Archive for May, 2012

Qual o melhor curso universitário?

Thursday, May 24th, 2012

Um dos temas mais comuns nas preocupações dos estudantes do ensino médio é o do curso a escolher. Qual o melhor curso de todos? Medicina! respondem uns. Direito! retrucam outros. Mecatrônica! Engenharia! Arquitetura! Odontologia! Publicidade! Jornalismo! Economia! Administração de Empresas! Biologia! Engenharia de Alimentos! Informática! Educação Física! etc., etc., etc. Com quem estará a razão?

Com ninguém. Não há melhor nem pior curso. Há, é claro, certa preferência dos candidatos e da população por alguns cursos. Essa preferência é alimentada por preconceitos que nada têm a ver com a escolha que cada estudante terá de fazer de fato quando se inscrever em vestibulares. Um exemplo clássico: certo estudante imaginou a vida toda que Medicina seria o melhor curso e estudou com afinco para, ao sair do ensino medio, ser aprovado num vestibular de universidade pública. Passou num dos primeiros lugares. Fez seis meses de curso e desistiu, explicando aos pais e amigos que a Medicina não o impressionava: queria fazer um curso que o apaixonasse. Fez o vestibular novamente no final do ano e foi aprovado em Jornalismo. Formou-se e exerceu a profissão a vida toda, com muito sucesso profissional e satisfação pessoal.

Qual a moral da estória acima? Não se escolhe um curso por ser melhor ou pior na opinião dos outros, mas por ser aquele que se deseja fazer realmente, aquele que propiciará ao candidato sua realização como pessoa. Muitos estudantes acertam a escolha na primeira vez. Outros erram e acertam posteriormente em nova ou novas tentativas. O importante, em qualquer caso, é fazer o que se deseja do fundo da alma.

Antigamente se falava muito em vocação e se acreditava que cada pessoa nascesse com um dom. O estudante, dizia-se, tinha de descobrir sua vocação para escolher o curso de sua vida. O melhor curso seria aquele que combinasse com sua vocação. Esta concepção não é muito acreditada hoje em dia, pois contraria a própria natureza humana. Nenhuma pessoa nasce exclusivamente com uma vocação; não somos robôs programados para fazer uma só coisa a vida inteira. As pessoas nascem com múltiplas potencialidades e o importante não é cada potencialidade em si, mas a escolha individual por seguir este ou aquele caminho. O estudante do exemplo apresentado poderia até ter algum pendor para a Medicina e, se vivesse numa sociedade que o obrigasse a ser médico, por certo não seria um mau profissional; a carreira de médico, entretanto, não era aquilo que pretendia, não era aquilo que o faria sentir-se cada vez mais realizado ao longo da vida. O Jornalismo o fez.

O poeta Vicente de Carvalho escreveu num belo poema que a felicidade é uma árvore carregada de frutos de ouro: infelizmente, nós nunca a alcançamos, “porque está sempre apenas onde a pomos / e nunca a pomos onde nós estamos.”  Seria verdade? Naquele poema um tanto pessimista, talvez. Na realidade, porém, você tem livre-arbítrio para plantar e fazer crescer a árvore da sua felicidade onde possa e onde queira realmente estar. Faça a sua escolha e seja feliz.

 

 

Pesquise, que você encontra!

Friday, May 11th, 2012

Nesta reta final de preparação para os vestibulares de inverno, vale a pena insistir num conselho sobre o papel da pesquisa em seus estudos. Você talvez não tenha reparado: desde os primeiros anos do ensino fundamental houve toda uma estratégia, dos professores e das escolas, para ensiná-lo a pesquisar, ou seja, para ensiná-lo a encontrar as respostas aos exercícios e a suas dúvidas buscando fontes diferentes, que não apenas os manuais escolares adotados. Com o tempo, a própria palavra pesquisa passou a ser empregada por seus professores para designar os trabalhos que você tinha de fazer em casa ou na biblioteca da escola, em que a procura de informações em livros, revistas, jornais e apostilas era fundamental.

Com o advento da internet — e você fez todo o seu estudo já na era da rede! — ficou ainda mais fácil encontrar diferentes fontes para as pesquisas escolares. Como costuma dizer o povo, a internet é uma mão na roda: tudo está lá, todos os livros, apostilas, enciclopédias, jornais, revistas, bibliotecas, museus, institutos, universidades, sem falar que, quando a pesquisa aborda uma pessoa viva, como por exemplo um literato, um cientista, um artista, um esportista, é comum até encontrar-se o próprio site da personalidade e, por vezes, trocar correspondência.

