Archive for August, 2014

Navegar é preciso? Sim, mas…

Friday, August 29th, 2014

A era da comunicação global em que vivemos pode muitas vezes iludir aqueles que observam fatos e fenômenos sem o necessário senso crítico. Um exemplo é a internet:  facilita e acelera as comunicações, disponibiliza instantaneamente boa parte do conhecimento humano, pode ensinar muito… mas também muito desensinar. Alguma novidade nessa conclusão? Nenhuma. Qualquer coisa nova, desde os tempos mais remotos da História, é planejada para determinado uso e, na prática, acaba revelando possibilidade de uso bem diferente do idealizado, por vezes mau uso. Assim, os homens que procuravam inventar o avião imaginavam estar criando algo muito útil para a humanidade; os aviões, no entanto, apesar dessa grande utilidade, de que somos testemunhas ainda hoje, acabou sendo usado para a guerra e o assassinato em massa de populações. E ainda é!

A internet não é diferente. Criada para o bem, para o progresso das comunicações, também acaba sendo usada para o mal, para a prática de crimes, para a imoral espionagem de uns países a outros. Isso não quer dizer, porém, que devamos bani-la em virtude do mau uso. Ao contrário, devemos aproveitar todas as suas boas potencialidades, torná-la um instrumento do bem, das boas relações entre pessoas e entre países.

Este Blogue já ressaltou muitos dos benefícios que a navegação na rede pode trazer aos candidatos a exames vestibulares, desde, é claro, que saibam como navegar e onde aportar. Os numerosos sites dedicados ao conhecimento científico, à informação e ao ensino são portos seguros. Os jornais e revistas, que aos poucos estão abandonando o papel e assumindo o formato difital, igualmente representam bons pontos de chegada para a busca de informação, para a atualização das pessoas com relação ao mundo em que vivem. Cursos online ministrados por universidades e instituições dedicadas a preparar pessoas para os mais diferentes concursos são excelentes ancoradouros a quem busca o melhor para sua vida.

Tudo isso é verdade. Todavia, não devemos nos iludir. É preciso sempre estar com um pé à frente e outro atrás, porque a web é como o mundo cá fora: numa esquina se pode encontrar um benfeitor; noutra, um assaltante. Não é, porém, para falar de assaltos a seu bolso ou sua bolsa que este artigo está sendo postado; é para falar de assaltos à sua distração, caro vestibulando e caro candidato a concursos, ao seu descuido em não julgar o que está lendo e, por isso, sem querer, assimilar como certo o que está errado.

Para exemplificar esse perigo, o Blogueiro usou dez minutos de leitura na internet e flagrou textos com erros que, na gíria, se denominam cabeludos. Os exemplos foram ligeiramente alterados, para evitar reclamações dos redatores. Eis o primeiro:

 

O candidato propôs um governo multisetorial e aberto aos mais capazes.

 

Parece que tudo está certo na frase. Não está. Observe como foi escrito multisetorial. Está errado: falta um s; deve-se escrever multissetorial.

É bom tomar cuidado, portanto, com tais cochilos (ou erros mesmo) dos redatores de textos da mídia. Eis outro, cabeludíssimo:

 

A negociação entre o clube estrangeiro e o nacional evoluíram bastante nos últimos três dias.

 

Na verdade, o redator quis dizer que a negociação evoluiu. Fez confusão, no entanto, com a menção a dois clubes. O plural, nesse caso, é um verdadeiro assalto digital à Língua Portuguesa.

Às vezes, um cochilo acaba gerando outro:

 

A prefeitura promove, no próximo dia 5 de setembro um encontro de músicos da região.

 

Embora não seja raro na linguagem coloquial e em jornais o emprego do presente do indicativo em lugar do futuro do presente, no exemplo acima ficaria muito mais claro e eficiente promoverá em lugar de promove, em virtude da referência à data. A mesma referência à data, aliás, gerou outro problema: o emprego da vírgula após a forma verbal promove, separando o sujeito do predicado. Trata-se de erro de pontuação, que poderia ser evitado com o emprego de vírgula também após setembro (A prefeitura promoverá, no próximo dia 5 de setembro, um encontro de músicos da região.) ou com a simples supressão da vírgula após promove (A prefeitura promoverá no próximo dia 5 de setembro um encontro de músicos da região.)  Já no exemplo abaixo. a vontade de acertar conduz ao erro:

 

O empresário do craque tem o oferecido a numerosos clubes estrangeiros.

