Arquivo de 23 de abril de 2014

Redundâncias perigosas

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Você já reparou no perigo que representam certas redundâncias, tanto em sua fala quanto nos textos que escreve? Não reparou? Pois está bem na hora de observar e de consertar as desestruturações que repetições desnecessárias causam a seu discurso, perturbando o significado de muitas frases e, pior, servindo como atestado de que você tem dificuldades de expressão.

Não me refiro às redundâncias comuns, que seus professores chamam de pleonasmo ou de pleonasmo vicioso, como, por exemplo: subir para cima, descer para baixo, indicar uma indicação, etc., etc. Estas você já sabe como evitar, de tanto ouvir advertências e conselhos dos professores. O problema aqui é mais profundo e contundente, diz respeito às redundâncias surgidas de um procedimento que torna a frase tortuosa e prolixa, como se o escritor sentisse que não fez a coisa certa e fosse colocando remendos para consertar a falha. Observe:

 

O empresário acusado, que passamos a tarde toda conversando com ele, declarou diversas vezes que não provocou nenhum dano ao meio ambiente.

 

Frases como essas singram a todo instante os mares de textos da internet, por vezes em jornais conceituados. Para entender a escorregadela do autor da passagem exemplificada, observe que “o empresário acusado”, “que” e “ele” se referem a uma só pessoa. Há um exagero nisso, portanto, que se deve ao fato de o autor não ter colocado com no lugar adequado (logo após a vírgula de O empresário acusado,) e, sentindo necessidade dessa preposição, exigida pelo verbo “conversar”, teve de colocá-la mais adiante, o que obrigou também a redundar com o emprego do pronome “ele”, isto é, “o empresário”. Complicado, não? E tudo poderia ser muito simples, se estivesse em seu devido lugar:

 

O empresário acusado, com quem passamos toda a tarde conversando, declarou diversas vezes que não provocou nenhum dano ao meio ambiente.

 

Em lugar de com quem ainda poderiam ser usados com que e com o qual. Ficou bem mais simples, não? E muito mais claro e eficiente em termos de significado.

Examine este outro exemplo:

 

O vereador Carlos, que por muitas razões o prefeito acabou se afastando dele, ainda se julga um injustiçado.

 

Também complicadinho, não? Numa pequena frase, há referência demais para um só político: vereador Carlos, que, dele. E a origem dessa redundância e dessa desestruturação ainda é a mesma, o emprego da preposição de fora do lugar que a estrutura sintática normal da frase lhe reserva. Observe: O vereador Carlos, do qual por muitas razões o prefeito acabou se afastando, ainda se julga um injustiçado. Em lugar de do qual você ainda poderia empregar de quem ou mesmo de que.

Pelos dois exemplos apontados e comentados, você percebe que não empregar a preposição pedida pelo verbo no lugar adequado, antes do pronome relativo, força o falante ou o escritor a buscar um lugar mais para a frente, numa espécie de remendo sintático. Como dizem os literatos, a emenda acaba ficando pior que o soneto.

Não custa, portanto, reestudar os pronomes relativos, especialmente quando a estrutura da frase pede uma preposição antecedente, para ter melhor noção do problema apontado. E estudar muitos exemplos nessas condições, para assimilar bem tais estruturas e torná-las habituais em seu discurso.

Vale a pena, não vale?