Arquivo de 2 de fevereiro de 2015

Cachorros, porcos e vacas – quanta deselegância!?

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

A leitura dos artigos postados neste blogue é prova suficiente de que se procura ter uma postura bem educada, elegante, ética. Nada mais recomendável a um blogue que busca representar o pensamento da própria universidade ao abordar um tema específico: os vestibulares.

Evidentemente, como os artigos são, de modo geral, dirigidos aos jovens candidatos, o blogueiro trata de atribuir, em meio aos conselhos e lições, um tom alegre e bem-humorado aos textos, para que possam ser lidos com satisfação e prazer. O próprio discurso do blogueiro, neste sentido, tenta ser um bom exemplo de como escrever bem, seguindo com fidelidade a norma-padrão. É obrigação nossa.

O blogueiro, é claro, poderia escrever de um modo ainda mais descontraído, utilizando muitas gírias e expressões do discurso coloquial. Embora tal atitude parecesse até mais simpática, não serviria, porém, para os objetivos do blogue de sempre encerrar alguma dose de ensinamento e demonstrar, na prática, que falar e escrever bem não são tarefas impossíveis, mas, ao contrário, altamente recomendáveis a um candidato e a um estudante universitário. Justamente por isso a fala e a escrita, sob o ponto de vista culto, devem estar sempre associadas à boa-educação, à elegância e à ética. Não se compreende universidade sem boa-educação; não se compreende indivíduo culto sem elegância; não se compreende atuação profissional sem ética. São conceitos estreitamente entrelaçados. E o discurso oral e escrito devem ser o espelho desses conceitos.

A atitude do blogue, portanto, de procurar sempre seguir tais princípios revela grande utilidade quando contrastatada com o que presenciamos na atualidade, em que parece estar crescendo uma tendência contrária a esses valores. Muitas pessoas que ocupam altos cargos executivos em diferentes tipos de atividade estão deixando muitas vezes seus discursos degringolarem para a vulgaridade, com usos do discurso coloquial invadindo  o discurso formal que deveriam trilhar. Exemplos? Não faltam. Uma personalidade ilustre e conhecida, em meio a um discurso em que teria a obrigação de ser bem-educada e elegante, de repente deixa escapar que não pôde ir à passeata de protesto, porque chovia pra cachorro; outra afirmou que o governo está matando cachorro a grito. Certo executivo declarou pomposamente que, ao mudar de empresa, errou de porca e caiu no leitão. Tudo isso sem falar que já está virando moda entre pessoas importantes dizerem que não tomarão certa decisão nem que a vaca tussa! Nessa mesma linha pecuária, certo analista econômico, ao focalizar a situação do país, adora dizer que a vaca está indo para o brejo!

Pobres desses animais, cujo nome serve a expressões como essas, justificáveis, saborosas e engraçadinhas no discurso corriqueiro, coloquial, mas incompatíveis com a elegância que deve reger o discurso formal.

Isso quer dizer que expressões como essas não devem ser nunca mencionadas no discurso formal? Mencionadas até podem, desde que o orador faça ressalvas para demonstrar que sabe o que está fazendo: como diz o povo, como se diz vulgarmente, como se costuma dizer coloquialmente. Ressalvas como estas demonstram que o orador ou escritor mobilizou tais expressões com plena consciência, para “colorir” seu discurso. Todavia, sem essas ressalvas, usadas espontaneamente, as referidas frases feitas atribuem ao discurso e ao orador um tom indesejável de deselegância. Vale ressaltar, também, que, mesmo com ressalvas, o escritor ou orador não deve abusar do recurso.

Por isso, nunca imite tais usos em suas redações, imaginando que muitas gracinhas coloquiais enriquecem sua comunicação formal. Ao contrário, há gracinhas que não têm graça alguma.

E você, que acaba de ser aprovado e estudará na universidade, não se esqueça de que tanto o discurso acadêmico oral e escrito, como o seu próprio discurso profissional futuro devem mostrar, entre outros aspectos, que é um profissional de qualidade formado por universidade de qualidade. Deixe os cachorros, as porcas e as vacas em seu sossego e, quando quiser deixar claro que tomará certa atitude, afirme, com convicção e elegância: Chovia intensamente – O governo está tomando drásticas decisões – Não imaginei que a outra empresa tivesse pior desempenho  – Não tomarei essa decisão sob nenhuma hipótese – O governo está fracassando na solução dos problemas do país, etc., etc., etc.

Como se observa por estes últimos exemplos, nosso idioma fornece muito mais soluções de elegância do que de deselegância. Pense nisso.