Archive for July, 2013

Blogueiro também sonha

Tuesday, July 23rd, 2013

Um blogueiro pode parecer um sujeito formado apenas de palavras. Não é. É um ser de carne e osso que escreve sempre com a intenção de ser lido, compreendido, de contribuir com algo de seus conhecimentos, pensamentos e reflexões para informar e estimular as pessoas que o leem a atentar para certos conteúdos, comportamentos, visões que povoam a net e a realidade externa. Um blogueiro é, em síntese, uma visão de mundo que se oferece como tal a seus leitores, por meio de textos próprios ou alheios que comenta.

Pois certo blogueiro, talvez por ser de carne, ossos e alma, ainda ontem teve um sonho dos mais interessantes, que na hora não conseguiu explicar bem: sonhou que caminhava com dificuldade pela escuridão total, um breu de escuridão, quando, ao longe, observou um portentoso castelo todo cheio de luzes; as próprias paredes brilhavam como portadoras de luz própria ante a escuro do entorno, que continuava total. De repente, a escuridão amenizou para o azul celeste e se viam e ouviam pássaros de todas as espécies voando em direção ao castelo: quando estavam já muito próximos, transformavam-se em linhas de luz de todas as cores e tons que ultrapassavam os muros e ingressavam em seu interior, fazendo com que, por instantes, até a chegada do próximo pássaro, o edifício reverberasse exatamente aquela cor. Todos, por fim, entravam, e então a visão final do sonho era um festival de linhas, luzes, cores e reverberações, como uma antevisão do que deve ser o Paraíso Universal, se um dia formos dignos de chegar lá.

O blogueiro acordou aborrecido. Queria continuar sonhando. Queria continuar sonhando para sempre aquela sinfonia de luzes e cores, que o faziam sentir-se tão bem, tão eufórico, tão feliz, tão certo de que não haveria outro sonho capaz de provocar tantas sensações ótimas ao mesmo tempo. Após algumas horas, porém, já metido em seus trabalhos de criar e escrever e viajar pela web à procura de conhecimentos novos, passou a perguntar-se, como se perguntam as pessoas, como se perguntava aquele faraó do Velho Testamento, se o sonho teria algum significado em sua vida, uma premonição talvez de eventos futuros ou, mesmo, uma representação de seus anseios e metas no mundo. Ou talvez até de sua morte próxima.

Por mais que tentasse, não conseguiu interpretar nada além do que sentira no próprio sonho: a pura alegria do sonhar com um conteúdo visualmente maravilhoso e misteriosamente sugestivo de coisas boas. Sabendo que não conseguiria passar daquele nível de compreensão, apelou para sua esposa, contando-lhe inteiramente o sonho e o que sentira. E ela, com a sabedoria proverbial de que só as amantes esposas são capazes, perguntou: Em que você tem mais pensado nos últimos dias?

A pergunta o  deixou confuso e preocupado com a possibilidade de ela estar fugindo do assunto, por não julgar importante. Mesmo assim, respondeu: Tenho pensado muito nos garotos que fizeram vestibulares de inverno e, agora, quando os resultados saem, têm de tomar difíceis decisões de se matricularem neste ou naquele curso em que foram aprovados. Tenho pensado também, e muito, naqueles que reprovaram e no que significa para eles esse fato: uma derrota estrondosa? um obstáculo não vencido mas ainda a vencer? um motivo para desistirem de tudo e mudarem de meta, esquecendo vestibulares? Confesso que me preocupo mais com os que não passaram do que com os que passaram…

Pois aí está o seu sonho! exclamou a esposa. Você idealizou um mundo em que todos os pássaros conseguem se transformar em luzes e ingressar, não apenas para absorver a luz do castelo, mas também para contribuírem com suas próprias luzes.  Você se sentiu maravilhosamente bem, porque esse é o seu maior ideal, uma utopia, é bem verdade, mas as utopias muitas vezes são alcançadas: fazer com que todos os pássaros, todos os estudantes, venham um dia a ingressar diretamente nas universidades de qualidade,  para que tenham possibilidade de demonstrar que são capazes de atingir a formação completa.

O blogueiro concordou, encantado, louvou a esposa pela interpretação, enquanto ela concluía a análise: Além do mais, você está e sempre esteve inteiramente certo nesse ideal, que está expresso na Declaração Universal dos Direitos do Homem. É só ler com atenção.

O Blogueiro se cumprimentou, interiormente, por ter uma esposa como aquela, muito mais sábia do que ele.