 

Você, evidentemente, notou que o redator buscou evitar “tem oferecido ele”, uso coloquial de “ele” que não é permitido pela norma-padrão. Não soube, porém, empregar a variante pronominal átona adequada. Nesse caso, não há desculpa, houve erro mesmo por desconhecimento. A frase deveria ser: O empresário do craque tem-no oferecido a numerosos clubes estrangeiros. Se julgasse que “tem-no” ficaria demasiadamente formal, o redator podia ter escrito: O empresário está negociando com numerosos clubes estrangeiros a transferência do craque. Ou: O empresário do craque ofereceu-o a numerosos clubes estrangeiros.

Vale fazer, para encerrar, uma reflexão bem curiosa: em tempos passados eram comuns as citações em jornais de erros cometidos por vestibulandos em suas provas discursivas, particularmente em redações. Pejorativamente, tais erros eram chamados “pérolas”. Tratava-se, na verdade, não de intenção de corrigir, mas de debochar dos candidatos responsáveis por tais erros. Por antiética, tal atitude foi banida.  Curiosamente, hoje as “pérolas”, como você acaba de notar, se espalham por toda a rede, em jornais, revistas, sites, blogues. Em vez fazer deboche a seus autores, porém, devemos aprender com os erros flagrados  e, com isso, aperfeiçoar nosso domínio da Língua Portuguesa.

Para o vestibulando, portanto, navegar na rede é preciso. Mas sempre tomando cuidado com a profundidade das águas e o perigo dos recifes, para que o barco de sua redação siga seguro até o porto.

 

Não fuja da concordância

Thursday, August 14th, 2014

Você por certo tem muitas dúvidas de concordância. Não se envergonhe disso. Professores, jornalistas, blogueiros e escritores também têm. Quem vive a escrever vive tendo dúvidas. É normalíssimo, portanto. Anormal será não procurar resolver e deixar como está.

Obviamente, você já estudou mais de uma vez na escola os fundamentos da concordância nominal, que implica o acordo entre as flexões do substantivo e seus modificadores, e da concordância verbal, que impõe o acordo entre as flexões do sujeito e do verbo. Não adianta, portanto, chover no molhado e falar sobre isso desde o comecinho. Um artigo de blogue não tem tanto espaço e também não é uma teoria, é um bate-papo construtivo em que o blogueiro procura passar sua experiência aos leitores e fazer alguns alertas. E é geralmente baseado em um tema do dia a dia.

Pois o tema de hoje é justamente uma dúvida de concordância nominal. Observe os exemplos forjados:

 

O governo, ao autorizar o funcionamento daquela indústria, parece não haver pensado nos impactos ambiental e social.

O governo, ao autorizar o funcionamento daquela indústria, parece não haver pensado no impacto ambiental e social.

Qual das duas está certa? você pergunta ao escrever. Resposta: as duas. Os gramáticos defendem ambas as formas, embora reconheçam que a primeira (com o substantivo impactos no plural), é regularmente usada e, de certo modo, bem mais clara (e elegante) que a segunda. Note que a concordância, em cada caso, pode ter uma explicação diferente: no primeiro exemplo, a pluralização do substantivo (impactos) responde antecipadamente à presença dos dois adjetivos que o modificam (ambiental, social). O segundo exemplo pode ser entendido com base numa elipse: impacto ambiental e (impacto) social.

Pois o blogueiro, hoje cedo, deu uma derrapada nesses exemplos e sentiu uma ligeira dúvida. Que fazer? Recorrer aos gramáticos. Uma leitura rápida das gramáticas de Maria Helena de Moura Neves e de Evanildo Bechara revelou que podia usar sem susto qualquer dos dois exemplos. Assim, é válido empregar qualquer das frases abaixo:

 

Apesar de novatos, conseguimos obter o primeiro e o segundo lugar.

Apesar de novatos, conseguimos obter o primeiro e o segundo lugares.

O estudo da literatura portuguesa e brasileira é bastante necessário.

O estudo das literaturas portuguesa e brasileira é bastante necessário.

 

O blogueiro prefere a concordância no plural; outros escritores, no plural. E você?

É isso aí. Não fuja da concordância. Quando tiver uma dúvida, nada de dar de ombros e dizer, como quem não quer nada: Não sei, porque ninguém me ensinou. Errado. Diga sempre: Ninguém me ensinou, mas vou descobrir por mim mesmo. Você se espantaria, aliás, se pudesse fazer uma estatística sobre sua vida e descobrir o quando aprendeu por si mesmo e por sua vontade de aprender!

