Archive for February, 2012

Carnaval: Um divisor de águas

Tuesday, February 28th, 2012

Costuma-se dizer que o Brasil só começa após o Carnaval. Isso não passa de um mito, embora alguns fatos que envolvem o início do ano em nosso país pareçam apontar em tal direção.

Na verdade, esse mito nasceu há muito tempo, quando o calendário escolar era iniciado em fins de fevereiro ou começos de março. Naqueles tempos, o calendário de algumas outras atividades públicas acompanhava o calendário escolar, fazendo férias de dezembro a fevereiro e durante o mês de julho. Com o mês do Carnaval ocorrendo em fevereiro, os dois fatos eram associados e, então, dizia-se que o país só começava suas aulas e algumas de suas atividades públicas após essa festa popular. Com o tempo, a expressão “o Brasil só começa após o Carnaval” tornou-se pejorativa, no sentido de que no início do ano não se faz nada em nossa terra, não há produção industrial nem comércio relevantes, apenas um não-fazer-nada muito prazeroso e nada lucrativo. É uma falsa visão do que realmente ocorre.

Do passado para o presente, as leis da educação fixaram o calendário dos ensinos fundamental e médio desde o início de fevereiro e muitas atividades públicas seguiram o mesmo caminho, de modo que fevereiro deixou de ser um mês “perdido” e janeiro, apesar das férias escolares, é um mês como todos os outros. Pode-se dizer, na verdade, que a população brasileira entra em janeiro com todo o gás: ocorrem as segundas-fases de exames vestibulares de muitas universidades, as atividades em geral  são retomadas com muita força e boa parte da indústria e do comércio está em altíssima rotação, com vistas às próprias festas carnavalescas, que se transformaram em um grande negócio, com foco muito aberto para o turismo, inclusive para o turismo interno. Em janeiro e fevereiro, portanto, nosso país está navegando a todo o vapor, não apenas em atividades típicas da época.

Pode-se dizer, assim, mais apropriadamente que a mencionada expressão, de cunho pejorativo, que o Carnaval é, na realidade, um divisor de águas, um marco a assinalar com euforia que o novo ano está em franco desenvolvimento e, como diz aquela velha marchinha, ninguém está “dormindo de touca”.

Para os vestibulandos aprovados, as festas carnavalescas assumem um significado positivo, no sentido de unir sua felicidade por uma grande conquista com a euforia generalizada do povo nas praças, nos salões, nas avenidas.

Agora, porém, o Carnaval de 2012 acabou, é coisa do passado. O presente está aí e o futuro vem vindo a galope. Se o ano que findou foi, para você, um período de intenso trabalho e planejamento para obter aprovação, o ano letivo de 2012 é o começo de um continuado esforço para ir obtendo, ano após ano, a competência necessária para exercer a profissão logo após a formatura. Se isso for dando aos poucos os resultados esperados, cada Carnaval dos próximos anos será sempre a renovação da alegria sentida e comemorada no ano anterior, no ritmo das baterias das escolas de samba.

Bons carnavais futuros para você, que passou. E também para você, que não passou, pois, como a festa de Momo, as oportunidades retornam todos os anos. É só caprichar no enredo, que seu dia chegará.

 

Repúblicas, moradia, vida nova

Thursday, February 16th, 2012

Todos os estudantes que fizeram suas matrículas nas universidades públicas estão neste momento bastante ocupados em planejar seu ano. Passada a fase das comemorações com a família e os amigos, é tempo de programar-se ou reprogramar-se. Os que moram na mesma cidade da unidade em que se matricularam terão apenas de reorganizar sua vida em casa para enfrentar o primeiro ano do curso. Mas aqueles que moram em cidades diferentes com certeza estarão preocupados, alguns talvez até viajando para providenciar moradia. Para eles, a universidade realmente será uma vida nova, com tudo o que uma “vida nova” pode trazer em termos de desafios e experiências.

Os diretórios acadêmicos das unidades universitárias providenciam, entre outras coisas, para os novos alunos, todo um balcão de informações sobre acomodações, repúblicas, bem como sobre a moradia estudantil oferecida pelo próprio câmpus. Além disso, muitos estudantes já têm colegas veteranos na unidade, que fornecem orientação mais precisa a respeito das escolhas a fazer.

