Archive for June, 2014

Lições da Copa

Wednesday, June 25th, 2014

A Copa do Mundo de futebol, que está em andamento, traz muitas lições no plano esportivo, mas também no plano das atividades em geral, até mesmo dos exames vestibulares.

Como? Bastante simples. A seleção brasileira pode ser comparada a um vestibulando: quer porque quer vencer e se enche de muito otimismo, após um bom período de preparação, que incluiu a vitória recente em outra competição do gênero. É assim, de fato, que todo vestibulando deve se portar, assumindo uma atitude positiva e de busca obstinada do sucesso.

A Copa, porém, traz outro tipo de lição: algumas seleções, embora julgando-se superiores e bem preparadas, acabaram sofrendo derrotas para equipes tradicionalmente mais fracas. Só tradicionalmente, porque o esporte, como qualquer outra atividade, não vive de tradição, mas de evolução em cada país. Hoje em dia, de fato, como dizem os comentaristas de futebol, não há equipes fracas, ninguém é mais ingênuo, a evolução das comunicações fez com que os pequenos deixassem de ser pequenos e os grandes não serem mais tão grandes assim. O mesmo vale para o vestibular. Quem presta vestibulares não é ingênuo, sabe o que está fazendo, soube se preparar e tem certeza de até onde pode chegar. Candidatos fracos? É melhor não contar com a presença de candidatos fracos para passar. O fraco de ontem pode ser o forte de hoje. Como no futebol, a derrota de ontem conduz à vitória de hoje. O mais importante, assim, é contar com suas próprias forças e seu preparo para o embate.

A grande diferença, porém, entre a Copa e os vestibulares, está no ponto de chegada. No futebol, interessa ser o número um; o dois é desprezível. No vestibular, ao contrário, se de oitenta vagas disponíveis o candidato conseguiu o octogésimo lugar, o valor da vitória é o mesmo de todos os demais. E a comemoração, por vezes, até maior que a do primeiro.

Esta é a lição que os vestibulares podem dar ao futebol.

 

E aqueles conteúdos, para que aprender?!

Tuesday, June 10th, 2014

 

Você por certo já ouviu muita gente reclamar de questões sobre alguns conteúdos de diferentes disciplinas em vestibulares: não deviam cobrar isto de matemática, aquilo de física, isto de biologia, aquilo de química, isto de língua portuguesa, aquilo de história, e assim por diante. Reclamar, obviamente, é um direito, mas é preciso saber do que se reclama, caso contrário a razão, como diz o povo, vai para o brejo.

Vale aqui um exemplo simples e esclarecedor na área de linguagens. Você se lembra de que já no terceiro ano do ensino fundamental sua apostila de língua portuguesa começa a explorar as noções de sílaba, sílaba tônica, sílaba átona, rima e ritmo, aproveitando para isso sobretudo os textos de poesia colocados para interpretação. No quarto ano essas noções são mais desenvolvidas, já surgem os conceitos de verso e de prosa, de ritmo e de rima bem mais consolidados. A maioria das crianças adora. E assim, ao longo do fundamental, esse conhecimento é inteiramente absorvido e consolidado pelos estudantes, a ponto de, lá pelo oitavo e nono anos, ou menos, muitos se tornarem capazes de reconhecer, em letras de músicas populares que ouvem e cantam, os tipos de verso utilizados, bem como as rimas. Os conteúdos de teoria e de prática musical que se associam aos de versificação se tornam também causas desse processo de assimilação.

No ensino médio esses conceitos são todos mobilizados para a literatura e a arte, de sorte que, ao formarem-se, muitos estudantes se tornam capazes até de compor poemas e letras de canções.

Traduzindo, isso significa dizer que a versificação não deixa de ser uma espécie de linguagem dentro da linguagem, é a língua portuguesa submetida a regras de ritmo e de musicalidade, que surge frequentemnte associada à música propriamente dita sob a forma da canção. Apesar dessa obviedade, algumas pessoas julgam que tal aprendizado é dispensável, Uma refutação prática dessa opinião consiste no fato de que muitos estudantes se encaminham para as profissões da literatura e da música popular, tornando-se poetas, cantores e compositores, alguns chegando a atingir as alturas da fama. E se não tivessem recebido aqueles ensinamentos sobre poesia, versificação e música? E se os professores houvessem dito a todos, sistematicamente, que poesia e música são perda de tempo, pois há coisas mais importantes para estudar? Muitos talentos para a música e a poesia seriam bloqueados, inibidos ou, como se diz coloquialmente, morrido na casca.

