Archive for March, 2015

Falar demais, dizer de menos

Friday, March 27th, 2015

Retomando a série de artigos sobre as respostas discursivas e aproveitando para lembrar que o que o blogueiro explica serve para todas as disciplinas, e não apenas língua portuguesa, repare no título deste artigo. Reparou?  Não parece um paradoxo? Parece, mas não é, trata-se de um fato comprovável. Você mesmo critica livros que é obrigado a ler, afirmando que são muito complicados, que escrevem muito, para a gente no final não entender quase nada. Não é fato? É, sim. E sua conclusão é verdadeira. Há escritores que adoram frases longas, enfeitadas e que acabam não dizendo muita coisa para nós. Isto ocorre mesmo em artigos de jornais assinados por pesquisadores, especialistas, políticos, empresários. Alguns têm o dom de dizer exatamente o que querem dizer, fazendo com que nosso entendimento seja pleno. Têm o dom da precisão. Outros parecem ter o dom ou o prazer oposto: preferem encompridar os períodos, tornando-os às vezes muito longos, longos demais, o que prejudica nossa compreensão: Afinal, o que esse cara está querendo dizer? perguntamos, insatisfeitos, não é verdade? É a pura verdade.

O problema, porém, pode merecer rótulo pelo provérbio Quem tem telhado de vidro não atira pedras no do vizinho. Quando se faz crítica a outros, temos antes de ter certeza se o defeito apontado não é praticado por nós mesmos. E é o que por vezes acontece: você não gosta de ler textos com essas características, mas não percebe que, ao escrever, apresenta as mesmas. É esse o problema que as bancas de correção encontram muitas vezes: respostas que falam demais e dizem de menos.

No estudo publicado pela Vunesp que o blogueiro está tomando por base, tais respostas são denominadas abundantes e prolixas. O adjetivo abundante é da mesma família do substantivo abundância. Não é preciso explicar muito o que significa: que revela abundância, abundoso, em grande número. Uma resposta abundante, por isso, é uma resposta que apresenta um discurso com muitos elementos, no fundo desnecessários. O livro mencionado oferece um ótimo exemplo. Você lembra da pergunta apresentada nos dois artigos anteriores sobre a “guerra biológica”: “Explique o significado que adquire no texto de Darcy Ribeiro a expressão ‘guerra biológica’”. Então observe esta resposta abundante:

 

Os índios da época não conheciam doenças, além de coceiras e desvanecimentos por perda momentânea da alma (como diz o autor do texto), por outro lado, os portugueses chegaram trazendo consigo muitas doenças, tais como tuberculose, sarampo, coqueluche, e com o passar do tempo os índios começaram, a contrair essas doenças, consequentemente muitos deles chegando à morte. Portanto além de os próprios portugueses contraírem e adoecerem de tais doenças, os índios os acompanhavam, não por opção.

 

Se você leu o exemplo de resposta precisa e resposta suficiente, nos dois artigos anteriores, é capaz de pereceber que a resposta acima foi alongada um tanto desnecessariamente em um aspecto, o que fez o candidato esquecer de mencionar “guerra biológica”. Mas a resposta não está certa? perguntará você. Sim, está, mas a nota que recebeu passou a depender do modo como foi corrigida.

Já as respostas prolixas complicam mais um pouquinho, porque além de abundarem apresentam elementos em confusão, por vezes difíceis de serem entendidos. Eis um exemplo:

 

Os colonos (seja português ou qualquer europeu) que vieram para o Brasil na época colonial, trouxeram consigo doenças seculares, que viriam a contribuir para a dizimação do indígena. Tais enfermidades, sendo antigas e muito dizimadas, às vezes não eram tão prejudiciais aos colonos. No entanto, os indígenas (ou nativos), nunca houveram entrado em contato com essas pragas, ao contrário dos europeus, que já eram resistentes à muitas delas. Consequentemente, populações inteiras de nativos padeceram ou morreram.

 

Como você pode perceber, quase deve ter faltado espaço para a resposta acima no local adequado. Tentando ser explicativo demais, o candidato se excedeu em detalhes, cometeu alguns errinhos no emprego de palavras e acabou não relacionando todos os aspectos, embora tenha atingido uma parte correta da resposta. A prolixidade levou o candidato até a esquecer-se de empregar o termo “guerra biológica” e relacionar seu significado ao que descreveu.

Percebeu? Muitas vezes, falar demais é dizer de menos. Observe seu modo de responder, seus exemplos em provas e tarefas para verificar se, afinal, você não tem os vícios da abundância e da prolixidade. É bom que não tenha, mas, se tiver, trate de estabelecer um método para eliminá-los. Valeu?

 

Temperança, dignidade, solidariedade: por um mundo melhor

Friday, March 6th, 2015

O papai orgulhoso de uma garota de sete anos disse noutro dia ao blogueiro que sua filha participou de uma exposição escolar em que deveria fazer um desenho sobre o seu futuro e escrever como título um lema para o desenho.

