Arquivo de 5 de junho de 2014

Respondi certo e levei “errado”!

quinta-feira, 5 de junho de 2014

É muito comum, após concursos e exames vestibulares, candidatos comentarem que sabiam a resposta, responderam certo e “levaram errado”. As reclamações são geralmente num tom acusatório, como se a banca de correção os tivesse prejudicado intencionalmente. Não se pode negar a ninguém, em qualquer tipo de relacionamnto humano, o direito à reclamação, mas, nesse caso dos concursos, é injusta a acusação à banca, pois se trata de profissionais altamente treinados para corrigir com máxima eficiência. Além do mais, essa desculpa de má intenção de quem corrige é, como diz o povo, papo furado: em correções de concursos em geral nunca consta nas folhas de prova o nome do candidato, só um longo número de inscrição. Como alguém poderia querer prejudicar um número?

O fato real é que muitas vezes um candidato sabe a resposta; na hora de redigir, porém, toma os pés pelas mãos e não consegue demonstrar o que sabe, por haver empregado uma palavra, uma expressão ou até uma vírgula erradamente. E a banca não corrige intenções, corrige respostas. Observe um exemplo de que até mesmo um profissional do discurso, como um jornalista, pode tomar as mãos pelos pés e criar um discurso todo atrapalhado:

 

Felício Medrado, como um dos quatro homens da estrita confiança de Gomes Peralta, participou do comando da sua campanha de 1982, quando foi eleito vice na chapa de Francisco de Assis ao governo estadual.”

O período acima foi retirado de uma notícia de jornal de muitos anos atrás, tendo sido alterados apenas os nomes das pessoas, para melhor demonstrar o fato. Observe bem o que o jornalista escreveu. Está claro? Dá para entender?  Na verdade, o redator tropeçou no próprio discurso e criou uma enorme ambiguidade. O leitor perguntará, após repetir pela terceira vez a leitura: Afinal, quem foi eleito vice na chapa de Francisco de Assis ao governo estadual? Felício Medrado ou Gomes Peralta? E foi eleito vice pelo partido para participar da chapa ou foi eleito vice-governador na chapa de Francisco de Assis, que foi eleito governador? É impossível decifrar o enigma, a não ser que a sequência do texto acrescente novos dados. Se o período exemplificado, no entanto, fosse uma resposta a questão discursiva que indagasse sobre o candidato a vice, por certo levaria “errado”. De outro modo, caso Gomes Peralta tenha sido eleito vice-governador e Francisco de Assis, governador, melhor seria escrever, por exemplo:

 

Felício Medrado, como um dos quatro homens da estrita confiança de Gomes Peralta, participou do comando da campanha de 1982, quando Francisco de Assis e Gomes Peralta foram eleitos governador e vice, respectivamente.

 

Você pode notar que esse respectivamente é até desnecessário, por redundante, já que a própria ordem dos nomes e dos cargos aponta quem é quem. Mas às vezes é melhor redundar para não deixar sombra de dúvida sobre o que se quer dizer. Haveria muitas maneiras ainda de evitar os tropeços da primeira redação. A notícia de jornal, porém, é comunicação passageira, já estará velha no dia seguinte (embora não se possa negar que tem certo compromisso com o futuro) e por isso as críticas não duram muito e não penalizam; ao ter de escrever sua matéria rapidamente, pouco antes da impressão, o jornalista pode escorregar em um ou outro problema de discurso. Já um concurso é permanente: o que for escrito estará escrito até o momento em que for corrigido e dificilmente haverá contexto salvador para um período como o acima.

Percebeu? Após cada resposta discursiva que apresente em seu concurso ou vestibular, procure fazer uma leitura como se fosse um estranho, para tentar identificar deslizes de expressão como o focalizado. Errar é humano. Mas admitir que se pode errar e estar sempre disposto a corrigir é mais humano ainda.