Arquivo de 6 de setembro de 2012

Uma redação perfeita? Uma redação adequada

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Você costuma percorrer sites e blogues sobre vestibulares, preocupado com métodos de estudo e dicas sobre as provas de diferentes universidades. Um dos assuntos mais abordados é sem dúvida o da redação, não é verdade? Os conselhos não faltam e, em muitos casos, busca-se ensinar alguns expedientes de estudo e de prática para que o candidato obtenha uma redação perfeita.

É claro que você gostaria de fazer redações perfeitas em exames vestibulares. Quem não quer? É preciso, porém, cautela e realismo. Cautela, no sentido de não acreditar que, em pouco tempo, em qualquer atividade humana, se possa atingir o nível da perfeição. Aqui é preciso também usar de realismo: será que todas as universidades exigem que os vestibulandos apresentem redações perfeitas? Claríssimo que não. Não se espera que um estudante de 18 anos tenha tal domínio de discurso. Alguns podem ter? Alguns podem escrever ótimas redações. As bancas de elaboração e correção levam em consideração a faixa etária predominante dos candidatos e esperam que muitos apresentem textos adequadamente construídos. E o que deve ter uma dissertação de vestibular para ser assim considerada? Observar a norma-padrão, abordar o tema proposto, apresentar estrutura bem delineada (introdução, desenvolvimento, conclusão) e desenvolver de modo coerente o argumento escolhido, já que a proposta de redação sempre pede posicionamento do candidato ante um problema.

A esse respeito, não se preocupe muito se alguém disser que uma redação perfeita deve ter “estilo”. Estilo é um critério estético, válido na arte literária. A correção de redações de exames vestibulares não se serve desse critério. Mais importante, no caso, é o raciocínio que alimenta seus argumentos para defender seu ponto de vista. Mesmo assim, o raciocínio não é critério absoluto. Numa prova de redação dissertativa está em jogo a redação, isto é, a capacidade de expressão clara e coerente de uma argumentação, mesmo que o raciocínio que sustenta tal argumentação, sob o ponto de vista da Lógica, possa ter alguns defeitos. O que pesa mais, portanto, é a clareza e a coerência do discurso com que você inicia e encerra a redação.

Também não se preocupe demasiadamente com o tema ou com adivinhar ou antecipar os temas que serão solicitados. No caso das propostas de redação dos vestibulares da Unesp, por princípio o tema da redação deve ser do cotidiano e da esfera de experiência do candidato. O que está em julgamento não é se o candidato conhece o tema, mas se o candidato, conhecedor de um tema, é capaz de fazer uma dissertação razoável a respeito. Esta deve ser a sua preocupação constante nas redações simuladas que faz, tanto em sala de aula como em casa: delinear muito bem para você mesmo seu ponto de vista e moldar a argumentação com que vai defendê-lo.

Pense na sua redação, sempre, como um prédio que observa em certa rua. Não é o melhor prédio da cidade, mas está bem construído, tem boas proporções e linhas harmônicas. Observando com muita atenção, você encontrará um defeitinho aqui, outro ali, mas o edifício está bem construído e acabado. Um bom texto é também assim: pode ter um probleminha aqui, outro ali, embora, no todo, esteja bem planejado e executado. Deve ser perfeito? Deve ser adequado.

Você poderia perguntar, enfim, só para provocar um pouco o blogueiro: Mas existe texto perfeito? Os textos literários não são perfeitos? Com a mesma malícia da pergunta, é possível responder que não. Nenhum texto é perfeito, nem mesmo os melhores textos literários. Um crítico literário exigente pode encontrar mesmo nos melhores textos literários um probleminha aqui, outro ali, o que não lhes tira de nenhum modo a qualidade e o mérito que todos os leitores neles encontram. Alguns escritores, aliás, enquanto viveram, foram fazendo pequenas alterações a cada nova edição de seus textos. E, se tivessem vivido mais, teriam continuado essa tarefa de polimento.

Por todas estas razões, depois de fazer sua prova de redação, não fique tão preocupado se lembrar que poderia arrumar uma coisinha aqui, outra ali. As bancas sabem que você fez, dentro do exíguo tempo de que dispunha, o possível para tornar seu texto adequado. É isso o que vale!