Arquivo de 4 de agosto de 2015

Dissertação e emoção

terça-feira, 4 de agosto de 2015

Como você deve saber, a dissertação, normalmente solicitada na maior parte dos vestibulares e concursos públicos, consiste numa argumentação em defesa de um ponto de vista assumido a respeito do tema apresentado. Sendo assim argumentativa, a redação de vestibulares e de concursos em geral não incorpora atitudes emotivas ou sentimentalismos. Trata-se tão somente de desenvolver o tema com base em raciocínio lógico que se desenvolve como linha argumentativa. Dissertação, portanto, não é poesia, não é crônica, não é narrativa, não é memória baseada em reminiscências de ordem sentimental.

Por isso mesmo, deve-se tomar muito cuidado, como mais de uma vez foi colocado neste Blogue, com lembranças que, ao longo da redação argumentativa, possam assumir um papel destacado demais, que ameace a integridade da linha demonstrativa do texto. O mesmo cuidado deve ser tomado com a profusão de pontos de exclamação, que denunciam a presença de emoções num texto em que estas devem estar inteiramente controladas. Não é por acaso que o ponto de exclamação recebeu mais de um nome ao longo do tempo: ponto exclamativo, ponto admirativo, ponto de admiração. Essa profusão de nomes se origina justamente no fato de tal sinal servir para marcar a presença de traços mais ou menos intensos de emoções no discurso, presença que cabe muito bem na poesia, na crônica, mas não na dissertação, que é avessa à expressão de emoções. Não é por acaso também que as interjeições são marcadas por ponto de exlamação, pois representam a emoção em estado intenso na fala e no discurso: Oh! ah! ui! Alguns estudantes adquirem não se sabe onde o vício de inflar seus textos com pontos de exclamação. Talvez achem bonito. Mas isso é perigoso e contraproducente, especialmente no caso dos textos dissertativos. Tomar cuidado, portanto.

Compreendeu bem? A melhor dissertação é aquela em que as emoções não invadem a sequência argumentativa, que flui ao longo do discurso com o objetivo apenas de demonstrar um ponto de vista. Na dissertação, o raciocínio domina em seu mais alto grau, diferentemente do que ocorre na poesia, em que as emoções e os sentimentos se expressam em seu grau mais alto.

Tudo isso pode ser sintetizado numa imagem: redação é como trânsito — respeite sempre a faixa em que se coloca.