Arquivo de 20 de setembro de 2011

Carta ao blogueiro

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Meu caro Blogueiro,

 

Meu nome é Vírgula. Em primeiro lugar, faço questão de louvar este Blogue, inteiramente dedicado aos estudantes e apresentado de uma forma tão carinhosa, que me parece ser escrito por uma mulher. Só nós, mulheres, temos essa doçura em nos dedicar às causas e às pessoas.

Infelizmente, como nem tudo é perfeito neste mundo, estou escrevendo também para reclamar de discriminação. Sim, discriminação, que venho sofrendo neste Blogue nos últimos dois anos. Escreveu pouco sobre pontuação e nada sobre mim. Que é isso? Você pensa que é o rei dos blogueiros e elimina assuntos apenas porque quer? Saia dessa vida. Um Blogger, sem mim, não é nada. Os vestibulandos, sem mim, não são nada. Sou o corpo e a alma da pontuação, sacou? E você tem de dizer isso a eles: só escreverão bem no dia em que me dominarem. E, para me dominar, precisam me amar primeiro, e para me amar precisam conhecer, compreender e aceitar todas as minhas reações tipicamente femininas.

Aceite esta verdade: só existe um sinal de pontuação: eu, a Vírgula, Senhora de Todos os Sentidos, Rainha-Mãe dos Argumentos, Suprema Musa dos Melhores Escritores, Soberana dos Duplos Sentidos. Os outros sinais? São marcas quaisquer, sinalizadores chinfrins de quase nada. Em livro de pontuação que se preze, eu ocupo a maior parte do espaço. Para que serve o ponto, mesmo? Para fechar período, fechar parágrafo, fechar texto. E acabou. Mas todos falam primeiro dele, como se fosse o maioral, quando é apenas meu porteiro. E para que sirvo eu? Minha nossa! Nem eu mesma sei quantas funções textuais posso exercer, sintáticas, lógicas, semânticas, estilísticas, filosóficas. Uma enormidade.

Quer mais uma prova prática, Blogueiro? Quantos livros já leu dedicados ao ponto, ou ao ponto de interrogação? Nenhum, porque não há nada mais que dois ou três parágrafos a escrever sobre os cujos. E sobre mim? Não só artigos, como livros. Eu mereço. O Celso Pedro Luft escreveu um belo livro sobre mim: A Vírgula. Gostei. Mas o título seria melhor assim: A Vírgula, Senhora de Todos os Textos. Eu mereço. O Rogério Chociay escreveu Pontuação, ponto por ponto, para falar quase só de mim. Adorei. Mas ficaria melhor: Pontuação, vírgula por vírgula?

Você acaba de entender, caro Blogger, que o nome Manual de Pontuação é impróprio: por mérito e justiça, deveria ser substituído por Manual de Virgulação. Falar dos outros é apenas fazer a introdução a tudo que vão falar de mim.

Chegou a hora da verdade, queridinho! Quer aprender a postar textos ainda melhores? Então leia e releia os escritos destes meus amantes: José de Alencar, Machado de Assis, Euclides da Cunha, Lima Barreto, Rui Barbosa, Graciliano Ramos, Érico Veríssimo, Jorge Amado, Fernando Pessoa, Monteiro Lobato e Saramago. O Rogério Chociay, que é ligadão em mim, mostrou meu poder na Revista Língua Portuguesa, que cito abaixo, com as modificações necessárias:

 

Um. Quando surjo na escrita, marco uma pausa inconclusa na fala. Exemplo: Quando surjo na escrita, marco uma pausa inconclusa na fala. Esta pausa inconclusa é um excelente indício de que devo ser colocada com carinho naquele ponto.

Dois. Opero no nível da oração, marcando fronteiras entre orações ou entre elementos oracionais. Exemplo de Lima Barreto em que eu surjo com meu charme todo: Julião Machado, segundo me dizem, é homem culto e ilustrado; e, como entre nós, no nosso meio doutoral e bacharelesco, os artistas são apresentados como ignorantes, ele quer mostrar com as suas legendas, longas, virguladinhas, que não é.