Essa é a resposta a reclamações sobre a pertinência de certos tópicos de linguagens (língua portuguesa, língua estrangeira moderna, artes, informática e educação física), de ciências humanas, de ciências biológicas e ciências exatas. Os conteúdos programáticos dessas áreas não são estabelecidos ao acaso, mas produzidos por teóricos e pedagogos de alta formação e experiência, com o objetivo de oferecer aos estudantes o que de mais importante existe para aprender e, dependendo do talento de cada um, desenvolver e aplicar até mesmo dentro de uma profissão.

É isso aí! O ensino pensa o tempo todo em você e no seu desenvolvimento físico, intelectual, artístico e moral. Para tanto, estabelece com cuidado e profundidade as linhas a serem seguidas pelas escolas. Pense no aprendizado como um todo e busque sua completa realização na vida!

 

Respondi certo e levei “errado”!

Thursday, June 5th, 2014

É muito comum, após concursos e exames vestibulares, candidatos comentarem que sabiam a resposta, responderam certo e “levaram errado”. As reclamações são geralmente num tom acusatório, como se a banca de correção os tivesse prejudicado intencionalmente. Não se pode negar a ninguém, em qualquer tipo de relacionamnto humano, o direito à reclamação, mas, nesse caso dos concursos, é injusta a acusação à banca, pois se trata de profissionais altamente treinados para corrigir com máxima eficiência. Além do mais, essa desculpa de má intenção de quem corrige é, como diz o povo, papo furado: em correções de concursos em geral nunca consta nas folhas de prova o nome do candidato, só um longo número de inscrição. Como alguém poderia querer prejudicar um número?

O fato real é que muitas vezes um candidato sabe a resposta; na hora de redigir, porém, toma os pés pelas mãos e não consegue demonstrar o que sabe, por haver empregado uma palavra, uma expressão ou até uma vírgula erradamente. E a banca não corrige intenções, corrige respostas. Observe um exemplo de que até mesmo um profissional do discurso, como um jornalista, pode tomar as mãos pelos pés e criar um discurso todo atrapalhado:

 

Felício Medrado, como um dos quatro homens da estrita confiança de Gomes Peralta, participou do comando da sua campanha de 1982, quando foi eleito vice na chapa de Francisco de Assis ao governo estadual.”

O período acima foi retirado de uma notícia de jornal de muitos anos atrás, tendo sido alterados apenas os nomes das pessoas, para melhor demonstrar o fato. Observe bem o que o jornalista escreveu. Está claro? Dá para entender?  Na verdade, o redator tropeçou no próprio discurso e criou uma enorme ambiguidade. O leitor perguntará, após repetir pela terceira vez a leitura: Afinal, quem foi eleito vice na chapa de Francisco de Assis ao governo estadual? Felício Medrado ou Gomes Peralta? E foi eleito vice pelo partido para participar da chapa ou foi eleito vice-governador na chapa de Francisco de Assis, que foi eleito governador? É impossível decifrar o enigma, a não ser que a sequência do texto acrescente novos dados. Se o período exemplificado, no entanto, fosse uma resposta a questão discursiva que indagasse sobre o candidato a vice, por certo levaria “errado”. De outro modo, caso Gomes Peralta tenha sido eleito vice-governador e Francisco de Assis, governador, melhor seria escrever, por exemplo:

 

Felício Medrado, como um dos quatro homens da estrita confiança de Gomes Peralta, participou do comando da campanha de 1982, quando Francisco de Assis e Gomes Peralta foram eleitos governador e vice, respectivamente.

 

Você pode notar que esse respectivamente é até desnecessário, por redundante, já que a própria ordem dos nomes e dos cargos aponta quem é quem. Mas às vezes é melhor redundar para não deixar sombra de dúvida sobre o que se quer dizer. Haveria muitas maneiras ainda de evitar os tropeços da primeira redação. A notícia de jornal, porém, é comunicação passageira, já estará velha no dia seguinte (embora não se possa negar que tem certo compromisso com o futuro) e por isso as críticas não duram muito e não penalizam; ao ter de escrever sua matéria rapidamente, pouco antes da impressão, o jornalista pode escorregar em um ou outro problema de discurso. Já um concurso é permanente: o que for escrito estará escrito até o momento em que for corrigido e dificilmente haverá contexto salvador para um período como o acima.

Percebeu? Após cada resposta discursiva que apresente em seu concurso ou vestibular, procure fazer uma leitura como se fosse um estranho, para tentar identificar deslizes de expressão como o focalizado. Errar é humano. Mas admitir que se pode errar e estar sempre disposto a corrigir é mais humano ainda.