Archive for March, 2013

Ler é formar-se

Wednesday, March 27th, 2013

Em artigo anterior foi focalizada a redação como requisito imprescindível aos profissionais de todos os campos de atividade. Se você entendeu o recado, tem em mente agora que deve praticar com regularidade a redação, para que se torne um instrumento cada vez mais eficiente em seu estudo e em seu trabalho. A intenção do Blogue era demonstrar que erra quem julga a redação apenas como meio para passar em concursos e vestibulares, não precisando mais ser praticada depois.

Hoje, o Blogue aborda uma prática que tem estreita correspondência com a da redação: a leitura. Se saber bem escrever é saber bem comunicar-se, saber bem ler é saber bem formar-se. Machado de Assis, maior escritor brasileiro de todos os tempos, fez apenas a escola primária. Não fez universidade, porque, em seu tempo, pobres não podiam cursar universidade: as faculdades eram raras e as poucas vagas ocupadas por pessoas de posses. No entanto, tornou-se um dos homens mais eruditos de seu tempo, conhecedor de toda a literatura universal e de muitas áreas da ciência de seu tempo. Como conseguiu isso? Por milagre? Sim, pelo milagre do esforço pessoal, da aplicação, da determinação, tudo convergindo para a única fonte de que poderia dispor na época um homem pobre imbuído do objetivo de se tornar um grande conhecedor e um grande escritor: o livro. Toda a erudição de Machado de Assis, toda a sua formação veio dos livros que leu. E não foram poucos, e não foram apenas de literatura, mas também de outros campos da cultura e da ciência.

Ora, ele era um gênio, dirão alguns, e para os gênios tudo é fácil. Certo? Errado. Sem os livros e a leitura que fez, não conheceríamos hoje o Machado que conhecemos: seu “gênio” não viria à luz em suas grandes obras.

O caso de Machado é muito bom como critério para analisar a atualidade. Num extremo oposto ao do grande escritor estão hoje os candidatos de exames vestibulares que, sabendo que algumas universidades fixam uma relação de livros, preferem “resumos” de escolas e cursinhos a ler as próprias obras. Triste exemplo, que mostra o descaso atribuído por muitos à leitura habitual e à própria formação.

Por que os livros formam? Por que muitas pessoas que não puderam frequentar universidades atingiram um excelente nível de conhecimentos? Muito simples: cada livro oferece sempre muito mais que imaginamos receber dele. A leitura, de fato, nos faz aumentar enormemente o vocabulário, consolidar a ortografia, fixar o domínio de estruturas de orações e períodos, a capacidade de criar comparações, metáforas e diferentes formas de expressão, adquirir habilidade de desenvolver ideias e argumentar. Só isso? Não. A leitura, mesmo de livros de criação literária, nos traz informações culturais, científicas, artísticas, históricas e muito mais.

Você já deve ter percebido que estamos falando de leitura de livros em geral, não apenas de obras literárias. A escola por vezes cria a ilusão de que ler bem é ler obras literárias. Nada disso. Todo o conhecimento, toda a cultura, toda a filosofia, toda a ciência estão registradas nos livros desde há muito tempo. Uma pessoa pode até passar sem ler livros de literatura, pois, se ler habitualmente livros de conhecimentos, informações ou divulgação de outras áreas, estará tendo a mesma retroalimentação em termos de formação. O grande físico Stephen W. Hawking publicou na década de oitenta um belo livro de divulgação de sua ciência, Uma breve história do tempo, que qualquer pessoa com formação no ensino médio pode ler com facilidade e entender. O livro fez sucesso justamente por ser de leitura fácil e encantadora. Quem aprecia esse gênero de leitura tem toda uma biblioteca para ler. Se preferir, porém, outro campo, encontrará igual profusão: biografias e autobiografias de pessoas ilustres, narrativas de viagens, relatos sobre países e regiões do planeta, conquista do espaço, episódios históricos, relatos sobre Arqueologia, descrições da fauna e flora do globo, etc. etc. etc.

Antigamente, certos livros não podiam ser encontrados com facilidades e outros eram muito caros. Hoje, porém, com os tablets e os e-readers é muito mais fácil e rápido ter acesso a livros em geral. Ou, por outro lado e pelo mesmo motivo, não há desculpas para não ler, senão a falta de vontade de conquistar uma formação cada vez melhor.

Pense nisso e, se lê habitualmente, continue. Se não lê costumeiramente, talvez seja o momento de começar. O homem que lê nunca faz feio em qualquer conversa ou diálogo. Feio é não falar nada por não ter nada para falar.

 

Redação para o Vestibular? Não, para a vida!

