Archive for May, 2013

Filosofando sobre as questões objetivas

Tuesday, May 21st, 2013

Às vezes é bom observar sob um ângulo diferente os fatos ou objetos que conhecemos. Um exemplo vem a calhar: falamos tanto em questões objetivas e questões discursivas, que acabamos esquecendo o que realmente representam e como funcionam, sobretudo quando estamos tentando resolvê-las em provas de vestibulares ou de outros concursos públicos. Filosofar um pouco sobre o assunto, deste modo, pode ser de grande utilidade como mais um instrumento de estudo. Tentemos fazer isso, por partes.

1. Por que denominamos questão objetiva? Pelo fato de haver apenas uma resposta que atende objetivamente, com todos os seus conteúdos, ao que foi solicitado, enquanto as outras quatro falham em maior ou menor grau nessa tentativa.

2. Do ponto de vista de quem responde, a resposta correta está lá, entre as cinco apresentadas, e quem responde não vai acrescentar nada a ela, vai apenas identificá-la. Não é o que ele acha — é o que a própria estrutura da questão, enunciado + alternativas, estabelece objetivamente.

3. Do ponto de vista do elaborador, a objetividade da questão é algo que decorre de um trabalho árduo, de muita repetição, muito teste, para verificar se nenhum traço de subjetividade dele, elaborador, escapou na resposta que apresenta como correta.

4. Se o elaborador colocou em parte da resposta que apresenta como correta não o que corresponde ao que está no enunciado, mas o que ele acha ou o que ele, no momento, sentiu como correto, que acontecerá? O candidato poderá “achar” ou “sentir” outra coisa e aí estará criado um problema que implicará com toda certeza a anulação da questão, em virtude de a alternativa apresentada como correta permitir mais de uma interpretação, isto é, ter perdido a objetividade.

5. Uma resposta objetiva, portanto, não permite dupla interpretação, apenas uma, que tem de valer para todos os que tentam encontrá-la.

6. Outro fato que pode ocorrer diz respeito à geração das respostas erradas. São elas mais trabalhosas para o elaborador do que a correta, pois têm de parecer, em maior ou menor grau, corretas, com um ou outro conteúdo errado, para diferenciá-las da que tem todos os conteúdos corretos. Essa dificuldade em estabelecer as respostas erradas conduz, muitas vezes, o elaborador a deixar de perceber que uma resposta apresentada como errada poderia ser considerada inteiramente correta sob outro ângulo de interpretação. Neste caso, ou a questão é anulada, ou ambas são consideradas corretas. Exatamente por esse perigo de quebra da objetividade, a criação de respostas erradas é sempre o caminho das pedras para o elaborador, assim como a procura da resposta correta é o caminho das pedras para quem responde.

7. Sabendo de tudo isso, o candidato pode desenvolver uma técnica de leitura, interpretação e resposta para qualquer questão objetiva, com base na identificação e eliminação inicial da alternativa mais errada, até atingir a inteiramente correta. Pode acontecer que, ao final, fique em dúvida entre duas, o que torna menos trabalhosa a identificação.

8. Outra reflexão útil ainda sobre a relação entre o enunciado, tecnicamente chamado raiz da questão, e as alternativas: Raiz e alternativas formam uma espécie de jogo, em que a raiz cria uma lacuna e as alternativas tentam preenchê-la, embora apenas uma delas possa fazê-lo de modo inteiramente correto. Assim, quando aproximamos a raiz da resposta correta, revela-se uma estrutura completa, fechada, com a raiz correspondendo à abertura e a alternativa correta ao fechamento.

9. De certo modo, a estrutura das questões objetivas toma por referência os diálogos que fazemos todos os dias, em que pedimos ou trocamos informações, servindo-nos de frases imperativas como Aponte o autor do gol da vitória, ou de frases interrogativas, como Quem marcou o gol da vitória? As questões de vestibulares e concursos são apenas um pouco mais elaboradas.

