Arquivo de 1 de abril de 2014

“Para que fazer redação no Vestibular? Não significa nada!”

terça-feira, 1 de abril de 2014

O Blogueiro ouviu esta frase umas duas semanas atrás, proferida por um estudante do terceiro ano do ensino médio que discutia com outros as provas dos diferentes vestibulares. Alguns colegas concordaram, outros discordaram, mas nem os que concordaram foram capazes de argumentar de modo convincente, nem os que discordaram. Em resumo, nenhum dos estudantes sabia exatamente por que os grandes vestibulares possuem prova de redação.

O Blogueiro pode aqui ajudar um pouco, citando uma passagem do livro A maravilhosa história das línguas, de Ernst Doblhofer:

 

A escrita permite que o ser que pensa se conheça.

Primeiramente, a escrita permitiu-lhe o pensamento coletivo, especulativo em torno da sua origem, do ser e do sentido da vida. Com ela, tornaram-se possíveis as culturas elevadas e as filosofias, as grandes religiões da humanidade; foi a massa de que se serviram os fundadores e construtores dos grandes reinos; nela, é que se apoia a história, como ciência, e a ela é que se deve o enorme desenvolvimento dos demais ramos da ciência humana, entre os quais não figuram em último lugar as ciências naturais. Não precisamos falar da incalculável quantidade de outros bens culturais e civilizacionais que ela legou à humanidade e que, sem ela, seriam inconcebíveis.

A escrita, portanto, criou a própria civilização. Sem ela, todos os conhecimentos acumulados por uma geração só poderiam ser transmitidos à outra oralmente, com as enormes perdas de informação que isso acarretaria, sem falar nas distorções que sofreriam as informações passadas por esse modo. Nossos antepassados sabiam disso ao criar o ditado: Quem conta um conto aumenta um ponto. Foi justamente a partir da invenção da escrita que o homem deu o grande passo no planeta rumo ao que seria no futuro. Todas as experiências, toda a ciência, todas as ações dos seres humanos sobre a terra, assim, puderam ser registradas e conhecidas pelas sucessivas gerações. Em cada campo do conhecimento, passou a existir um aprendizado, pela leitura, e, pela escrita, o registro do conhecimentos obtidos pelos indivíduos. Imagine o que seriam a Medicina, a Engenharia e a Arquitetura sem a escrita! A poesia, se perderia, a música se perderia, a filosofia se perderia, as próprias religiões não teriam seus livros sagrados para alimentar as crenças dos fiéis. Imagine você a quantidade de conhecimentos do mundo antigo conservados por muito tempo na Biblioteca de Alexandria em manuscritos que acabaram se perdendo! Para alguns historiadores, foram destruídos num incêndio e, para outros, acabaram se perdendo em virtude do próprio declínio da Biblioteca, que acompanhou o da cidade em que se localizava!

Começar a estudar, assim, desde o jardim da infância, é começar a penetrar o universo da comunicação escrita, que vai se tornando cada vez mais complexo ano após ano. Um estudante universitário que começa a fazer o curso de Medicina, começa fundamentalmente pelos livros, quer estes ainda estejam sob a forma de papel impresso, quer já tenham assumido o formato digital, que em breve será predominante. A este respeito, aliás, vale observar que, assim como os gravadores de som, os cassetes, os discos de vinil, os cedês e devedês não acabaram com a escrita, como alguns ingênuos acreditaram no  início, também a internet e a digitalização não o fizeram nem o farão: a internet é ainda um universo governado pela escrita.

Voltando à universidade, pode-se verificar que é um universo também dominado pelos discursos oral e escrito: oral nas aulas expositivas, nas palestras, nas conferências, nas mesas-redondas, etc.; escrito nos livros, nos artigos científicos, nas dissertações, nas teses e também nos trabalhos e nas monografias que você terá de escrever ao longo de cada disciplina. Se alguém ingressasse na universidade sem uma boa capacidade de produção de textos, para não falar também numa boa capacidade de discurso oral, seria como um mamute tentando caminhar na pista da Avenida Paulista às dezoito horas.

À vista dos comentários acima, pode-se concluir que a redação serve como uma prova fornecida por você quanto a estar perfeitamente preparado para um bom desempenho nas inúmeras leituras e produções de texto que terá de fazer. E ponha produção de texto nisso! Pode ter certeza de que terá de escrever muito. A universidade não forma repetidores, forma profissionais capazes de assimilar e produzir conhecimentos.

Entendeu agora a importância da prova de redação?