Pois é. Tudo mais fácil. Mas o mais fácil, quando mal conduzido, pode tornar-se mais difícil. Muitos colegas seus, entendendo mal ou fingindo entender mal o conceito de pesquisa, se acostumaram a fazer trabalhos à base de colagens de textos encontrados na rede, sem qualquer acréscimo de informação pessoal, sem qualquer intervenção ou, pelo menos, sem acoplagem inteligente de diferentes textos encontrados. A pesquisa, assim, para muitos, parecia algo mais fácil, só copiar e colar, inventar um novo título e escrever o nome embaixo, em vez do nome do autor original.

Não dá nem para dizer que isso é plágio, pois um plagiário tem razões mais complexas para copiar e apresentar-se como autor de um trabalho, enquanto o problema do mero copiador e colador é apenas quebrar o galho. Os professores, é claro, ficavam de mãos atadas com essas “pesquisas” na internet, porque nem sempre podiam chegar ao texto original e apontar a fraude; e, muitas vezes, acusações de cópia e colagem traziam mais aborrecimentos do que resultados concretos em termos de ensino de Ética.

Você foi um desses pesquisadores coladores? Por certo que não. Mas um belo dia seu curso no ensino médio terminou e você se viu face a face com o enfrentamento dos vestibulares. E agora? Fazer o quê? A proximidade dos exames causou uma verdadeira revolução no seu modus operandi, porque tinha de fazer bem mais que o trivial da escola para estar preparado. Descobriu, assim, que existem duas linhas de estudo: a das salas de aula e a da preparação para os exames: a primeira continuando a ser comandada pelos professores; a segunda, por você mesmo, que tem descobrir e descobrir-se em termos de método de estudo. E é nesta segunda linha que irá aproveitar toda a sua experiência em pesquisa, para buscar informações que não estão nos manuais escolares ou que não foram bem assimiladas. Em outras palavras, esta segunda linha é, na prática, um pesquisar constante, uma permanente busca de conhecimentos e informações para sanar lacunas de aprendizagem.

Por estas razões, em vez de ficar dizendo, pelos cantos, que A escola não me ensinou isso, não me ensinou aquilo! — o que nem sempre é verdade — dê graças a Deus que você tem hoje a rede, que em pesquisa se revela soberana: tudo nela se encontra, todas as informações, todos os conhecimentos, todas as experiências em qualquer campo. Há sites especializados em vestibulares que podem corrigir suas redações e sugerir os aspectos em que precisa melhorar. Há sites de simulação de provas. Há sites de tudo. Não é aconselhável, portanto, enfrentar os vestibulares com uma coleção de lacunas ou de dúvidas em seus estudos. Trate de sanar o mais que puder. Pode acontecer até que nenhuma das lacunas que você preencher em suas pesquisas sirva nas provas. Mas pode acontecer que uma ou duas soluções encontradas caiam e representem aqueles milésimos necessários para você garantir sua vaga, o que na verdade significa garantir sua vaga para continuar pesquisando, porque todo o seu curso superior será à base de pesquisa, muita pesquisa.

Pesquise sempre, que você encontrará seu futuro!

 

Cuidado com as redações-camicase!

Thursday, May 3rd, 2012

A palavra camicase é originária da língua japonesa, em que se referia a um pequeno avião utilizado para ataques pela força aérea nipônica durante a Segunda Guerra Mundial. Em certo período da guerra, esses ataques, feitos diretamente ao alvo, implicavam o sacrifício do próprio piloto. De tanto se fazer referência a esse fato com o uso da palavra camicase, esta acabou se incorporando ao vocabulário português, com mais de uma acepção: pessoa que se arrisca muito, ação que envolve risco quase certo de fracasso ou de autodestruição física, como também profissional e moral. Um exemplo: O discurso do deputado X foi um ato camicase, comentou certo jornalista, querendo dizer com isso que o político, com seu discurso radical, poderia perder o mandato.

