Archive for August, 2015

Escrever bem não é luxo

Monday, August 31st, 2015

Algumas vezes você pode refletir sobre o que o Blogueiro faz neste site. Serão apenas lições sem muito efeito? Ou são muito importantes?

Claro que são muito importantes. Importantíssimas. O Blogueiro sabe o que faz e quer que você também atinja esse patamar. É possível? É. Basta querer e buscar com muito esforço e trabalho. A filosofia do Blogueiro é simples: Escrever é comunicar-se. Escrever bem é comunicar-se bem. E isso não vale apenas para vestibulares, mas para toda a vida profissional que terá pela frente. Compreendeu?

Foi por isso que, no artigo anterior, o Blogueiro chamou sua atenção para a conjugação dos verbos com pronomes átonos e suas variantes. Foi um lembrete importante, porque corre por aí muita balela sobre a desimportância dessas variantes. Alguns chegam, mesmo, a afirmar que estão superadas, que pronomes átonos são coisa do passado, ou uso de escritores sofisticados. Pensar assim é iludir-se. O  artigo anterior, bem como numerosos sites e blogues na internet demonstram que não é bem desse modo que tudo acontece. Algumas formas estão em desuso, mas outras estão ainda em uso constante. Observe os exemplos colhidos em jornais e revistas atuais:

 

A Marinha investiu nessa tecnologia por considerá-la uma etapa indispensável para realizar seu projeto mais ambicioso… (Folha de S.Paulo)

Tanto que nenhuma voz desse grupo tomou a providência de retificá-lo na definição … (Folha de S.Paulo)

… basta misturar água e farinha de trigo, criar uma massa e por fim enxaguá-la sob água corrente… ( Minha Saúde)

 

E aí? Você vai querer escrever como o povo vulgarmente fala na comunicação diária, coloquial, considerar ela, retificar ele e enxaguar ele? Aí é que vai cometer erro gramatical, pois pronomes do caso reto não podem ser objetos da oração; essa é função dos oblíquos. Então vamos voltar ao artigo anterior e verificar as variantes que ainda são usadas sem problemas: considero-o, considera-o, consideram-no; considerá-lo; retifico-o, retifica-o, retificam-no, retificá-lo, e assim por diante. São formas de uso comum no discurso formal oral e escrito. Você perderá pontos preciosos num vestibular, num concurso ou até numa entrevista para emprego se escrever ou falar: Encontrei ele ontem e me disse que havia uma vaga. O certo é dizer: Encontrei-o ontem e ele me disse que havia uma vaga. As empresas, hoje, precisam de funcionários cada vez mais capazes de desempenhar bem inúmeras atividades: bom raciocínio, boa capacidade de observação, agilidade mental, espírito crítico e, não tenha dúvida, bom discurso, que não envergonhe a firma. Nesse panorama, o uso dos pronomes átonos é uma característica importante. Voltemos então ao tema.

Ocorre um fato que quase sempre passa despercebido nesse emprego: na primeira pessoa do plural, há também uma modificação no verbo mesmo com o pronome nos: Exemplo: Consideramo-nos inocentes. Note que, em exemplos como esse, o –s da forma verbal é eliminado: Preocupamo-nos muito, encontramo-nos no parque, detestamo-nos. Será, pois, incorreto, escrever preocupamos-nos muito, encontramos-nos no parque, detestamos-nos.

Viu quanta minúcia há entre o verbo e os pronomes átonos? Isso você precisa mesmo aprender. Há blogues e blogues, sites e sites dedicados ao estudo de língua portuguesa que lhe darão as conjugações completas de qualquer verbo sem e com as variantes pronominais e explicações excelentes a respeito. Procure. Não pense que só há cálculo e combinações em Matemática e Física. A língua portuguesa frequentemente solicita raciocínios sofisticados para atingir a forma correta. Você tem de aprender. E sem reclamar! Você pode até nunca mais precisar de matemática, de física, de química, mas, com certeza, precisará sempre de um discurso oral e escrito bem estruturado, correto e claro, até mesmo se se tornar professor dessas disciplinas, engenheiro, astrônomo, etc., etc.

E sempre baseado no princípio que o Blogueiro adota: escrever corretamente não é luxo. É necessidade.

 

“Fi-lo, porque qui-lo”

Wednesday, August 19th, 2015

Parece estranha esta frase, não?

Corre o folclore político nacional a anedota: perguntado por jornalistas para explicar por que havia renunciado à presidência da república, Jânio Quadros teria respondido — Fi-lo, porque qui-lo. Vale dizer: fiz isso, porque quis isso ou porque quis fazer isso.

A anedota pode ser engraçada e pode não corresponder à realidade, mas não se pode negar que Jânio, professor de português e gramático, não tivesse falado corretamente. Falou, sim, no mais puro português culto.

Assim, nem sempre o estranho é errado, pode ser que seja correto e nós não sabemos explicar nem entender. Você tem de tomar cuidado com isso, porque é importante, para escrever bem, dominar todas as minúcias do idioma. As variantes pronominais átonas objetivas da terceira pessoa são válidas no discurso culto, embora em alguns contextos possam já estar em desuso. Em desuso, sim, mas corretas, isso é preciso ser bem compreendido. Observe a conjugação de verbo e variantes com base na frase Faço-o:

 

Faço-o

Faze-lo

Fá-lo

Fazemo-lo

Fazei-lo

Fazem-no.

 

Percebeu como as variantes pronominais se comportam, mudando a forma e alterando até a forma verbal?  Pois é. Faço-o, fá-lo, fazemo-lo, fazem-no não são tão desusados assim. Observe agora no pretérito perfeito, que é o tempo da frase do ex-presidente:

 

Fi-lo

Fizeste-o

Fê-lo

Fizemo-lo

Fizeste-lo

Fizeram-no.