 

Lendas urbanas, lendas universitárias

Wednesday, July 17th, 2013

Em todos os tempos, as cidades do mundo inteiro acumularam lendas, muitas das quais de base real, outras tantas nascidas da fértil imaginação de pessoas que nasceram com o dom de inventar histórias. O progresso que o mundo foi experimentando, especialmente ao longo dos últimos 500 anos, parecia destinado, entre outras coisas, a eliminar de vez no futuro superstições, crendices e lendas. Não foi bem isso o que aconteceu; o homem continuou com suas visões e suas lendas, e nem mesmo a internet, nascida da fantástica tecnologia da informação e da comunicação atual, foi capaz de banir os relatos imaginários e fazer o mundo ingressar num plano definitivamente medido, ponderado, lógico, regido pelo princípio da causalidade que governa as ciências.

Na verdade, aconteceu justamente o oposto ao esperado: a internet incrementou intensamente certos hábitos que antes estavam limitados pela comunicação meramente oral, folclórica. É o caso das anedotas e piadas, que nunca tiveram tanto campo e tanto destaque como na rede, e também das lendas urbanas, cujo grande desenvolvimento na rede fez surgirem inclusive subgêneros. A internet tem funcionado, assim, para resgatar as numerosas lendas urbanas antigas, como também para criar novas, cujos temas radicam no próprio universo científico, tecnológico, cibernético, informático, digital.

Quem nunca ouviu falar na Loira Fantasma, na Loira da Banheira, no Capa Preta, só para falar em lendas antigas resgatadas pela rede? E quem nunca leu em anexos a emails enviados por colegas lendas típicas de nossa época, como as dos venenos em certos tipos de produtos, as dos transgênicos que nos tornam monstros, as previsões dos Maias, a captura de etês no Brasil e seu envio aos Estados Unidos, etc., etc. Os homens, realmente, não parecem haver perdido sua capacidade de imaginar e fantasiar, apesar de toda a tecnologia.

Até com relação ao ensino nas universidades se espalham lendas que correm pela rede como verídicas, acontecidas neste ou naquele câmpus desta ou daquela universidade brasileira ou estrangeira. E muitas são interessantíssimas, embora nem todas possam ser publicadas num Blogue como este, devido ao conteúdo, digamos, desaconselhável a maiores de trinta anos. É típica a história, que talvez tenha origem na realidade, dos quatro alunos que, faltando a uma prova no curso universitário para não perderem uma festa, justificaram-se ao professor dizendo que estavam vindo para a universidade naquele dia, quando um pneu estourou e não puderam consertá-lo em tempo. O mestre fingiu aceitar e, no mesmo momento, levou os quatro para uma sala vazia para fazer a prova. Colocou cada aluno em um canto oposto da sala e disse que faria duas perguntas, uma com o valor de 0,5, outra de 9,5. A primeira foi sobre o valor aproximado do pi; a segunda, sobre qual dos pneus havia furado. A discrepância das respostas dadas pelos quatro à segunda pergunta revelou a mentira e os alunos receberam 0,5. Esta lenda circula com diferentes variantes.

E, já que estamos focalizando as lendas universitárias, não custa observar que muitas delas geram, nos candidatos a vestibulares e calouros, expectativas que não condizem muito bem com a realidade que viverão nos câmpus. Uma delas é a de que tudo no curso será uma maravilha, viver-se-á num mundo de festas e diversões e o aprendizado ocorrerá misteriosamente no meio de toda essa folgança. É bom dizer, para evitar essa frustração, que os anos do curso universitário serão maravilhosos, sim, mas não evitarão o grande esforço de estudar, fazer trabalhos, prestar provas dificílimas que sempre se destinam a exigir o máximo desempenho.

Outra falsa expectativa é a de que, uma vez formados, o emprego estará garantido, e emprego bom, com altos salários. Nada disso. Não importa que curso seja feito, a vida fora da universidade, com o diploma embaixo do braço, começa realmente do zero e é a competência adquirida pelo esforço nos bancos acadêmicos que funcionará como elemento de ascensão profissional.

Uma terceira expectativa, mais falsa ainda, é a de que alunos menos aplicados terão mais chances de vencer na vida profissional do que os mais aplicados, porque são mais espertos. Nada disso. Alunos que não foram muito esforçados nos cursos dificilmente se tornarão, da noite para o dia, profissionais de grande sucesso: a esperteza sem competência nem sempre dá certo no mundo profissional. Além disso, alunos dedicados na universidade sempre foram dedicados desde os primeiros anos do ensino e sempre deram certo em virtude dessa aplicação. Não há como não darem certo também na vida profissional, embora venham a enfrentar as dificuldades que todos têm de enfrentar.

