Arquivo de 29 de outubro de 2013

Não desafie Murphy

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Embora este Blogue e todos os outros que tratam de exames vestibulares e concursos alertem sempre os candidatos sobre os perigos da  Lei de Murphy, algumas pessoas não dão a mínima. Os professores, muitas vezes, perguntam aos alunos: Vocês parecem não ter interesse nem compreensão sobre o que estou ensinando hoje. O que está acontecendo? Estou falando grego?!

É a vez dos blogues fazerem as mesmas perguntas, ao verificarem que na segunda prova do ENEM alguns candidatos foram apanhados pelo azar: chegaram atrasados e não puderam fazer a prova. Os conselhos dados em sites e blogues são insistentes, repetitivos até, para evitar que essas tragédias venham a acontecer. E por que acontecem? Salvo casos que não dependeram da vontade dos candidatos, tais como um enguiço no ônibus, no automóvel, no metrô, trata-se, na verdade, de um desafio ousado das pessoas ao azar, à possibilidade, sempre presente, de alguma coisa acontecer de errado naquilo que estamos fazendo. E como dá errado! E como acontece! A chamada Lei de Murphy representa muito bem, conforme se pode verificar nestes três enunciados da tradução e adaptação de Millôr Fernandes  do texto de Arthur Bloch (3 ed. Rio de Janeiro: Record, 1996):

 

Se alguma coisa pode dar errado, dará.

Se você perceber que há quatro maneiras de uma coisa dar errado, e driblar as quatro, uma quinta maneira surgirá do nada.

Tudo o que é certo acaba dando errado. O contrário só de raro em raro.

 

O grande problema é que boa parte das pessoas acredita que a Lei de Murphy é  brincadeira, conjunto de piadinhas e trocadilhos para causar o riso. Puro engano. É um eficientíssimo alerta para driblarmos fatos inesperados em nossas ações cotidianas. Como se diz coloquialmente, os enunciados dessa lei são uma grande sacada e o melhor conselho possível para garantir eficiência em qualquer atividade: desconfiar permanentemente do poder do acaso e da confiança excessiva na inalteração dos eventos em nosso dia a dia. Costumamos inferir que o que aconteceu hoje em determinadas circunstâncias se repetirá igualmente amanhã, porque as mesmas circunstâncias estarão presentes. Nada mais falso. Basta uma pequena mudança para alterar o conjunto das circunstâncias e produzir um resultado diferente do usual. Millôr menciona esse fato de forma cômica: É impossível criar qualquer coisa à prova de erros — os idiotas são muito inventivos. Quer dizer o autor que é suficiente um pequeno deslize, uma pequena ingenuidade, uma pequeníssima distração para alterar um processo e conduzir ao erro. Por exemplo: acreditamos que o ônibus sempre parte no mesmo horário e sempre chega no mesmo horário. Nem sempre. Uma bobagem cometida pelo condutor, ou por um veículo ou por um transeunte pode causar um acidente. E o ônibus, que “sempre” passava no mesmo horário e chegava no mesmo horário, atrasa o suficiente para nos fazer perder um cinema, um negócio, um jantar, um encontro, um vestibular.

É este o grande valor da Lei de Murphy, provocar reflexões sobre incidentes que conduzem a alterações de um processo. Quando aceitamos tal possibilidade, percebemos em nosso dia a dia o quanto essa lei é procedente e o quanto nos pode ajudar, se estivermos sempre alertas, motivados pelo otimismo, mas resguardados pela preocupação constante com as possibilidades de erros, sejam nossos, sejam alheios.

É isso aí. Navegue na internet e procure ler todas as notícias que descrevem a perda de exames vestibulares e concursos em virtude de atraso no horário de entrada. E reflita a respeito. Depois, programe com cuidado o que poderá fazer, nos dias dos exames, para estar livre das surpresas do acaso. Afinal, os grandes vestibulares estão muito próximos e você nem sequer admite a possibilidade de esquecer sua identificação, de ir a um local errado, de chegar atrasado, não é verdade? Então, não desafie Murphy. Torne-o um aliado sempre presente, não um inimigo oculto.