Evidentemente, alguns pais pensam em alugar casa ou apartamento para o filho ou filha, mas, na verdade, o isolamento de um estudante numa cidade desconhecida nem sempre é o melhor caminho. A moradia conjunta, escolhida por grupos de alunos assessorados pelos pais, é possivelmente a melhor escolha. São as chamadas repúblicas, que podem ter três, quatro, cinco ou mais moradores dividindo todas as despesas e responsabilidades. Talvez sejam elas o melhor modo de um estudante passar alguns anos longe de casa, formando-se não apenas como profissional pelo curso escolhido, mas também como homem adulto, cidadão que aprende a viver em grupo, com pessoas no início completamente estranhas, numa mesma morada. As repúblicas constituem, assim, uma universidade paralela, capaz de ensinar muito sobre as personalidades, os temperamentos, as relações humanas, o aperfeiçoamento do discurso da compreensão e da convivência. As lições aprendidas ao longo desse processo têm consequência para a vida toda.

Vale a pena lembrar aos novatos que há muita variação nessa questão de moradia ao longo dos anos do curso. Não é incomum um estudante trocar de endereço, porque o grupo encontrou uma casa melhor, ou até mesmo de república, seja pelo desejo de experimentar outra, seja para formar uma nova, integrada por colegas com os quais tenha desenvolvido maior afinidade. Muitas vezes, a causa da mudança está no surgimento de incompatibilidades que não podem ser superadas. Todas estas variações de conduta, todavia, se colocam dentro de um padrão de normalidade da vida estudantil. De todos estes modos, a vida em repúblicas deixa um forte saldo afetivo nos estudantes, que frequentemente fazem questão de continuar a amizade ao longo dos anos, inclusive promovendo encontros periódicos, comemorativos daqueles que talvez sejam os mais belos dias de nossa existência.

Qualquer que seja o modo escolhido para morar na nova cidade, vale a pena lembrar que, ao ingressar numa universidade, os estudantes se tornam também representantes desta, onde quer que estejam durante as aulas ou durante as férias. De certo modo, pelo menos em nossos corações, esta representação persistirá pela vida toda, com o maior orgulho.

 

Matrículas, alegria, moderação

Wednesday, February 8th, 2012

O momento de matrícula é único. É uma sensação diferente de todas as que foram experimentadas anteriormente. É um passo… não, é o passo, o grande passo sonhado para o curso sonhado na universidade sonhada. Algumas pessoas sentem o momento sem expressar o que sentem, guardam para si como tesouro escondido, tesouro conquistado a duras penas, com sacrifício, com renúncia, percorrendo o caminho das pedras para finalmente chegar ao destino. Outras, extrovertidas, não conseguem guardar para si, buscam dividir com todos os que estão por perto a alegria que brotou no momento de ver o nome na lista e agora se expande com a confirmação da matrícula. E assim, entre rostos sisudos e rostos descontraídos, jubilosos, se processam as matrículas. Terminou a aventura. Vai começar a aventura. E que aventura!

Agora é para valer. Tudo o que se fizer terá consequências diretas para a formação buscada. A universidade é um paraíso, mas, ao mesmo tempo, é um mosteiro. Será preciso, com jeitinho, saber contrabalançar esses contrários, aproveitando as delícias do paraíso, as confraternizações, as festividades, as festas, os encontros, os esportes, com a dureza das horas de leitura, de consulta na internet, de trabalho nos laboratórios, de estágios. Mosteiro, sim, porque estudar é, de certo modo rezar, é orar para o conhecimento, para a Ciência, para a Formação, para o Futuro. E, às vezes, no meio de tudo, para aqueles que estão longe de casa, estudar em universidade é também curtir a tristeza e as saudades dos pais e parentes, dos namorados e namoradas, da turminha de amigos, da banda de rock, das noitadas, que ficaram lá na cidade de origem e, talvez, não voltem mais. Na verdade, do mesmo e exato modo, não voltarão, embora possam assumir, na volta, uma configuração até melhor.