Três. Tenho habilidades seriais: sinalizo séries de vocábulos, de termos, de orações. Exemplo de Rui Barbosa: Preguei, demonstrei, honrei a verdade eleitoral, a verdade constitucional, a verdade republicana. Nesta função de seriadora, às vezes cedo espaço para o filho que tive com o ponto, o ponto-e-vírgula, e fazemos uma fantástica harmonia, como nesta passagem do grande Monteiro Lobato: Mal o avistavam, já as caras refloriam; se fazia um gesto, espirravam risos; se abria a boca, espigaitavam-se uns, outros afrouxavam os coses, terceiros desabotoavam os coletes. Não é maravilhoso ter um filho talentoso como a gente?

Quatro. Marco bem a intercalação de elementos na oração, mas não reclamo se você por vezes usar para isso os travessões ou os parênteses. Exemplo: Quebro meu silêncio — mais expressivo que o seu — para reclamar da discriminação.

Cinco. Sinalizo com eficácia a transposição de um elemento do meio ou do final de uma oração para o início, ou do início para o final. Exemplo: Era um sujeito de fala mansa e longas dissertações, o Inácio.

Seis. Ajudo a Elipse e sua irmã, a Zeugma, marcando a omissão de termos no período: Aqueles são a parte da natureza. Estes, a do trabalho. (Rui Barbosa).

Sete. Muitas vezes sou facultativa, permitindo que você me use ou não me use. Foi o que fez Euclides ao não me usar após “mas” e após “típico” em Mas neste clima singular e típico destacam-se outras anomalias, que ainda mais o agravam. Euclides, aliás, era mestre em se servir de minhas femininas sutilezas. Eu o amei por isso.

Oito. Sou lógica e enquadrada, não separo o inseparável. Não me ponha nunca entre o sujeito e o predicado ou entre o verbo e seu objeto. Não escreva Pedro, compra livros, mas Pedro compra livros; nunca escreva Pedro compra, livros, mas Pedro compra livros. É claro que, se se tratar de um aposto, você pode me colocar duas vezes, antes e depois, para marcar bem esse fato: Pedro, meu irmão mais novo, compra livros.

Nove. Sou moça certinha, mas, vez por outra, por ênfase, expressividade ou mesmo extensão de uma frase, você pode deixar de me usar onde usaria, ou me usar onde não me usaria. Malícias do ofício! Foi o que fez Euclidinho, ao me fazer marcar pausa respiratória em Mas no sul a força viva restante no temperamento dos que vinham de romper o mar imoto, não se delia num clima enervante.

 

É preciso dizer mais? Claro que é. E vou buscar Saramago em meu apoio, pois foi de todos meu predileto. O amor do Saramago por mim ultrapassou as raias da paixão, tornando-se quase um sentimento de posse doentio, porque mandou os travessões de diálogo, o ponto de exclamação e os dois-pontos ao exílio perpétuo, me concedendo o direito total e inalienável de marcar todos os diálogos de narrativas suas, me levando a operar também entre períodos, como no livro O Evangelho segundo Jesus Cristo. Veja que lindeza são os diálogos marcados por mim, e não pelo exibicionista travessão, pelo ponto exclamativo e pelos dois-pontos:

 

Dentro da caverna, José não fez reparo na candeia acessa. As brasas, no chão, tinham-se coberto de uma fina camada de cinza, mas, no interior do lume, entre elas, palpitava ainda, buscando forças, a raiz duma chama. Enquanto ia descarregando o burro, José disse, Já não corremos perigo, foram-se embora os soldados, e nós o melhor que temos a fazer é passar a noite aqui, amanhã partimos antes de o sol nascer, iremos por um atalho, e, onde atalho não haja, por onde calhe. Maria murmurou, Tantos meninos mortos, e José, bruscamente, como o sabes, foste contá-los, perguntou, e ela, Lembro-me deles, de alguns, Dá antes graças a Deus por teres o teu filho vivo, Darei, E não olhes para mim como se eu tivesse feito algum mal, Não estava a olhar-te, Nem me fales nesse tom que parece de juiz, Ficarei calada, se quiseres, Sim, é melhor que te cales.

