Archive for April, 2013

O verbo ver e seus truques

Monday, April 22nd, 2013

Alguns professores afirmam que a aprovação em vestibulares é feita de detalhes que fazem a diferença entre o sucesso e o fracasso. Um desses casos é o do verbo ver, inofensivo na aparência, malicioso em algumas formas. É comum ouvirmos pessoas no dia a dia (até mesmo pessoas com boa formação), dizerem frases como

Quando eu ver você amanhã no supermercado, vou contar a verdade. (Errado. É Quando eu vir você amanhã…)

Se nós nos vêssemos mais vezes, seríamos amigos. (Errado. É Se nós nos víssemos mais vezes…)

Certo professor deu esses dois exemplos em aula e, a seguir, comentou que as formas do verbo “ver”, no pretérito imperfeito e no futuro do subjuntivo, são derivadas do pretérito perfeito do indicativo (vi, viste, viu, vimos, vistes, viram) e por isso têm -i-  em lugar de -e-. Percebendo que alguns alunos duvidavam, exemplificou mais firmemente:

 

Se eu visse o filme

Se tu visses o filme

Se ele visse o filme

Se nós víssemos o filme

Se vós vísseis o filme

Se eles vissem o filme

Quando eu vir o professor

Quando tu vires o professor

Quando ele vir o professor

Quando nós virmos o professor

Quando vós virdes o professor

Quando eles virem o professor

 

Alguns alunos reclamaram, dizendo que o professor estava enganado e essa conjugação devia ser a do verbo “vir”. O mestre sorriu e pediu ao melhor aluno da classe para conjugar o verbo “vir” nos mesmos tempos e modo, usando os artifícios de “se” e “quando”. O aluno, orgulhoso, declamou, olhando irônico para os colegas reclamões:

 

Se eu viesse à aula

Se tu viesses à aula

Se ele viesse à aula

Se nós viéssemos à aula

Se vós viésseis à aula

Se eles viessem à aula

Quando eu vier ao parque

Quando tu vieres ao parque

Quando ele vier ao parque

Quando nós viermos ao parque

Quando vós vierdes ao parque

Quando eles vierem ao parque

Um estudante ainda protestou, imaginando que fazia um deboche: Mas então não aparece “ver” na conjugação do verbo “ver”? Aparece, sim, disse o professor, no infinitivo pessoal: ver, veres, ver, vermos, verdes, verem.

O professor, então, terminou com exemplos brincalhões para fixar o aprendizado: Prestem atenção! Se eu vir um de vocês colando na prova, dou zero na hora. Não façam isso nem se me virem distraído, certo?

Apesar de todas as lições como essas e outras que os professores dão nos ensinos fundamental e médio, muita gente sai da escola para ignorar solenemente a forma gramaticalmente adequada do verbo ver. E daí? Aí é que está a armadilha. Esse esquecimento pode ter consequências graves, não apenas em termos de redação, mas de leitura. Quem está acostumado a errar, falando Se eu ver você amanhã…, poderá entender errado quando alguém usar a forma adequada. Na conversa corriqueira ainda dá para perguntar, para explicar-se. Numa prova, porém, o engano fica registrado e não muda mais. Entender “vir” por “ver” num enunciado de questão pode conduzir a um entendimento errado da pergunta e a uma resposta também errada. Escrever errado numa redação pode implicar um desconto na nota final. Sim, um descontinho, um pequeno nada, que, como alertam sempre os estrategistas, pode significar a diferença entre a vitória e a derrota.

Você quer um conselho? Passe a usar, desde hoje, tanto na comunicação oral, corriqueira, quanto em seus escritos, as formas corretas do pretérito imperfeito e futuro do subjuntivo do verbo “ver”. E não esqueça que os verbos derivados de “ver” mantêm a mesma conjugação no pretérito imperfeito e no futuro do subjuntivo: prever, antever, entrever e rever: Se ele previr o dia do terremoto, será considerado um adivinho. Se papai e mamãe antevissem o perigo, não me deixariam ir. Quando entrevíssemos no meio da população algum movimento suspeito, agiríamos. Se nós nos revirmos na festa,  não sei se resistirei.

