Archive for July 3rd, 2014

Falar bem faz mal?

Thursday, July 3rd, 2014

Você gosta de falar bem ou de falar mal? A esta pergunta, obviamente, todos responderão que gostam de falar bem. Mas todos falam bem? Esta é a questão: o que é falar bem? Seguramente não é ficar dizendo “nóis vai, nóis fica”, como se ouve muito por aí, inclusive entre pessoas de classe média.

A escola o tempo todo nos pressiona a adquirir e aperfeiçoar nosso discurso escrito formal, ou seja, regido pela norma-padrão. E com um argumento irrefutável: é exigido nos exames vestibulares e nos concursos públicos. Quem enfrenta essas provas sem dominar a norma-padrão já parte perdendo muito.

Quando ao discurso falado, nem sempre se enfatiza que deve ser igualmente cuidadoso e atento ao uso formal. Este é o problema. As próprias provas de língua portuguesa dos exames vestibulares e concursos costumam servir-se das diferenças entre discurso coloquial e discurso formal, explorando o fato de o primeiro apresentar bem mais liberdade e variedade de empregos que nem sempre coincidem com o estipulado pela norma-padrão. Este e outros fatores talvez levem muitos jovens a imaginar que se pode falar mal, desde que se escreva bem, ou seja, que podemos na fala diária dizer “nóis consegue, eles pode”, desde que, ao escrever, empreguemos “nós conseguimos, eles podem”.  Há uma ilusão, portanto, de que o discurso formal escrito está subordinado à norma-padrão, mas o discurso oral é livre, pode-se falar de qualquer jeito que estará bom.

Está aí um equívoco que só pode trazer más consequências, quer em termos pessoais, quer em termos profissionais. É preciso entender que ao lado do discurso formal escrito existe o discurso formal oral, que é empregado, por exemplo, nos telejornais e nos bons programas de televisão, cujos apresentadores se veem na obrigação de comunicar-se com o público de modo mais formal que o da fala diária e descompromissada. É esse mesmo discurso que procuram utilizar os professores na sala de aula, para conduzir os estudantes a um domínio de fala semelhante ao domínio de discurso escrito. Por quê? Porque a organização social em que vivemos é toda estratificada, e em cada um desses estratos se requer o discurso mais adequado. Não se emprega o discurso coloquial num debate acadêmico, numa conferência universitária, numa sessão da câmara dos deputados, do congresso, nem de tribunal regional ou do supremo. Nesses e em muitos outros ambientes se impõe o discurso oral formal, regido pela norma-padrão.

Agora ficou claro, não ficou? Você, que ingressará numa universidade servindo-se do discurso escrito formal, obediente à norma-padrão, precisa entender que seu discurso oral como estudante e, mais tarde, como profissional formado, deve ser também formal. O discurso oral formal e o escrito representam, assim, fatores de prestígio social e profissional. Na vida universitária, são ferramentas imprescindíveis ao seu desempenho em trabalhos escritos e em apresentações orais em sala de aula ou em seminários e congressos. Se você já assimilou e assumiu um discurso formal oral, está bastante adiantado e não terá dificuldades nesse trajeto. Mas se ainda não é esse seu caso, terá de mudar de atitude desde os primeiros momentos em que ingressar na universidade.

Depois de todos estes comentários, podemos retomar o título deste artigo para entendê-lo melhor: falar bem faz mal? Claríssimo que não. Falar bem, em todos os momentos em que se impõe um uso formal do discurso, só pode fazer bem.