 

Percebeu, Blogueiro? O Saramago era Mago, era muito bom escritor porque conhecia meu corpo e minha alma, sabendo onde tocar para obter o que desejava. Tive até pena do travessão, do exclamação e dos dois-pontos irem para o degredo, mas fico muito melhor no lugar deles. Quer provar? Veja como o relato ficaria lento, truncado e grosseiro com o trapalhão travessão e os mexeriqueiros exclamação e dois-pontos:

 

Dentro da caverna, José não fez reparo na candeia acessa. As brasas, no chão, tinham-se coberto de um fina camada de cinza, mas, no interior do lume, entre elas, palpitava ainda, buscando forças, a raiz duma chama. Enquanto ia descarregando o burro, José disse:

—  Já não corremos perigo, foram-se embora os soldados, e nós o melhor que temos a fazer é passar a noite aqui, amanhã partimos antes de o sol nascer, iremos por um atalho, e, onde atalho não haja, por onde calhe.

Maria murmurou:

—  Tantos meninos mortos!

E José, bruscamente:

— Como o sabes, foste contá-los? perguntou, e ela: — Lembro-me deles, de alguns.

— Dá antes graças a Deus por teres o teu filho vivo!

— Darei.

— E não olhes para mim como se eu tivesse feito algum mal!

— Não estava a olhar-te.

—  Nem me fales nesse tom que parece de juiz!

— Ficarei calada, se quiseres.

—  Sim, é melhor que te cales!

 

Notou? Se não quer acreditar em mim, acredite no Saramago. O texto fica muito mais lindo, mais solto, mais fluido, comigo. Viu como José é duro e turrão nessa passagem, parecendo o tempo todo um brutal ponto final? E como Maria é doce e delicada como uma vírgula? As mulheres somos sempre assim, essa é a nossa força e por isso estamos começando a dominar o mundo.

Falou? Então, deixe de me discriminar! É crime. Os vestibulandos  ganharão muito, se aprenderem cada vez mais sobre meu charme. Eu retribuo sempre.

 

Um beijo grande.

Sempre sua,

Vírgula.

 

Repúblicas: Um passo para a maturidade

terça-feira, 20 de setembro de 2011

O estudante Luiz, em email ao Blogue, lembra que não falamos ainda das repúblicas, tão importantes que são para os estudantes universitários. Não resta a menor dúvida. É uma boa lembrança esta.

Um passeio pelas enciclopédias online revela que o nascimento das repúblicas estudantis remonta à velha e boa Universidade de Coimbra, que formou os primeiros brasileiros no ensino superior. Não vem ao caso, porém, fazer história, mas apontar para a eficácia da realidade.

Diferentemente das moradias estudantis, disponibilizadas por muitas universidades a estudantes cujas famílias têm dificuldades financeiras para mantê-los nas cidades onde se situam os câmpus, as repúblicas são moradias particulares, em prédios muitas vezes construídos para ser alugados a estudantes ou, simplesmente, casas ou apartamentos comuns alugados por grupos de estudantes como moradia.

As repúblicas constituem, assim, em primeiro lugar, uma bela economia da parte de cada estudante, pois o aluguel de uma casa, por exemplo, pode ser dividido por seis ou oito ou mais moradores. Embora o aspecto econômico seja, de fato, relevante, o melhor das repúblicas está no que se aprende em termos de convivência, de relações entre jovens de diferentes famílias. Cada estudante não está mais sob o teto paterno, não tem a comida pronta e a roupa lavada que a mãe com tanto carinho providenciava. A vida agora passa a ser em comum com pessoas que, até ontem, eram estranhas, e vida em comum significa direitos e deveres em comum. Não dá mais para deixar roupas e objetos no chão, esperando que alguém recolha, nem usar a cozinha e abandonar panelas sujas, pratos e talheres, nem tampouco alimentar-se com o que outros colocaram para si mesmos na geladeira; sem falar no uso do banheiro, que agora é coletivo. E outras coisinhas mais.