Thursday, March 21st, 2013

Um velho samba de Noel Rosa e Vadico pode encerrar lições interessantes, não necessariamente poéticas. Os primeiros dois versos, muito conhecidos, dizem:

 

Quem acha vive se perdendo,

Por isso agora estou me defendendo.

 

É a pura verdade: Quem acha pode acabar se perdendo. Na vida não basta apenas achar, é preciso ter certeza. O caso da redação nos vestibulares é típico: boa parte dos candidatos acham que, com um bom preparo, estarão aptos a fazer uma redação razoável nos exames e receber uma boa nota. Isso muitas vezes acontece, porque praticam por alguns meses um pouco mais que o comum e estudam os possíveis temas que poderão ser exigidos. Feito o exame, recebida a aprovação, escolhida a vaga, a preocupação com a redação retorna à estaca zero e nunca mais se fala nisso. Certo? Errado.

Errado, porque ocorre uma falha de perspectiva que, no futuro, pode se tornar muito grave: não se aprende redação para passar em exames vestibulares; deve-se aprendê-la para tornar-se uma  competência permanente ao longo da vida profissional. Está muito certo o professor, quando diz: Quem não escreve bem, um dia se dá mal.

Todos os profissionais, especialmente aqueles formados por universidades, têm de ter um domínio mais que razoável de redação, já que esta é um dos fatores diferenciais em termos de maior ou menor competência. Se um médico, um engenheiro, um arquiteto, um advogado, um economista se queixam de que não escrevem bem, é porque não aprenderam a escrever bem, ou seja, porque acharam, quando estudantes, que a redação era apenas uma prática pontual a ser julgada num exame de acesso a universidades. Erraram. E o preço desse erro poderá ser caro, poderá significar a perda de um emprego, de um cargo, de uma promoção. Por quê? Porque saber escrever bons textos representa uma virtude indispensável ao currículo de um indivíduo, uma virtude que com certeza o destaca entre outros. Dentro de um grupo, de uma equipe de profissionais em qualquer instituição, aliás, sempre é dos mais admirados aquele que sabe escrever melhor, e é sempre ele o escolhido para redigir os relatórios do trabalho. Competência gera confiança.

Portanto, você, que vai fazer os próximos vestibulares, você, que acaba de ingressar na universidade, você, que já está a meio caminho andado em seu curso superior ou você, que está prestes a se formar, pense com muita seriedade nisto: não se aprende redação apenas para os exames vestibulares, mas para toda a vida. Não se pratica redação apenas para passar nos vestibulares, mas para desenvolver ao longo da vida a habilidade de se expressar com clareza, objetividade e eficiência. O velho e bom Chacrinha dos programas de auditório da televisão tinha um mote que ficou famoso, sua marca registrada: Quem não se comunica, se trumbica. Podemos parodiar o grande mestre neste artigo, dizendo, a propósito da capacidade de bem escrever: Quem não pratica, se trumbica.

Pense a este respeito também como o Noel Rosa pensava de sua música: Batuque é um privilégio, / Ninguém aprende samba no colégio. Escrever, como fazer samba, é um privilégio do talento? Não só. O talento tem de ser alimentado, para não fracassar, pelo exercício individual, diário, permanente.

 

Não deixe o cujo fazê-lo perder pontos

Wednesday, March 13th, 2013

Numa frase como a que serve de título a este artigo, a palavra cujo aparece como substantivo, o que se verifica por vir determinado pelo artigo e por ser o núcleo de um sintagma nominal. Seu significado, porém, não se revela tão facilmente nesta frase isolada. Poderia ser, por exemplo, como informa o Aurélio, qualquer pessoa indeterminada ou de quem não se quer dizer o nome; sujeito, indivíduo, fulano, camarada, cara; dito-cujo. Num contexto religioso, poderia significar o demônio, pelo mesmo motivo: a superstição em pronunciar um dos nomes do diabo. Ops! acabei escrevendo duas vezes o nome do cara!

Na verdade, o autor do artigo não quis atualizar nenhum dos significados acima à frase-título. Simplesmente quis fazer referência. pela substantivação, ao pronome relativo cujo. Nosso idioma tem essa possibilidade: correr, por exemplo, é um verbo e apresenta uma conjugação completa; no entanto, se empregarmos, numa frase, o correr, já não temos mais um verbo, temos um substantivo determinado pelo artigo o.

Pode continuar lendo sem susto o artigo: não se falará nem em alguém desconhecido, nem no dito-cujo, mas no pronome relativo cujo. Outro dia, um professor de Língua Portuguesa, formado pela Unesp estava contando uma estória para a filha de oito anos, quando esta o interrompeu e perguntou:

 

Papai, que palavra é essa que você utilizou?

Qual palavra, filha?

