Arquivo de 24 de abril de 2015

Haja vista, hajam vista. Difícil? Que nada!

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Se você é daqueles que não gosta de errar, mas não quer deixar de usar expressões que atribuem certo charme de bom escritor a seus textos, por certo já esbarrou em dúvidas sobre o emprego de haja vista e construções semelhantes. Esta expressão significa, de fato, veja, observe, note e acepções semelhantes. E muito provavelmente algum colega já reparou em seu texto para dizer: Escreveu errado, meu amigo! E você acaba não tendo certeza se errou mesmo, ou se seu amigo é que não sabe nada a respeito e imagina que sabe.

Para dirimir tais dúvidas, mestre Arthur Schwab apresentou dez exemplos em seu livro Louçanias de Linguagem. Observando-os com olhos atentos e vontade de aprender de uma vez por todas, você descobrirá que o uso prático de haja vista é bastante elástico em termos de diferentes construções gramaticais, de sorte que o mais difícil, no caso, parece ser não acertar. Eis os dez exemplos pesquisados por Arthur Schwab e dados por ele como português correto:

Hajam vista os lances que seguem. (Sá Nunes)
Haja vista dos excertos seguintes. (Id.)
Haja vista, por exemplo, ao que se encontra no Manual do Cristão (Id.)
Haja vista a esses magníficos exemplos. ((Id.)
Haja vista os teus favores às obras do porto da Bahia. (Rui Barbosa)
Hajam também vista as frases… (Cândido Lago)
Haja vista ao Soares dos Passos. (Castilho)
Haja vista às tão graciosas e admiráveis fábulas de La Fontaine. (Id.)
Hajam vista exemplos tais de autores lusitanos. (Lindolfo Gomes)
Haja vista dos elos que eles representam na cadeia da criação. (Camilo Castelo Branco).

Percebeu a moral da estória? Não? Então entenda assim: o emprego de haja vista é muito variado, praticamente não há possibilidade de errar. Guarde esses dez exemplos com que o mestre procurou cercar a maioria dos empregos. Compare a frase em que você usou a construção com tais exemplos. Muito provavelmente vai ter a mesma estrutura sintática de algum deles. Pode empregar então sem susto. Em pouco tempo você não precisará consultar mais os dez exemplos e saberá o que fazer, sem ter de folhear gramáticas e decorar regras.

Aproveite esta lição: boa linguagem é bom uso, não é ter dez gramáticas na estante. Se começar a observar com mais atenção os usos dos bons escritores que você tem de ler para os exames vestibulares e que continuará lendo ao longo da vida para manter sempre um discurso elegante, não tenha dúvidas de que acabará escrevendo cada vez melhor. E isso é muito importante hoje em dia. Em qualquer profissão, quem escreve bem está três passos adiante dos concorrentes.

Ah! E não confunda: internetês é uma linguagem; português é outra, cada qual válida e eficiente em seu próprio contexto. Valeu?