A lista de expectativas é enorme. Vale colocar ainda uma das mais interessantes: para muitos alunos,  o curso que farão na universidade terá também o melhor, o mais perfeito currículo. Expectativa falsa. Os currículos dos cursos são, por sua própria natureza, instáveis, servem para o presente imediato, mas podem ser alterados no momento em que a universidade julgar necessário. Isso é mais que natural: o mundo progride em todos os campos, vertiginosamente, forçando mudanças no ensino de muitas profissões. Os próprios estudantes, muitas vezes, durante o curso, detectam essas lacunas e conseguem supri-las frequentando disciplinas de outros cursos, como foi o caso, no início dos anos noventa, em que os estudantes detectaram com mais rapidez a necessidade, quando formados, de saber lidar com computadores e determinados softwares. Seus professores levaram um pouco mais de tempo para perceber.

É isso aí. Curta as lendas urbanas e as lendas universitárias; não as leve, porém, muito a sério. Lendas são lendas, realidade é realidade. Sonhar e fantasiar fazem parte da vida, mas nossos pés têm de estar sempre no chão.

 

Toma lá, dá cá!

Wednesday, July 3rd, 2013

Toma lá, dá cá! é um provérbio muito comum hoje em dia, usado frequentemente em sentido pejorativo para designar negociatas ocorridas ou a ocorrer em diferentes atividades, que implicam uma troca de favores nem sempre lícitos. A própria expressão troca de favores tem o mesmo alcance de sentido, bem como outros provérbios como Uma mão lava a outra ou É dando que se recebe, entre muitos.

Os provérbios costumam ser para nossa vida prática o que as leis são para nosso comportamento na sociedade, com a diferença de que não somos obrigados a segui-los. Seguindo-os, porém, estamos aproveitando a experiência acumulada pela humanidade há milênios e diminuímos bastante a margem de erro em nossas atividades.

Assim como podemos utilizar a sabedoria dos provérbios para situações negativas, como a descrita acima, das negociatas, podemos tomá-la em sentido bem mais construtivo para melhorar nosso desempenho nas atividades ou até mesmo para otimizar nossa visão de mundo. É o que pode ocorrer com os provérbios Toma lá, dá cá!, Uma mão lava a outra, É dando que se recebe. Se os entendermos como conselhos positivos para a vida, podemos melhorar em muito nosso desempenho nos estudos e no trabalho. E essa positividade reside no fato de que os três provérbios nos alertam para a dupla face de todos os eventos que vivemos: nenhum homem pode julgar que a sociedade apenas lhe deve, mas que ao mesmo tempo ele deve alguma coisa à sociedade; nenhum jogador de qualquer esporte coletivo pode julgar que todos os companheiros jogam para ele, mas que todos, ele incluído, jogam para a equipe; nenhum estudante deve julgar que a escola tem a obrigação de ensinar-lhe, mas que, simultaneamente, ele também tem a obrigação de aprender. É Toma lá! dá cá!

Estas reflexões surgiram quando, outro dia, ouvimos dois candidatos ao Vestibular Meio de Ano da Unesp conversando logo após as provas da primeira fase. Dizia um deles: Não sei se vou passar. Vou dar um descanso agora nas férias e, se não passar, recomeço a estudar em agosto para os vestibulares do final do ano. Retrucava o outro: Acho até que vou conquistar a vaga, mas, por via das dúvidas, amanhã já estarei continuando a estudar, começando pelos assuntos em que tive dificuldade. Se não passar, já entro agosto com a carga toda.

O primeiro poderá justificar que, dando um descanso, estará preparado física e mentalmente para mais meses de estudo. O segundo, por sua vez, dirá que não quer dar sopa ao azar, já que a não interrupção do estudo poderá trazer o diferencial para uma aprovação no final do ano. Além do mais, se passar, ganhará o descanso merecido antes de iniciar o curso universitário na Unesp.

Cada um dos estudantes, de fato, tem lá suas justificativas para fazer o que anunciou. Mas o segundo revela compreender um pouquinho melhor o Toma lá, dá cá! da vida prática, muito necessário para driblar, como o Neymar, as dificuldades previstas e as imprevistas que sempre aparecem em nosso caminho. Não acha? Você pode vencer com um sofrido 1 X 0 ou com um confortabilíssimo 3 X 0.

Leia mais provérbios. Aprenderá muito com eles.