 

Há palavras “difíceis”?

Wednesday, August 6th, 2014

Reza um dito popular que “o que não entra não pode sair”. Parece brincadeira, mas não é. Se você procurar descobrir a filosofia que está por trás desse dito, perceberá que ele carrega um belíssimo conselho.

Pense, por exemplo, na questão do vocabulário. Você reclama que há muitas palavras difíceis em certos livros, seja de literatura, seja de ciências em geral, e por essa razão não consegue entender esses livros. Ora, pense bem: não há palavras fáceis ou difíceis; palavras são palavras, servem ao propósito a que foram criadas: transportar conceitos. Nada mais, nada menos. Quando conhecer esses conceitos, elas deixarão de ser difíceis.

Você sabe onde procurar os sentidos das palavras. Desde as primeiras séries do ensino fundamental, as professoras exigiam que levasse sempre à escola um minidicionário, justamente para ajudá-lo a aumentar seu vocabulário, sempre que nos textos surgisse uma palavra desconhecida. Nas aulas das diferentes disciplinas, muitas vezes os próprios professores apresentaram os significados ou os próprios textos continham essa explicação. Certo? Depois, à medida que o tempo ia passando, você aprendeu a consultar dicionários com maior número de vocábulos. Hoje, o progresso da Informática faz com que você possa contar com dicionários eletrônicos, quer instalados como programas em seu computador, quer por meio da internet.

Talvez você diga, ao encerrar a leitura do parágrafo acima, que sabe muito bem de tudo isso. É bom que saiba. Mas será ótimo se souber usar com regularidade e método: cada vez que surgir uma palavra desconhecida ou não muito conhecida, você deve buscar ajuda imediata do dicionário. Nunca deixe para depois. Se deixar, esquece e não volta até que a palavra apareça de novo. O problema é que esse de novo bem pode ser uma pergunta de prova. E aí a coisa fica feia, não fica?

Pois é. Vamos dar um exemplo: você está lendo um jornal ou revista (seja em papel ou online) ou assistindo a um telejornal e se depara com a palavra inflação. Não dá a mínima bola, porque esse negócio de economia não é assunto seu. Claro que é. Tudo o que ocorre à sua volta é assunto seu. E, quer queira quer não queira, você vive mergulhado na economia e o tempo todo sofre os seus efeitos. A atitude certa, portanto, não seria ignorar a palavra, mas imediatamente verificar o sentido. Muita gente, nesse momento, diria que economia é difícil de entender, é coisa de especialistas. Errado. Sendo o sistema econômico a base de quase tudo o que acontece atualmente no planeta, é bom procurarmos entendê-lo o máximo possível, para não nos tornarmos verdadeiros extraterrestres.

Muito bem. Você se convence de que precisa ir ao dicionário e lá descobre que a inflação se caracteriza pela intensa alta do nível geral de preços e pela desvalorização da moeda. Vale dizer: o aumento persistente dos preços dos produtos provoca uma contínua desvalorização da moeda. São várias as causas desse problema, mas, em todas elas, os órgãos econômicos do governo estão, como diz o povo, mais perdidos que cachorro que caiu de mudança. O salário do papai sobe, para compensar a inflação, mas a inflação continua e aquele dinheiro a mais não vale muita coisa. O Brasíl já viveu um fenômeno intenso de inflação, chamado de hiperinflação (você sabe que o elemento hiper intensifica o sentido), lá por fins dos anos 80 e inícios dos 90. Seus avós o viveram. Era terrível: recebia-se o salário e corria-se para os supermercados e lojas para comprar de uma vez todo os produtos necessários aos próximos trinta dias. Guardar o dinheiro no bolso? Nem pensar! A inflação “comeria” boa parte do seu valor durante o resto do mês.

Percebeu? Até mesmo seus avós podem ajudá-lo a entender o que seja inflação. Claro que não podem provavelmente auxiliá-lo a entender o que seja deflação ou estagflação. Você mesmo poderia procurar saber, não para se tornar um economista, mas para ter uma ideia, como pessoa comum, do que está acontecendo e do que pode acontecer na economia. E vai que de repente uma pergunta ou uma redação de vestibular focalizam esse tema!?

Na verdade, para encerrar, não há palavras difíceis: há certa má vontade nossa de procurar-lhes os sentidos.