“Cujo”, o que quer dizer isso.

Para satisfazer a curiosidade da filha e, ao mesmo tempo, começar a ensiná-la a usar adequadamente, o professor interrompeu a estória e explicou que cujo é um pronome relativo imprescindível para a construção de certas frases. Depois de algumas explicações e exemplos de emprego de pronomes relativos e, particularmente, de cujo, cuja, cujos, cujas, a filha exclamou:

 

Ah! acho que agora entendi! Pode voltar à estória!

 

É claro que a filhinha não deve ter entendido tudo tão facilmente, mas, pelo menos, recebeu a primeira aula sobre o emprego de uma palavra que constitui verdadeira ferramenta do idioma, sem a qual muitas frases saem “mancas” e redundantes. Observe estas construções, características da oralidade e muitas vezes registradas em jornais e revistas:

 

O funcionário que o pai dele pediu emprego na empresa é chefe de seção.

Será punida com perda de pontos a equipe que a torcida dela atirar pedras ou objetos contundentes nos adversários.

Estes são dois exemplos típicos de frases “mancas”, que assim foram construídas por desconhecimento do valor e das funções do pronome relativo cujo. Observe, agora, como deveriam ser elaboradas:

 

O funcionário cujo pai pediu emprego na empresa é chefe de seção.

Será punida com perda de pontos a equipe cuja torcida atirar pedras ou objetos contundentes nos adversários.

Nestes exemplos se percebe como é importante o domínio do relativo cujo, que representa um auxiliar precioso em termos de clareza, simplicidade e eficiência das frases em que é empregado adequadamente.

Você percebeu a importância? Em qualquer gramática ou manual escolar, bem como sob forma de artigos na internet, você poderá, em poucos minutos, avaliar a eficiência do relativo cujo e o seu caráter insubstituível no idioma. Faça isso. Estude, pratique, pergunte ao professor quando ainda tiver dúvidas, para dominar todas as possibilidades de emprego dessa palavra. Sua redação terá um acréscimo significativo de qualidade. Não deixe o cujo fazê-lo perder pontos em exames vestibulares e outros concursos.

 

Vencer, questão de tempo e determinação

Wednesday, March 6th, 2013

Você está acostumado a ouvir a opinião de seus colegas sobre a vida, o estudo, o prazer, o trabalho. Tendo toda a vida pela frente e precisando enfrentar a batalha dos vestibulares, é natural que, às vezes, em meio a outras preocupações, surjam essas, que refletem o horizonte já agora visível de suas possibilidades futuras.

O momento dos resultados dos exames e das chamadas para as matrículas trazem à tona com mais força esses temas e você acaba variando a cada momento suas conclusões sobre o acerto ou erro de sua preparação: devia ter estudado mais… devia ter escolhido outra escola… se levasse com mais aplicação o cursinho pré-vestibular… se houvesse pequisado mais nos sites da internet, como meus professores aconselharam… As explicações nessa fase são inúmeras e, dependendo de seu temperamento, de sua personalidade, podem oscilar do mais compenetrado realismo à mais deslavada desculpa.

Se de repente é convocado, mesmo que em segunda ou terceira chamada, tudo muda. Você se sente poderoso, passa a valorizar tudo o que fez até então e a aconselhar os mais novos a utilizarem a mesma receita vencedora. Mas se não consegue nenhuma vaga, tudo muda de figura: a receita se torna perdedora e você passa a acusar-se por não ter dado aquele pouco de gás a mais nos estudos, ou, pior, começa a procurar culpado à sua volta.

Normal isso? Tudo muito normal. Os seres humanos somos assim mesmo em todas as fases de nossas vidas, não importa se em vestibulares, em testes para empregos, em empresas que criamos e dão (ou não dão) certo. Desistir, porém, não será normal. Assim também não será normal, porque não é lógico, repetir a receita no próximo ano. É preciso partir do princípio de que, se algo não deu certo, foi porque alguma coisa falhou na tentativa, e essa “alguma coisa” precisa ser mudada, esse detalhe do trajeto precisa ser reformulado, para que haja esperança de um resultado melhor. Se você é um pequeno empresário e apresenta onze modelos de rodas a um fabricante, sendo o seu produto sempre reprovado, isso não quer dizer que fracassou, quer dizer que ainda não venceu. De repente, na décima segunda tentativa, o modelo pode ser aprovado e a fábrica encomendar milhares de rodas a você. A persistência, a determinação, a confiança na vitória definiram seu sucesso.

Percebeu bem o fato? Para quem nunca desiste de seus sonhos e ideais, não existem perdedores na vida, só vencedores. O que pode variar é apenas o tempo que se leva para chegar à vitória. E você tem tempo para vencer.