Arquivo de 13 de abril de 2015

Respostas inseguras: um perigo!

segunda-feira, 13 de abril de 2015

Para encerrar este ciclo de artigos postados sobre os modos de responder a questões discursivas de todas as disciplinas, observe hoje o pior tipo de resposta: aquela em que o candidato, ou por excesso de cuidado, ou por insegurança mesmo, parece ao mesmo tempo apresentar uma resposta e uma manifestação de dúvida. Isso é péssimo.

Ora, se existe algo que você, ao responder perguntas discursivas, pode ter certeza é se sabe ou não sabe a resposta plena. Se sabe, nenhum problema, tem de levar em conta os alertas que foram feitos em artigos anteriores para atribuir a sua resposta uma forma clara e transparente, que não vá causar dúvidas às bancas de correção sobre sua certeza. Vale dizer: se você sabe a resposta, só tem de tomar cuidado para não tropeçar no discurso.

O problema começa quando você tem certeza de parte da resposta e não muita da outra parte. O que fazer? Em primeiro lugar deve pensar que, se sabe parte da resposta,  deve conseguir manifestar claramente essa parte, para receber parte da nota. Parece óbvio, mas não é tanto assim, porque você tem de tomar cuidado com o discurso em que demonstrará essa parte que sabe. E é melhor pensar assim: essa parte eu tenho certeza de que está correta; então, não vou deixar que a tentativa de responder também a de que não tenho tanta certeza atrapalhe. Isso mesmo. Boa política essa, que leva a separar, como diz o povo, alhos de bugalhos. É bom deixar os alhos bem claros e separá-los dos bugalhos.

Se o candidato, porém, menospreza tal cuidado e acredita que pode tentar outro caminho, é preciso estar alerta para não demonstrar, sem querer, insegurança. Este alerta é feito com base em experiências de correção e em estudos como o do livro da Vunesp que vem sendo citado desde o primeiro artigo desta série. Observe estes dois exemplos para perceber que, ao tentar esconder a insegurança, podemos fazer exatamente o oposto: revelá-la. Ainda está sendo focalizada a pergunta que serviu de base para os artigos anteriores: Explique o significado que adquire no texto de Darcy Ribeiro a expressão “guerra biológica”.

 

Primeira resposta: Seria o confronto entre os índios saudáveis e os brancos impregnados de doenças. Vivendo no meio da natureza por vários anos os índios não estavam imunes às doenças do velho mundo que seriam trazidas pelos europeus. Dessa forma, os índios morreriam facilmente com qualquer doença, até mesmo as mais fracas gripes. Esse fator seria decisivo para a dizimação dos nativos.

Segunda resposta: A “Guerra Biológica” no texto de Darcy Ribeiro seria a disseminação, entre os índios, das doenças que os brancos traziam, às quais os índios não eram imunes.

 

Se você vem lendo com atenção todos os artigos desta série, por certo detectou a manifestação de insegurança nas respostas causada pelo emprego dos verbos no futuro do pretérito: seria, seriam, morreriam, seria (na primeira resposta) e seria (na segunda resposta). Ora, o futuro do pretérito atribui a essas respostas um teor de incerteza. Afinal, seria ou não seria? Os candidatos estão em dúvida ou com receio de afirmar categoricamente? Esse é o problema. O futuro do pretérito, que na nomenclatura das gramáticas antigas era denominado, talvez com mais propriedade, condicional, acaba nas duas respostas sugerindo uma evasiva: o candidato não sabe direito se quer ou não afirmar. Poderia não ser insegurança, mas apenas um uso equivocado desse tempo verbal? Poderia, mas o efeito é exatamente o mesmo para o leitor da resposta: está ou não afirmando e confirmando?

Pelo que ficou dito, tome muito cuidado, em suas respostas, com o futuro do pretérito, para evitar que, como nas duas respostas acima, uma certeza se torne, na sua resposta, incerteza ou seja tomada como insegurança. Note que, em ambas as respostas, a simples mudança do tempo verbal para o imperfeito e o perfeito do indicativo elimina o problema: era, eram, morriam, foi (na primeira resposta) e era (na segunda resposta), sendo que nesta, em termos de discurso, ficasse melhor empregar o presente do indicativo e dizer significa, já que se faz menção direta ao texto de Darcy Ribeiro.

Valeu o alerta? Respostas precisam dar sempre sugestão de segurança, de certeza. Manifestação de dúvida não é resposta adequada.