Captou a mensagem? Não estaria na hora de dar uma verificadinha na conjugação de outros verbos maliciosos? Você estará, com isso, se armando de pequenos nadas que podem significar o seu tudo mais adiante.

Afinal, toda a nossa vida também é feita de pequenos nadas.

 

Riscos que não valem o risco

Thursday, April 11th, 2013

Preste bem atenção: vivemos um tempo e uma cultura em que a coragem é considerada uma virtude acima de qualquer suspeita e o homem corajoso um verdadeiro herói. Correto? Nem tanto. É preciso acrescentar também que vivemos um tempo e uma cultura em que estamos em permanente julgamento, por razões e valores diferentes, por nossos pais, irmãos, amigos, professores, escolas, universidades e superiores a quem devemos obedecer em nosso trabalho. Mesmo que escolhamos ser autônomos e criemos nossas empresas individuais, ainda assim o julgamento não termina, porque o público que adquire nossos produtos ou serviços está avaliando constantemente o que recebe; se não gostar, não compra mais; nesse caso, ou mudamos de atitude e produtos, ou vamos à falência.

Quem participa de bancas de correção de exames vestibulares por certo já se deparou com redações dissertativas em que o candidato, ou por não saber escrever mais, ou por querer arriscar, ou por ambos os motivos ao mesmo tempo, inseriu em seu texto outro texto que nada tinha a ver com o fluxo de sua argumentação: uma letra de música, por exemplo, ou uma receita de torta de damasco, ou uma passagem de um romance conhecido. O candidato, assim, destruiu a linha argumentativa que estava começando a construir. A redação, obviamente, tirou zero. Outro candidato fez algo semelhante e acabou levando metade da nota. Sortudo! disseram seus colegas.

Rigorosamente falando, a inserção em uma dissertação de um texto que nada tem a ver com ela representa a destruição de sua linha argumentativa; e a redação deixa de ter sua qualidade essencial: ser um texto, uma totalidade semântica. Em conclusão: deveriam ambas as redações ter recebido zero, porque não se fecharam como textos, muito menos como textos dissertativos.

É, mas se um recebeu nota, eu também arriscaria! as bancas não são infalíveis! poderia dizer você, e este blogueiro responderia: Sim, mas o risco valeria a pena? Seria coisa para outros tentarem nos próximos vestibulares das grandes universidades brasileiras? Não, o risco não valeria a pena. As grandes universidades do país há muito equacionaram os tipos de desempenho em redação que merecem receber correção e os que merecem receber zero diretamente. Os textos mencionados não passariam da primeira fase de correção de vestibulares de grandes universidades.

Há aqui, porém, uma virtude a destacar: a coragem dos candidatos em apresentar redações desse tipo. Mas é também o caso de perguntar: Vale a pena arriscar anos de estudos com uma atitude demasiadamente “corajosa”? Não, não vale. Os exames vestibulares são um ponto de chegada e ao mesmo tempo de partida para uma formação superior. É melhor não assumir nenhuma atitude que possa pôr em risco a aprovação.

A Fundação Vunesp publicou um livro, que está em segunda edição, sobre as dissertações em exames vestibulares (Redação no vestibular da Unesp: a dissertação), em que redações corajosas como essas são chamadas com bom humor camicases, porque nelas os candidatos assumem uma probabilidade enorme de tirar zero, contra uma pequena possibilidade de a banca atribuir alguma nota. É algo que se deva aconselhar a fazer? Jamais.

É melhor dizer aos candidatos: há riscos que não valem o risco. Sigam o regulamento, as regras, o protocolo; escrevam um texto simples, bem argumentado e fechado semanticamente após o ponto final. Coragem é uma virtude, às vezes se torna um meio de atingir o sucesso. Mas em excesso pode levar diretamente ao fracasso. Pense nisso.

