Arquivo de 4 de junho de 2013

Do appendix probi à lista do blogueiro

terça-feira, 4 de junho de 2013

Agora que a primeira fase do Vestibular Meio de Ano da Unesp terminou e você espera com ansiedade a lista da classificação, vale a pena retomar os conselhos que o Blogueiro vinha dando sobre o discurso escrito em norma-padrão, que utilizará nas respostas às questões discursivas e no texto de sua redação, na segunda fase.

Alguns estudantes reclamam da exigência da norma-padrão nas provas, imaginando que se trata apenas de autoritarismo, uma mania atual das instituições de ensino superior, um modo a mais de criar dificuldades para a sua aprovação. Observação injusta.

A preocupação com as diferenças entre os usos da língua é velha como a própria humanidade. Desde que os primeiros homens começaram a estudar o funcionamento de seus idiomas e buscaram estabelecer padrões e regras de uso correto, que mais tarde se consolidaram nas gramáticas, a existência de diferenças de uso foi detectada. Os gramáticos antigos baseavam suas observações no critério de empregos corretos, que defendiam, opostos a empregos incorretos, que acusavam e abominavam. Os estudiosos modernos alteraram a perspectiva, considerando que existem diferentes maneiras de utilização da língua; diferentes apenas, não corretas ou incorretas. Em mais de um texto postado neste Blogue demonstramos a importância da norma-padrão como modalidade de comunicação geral da língua, bem como instrumento de ascensão profissional e social. É por isso que toda a legislação da educação no Brasil estabelece que o ensino de português deve basear-se nessa norma.

Um exemplo para ilustrar a importância do que temos a dizer. No século III d.C., um gramático, que mais tarde foi erradamente reconhecido como Probo, escreveu uma lista comparativa de palavras e expressões do latim clássico, que, segundo ele, deveriam ser empregadas, e palavras de uso coloquial, popular, que não deveriam ser usadas, por representarem um latim errado, corrupto, falado pelas legiões, pelos colonos, pelo povo menos culto. Observe três exemplos, tais como ele apresenta no chamado Appendix Probi:

 

111 – Oculus non oclus

174 – Rivus non rius

201 – Viridis non virdis

A primeira forma, segundo o gramático, era sempre a correta, deveria ser empregada por caracterizar o latim das elites, das pessoas cultas, dos literatos. A segunda, precedida de non, era sempre a incorreta, devendo ser condenada por caracterizar o latim falado pela plebe. É interessante observar que o Appendix Probi acabou se tornando um documento precioso não por esses preconceitos, mas por apresentar numerosos exemplos de como era o latim popular, coloquial, o chamado latim vulgar, do qual se originaram, mais tarde, novas línguas, como o italiano, o espanhol, o francês, o português, o romeno.

Ora, aproveitando o exemplo antigo para uma finalidade moderna, inclusive pelo conceito de norma-padrão, apresentamos abaixo uma lista comparativa de empregos da norma-padrão e do uso coloquial, popular. A diferença é que não condenamos o uso popular, apenas sugerimos, como fazem anualmente os professores de português de todas as escolas, não colocar nos textos escritos em norma-padrão usos que caracterizam o emprego coloquial, popular. O erro, portanto, não está em umas formas serem corretas e outras incorretas, mas no fato de inserir em seu discurso escrito em norma-padrão formas que não são compatíveis com ela. Apresentamos hoje uma lista de trinta; mais tarde providenciaremos outras. O objetivo continua sendo o de todos os textos postados anteriormente: evitar que, por descuido, pela mistura de modalidades, você perca pontos preciosos para sua classificação. Para deixar mais claro que estamos pensando em sua prova discursiva, empregamos em cada caso “escreva” e “não escreva”. Preste muita atenção, pois talvez você venha cometendo alguns desses equívocos:

 

1 –   Escreva: seja; não escreva: seje.

2 –   Escreva: ritmo; não escreva: rítimo.

3 –   Escreva: admirar, admiro; não escreva: adimirar, adimiro.

4 –   Escreva: advogado; não escreva: adevogado.

5 –   Escreva: bicarbonato, não escreva bicabornato.

6 –   Escreva: caderneta, não escreva: cardeneta.

7 –   Escreva: procurá-lo, encontrá-lo; não escreva:  procurar ele, encontrar ele.

8 –   Escreva: para eu fazer, para eu ir; não escreva: para mim fazer, para mim ir.

9 –   Escreva: bastantes problemas; não escreva bastante problemas.

10 – Escreva: Ela está meio cansada; não escreva:  Ela está meia cansada.

11 – Escreva: análise, analisar; não escreva: análize, analizar.

12 – Escreva: Assisti ao filme; não escreva: Assisti o filme.

13 – Escreva: Se supusermos; não escreva: Se supormos.

14 – Escreva: Se ele retiver o documento; não escreva: Se ele reter o documento.

15 – Escreva: Eu detive o ladrão; não escreva: Eu deti o ladrão.

16 – Escreva: Se ele mantivesse a palavra; não escreva: Se ele mantesse a palavra.

17 – Escreva: prazeroso, prazerosamente; não escreva:  prazeiroso, prazeirosamente.

18 – Escreva: tabuleta; não escreva:  taboleta.

19 – Escreva: meteorito; não escreva: meteórito.

20 – Escreva: meteorologia; não escreva:  metereologia.

21 – Escreva: gratuito; não escreva: gratuíto.

22 – Escreva: dançar, dança; não escreva:  dansar, dansa.

23 – Escreva: coordenar, coordenador; não escreva: cordenar, cordenador.

24 – Escreva: Ponha as flores no vaso; não escreva: Ponha as flores no vazo.

25 – Escreva: O combustível vazou; não escreva: O combustível vasou.

26 – Escreva: Estou num mau dia; não escreva: Estou num mal dia.

27 – Escreva: Tigela; não escreva: tijela.

28 – Escreva: octocampeão; não escreva: octacampeão.

29 – Escreva: Eu trouxe o presente; não escreva: Eu truxe o presente, nem: Eu troxe o presente, nem: Eu trousse o presente, nem: Eu trosse o presente.

30 – Escreva: cataclismo, não cataclisma.

Muitas, não? Pois há muitas mais. E quase sempre ocorrem em provas discursivas, prejudicando a pontuação de alguns candidatos. Observe-as novamente com atenção. Consulte uma gramática, em alguns casos, para ter certeza e para ampliar os exemplos similares. Você poderá criar até sua própria lista, muito ampliada.

Percebeu? Não se deixa nunca passar em branco uma dúvida. É o caminho certo para neutralizar a tirania dos décimos, centésimos e milésimos na classificação em qualquer concurso.

Escreva o que deve escrever; não dê sopa ao azar.