Uma receita para conciliar esses aparentes contrários? Moderação. A virtude está no meio, já diziam os antigos. O percurso da universidade é como a Odisseia: você viaja por uma vasta e desconhecida região e é preciso ser prudente, por vezes até matreiro, como Ulisses, para saber os momentos certos de marchar e de parar, de avançar ou de recuar, de ultrapassar obstáculos ou de desviá-los, de dar duro, muito duro, ou divertir-se, divertir-se para valer até que seja necessária a próxima façanha. Lá adiante, Penélope nos espera para a felicidade prometida.

 

Todos os cursos são nobres

Friday, February 3rd, 2012

A publicação da lista de aprovados em vestibular é sempre um momento de muita agitação, muita alegria. Encontrar o nome entre os convocados é, realmente, uma sensação única, ao mesmo tempo de alívio e de entusiasmo. Por trás de cada nome existe uma história, uma experiência singularmente vivida pelo candidato até aquele momento. Vale a pena lembrar algumas delas, porque são histórias que se repetem ao longo dos anos.

A de hoje é de um menino que desde pequeno desejava ser professor de ciências biológicas. Adorava a matéria e adorava ensinar, sendo muito requisitado pelos colegas menos estudiosos a ajudá-los nas horas amargas. E sempre ajudava. Quando começou a falar em ser professor, encontrou diferentes reações em sua família: a mãe dizia que ele devia escolher o que desejasse; já o papai achava que ser professor não era uma profissão lá essas coisas. O tio, velho engenheiro, sugeria ao menino a Arquitetura como uma profissão de peso e estampa. E os parentes em geral aconselhavam outros cursos e profissões, sempre, de certo modo, menosprezando a profissão de professor. Até mesmo os colegas menos estudiosos, na hora de inscrição ao vestibular, escolheram os chamados “cursos nobres”, dizendo que ninguém mais queria ser professor, pois os salários eram péssimos e as condições de trabalho horríveis. Para eles, era preferível arriscar, disputando cursos “melhores”.

O rapaz, porém, continuou fixo em sua ideia e fez o vestibular em Ciências Biológicas numa grande universidade. Foi aprovado, fez o curso, lecionou muitos anos no ensino fundamental e no médio, fez mestrado, doutorado, ingressou em universidade pública como docente e pesquisador universitário e hoje é um profissional maduro e de conceito reconhecido internacionalmente. Não ficou rico, mas tem uma vida muito confortável, sem dificuldades financeiras. Mais que tudo: adora a carreira que escolheu e adora ser professor. Quando um de seus filhos pede sugestão sobre qual curso universitário fazer, responde sempre: Faça o curso que você mais deseja, pelos motivos que sejam apenas seus. Sempre que tem oportunidade, dá palestras em escolas de ensino médio para que os estudantes, já próximos dos vestibulares, possam aprender um pouco mais com sua experiência de vida e de trabalho.

Esta é a história de um professor em particular, mas por certo é semelhante à de muitos que hoje exercem a profissão em diferentes disciplinas. Preferiram seguir seu desejo pessoal a se deixar levar pela suposta existência de cursos “nobres” e cursos “comuns”, ou seja, de cursos que parecem prometer uma profissão maravilhosa e riqueza, e cursos que parecem prometer muito trabalho, muito sacrifício, sem a remuneração condizente. Na verdade verdadeira, como costuma dizer o povo, todos os cursos e todas as profissões não são nem nobres, nem pobres; a nobreza está sempre no modo como cada indivíduo exerce a sua profissão. E quem exerce qualquer profissão com nobreza, além de ganhar respeito e admiração das pessoas que o cercam, consegue tirar dela o suficiente para uma vida tranquila e confortável.

Em conclusão: o curso que você vai fazer não é melhor nem pior do que os outros. Você, individualmente, poderá ser melhor ou pior do que os outros, como pessoa ou como profissional, dependendo do modo pelo qual adquira a sua formação nos bancos universitários e, sobretudo, do modo pelo qual venha a exercer a sua profissão futura. Pense nisso. E tenha uma bela formação.