 

Palavras que consolam (ou incomodam)

Friday, April 5th, 2013

Acompanhar a saída de candidatos de exames vestibulares é algo que nos faz sentir muita emoção, por ver todos aqueles jovens com sorrisos e olhares iluminados pelos seus sonhos. Nessa leitura da realidade, muitas vezes ouvimos desabafos, manifestações de preocupação, queixas sobre a dificuldade das provas, em frases como

 

A prova foi muito difícil.

Havia muitas “pegadinhas” nas questões.

Detesto ser posto à prova como um autômato.

Estou tranquilo, fiz tudo o que era possível.

Acho que podia ter estudado um pouco mais.

 

Declarações como estas são perfeitamente naturais, representando a fase de descontração e relaxamento após a realização da prova. Todavia, é possível extrair algumas lições de todas elas, tentando interpretar sua motivação interna. A questão da dificuldade da prova, por exemplo, é bastante relativa: muitos candidatos saem afirmando que as questões foram fáceis e não tiveram dificuldade em compreender e resolver; outros reclamam da dificuldade de algumas ou da maioria das questões. Quem estaria com a razão? Ninguém: a maior ou menor dificuldade da prova pode não ser da prova, mas do maior ou menor preparo dos candidatos para entender as perguntas.

A questão das chamadas pegadinhas também é bastante relativa e subjetiva. De modo geral, pode-se dizer que os exames vestibulares das grandes universidades brasileiras têm como uma das metas principais evitar qualquer tipo de questão que envolva pegadinhas, isso porque não apresentam tais questões nenhum poder objetivo de avaliação. As questões podem ser mais fáceis ou mais difíceis, mas o que está sempre envolvido é o raciocínio, a lógica, a verificação da capacidade de interpretação e resolução do candidato.

É óbvio, também, que, como se traduz da terceira frase, não nos sentimos muito confortáveis com todas as provas de exames vestibulares, pois sabemos que estamos passando por um processo de seleção que parece mecânico, automático, como se fôssemos robôs a passar por uma avaliação de desempenhos. Vale lembrar que essa impressão não se limita aos exames vestibulares: desde pequenos passamos por avaliações e avaliações nos ensinos fundamental e médio, e ao longo de nossa vida estaremos sofrendo processos semelhantes, quer em termos de estudo e formação, quer em termos de trabalho profissional. Ninguém consegue um emprego de graça, tem de apresentar currículo, tem de mostrar desempenho e, muitas vezes, ser colocado em situações em que possa comprovar o que informa seu currículo. Nossa vida, de certo modo, é um constante processo de avaliação, do nascimento à morte.

As duas últimas frases-desabafo são interessantes, pelo seu caráter opositivo: na penúltima, um candidato afirma que fez tudo o que era possível para um bom desempenho nos exames; na última, outro candidato confessa que, talvez, poderia ter feito um pouco mais. Será mesmo que o primeiro fez tudo e o segundo deixou algo por fazer? ou, na verdade, trata-se de atitudes distintas de autocrítica, ditadas pelo temperamento de cada um. Também essas atitudes não são exclusivas de vestibulares: representam modos distintos de encarar a realidade e as tarefas que a vida nos vai oferecendo. Por isso, pode-se dizer que ambos os estudantes estão certos no ponto de vista que assumem, mas podem estar errados em sua própria autoavaliação: o que afirma ter feito tudo talvez pudesse ter feito um pouco mais; e o que confessa que poderia ter feito um pouco mais talvez tenha feito tudo o que, para ele, era possível.

No seu conjunto, o artigo ora postado quer dizer que vale a pena observar e interpretar o que outras pessoas dizem em situações semelhantes, porque podemos extrair disso ensinamentos preciosos. Assim, palavras que consolam podem eventualmente se tornar palavras que incomodam, mas também revelar-se palavras que nos alertam, ensinam e preparam para a vida. Valeu!