10. Ora, é preciso observar, finalmente, que o tema ou assunto abordado pela questão objetiva não precisa ser, necessariamente, dotado de completa objetividade. Pode-se elaborar questão objetiva sobre um poema, por exemplo, que apresenta parte de seu conteúdo dotada de subjetividade, vale dizer, de expressão afetiva, emocional do poeta. Nem por isso a questão deixa de ser objetiva, pois explora também objetivamente esses conteúdos que expressam sentimentos ou emoções.

É isso aí! Filosofando, às vezes a gente consegue entender certos pormenores das coisas e dos fatos que não havíamos conseguido perceber antes com a mesma clareza.

O Blogue lhe deseja sinceramente a felicidade de ser cem por cento objetivo em suas respostas nas provas da primeira fase.

 

Pôr, compor, propor, etc.: uma família “da pesada”

Tuesday, May 14th, 2013

Depois dos alertas dados pelo Blogue sobre as armadilhas de “ver” e sua turma, bem como as sutilezas de “vir” e seu bando, verbos todos capazes de fazer você escrever incongruências, vamos examinar uma família “da pesada”, cujo patriarca, o verbo pôr, é o primeiro a iludir o usuário da língua, falante ou escritor.

No jogo de basquete do colégio, um garoto diz a outro:

 

Se eu pôr você no meu time, vai jogar tudo o que sabe?

 

Que história é essa, meu amigo? Não é “se eu pôr”, é “se eu puser”. Você pede que seu colega jogue tudo o que sabe, mas você não sabe nem pedir com a forma verbal adequada? Então fale direito, se quer ser respeitado e obedecido:

 

Se eu puser você no meu time, vai jogar tudo o que sabe?

 

Imagine você colocar o “se eu pôr” numa redação de vestibular? Vai achar que é um errinho de nada e que os corretores devem perdoá-lo? Não devem. Você passou por nove anos de ensino fundamental, três de ensino médio e talvez alguns mais de curso pré-vestibular, não passou? E seus professores sempre corrigindo o “se eu pôr” por “se eu puser”, não é verdade? E não fez questão de aprender, de assimilar e automatizar o emprego correto? A fase de perdão acabou, em nenhum vestibular ou concurso público os corretores vão deixar passar em branco, e você vai se queixar de que deixou de ser aprovado “por um quase nada”. Na verdade, não foi bem um quase nada, foi por um “pôr” indevidamente empregado.

O parágrafo anterior foi escrito para alertar, mesmo. Sabe por quê? Porque a família de pôr é “da pesada” em todos os sentidos, tanto em número de membros, quanto em capacidade de fazê-lo equivocar-se. Veja quantos: antepor, apor, compor, contrapor, decompor, depor, descompor, dispor, expor, impor, indispor, interpor, justapor, opor, pôr, pospor, predispor, prepor, pressupor, propor, recompor, repor, sobrepor, soto-pôr, superpor, supor, transpor. São quase todos verbos conhecidos e correntes. Você costuma usar frequentemente pelo menos os seguintes: pôr, antepor, compor, contrapor, decompor, depor, dispor, expor, impor, indispor, interpor, opor, predispor, pressupor, propor, repor, supor, transpor. E em cada um deles as armadilhas se renovam e você pode tropeçar num

 

Se eu impor minha vontade, ficarei feliz.

Errado, ficará infeliz, pois deveria ter dito: Se eu impuser minha vontade, ficarei feliz. Nesse caso, todos ficaremos felizes, e mais ainda se você aprender com esse exemplo e passar a usar os outros membros da família como devem ser usados:

 

Se eu compusesse canções, seria feliz.

Se eu decompuser este número em fatores…

Se o funcionário depusesse, o chefe estaria em maus lençóis.

Se o professor de Geografia expusesse tão bem a matéria quanto o de História, eu entenderia melhor.

Se eu me opuser à mudança, o gerente não poderá levá-la a efeito.

Quando eu propuser a alteração do regulamento, ninguém vai aceitar.

Se o funcionário repusesse o material, não teria sido demitido.

Quando eu transpuser o último obstáculo, meu sonho estará realizado.

