Arquivo de 14 de abril de 2014

“Por causa que o quê?!”

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Certo professor de língua portuguesa sempre dizia que, por método, considerava a mente de cada aluno uma fortaleza cercada por sete muralhas de difícil ultrapassagem. Por isso, repetia muitas vezes cada explicação, sempre com novas palavras, expressões e exemplos, certo de que em cada tentativa transpunha uma das muralhas que, em alguns alunos, ainda resistiam. Não por acaso, portanto, era considerado o melhor professor da escola, aquele cujas lições os estudantes aprendiam sem fazer muito esforço. O mestre fazia por eles.

Seguindo-lhe os passos e o método, o Blogue retoma aqui um ponto já estudado sob outra forma de abordagem. Um rapaz diz a outro: “Não pude ir à festa por causa que mamãe me obrigou a aparar toda a grama do jardim e do quintal.” O colega, surpreso e indignado, retruca: “Por causa que o quê?”

Alguns professores consideram esse uso errado e horrível, dizendo que se trata de uma distorção da locução prepositiva por causa de. Outros, mais comedidos, dizem que se trata de um interessante e saboroso exemplo de linguagem popular. Na verdade, o por causa que transita livremente e cumpre sua função no domínio do discurso coloquial. É provável até que nós mesmos, vez por outra, no linguajar despreocupado e descontraído, falemos assim. Mas não é assim, seguramente, que devemos falar ou escrever em situação de discurso regido pela norma-padrão. “Por causa que” ou, pior, “por causo que” não são cabíveis no discurso formal; deve-se empregar o velho e claro e bom “porque”: Não pude ir festa, porque minha minha mãe me mandou aparar a grama do jardim e do quintal. Tome cuidado, portanto, em não deixar escapar nenhum “por causa que” ou “por causo que” em sua prova discursiva e na de redação.

E como estamos falando de porque, vale a pena rememorar que existem as formas: porque, porquê, por que e por quê. Como empregá-las? Você já foi bombardeado por dezenas de aulas e explicações a respeito, mas não custa relembrar, para fixar melhor.

 

1 – Porque é um conectivo equivalente a pois, porquanto e até mesmo àquela forma do uso coloquial que acabamos de descrever: por causa que ou por causo que. Exemplos: Não fiz a lição, porque estava com sono. Sempre acordo cedo, porque costumo ir para a cama cedo. Você me detesta porque eu costumo corrigir seus errinhos?

2 – Porquê, com acento circunflexo, é um substantivo com significado equivalente a causa, razão, motivo. Como substantivo, pode apresentar-se no plural: porquês. Exemplos: O político não declarou os verdadeiros porquês de suas ações. Preciso saber o porquê de todos esses fatos. Observe a substituição do porquê, para comprovar: O político não declarou os verdadeiros motivos de suas ações. Preciso saber a razão de todos esses fatos.

3 – Por que pode equivaler a por qual, por quais, quando empregado antes de palavras como razão, motivo, quer tais palavras estejam expressas ou subentendidas. Exemplos: Gostaria de conhecer por que razão você não veio à escola hoje. Meu colega nunca nos contou por que motivo foi demitido. Gostaria de saber por que você não veio à escola hoje. Meu colega nunca nos contou por que foi demitido.

4 – Por que pode equivaler a pelo qual, pela qual, pelos quais, pelas quais, quando antecedido por palavras como razão, motivo. Exemplos: O motivo por que os eleitores se negaram a votar na situação nunca foi conhecido. Ninguém imagina a razão por que a represa se rompeu tão depressa.

5 -  Em interrogações, emprega-se por que e por quê, a primeira forma no início ou no meio da frase, a segunda no fim, antes do ponto de interrogação. Exemplos: Por que você não veio? Você não veio, por quê? Alguns explicam que o acento deve ser colocado em virtude de o monossílabo “que”, nesse caso, se tornar tônico. Esta explicação é um tanto incoerente, pois existem numerosos outros contextos nos quais o “que” se torna tônico e não se usa colocar o circunflexo para marcar essa tonicidade. Não vale a pena, porém, discutir aqui esta questão. Melhor seguir a tradição.

Percebeu? Não é tão difícil assim e também não é necessário muito gramatiquês para entender estes usos da norma-padrão. E continue alerta para não resvalar num “por causa que”.

Valeu?