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No meio do caminho

Thursday, December 8th, 2011

Um poema de Carlos Drummond de Andrade começa com um verso que se tornou bastante conhecido e muito mencionado, em virtude da qualidade estética e do campo de interpretações que provoca:

 

No meio do caminho tinha uma pedra

 

Empregando o verbo “ter” ao modo popular, com o significado de “haver, existir” e aproveitando a imagem de “pedra” como barreira, atrapalho, obstáculo, o poeta acabou criando um verso que poderia perfeitamente viver por si mesmo, espécie de provérbio ou ditado que metaforiza momentos difíceis de nossa vida, quer com relação a problemas a resolver, quer com relação a dificuldades (que podem ser pessoas) a enfrentar. A primeira parte do poema fica gravada em nossa memória com uma só leitura:

 

No meio do caminho tinha uma pedra

tinha uma pedra no meio do caminho

tinha uma pedra

no meio do caminho tinha uma pedra.

 

Expressivíssimo, não? E, já que estamos num blogue sobre vestibulares falando em pedras e dificuldades humanas, podemos explorar outras expressões, dizendo que um vestibular como o da Unesp, realizado em duas fases, parece uma prova de esporte olímpico, em que é preciso passar por uma fase eliminatória e depois participar da última prova; não deixa também de ter analogia com as guerras, em que é preciso primeiro vencer algumas batalhas para depois enfrentar o adversário numa batalha final; tem semelhanças, ainda, com o trabalho da agricultura, em que é preciso preparar a terra e semear, adubar, lutar contra os predadores, para finalmente colher.

A imagem drummondiana da “pedra no meio do caminho”, porém, é bem mais expressiva que as anteriores, porque sugere não apenas o obstáculo, como também o modo de encará-lo. A pedra pode ser pesada, difícil de mover, e pode ser pequena e fazer tropeçar. Sob este ponto de vista, não é a pedra em si mesma a dificuldade, mas o modo como a vejo, como a sinto, como a temo e como a enfrento. O tamanho e o peso, assim, não têm as medidas da realidade externa, mas as da realidade interna, psicológica. Para um indivíduo, pode ser um desafio, um estímulo a mais; para outro, um desestímulo, um pretexto a desistir e buscar um caminho livre de pedras. Para o primeiro, a pedra tem o tamanho ideal para ser transposta e vencida; para o segundo, tem as dimensões do Everest.

Todo aquele que se inscreve num exame vestibular, obviamente, pertence à primeira categoria de indivíduos. Sabe que pode ultrapassar e se prepara arduamente para tal. Tem ciência de que talvez não consiga na primeira tentativa: afinal, a pedra estará ali, não fugirá, e poderão ser feitas novas tentativas com mais chances de êxito.

Estas reflexões ancoradas em Drummond nos vieram logo após a divulgação dos resultados da primeira fase do Vestibular Unesp: dos 91.852 inscritos, foram classificados 38.765 para a segunda fase, em que serão disputadas 6.629  vagas em 156 opções de cursos de graduação. Os que não foram classificados não podem ser considerados derrotados: terão novas oportunidades. Os classificados sabem que ainda não chegaram, mas deram um grande passo nessa direção. De certo modo, ainda usando a imagem do poema drummondiano, ultrapassaram a primeira pedra; há uma segunda à frente, que nos dias 18 e 19 de dezembro deverá ser encarada e enfrentada.

Desejamos que, após essas datas, você possa dizer, em tom feliz e brincalhão, parodiando Drummond: Tinha uma pedra no meio do caminho. Ops! eram duas! e eu passei!