 

Qualquer verbo transitivo direto pode suportar essas variantes. No discurso culto, usar fê-lo e fizeram-no é coisa comum.

Comece a observar a partir de hoje nos textos formais — artigos de jornais, revistas e revistas universitárias, editoriais, livros — a ocorrência das variantes e quais as mais comuns. E pode usá-las à vontade em seu discurso escrito: enriquecê-lo-ão.

Jânio fê-lo porque qui-lo. Queira-o você também, sem medo de fazê-lo. Captou?

 

A existência dos vestibulartes

Thursday, August 6th, 2015

Este assunto já foi abordado algumas vezes neste, blogue, de passagem. Agora vamos desenvolvê-lo um pouco mais.

Algumas pessoas reclamam que os vestibulares são uma instituição injusta, que muitos estudantes são prejudicados e jamais conseguem ingressar em cursos universitários, que o ideal seria todos poderem ter acesso a cursos tão logo encerrassem o ensino médio, sem necessidade de exames. É claro que não deixam de ter alguma razão, pelo menos em termos ideais.

Esquecem, porém, que o país, em condições que predominam há muito tempo, não é capaz de possibilitar a todos, diretamente, esse benefício. As universidades, infelizmente, são poucas para muitos. A entrada da universidade representa, deste modo, uma espécie de funil: nem todos os que chegam conseguem ir adiante. Esse fenômeno, porém, não é só de nosso país. Até nas mais desenvolvidas nações do mundo acontece: a entrada da universidade não será ultrapassada por todos. Piores aínda são os países em que as boas universidades são caras, caríssimas, e poucos podem pagar esse preço.

Injusto? Talvez. Mas é a realidade a enfrentar. Em nosso país as universidades públicas, reconhecidamente de grande qualidade, são gratuitas, precisam por isso todos os anos preparar concursos de acesso — os exames vestibulares — para que os estudantes com maior preparo possam ingressar, sem que se cometam injustiças.

Você está nessa. Há muito tempo se prepara para conquistar sua vaga. Para uns, é a primeira tentativa; para outros, a segunda ou terceira, todos firmemente imbuídos do forte desejo e ideal de aprovação.

Quando você passar, portanto, deve sempre lembrar que muitos ficarão para trás e terão de estudar redobrado para conseguirem, no futuro, a aprovação. Então não reclame: trate de estudar com muita vontade e formar-se para não jogar fora essa oportunidade que os exames e o seu enorme esforço proporcionaram, fazendo com que você seja um indivíduo diferenciado .

Apesar da aparente injustiça desse modo de seleção, não esqueça jamais: no futuro, você enfrentará muitos concursos para acesso profissional, seja no serviço público, seja na iniciativa privada; e, mesmo que venha a trabalhar como autônomo, ainda restarão as licitações de que terá de participar para vencer concorrências  e conquistar contratos.

Se você se tornar um profissional assalariado, então, prepare-se para muitos concursos e exames para subir na carreira e alcançar os cargos mais elevados.

Os exames e concursos, portanto, farão sempre parte de sua vida, porque sempre haverá poucos cargos a conquistar e muitos candidatos; ou sempre haverá  concursos de ascensão profissional, ou sempre haverá licitações e concorrências para demonstrar que sua proposta profissional é a melhor, a mais viável.

Tudo o que fica dito pode ser resumido numa frase: ao longo de sua vida profissional, sempre haverá um leão a domar. Procure ser um grande domador!

 

 

Dissertação e emoção

Tuesday, August 4th, 2015

Como você deve saber, a dissertação, normalmente solicitada na maior parte dos vestibulares e concursos públicos, consiste numa argumentação em defesa de um ponto de vista assumido a respeito do tema apresentado. Sendo assim argumentativa, a redação de vestibulares e de concursos em geral não incorpora atitudes emotivas ou sentimentalismos. Trata-se tão somente de desenvolver o tema com base em raciocínio lógico que se desenvolve como linha argumentativa. Dissertação, portanto, não é poesia, não é crônica, não é narrativa, não é memória baseada em reminiscências de ordem sentimental.

Por isso mesmo, deve-se tomar muito cuidado, como mais de uma vez foi colocado neste Blogue, com lembranças que, ao longo da redação argumentativa, possam assumir um papel destacado demais, que ameace a integridade da linha demonstrativa do texto. O mesmo cuidado deve ser tomado com a profusão de pontos de exclamação, que denunciam a presença de emoções num texto em que estas devem estar inteiramente controladas. Não é por acaso que o ponto de exclamação recebeu mais de um nome ao longo do tempo: ponto exclamativo, ponto admirativo, ponto de admiração. Essa profusão de nomes se origina justamente no fato de tal sinal servir para marcar a presença de traços mais ou menos intensos de emoções no discurso, presença que cabe muito bem na poesia, na crônica, mas não na dissertação, que é avessa à expressão de emoções. Não é por acaso também que as interjeições são marcadas por ponto de exlamação, pois representam a emoção em estado intenso na fala e no discurso: Oh! ah! ui! Alguns estudantes adquirem não se sabe onde o vício de inflar seus textos com pontos de exclamação. Talvez achem bonito. Mas isso é perigoso e contraproducente, especialmente no caso dos textos dissertativos. Tomar cuidado, portanto.

Compreendeu bem? A melhor dissertação é aquela em que as emoções não invadem a sequência argumentativa, que flui ao longo do discurso com o objetivo apenas de demonstrar um ponto de vista. Na dissertação, o raciocínio domina em seu mais alto grau, diferentemente do que ocorre na poesia, em que as emoções e os sentimentos se expressam em seu grau mais alto.

Tudo isso pode ser sintetizado numa imagem: redação é como trânsito — respeite sempre a faixa em que se coloca.