma, embora o sentido seja diferente. A dúvida ocorre na escrita, em que surge uma nova personagem, que tem o dom de atrapalhar tudo no enredo: se não. Observe os exemplos:

 

Se não entregar a obra na data combinada, o contrato será rescindido. (Vale dizer: caso não entregue a obra na data combinada. O se, neste emprego, é uma conjunção condicional).

Quero saber se não irão entregar a obra na data combinada. (Vale dizer: quero saber se acaso, se por acaso, se porventura. Se, neste exemplo, é uma conjunção integrante).

 

E agora? Como escapar dessa enrascada? Conselho amigo do Blogueiro: se não quer se aprofundar nesses conhecimentos, mas tão somente não errar, deixe senão de lado; preocupe-se apenas em ter certeza do emprego de se não. O raciocínio até parece simplório, mas é verdadeiro: se souber distinguir com certeza o emprego de se não, tudo o mais será senão.

Captou? Então, mãos à obra, digo, ao se não, para não mais se equivocar em distingui-lo de senão. Valeu?

 

Os ecos: chatinhos e perigosos

Wednesday, April 12th, 2017

Um dos aspectos que o Blogueiro nunca colocou em seus artigos, a não ser de passagem, é o das repetições desnecessárias. Os escritores profissionais são muito hábeis em evitá-las, porque enfeiam e atrapalham seu estilo. Os estudantes, porém, apesar das observações dos professores de Língua Portuguesa, muitas vezes parecem não dar a mínima para elas. Mas que são feias e perigosas, são mesmo!

Observe esta passagem:

 

De repente, o presidente disse que somente delinquentes são capazes de cometer atos tão injustamente deprimentes contra a população inocente que lhes é indiferente.

 

Não pense que se trata de exemplo inteiramente forjado pelo Blogueiro. Textos de jornais e revistas, sobretudo quando transcritos para a internet, estão cheios de repetições como essas. Os gramáticos denominam ecos tais repetições de finais de palavras e condenam esse emprego, considerando-o um vício de linguagem. São oito entes que povoam um só parágrafo, representando um incômodo para o leitor e caracterizando o desleixo do escritor em seu texto. E é muito fácil evitar esse defeito. Observe agora:

 

Naquele momento o presidente disse que apenas bandidos são capazes de cometer atos injustos e deprimentes contra a população.

 

Melhorou bastante, não? E não deu grande trabalho. Imagine você colocar um parágrafo como aquele em sua redação ou em uma resposta discursiva! Não espere nenhuma condescendência da banca, pois esta sabe muito bem que seria fácil evitar as repetições fastidiosas de finais de palavras.

Cuidado, portanto, com palavras terminadas em ente e ão, abundantes em nosso idioma e capazes de iludir quem escreve. Anote mais um exemplo:

 

O cão é um animal de estimação cuja alimentação pode ser natural ou por ração.

 

Muito feio, não é? Esses ecos em ão representam um fator negativo em qualquer texto, caracterizando, na opinião do leitor, incapacidade expressiva de quem escreve. E é quase uma brincadeira  evitá-los:

 

Os cachorros são animais de estimação cujo alimento pode ser natural ou produzido industrialmente.

 

Compreendeu? Sempre que fizer a revisão de um texto, seja redação ou resposta discursiva, trate de evitar os ecos, que, além de tornarem a leitura desagradável, podem até mesmo prejudicar o significado de frases inteiras.

O Blogueiro ainda se lembra de um professor de português, que deu em certa aula um exemplo chocante, verdadeiramente assustador para o perigo dos ecos:

 

Cruz! Faltou a luz quando eu propus a solução que não reduz a produção!

Você não vai querer prejudicar seu texto com essas desajeitadas repetições, vai?

 

Você é a griffe

Wednesday, April 12th, 2017

A resposta é simples, elementar: porque não é o curso que faz o estudante; é o estudante que faz o curso. Vale dizer: nenhum curso de nenhuma universidade do país ou do mundo é capaz de garantir a seus formandos o pleno sucesso na carreira. A universidade não fornece sucesso, fornece ensinamentos, técnicas, especializações. O sucesso tem de ser buscado individualmente pelo profissional que se forma, de acordo com suas qualidades e determinação.

Esta constatação explica muito bem o fato de que um estudante formado pela melhor universidade do Brasil em seu melhor curso pode não engrenar na carreira. A realid          Toda a concorrência entre os candidatos de exames vestibulares parte do princípio de que estão lutando pelos melhores cursos, para se tornarem, no futuro, os melhores profissionais do mercado de trabalho. Outro princípio diz respeito ao julgamento de que os melhores cursos estão situados nas universidades públicas, razão que leva à grande concorrência atualmente verificada em seus exames vestibulares. Um último julgamento estipula que, no interior das universidades públicas, certos cursos são considerados muito mais promissores que outros, capazes de garantir uma vida profissional de sucesso aos que os fazem. Dá para perceber, com base nestas reflexões, que o grande vetor dos vestibulares é o futuro profissional promissor buscado pelos candidatos.

Tudo isso é verdadeiro? Em termos. Cabe fazer algumas interpretações que não entrarão necessariamente em acordo com tais comentários. O Blogueiro dá um exemplo dos muitos de que dispõe em sua observação da realidade cotidiana: certo arquiteto formado por universidade pública não conseguiu emplacar sua carreira, apesar de ter feito um dos melhores cursos do país. Lutou, lutou, mas não conseguiu mais que pequenos sucessos que lhe garantem um nível de vida apenas razoável. Na mesma cidade, certo arquiteto formado por uma faculdade particular, sem grande ressonância nacional, tornou-se o mais respeitado e requisitado, fazendo uma carreira de respeito, com projetos até mesmo em outras cidades e estados brasileiros. Ora, pelo julgamento comum dos candidatos, o resultado deveria ser o oposto. E por que não foi?

ade do trabalho profissional acresce componentes que as universidades não podem prever, ainda mais porque tal realidade está sempre mudando, evoluíndo, transformando-se. A realidade é dinâmica.

Por isso, já é tempo de pensar que, em todos os seus estudos, desde o ensino fundamental, é você que está no comando, é você que passa no vestibular, é você que faz o curso (bem ou mal), é você que, diploma às mãos, olha para o horizonte da realidade e diz: Aqui vamos nós. Para o sucesso. Para a vitória. É preciso que tenha em mente, porém, que tal sucesso será o resultado de sua relação com o dinamismo da realidade.

Percebeu? Esse negócio de que certas universidades são griffes e certos cursos são melhores que todos é uma balela (balela: informação anônima e sem fundamento). Para efeito de sucesso na vida profissional, não há universidades griffes, não há cursos griffes.

A griffe tem de ser você.