Certo professor denominou redações-camicase os textos escritos por seus alunos que contrariavam o que havia estipulado como exercício. Pedia o gênero dissertativo, e um aluno escrevia em gênero narrativo: Redação-camicase, com direito a zero! Minhas congratulações! dizia o professor. Pedia texto em prosa, e outro apresentava um poema: Redação-camicase, com direito a zero! ralhava o mestre. Pedia texto em norma-padrão, e alguns alunos escreviam em discurso coloquial: Redação-camicase, com direito a zero! insistia. Proibia desenhos como parte ou todo da redação, mas alguns alunos apresentavam apenas sequências de figuras, que até desenvolviam visualmente o tema: Desobediência-camicase, com direito a zero! sentenciava o professor e completava: Eu não pedi história em quadrinhos, pedi texto em língua portuguesa!

Este é o problema que focalizamos hoje: as redações-camicase. Por que alguns candidatos, contrariando tudo o que está expresso no manual e na própria prova, escrevem redações que desobedecem aos critérios estipulados? Para algumas pessoas, esses candidatos sabem que não conseguirão ser aprovados e, na redação, resolvem partir para a brincadeira. Esta explicação pode corresponder à verdade, em alguns casos, mas é lógico supor que em muitos outros não se trata de atitude de derrota antecipada. Pode haver motivos diferentes.

Ao longo dos ensinos fundamental e médio, a prática de redação sempre ocupa papel importante. Somos conduzidos, desde os primeiros anos, a escrever bilhetes, cartas, descrições, narrações, dissertações, embora nem sempre nos pareça claro o objetivo de dominar os diferentes gêneros textuais que nos são ensinados. Somente com o passar do tempo descobrimos que o falar e o escrever são essenciais, qualquer que seja o destino que tomemos ou o tipo de trabalho que venhamos a exercer. Em muitas profissões, quem sabe falar com desenvoltura e redigir com clareza, com pleno domínio da norma-padrão, começa dez passos à frente.

É exatamente neste sentido, pela importância na vida prática, que a redação é ensinada nas escolas e cobrada nos vestibulares, já que ler e redigir serão habilidades exigidas ao máximo nos bancos acadêmicos, qualquer que seja o curso escolhido.

Assim refletindo, encontramos uma das explicações para o surgimento de redações-camicase: alguns estudantes interpretam mal o que dizem os professores ao longo dos ensinos fundamental e médio, entendem a prática de redação como produção de textos engraçadinhos, cheios de trocadilhos e efeitos hilários: acreditam esses alunos que a correção gramatical e a observância da norma-padrão podem ser deixadas de lado, desde que o estudante exerça ao máximo sua criatividade. E se enganam redondamente.

Por quê? Porque se baseiam em dois falsos conceitos, de redação e de criatividade. Quando se escreve um texto de natureza cômica, fazer trocadilhos e gracinhas com as palavras se justifica em função da própria natureza do texto, e quanto mais surpreendentes os jogos de palavras, maior a criatividade; a norma-padrão pode ser trocada pelo coloquial, os termos por vezes podem ser chulos, já que o objetivo principal é causar o riso. Perfeito. Quando se escreve, porém, um texto dissertativo, em que é solicitada manifestação de opinião, o panorama é totalmente outro: temos de usar a norma-padrão, temos de encontrar argumentos para defender nossas ideias, temos de encarar com seriedade o tema proposto. Podemos, neste caso, ser também criativos? Podemos, mas no modo de articular os argumentos e nos vieses originais que escolhemos para defesa de nosso ponto de vista.

É preciso ter em mente sempre que o conceito de criatividade se revela de forma diferente nos diferentes gêneros de texto: um texto jornalístico pode ser criativo, sem deixar de ser jornalístico; um texto dissertativo pode ser criativo, sem deixar de ser dissertativo; um texto narrativo pode ser criativo, sem deixar de ser narrativo. Em cada caso, o que impera é a justa medida dos recursos expressivos utilizados, de acordo com o gênero do texto.

É muito provável seja esta a principal causa das redações-camicase: o equivocado entendimento dos gêneros de textos e do papel da criatividade. Medite bem sobre a questão e, no caso dos vestibulares da Unesp, nunca esqueça de que é sempre solicitada uma redação de gênero dissertativo, obediente à norma-padrão, em que você deve defender seu ponto de vista sobre o tema proposto.

Pense nisso e mergulhe fundo, mas para ser aprovado!