Ao comparecer à festa e procurar os trabalhos das crianças, o papai foi verificando que em sua maioria procuraram desenhar seus próprios sonhos e escrever como título o que desejavam ser. Nada mais normal. Ao deparar-se com o de sua filha entre as dezenas de outros, teve a surpresa, mais que agradável, de ver que ela não se referira a si mesma, mas desenhara pessoas sorridentes em meio a flores coloridas e, em baixo, como lema: Eu desejo fazer o mundo melhor. Belo sonho, não?

Ora, o blogueiro hoje quer trazer para o mundo dos vestibulandos esta ideia que a menina de sete anos tão lindamente adotou. É claro que tal lema circula na mídia e que ela, portanto, não o inventou. Escolheu-o, porém, entre milhares de outros, muitos dos quais expressam vícios, violência, ambições e egoísmo. Teve a garota o mérito de entender e ilustrar com seus desenhos a noção de que é preciso tornar o mundo melhor, de sorte que nele todos possam sorrir. A ilustração com sorrisos e flores, deste modo, simboliza a alegria, o bem-estar, a paz, a solidariedade, a felicidade tanto individual como coletiva. A criança, quando bem tratada e educada pelos pais e pela escola, já vive nesse mundo melhor. Nós, adultos, embora queiramos a mesma coisa, muitas vezes nos sentimos tocados pelo pessimismo de não poder vê-lo em vida e até de acreditar que não ocorra nunca no planeta. O pessimismo, todavia, tem de dar lugar e vez ao ideal de, estimulando os jovens, fazer com que tornem sua essa meta. É um caminho. O primeiro passo, portanto, para a busca desse mundo melhor não é ainda olhar para o coletivo, mas para si mesmo. Para mudar o mundo precisamos primeiro mudar a nós mesmos.

A chamada “civilização” atual, porém, oferece inúmeros caminhos para afastar os jovens desse objetivo e para mergulharem numa conduta turbulenta, muitas vezes autodestrutiva. E assim, quem podia mudar o mundo, para evitar que seja destruído, acaba fracassando em mudar a si mesmo e a conquistar o que hoje é fundamental para o equilíbrio das pessoas: temperança, amor,  dignidade, solidariedade.

É triste observar os falsos rumos que o mundo oferece hoje às pessoas, particularmente aos jovens, sob ilusórios rótulos de modernidade: bebida, drogas, prazeres desenfreados, violência, questionamento dos valores éticos da sociedade, e muito disso estimulado pelo cinema, pela mídia, pelo mau uso da tecnologia da comunicação. Os jovens estão enfrentando todos os dias essa armadilha e em boa parte acabam sendo apanhados. Assim, numa inversão de valores, o lar e a escola mudam de endereço, passando a residir nos games, nos celulares, nos tablets, em suspeitas relações online, na quebra dos princípios da própria vida em sociedade. Como esperar que, sob estes desvalores, todos possam atingir uma maioridade equilibrada e digna, como cidadãos úteis a si mesmos e à coletividade?

O que o blogueiro acaba de dizer não é discurso “quadrado” de pessoa mais velha ou idosa, mas a nua e crua descrição do que está ocorrendo na realidade e todos os dias é noticiado pela mídia. E a pergunta que fica é como criar mecanismos, procedimentos, práticas para que  jovens como você consigam atravessar esse terreno pantanoso sem grandes danos físicos, intelectuais e morais?

Pense nisso, caro vestibulando, e você também, caro estudante que acaba de ser aprovado e de matricular-se na universidade. E pense a partir de um lema que vem dos antigos gregos e em língua latina é definido In medio virtus (In medio stat virtus): A virtude está no meio. Significa meio, neste caso, a moderação, a capacidade de controlar-se, de não exagerar, de não fazer nada em excesso. O homem verdadeiramente virtuoso é aquele que se revela capaz de moderar seus apetites e paixões, de não se deixar levrar pelos extremos. É também aquele que ama seus semelhantes, que ignora todas as diferenças entre os povos e considera seu irmão cada pessoa que vive no planeta. Não é, portanto, o imoderado, o intemperante, aquele que se abandona aos prazeres, à violência e ao desprezo de seus iguais.

A todo instante, hoje, lemos notícias de pessoas que faleceram precocemente por causa de abuso de álcool, uso de drogas e prática de violência; aumentam os casos de mortes desse tipo em trotes, que as universidades do país inteiro proibiram em seus câmpus mas são realizados em algumas repúblicas e em festas que imitam imbecilmente filmes estrangeiros de quinta categoria. Crendo-se muito livres e senhores de si, os pobres jovens acabam sendo vítimas ingênuas de maus modelos e incapazes de autocrítica.

Ante fatos como os apontados, o blogueiro pensa no que desenhou e disse aquela menina e conclui que não será em meio a tanta intemperança, a tanta falta de moderação, de bons princípios e costumes que será construído o sonhado mundo melhor.

É preciso mudar, é preciso fazer com que o mundo se transforme no caminho das novas gerações em um palco de alegrias, de satisfações, um mundo de temperança, de amor, de dignidade, de solidariedade.

Pense nisso. E pense que essa transformação começa pelo indivíduo e se consumará somente no dia em que todos julgarem e agirem do mesmo modo, visando ao bem de cada um e à felicidade de todos. Precisamos tornar realidade aquele mundo melhor sonhado pelas meninas e meninos de sete anos.