Arquivo de 1 de dezembro de 2014

Redigir é também criar beleza

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Agora que se encerrou a primeira fase do Vestibular Unesp 2015 e se aproxima a segunda, de natureza discursiva, vale a pena abordar um aspecto que por vezes passa despercebido.

Muito se fala hoje em clareza, concisão, objetividade, especialmente no que se refere ao ensino de redação para vestibulares e concursos de acesso. Aqui mesmo, neste blogue, mais de uma vez esses atributos do discurso foram explicados, para que você tenha sempre em mente que, ao dissertar, não se pode dar ao luxo de perder o rumo da argumentação e enveredar pela obscuridade, pela prolixidade e pela subjetividade. Esses ensinamentos recebidos nas escolas, nos cursos preparatórios e nos sites especializados em vestibulares são corretos e, bem compreendidos, só podem auxiliá-lo a melhorar a capacidade de redigir.

Tudo isso, porém, não implica algo que os próprios livros e apostilas sempre apresentam nos textos de que lançam mão como exemplos, textos de grandes escritores, de grandes oradores, de grandes argumentadores. Há algo mais nesses textos que a mera obediência à clareza, à concisão, à objetividade. Observe, a título de exemplo, esta passagem de um discurso de Rui Barbosa:

 

De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus,  o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto.

Essa foi a obra da República nos últimos anos.

(Rui Barbosa. Obras completas. Vol. XLI, 1914, tomo III, Discursos parlamentares. Rio de Janeiro: Ministério da Educação e Cultura / Fundação Casa de Rui Barbosa, [s.d.]. p. 86)

 

Uma beleza, não é? Ao mesmo tempo que argumenta com eficácia, o orador confere a seu texto máxima expressividade, servindo-se para isso de repetições que criam o paralelismo das orações e de uma disposição dos conceitos em crescendo, que conduz ao chamado clímax: De tanto ver triunfar as nulidades… a ter vergonha de ser honesto. A clareza, a concisão, a objetividade não são afetadas, muito pelo contrário, são reforçadas pelas escolhas operadas por Rui Barbosa em sua síntese do que acontecia na República naqueles também tumultuados anos da política brasileira.

Com que propósito o Blogue está focalizando este aspecto? Em primeiro lugar, para você perceber que há mais recursos que os usualmente usados para tornar um texto argumentativo mais eficiente, seja ele oral ou escrito. Em segundo lugar, para revelar uma constatação de quem vem acompanhando a evolução do ensino de redação desde há muito tempo. Não foram poucas as vezes em que o blogueiro presenciou opiniões de pessoas que condenavam os professores antigos e os gramáticos por defenderem a busca da beleza no discurso. Houve pessoas que passaram a ver a própria literatura como mau exemplo para o ensino da dissertação. É forçoso constatar hoje, no entanto, que a exigência da redação em vestibulares, desde fins da década de 1970, acabou produzindo, nestes últimos quarenta e poucos anos, gerações de estudantes cada vez mais hábeis no escrever. E é igualmente óbvio verificar que, como se observa todos os anos nos exemplos publicados de redações de vestibulares, vêm surgindo gerações de candidatos que escrevem cada vez melhor, que não se contentam mais com a mera obediência a preceitos de eficácia, mas buscam imprimir em seus textos a objetividade ao lado da beleza do fraseado, da boa escolha de palavras e expressões.

Você já pertence a essa geração, meu caro. Não tenha receio de exercitar-se em conferir a seus textos não apenas eficácia argumentativa, mas o dinamismo e a beleza que constituem o verdadeiro diferencial entre quem apenas escreve e quem escreve muito bem.