Arquivo de 8 de setembro de 2011

Sem medo da Reforma Ortográfica

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

O estudante Thiago nos enviou uma mensagem perguntando se a Nova Ortografia vai ser exigida no Vestibular Unesp deste ano. Não, não vai. Como dissemos no artigo postado em 2009, intitulado A nova ortografia: um bicho-papão?, a exigência das alterações na ortografia vigente só serão exigidas a partir de dezembro de 2012. Até lá, portanto, esta não deve ser uma preocupação dos candidatos a vestibulares e a concursos de acesso.

Aproveitamos a oportunidade, porém, para dizer ao Thiago que releia atentamente, neste Blogue, o artigo acima mencionado, pois terá esclarecidas todas as suas dúvidas a respeito. E a principal delas é que não existe uma “nova ortografia”. A ortografia atual, criada em 1943, ainda está em vigência. Os jornais e a mídia em geral exageraram ao falar em “nova ortografia”, quando, na realidade, houve apenas algumas alterações na ortografia vigente, alterações que atingem no máximo 0,5% do vocabulário da língua portuguesa. O que significa isso? Significa que, a cada duzentas palavras de nosso vocabulário, apenas uma é atingida pela chamada “reforma ortográfica”. Isso é quase irrelevante. Fazendo um trocadilho, podemos dizer que a reforma ortográfica está longe de ser um bicho-papão, não passa de um bicho-papinho. Por isso, mesmo que estivessem já em vigência as alterações, a possibilidade de cometer erros ortográficos seria muito baixa, não traria nenhum prejuízo ao candidato em sua redação ou nas respostas a questões discursivas.

Então, Thiago, não se preocupe. Até 2012, continue escrevendo como sempre escreveu, ou, melhor: continue obedecendo às regras ortográficas que aprendeu ao longo dos ensinos fundamental e médio. Mas, como dissemos no artigo mencionado, se você é do tipo “ligadão” e não quer deixar para amanhã o que pode aprender hoje, siga os bem-humorados conselhos abaixo, que transcrevemos do artigo mencionado, e estará em dia com a reforma:

 

1) DEIXE de usar o trema. O trema morreu, que os Anjos digam amém!

 

Era um mal antiquíssimo criado por algum linguista louco e eloquente, uma coisa de equino que ninguém mais aguentava. Vamos ficar cinquenta vezes mais tranquilos e será ótimo depois de uma sequência de cinco anos comemorar um quinquênio sem tremar coisa nenhuma.

2) DEIXE de colocar o acento agudo sobre a vogal aberta tônica dos ditongos -EI- e -OI- em palavras paroxítonas terminadas em -EIA, -EIAS, -EICO, -EICOS, -OIA,           -OIAS, -OIAM, -OICO, -OICOS, -OIDE, -OIDES, -OIE, -OIES, -OIEM, -OIO, -OITO, -OITOS.

 

Que joia! Não me sinto mais um androide moloide que não sabia se devia acentuar ou não colmeia. Apoio e espero que você apoie e todos apoiem inteiramente essa ideia. Foi um esforço estoico e heroico acabar com essa paranoia.

 

Mas, cuidado! Só as paroxítonas com esses ditongos ficam sem acento; as oxítonas continuam sendo acentuadas: Você vai continuar pagando aluguéis, usando anéis, pescando com anzóis, comendo caracóis, enrolando fios nos carretéis, ligando os faróis, tirando o chapéu, andando ao léu, lavando os lençóis, defendendo o réu e sendo um fiel entre os fiéis.     

 

3) DEIXE de acentuar o -U- tônico que surge após ditongo em palavras paroxítonas como baiuca, bocaiuva, boiuno, reiuna, reiuno, feiura. Para falar a verdade, a gente já tinha deixado de fazer isso havia muito tempo, não é? E ninguém notava!

 

Mas, cuidado também aqui! Só as paroxítonas. As oxítonas continuam com o acento: teiú, teiús, sucuruiú, sucuruiús, tuiuiú, tuiuiús, Piauí.

 

4) DEIXE de usar o acento circunflexo sobre o -E- e o -O- tônicos de palavras paroxítonas terminadas em -EEM, -OO, -OOS: creem, deem, descreem, leem, preveem, releem, reveem (verbo rever), veem (verbo ver), abençoo, abotoo, acoroçoo, acorçoo, assoo, caçoo, coo, doo, enjoo, magoo, perdoo, reboo, ressoo, revoo, soo, voo.

 

Não confunda: continua valendo a distinção gráfica entre a terceira pessoa do singular e a do plural no caso dos verbos “ter” (ele tem, eles têm) e “vir” (ele vem, eles vêm). E assim também correspondentemente em: mantém, mantêm; retém, retêm; entretém, entretêm; sustém, sustêm; contém, contêm; advém, advêm; convém, convêm; provém, provêm. Mas, como você já fazia isso, é só um lembrete.

 

5) DEIXE de usar o acento diferencial em pólo, pôlo, péla, pêlo, pára, pêra. Agora é tudo polo, polo, pela, pelo, para, pera, não importando a pronúncia nem a classe de palavra. Veja como ficou fácil: Ele come uma pera e para para jogar polo. Sobraram apenas duas palavras em que é obrigatório: pôr (verbo) para diferençar de por (preposição) e pôde (pretérito perfeito) para diferençar de pode (presente do indicativo, com “o” aberto); e uma palavra que você poderá usar com acento diferencial, se achar que tornará mais clara a frase em que aparecer: fôrma, para diferençar de forma.

 

Ontem o padeiro não pôde pôr a massa na fôrma, porque estava amassada e perdeu a forma, mas hoje ele pode, por ter comprado duas fôrmas novas.

 

6) DEIXE de usar o acento agudo no -U- tônico dos grupos -GUE, -GUI, -QUE, -QUI: apazigue, apazigues, arguem, argui, arguis, arguem, averigue, averigues, averiguem, oblique, obliques, obliquem, redargui, redarguis, redarguem.

 

Muito fácil, não? Não é muita coisa.

 

Sim, mas a regra do hífen? Nossa! Essa é uma dureza! Quando tentamos entendê-la inteiramente, saímos com muitas dúvidas e dores de cabeça. A reforma ortográfica tentou mexer nas regras do hífen para simplificar, mas em alguns casos criou mais dúvidas que certezas. Muita gente ainda discute se este ou aquele composto se usará agora com hífen ou sem ele. Pior: o VOLP, Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, que deveria incorporar todas as alterações para facilitar nossa vida, especialmente no caso do hífen, acabou complicando, pois lá não encontramos muitos compostos e encontramos outros cuja solução não combina com nossa interpretação da regra. Muitas discussões e debates vêm ocorrendo via internet sobre o assunto, mas o problema só será solucionado quando da segunda edição do VOLP, se este realmente incorporar todos os exemplos faltantes e alterar alguns que professores e especialistas consideram fora da regra.

Por isso, estude bem as regras e os exemplos acima e estará quase 100% em dia com a ortografia. Quanto ao hífen, é melhor sempre verificar no VOLP e comparar com a última edição de um dos grandes dicionários eletrônicos que possuímos, como o Aurélio, o Houaiss e tantos outros.

Valeu, Thiago!