Conviver, de repente, com estranhos, não é fácil. A diferença de personalidades muitas vezes se torna intransponível e chega o momento de alguém sair, para tentar um ambiente em que os temperamentos não colidam tanto com o seu. Sem falar nas dissensões grupais, em que três ou quatro, de um lado, e três ou quatro, de outro, não conseguem mais conviver em harmonia e ocorre uma cisão em duas repúblicas distintas. Tudo isso se torna, ao fim e ao cabo, altamente educativo e formador para os estudantes, que descobrem a arte, a ciência e a técnica de viver em grupo.

Quando, finalmente, tudo dá certo numa república, a vida em comum se torna muitíssimo agradável. Todos se tornam amigos, todos aprendem a se respeitar e a exigir com respeito o direito e as obrigações de todos. A república, de repente, se torna uma família e os estudantes se sentem irmãos, adotando o um por todos e todos por um como lema e princípio. É um fato normal e corriqueiro estudantes de repúblicas se tornarem muito amigos após formados, mesmos distanciados por morarem em cidades diferentes. De tempos em tempos, programam reuniões e jantares para “matar as saudades” e comemorar aqueles quatro ou cinco anos que nunca mais se repetirão.

Tudo isso, sem falar nas festas, nas brincadeiras, nas pegadinhas que os membros de umas repúblicas aplicam nas outras. Um profissional formado há certo tempo em universidade pública paulista costuma contar a brincadeira que os membros de sua república aprontaram. A coisa aconteceu mais ou menos assim: depois de uma passeata de protesto em que os estudantes fizeram o enterro simbólico de certo político, os membros de uma república ficaram encarregados de levar o caixão para o diretório, mas, alegres que estavam, levaram para a república. Lá, um teve a ideia de deixarem o caixão na varanda da casa, a tampa semiaberta; na parte correspondente aos pés botaram um par de tênis velhos do colega que tinha os pés maiores (44), deixando os bicos para fora, como se alguém estivesse mesmo deitado ou morto no caixão; na parte correspondente à cabeça, dentro do caixão, colocaram o crânio de um boi com chifres, que pertencia a um dos estudantes; e forraram o resto com roupas velhas. As pessoas passavam, na calçada, e se espantavam com a presença de um caixão, imaginando, pelos bicos dos tênis, que havia um defunto, ou pelo menos um boneco dentro. Alguns passantes riam, entendendo a brincadeira, e outros não gostavam muito, julgando que era de mau gosto. Um entregador de pizza, certa noite, chegou a abrir a tampa do caixão e fugir assustado ao ver o crãnio do boi. Final da história: um vizinho denunciou e a polícia veio e apreendeu o caixão, intimando os membros da república a darem explicações ao delegado. No final, tudo terminou entre risadas, na delegacia, e o caixão voltou ao diretório. E os integrantes da república tinham mais uma história para, futuramente, contar entre risos aos filhos e netos.

Pode-se, pois, dizer com propriedade que a convivência em repúblicas é uma universidade paralela, a universidade da vida, do respeito mútuo, do reconhecimento das identidades e da aceitação das diferenças entre os indivíduos. Quem aprendeu as relações humanas de uma república já está preparado para o convívio com muitas outras pessoas no seu futuro trabalho, já exercitou num microcosmo o que por certo encontrará no macrocosmo da profissão.

Por isso, este Blogue está focalizando hoje o assunto, lembrando ainda, como sugere o Luiz, que há muitos sites especializados em indicar repúblicas para estudantes nos diferentes câmpus das universidades públicas paulistas. Basta pesquisar com termos como moradia estudantil e república de estudantes em buscadores da internet para receber muitas informações úteis. Nos próprios diretórios das unidades universitárias, durante as matrículas e ao longo do ano, são feitas muitíssimas indicações sobre a moradia e as repúblicas locais.

Vale lembrar que na vida nunca estamos e nunca estaremos sozinhos. O Homem é o que é na face da Terra porque aprendeu a viver e conviver em grupos.