Arquivo de 11 de abril de 2013

Riscos que não valem o risco

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Preste bem atenção: vivemos um tempo e uma cultura em que a coragem é considerada uma virtude acima de qualquer suspeita e o homem corajoso um verdadeiro herói. Correto? Nem tanto. É preciso acrescentar também que vivemos um tempo e uma cultura em que estamos em permanente julgamento, por razões e valores diferentes, por nossos pais, irmãos, amigos, professores, escolas, universidades e superiores a quem devemos obedecer em nosso trabalho. Mesmo que escolhamos ser autônomos e criemos nossas empresas individuais, ainda assim o julgamento não termina, porque o público que adquire nossos produtos ou serviços está avaliando constantemente o que recebe; se não gostar, não compra mais; nesse caso, ou mudamos de atitude e produtos, ou vamos à falência.

Quem participa de bancas de correção de exames vestibulares por certo já se deparou com redações dissertativas em que o candidato, ou por não saber escrever mais, ou por querer arriscar, ou por ambos os motivos ao mesmo tempo, inseriu em seu texto outro texto que nada tinha a ver com o fluxo de sua argumentação: uma letra de música, por exemplo, ou uma receita de torta de damasco, ou uma passagem de um romance conhecido. O candidato, assim, destruiu a linha argumentativa que estava começando a construir. A redação, obviamente, tirou zero. Outro candidato fez algo semelhante e acabou levando metade da nota. Sortudo! disseram seus colegas.

Rigorosamente falando, a inserção em uma dissertação de um texto que nada tem a ver com ela representa a destruição de sua linha argumentativa; e a redação deixa de ter sua qualidade essencial: ser um texto, uma totalidade semântica. Em conclusão: deveriam ambas as redações ter recebido zero, porque não se fecharam como textos, muito menos como textos dissertativos.

É, mas se um recebeu nota, eu também arriscaria! as bancas não são infalíveis! poderia dizer você, e este blogueiro responderia: Sim, mas o risco valeria a pena? Seria coisa para outros tentarem nos próximos vestibulares das grandes universidades brasileiras? Não, o risco não valeria a pena. As grandes universidades do país há muito equacionaram os tipos de desempenho em redação que merecem receber correção e os que merecem receber zero diretamente. Os textos mencionados não passariam da primeira fase de correção de vestibulares de grandes universidades.

Há aqui, porém, uma virtude a destacar: a coragem dos candidatos em apresentar redações desse tipo. Mas é também o caso de perguntar: Vale a pena arriscar anos de estudos com uma atitude demasiadamente “corajosa”? Não, não vale. Os exames vestibulares são um ponto de chegada e ao mesmo tempo de partida para uma formação superior. É melhor não assumir nenhuma atitude que possa pôr em risco a aprovação.

A Fundação Vunesp publicou um livro, que está em segunda edição, sobre as dissertações em exames vestibulares (Redação no vestibular da Unesp: a dissertação), em que redações corajosas como essas são chamadas com bom humor camicases, porque nelas os candidatos assumem uma probabilidade enorme de tirar zero, contra uma pequena possibilidade de a banca atribuir alguma nota. É algo que se deva aconselhar a fazer? Jamais.

É melhor dizer aos candidatos: há riscos que não valem o risco. Sigam o regulamento, as regras, o protocolo; escrevam um texto simples, bem argumentado e fechado semanticamente após o ponto final. Coragem é uma virtude, às vezes se torna um meio de atingir o sucesso. Mas em excesso pode levar diretamente ao fracasso. Pense nisso.