Leia e releia estes exemplos, para fixar. Mas não fique apenas neles. Primeiro, dê uma olhada na conjugação completa do verbo pôr, que você encontra em qualquer dicionário eletrônico, em sua gramática, em apostilas e na internet. Verifique, sobretudo, como se realizam o pretérito imperfeito e o futuro do subjuntivo desse verbo. Depois, experimente conjugar os outros verbos da família. Além disso, se quiser aprender mesmo cem por cento, procure a farta exemplificação fornecida por numerosos sites especializados em língua portuguesa. Com isso, você não será nunca mais iludido por nenhum membro dessa família perigosa. E neutralizará o perigo de perder a classificação por um quase nada.

 

De ver a vir: o perigo continua

Friday, May 10th, 2013

No artigo anterior, fez-se um alerta sobre os perigos que algumas formas do verbo ver podem trazer a seus textos e até mesmo a sua fala. Alguns estudantes estão tão acostumados a errar em tais formas, que reclamam quando ouvem o professor dizer:

 

Prestem atenção! Se eu vir um de vocês colando na prova, dou zero na hora. Não façam isso nem se me virem distraído, certo?

 

Julgam que o mestre usou o verbo vir em lugar de ver e sugerem que deveria falar:

 

“Se eu ver um de vocês colando na prova… Não façam isso nem se me verem distraído.”

 

Na verdade, o professor está certíssimo e errados os alunos que imaginam corrigi-lo: o futuro do subjuntivo de ver é mesmo vir, vires, vir, virmos, virdes, virem. E o pretérito imperfeito do subjuntivo é visse, visses, visse, víssemos, vísseis, vissem.

Essa confusão que alguns estudantes e muitas pessoas fazem é até natural, pois se deve à aparente semelhança de formas dos dois verbos. Por isso, sempre é bom dar uma revisada também no verbo vir e lembrar que o pretérito perfeito do indicativo é vim, vieste, veio, viemos, viestes, vieram. O pretérito imperfeito do subjuntivo é viesse, viesses, viesse, viéssemos, viésseis, viessem; e o futuro do subjuntivo de vir é vier, vieres, vier, viermos, vierdes, vierem.

Portanto, todo o cuidado é pouco com o emprego de vir. E esse cuidado aumenta com os verbos dele originados, que seguem sua conjugação. Preste atenção nos seguintes, que são mais usados e podem surgir em suas respostas discursivas ou em sua redação: advir, convir, intervir, provir, sobrevir. Imagine, por exemplo, que você vai dizer que o diretor da escola ingressou na sala em que os estudantes discutiam em voz muito alta. E de repente você tem dúvida se vai dizer interviu ou interveio. E agora? É só lembrar que intervir se conjuga como vir: vim, vieste, veio, viemos, viestes, vieram; intervim, intervieste, interveio, interviemos, interviestes, intervieram. Aí fica fácil: O diretor interveio na discussão dos alunos. E muita cautela ao usar a primeira pessoa, pois o correto é mesmo eu intervim, e não eu intervi. Percebeu?

É bom, portanto, dar uma repassada na conjugação de vir e dos verbos que deste se formam. Observe alguns exemplos corretos:

 

Daquela façanha adveio-lhe grande glória.

Aquela escola não lhe convém, minha filha.

Eu intervim, o diretor interveio e tudo acabou em festa.

Todo o combustível de que necessitávamos provinha da Europa.

O dia estava maravilhoso, até que sobreveio o furacão.

E tenha sempre em mente o erro mais crasso que se pode cometer com o verbo vir. No discurso coloquial abusamos desse erro, mas jamais podemos transportá-lo para o texto escrito: usar vim em vez de vir como infinitivo. Isso, por uma razão muito simples: não existe infinitivo terminado em –m no português, já que todos terminam em –r. Então, dizer Meu primo quer vim a São Paulo amanhã é um erro duro de engolir, isto é, de ouvir. O certo é Meu primo quer vir a São Paulo amanhã. Então, trate de começar a usar a forma correta do infinitivo de vir, para não correr mais o risco de escrevê-la incorretamente. Já imaginou se escapa em sua redação uma frase como Aquele navegador português não pretendia vim para o Brasil? Seria terrível, não?