Arquivo de 9 de março de 2016

A armadilha da escrita “internetiana”

quarta-feira, 9 de março de 2016

A ultratecnologia que nos enche de aparelhos e o uso que fazemos deles escondem uma armadilha perigosa, principalmente para quem vai prestar concursos públicos e vestibulares: a ilusão de que, ao nos comunicarmos pelos diversos compartimentos da internet e das redes sociais, nosso discurso assume o brilho da modernidade. Deste modo, o que aprendemos na escola em termos de escrever valeria muito menos do que aprendemos por imitação em nossa comunicação nas redes e nos diversos programas colocados à disposição de nossos pecês, laptops, tablets e celulares. Valeria mesmo? Seria um avanço?

Claro que não. Nada mais útil para nosso desenvolvimento mental que o ler e o escrever textos. Foi pela leitura e escrita fora da web que nos formamos como pessoas capazes de pensar com clareza, de raciocinar e argumentar. Na escola, ainda hoje nos cobram, acertadamente, o desenvolvimento de habilidades de interpretação de textos e, mais acertadamente ainda, a capacidade de argumentar e a produção de textos de diferentes gêneros. A leitura e a escrita são e serão ainda por muito tempo insubstituíveis a qualquer profissional formado por universidade. Insubstituíveis para ingressar, insubstituíveis para formar-se, insubstituíveis para exercer a profissão. A utilização dos sites de comunicação da internet coloca-se, neste sentido, num segundo plano, e tem por função dominar um discurso específico característico daquele meio.

É, diria alguém, mas nós podemos usar os aparelhos modernos para produzir e ler textos, não podemos? Claríssimo que podemos; e utilizamos mesmo. Podemos, por exemplo, ler livros nos ebooks. Estes aparelhos  estão cada vez mais aperfeiçoados para proporcionar uma leitura agradável e produtiva. Os ebooks, queiramos ou não, substituirão em breve futuro os livros em papel. Lendo qualquer texto em um ebook não estamos alterando a natureza do texto, mas apenas utilizando um recurso tecnológico que substitui a folha de papel e a tinta por um aparelho eletrônico que tem a mesmíssima função de propiciar a leitura de textos, até com certas vantagens. Resumindo: ler um texto em um ebook é trocar o livro em papel pelo livro digital, sem qualquer alteração do texto e de seu conteúdo.

Este é o ponto. Comunicar-se pelos diversos programas fornecidos pela internet, bem como pelas redes sociais não cria um meio moderno de escrever, mas tão somente constitui uma forma particular de comunicar-se  por meio desses programas e dessas redes. Se uma pessoa achar que o tipo de discurso utilizado no bate-papo internetiano pode ser também empregado, por exemplo, numa redação ou em respostas a questões discursivas de concursos, está completamente equivocado. O resultado não será nada bom.

Compreendeu bem  a questão colocada pelo Blogueiro? Ler e escrever cada vez melhor textos implica desenvolver cada vez mais seu intelecto, sua capacidade de interpretar, sua habilidade de argumentar e defender um ponto de vista em alto nível, seja oralmente ou por escrito. Foi assim que você desenvolveu tais habilidades ao longo da escola e chegou aos dias de hoje em condições de ler e produzir textos com razoável competência. Por isso mesmo, você não é um daqueles profissionais que conhecem muito bem seu ofício, comunicam-se muito bem pelas redes sociais, mas se declaram incapazes de desenvolver qualquer tema por meio de uma redação perfeitamente estruturada e obediente à norma-padrão.

Continue não se iludindo, portanto, com o internetês. Empregado em seu meio particular, tem lá sua utilidade. Mal compreendido e transportado para a procução de textos, é uma ilusão perigosa. A questão aqui abordada poderia ser resumida por meio de um antigo provérbio: Em Roma, faça como os romanos. Vale dizer: cada forma de comunicação tem seu meio próprio e seus objetivos específicos. Respeite-os e evitará a armadilha ou as armadilhas do internetês. Valeu?