Archive for September, 2011

Palavras perigosas: Meteorologia, intermitente

Tuesday, September 27th, 2011

O estudante Josinaldo Santos enviou a este Blogue uma mensagem em que elogia o artigo PALAVRAS PERIGOSAS:  VULTOSO E VULTUOSO. Sugere também que apresentemos outros artigos a respeito de palavras que, por semelhança de forma ou de sentido, levam as pessoas a usos equivocados. Ficamos felizes com o elogio e lembramos ao Josinaldo que iremos continuar focalizando o assunto, sempre com a intenção de auxiliar os vestibulandos em suas dúvidas.

Hoje apresentamos duas palavras que, embora não sejam semelhantes pelo aspecto fônico, fazem parte do vocabulário técnico de uma mesma atividade. O problema é que os leitores comuns muitas vezes as empregam erradamente. Comecemos com a palavra meteorologia. Você por certo já leu esta palavra em jornais, revistas, livros, na internet. E já reparou que muitas pessoas pronunciam erradamente? Talvez até você mesmo tenha alguma vez pronunciado metereologia. Reparou bem? A forma correta é meteorologia. Se procurarmos esta palavra no Aurélio, encontraremos a definição: Ciência que investiga os fenômenos atmosféricos, e cujas observações possibilitam a previsão do tempo. Se procurarmos a forma metereologia, não encontraremos nada, porque não existe. No uso oral da língua, muitas pessoas costumam operar trocas, chamadas metáteses, entre sons de um mesmo vocábulo. Por certo você já ouviu alguém pronunciar erradamente: cardeneta, em vez de caderneta, ou também largato, em vez de lagarto. É claro que você, ao ouvir tais pronúncias, acha até engraçado e atribui o erro ao fato de as pessoas não serem muito cultas. O problema é que nem sempre um menor grau de conhecimentos pode explicar o engano, como, por exemplo, na pronúncia bicabornato, em vez de bicarbonato. Muita gente culta por vezes se equivoca quanto à pronúncia correta; pior, muita gente nem percebe que a forma bicabornato está errada e pronuncia sempre assim; pior ainda: há pessoas que eventualmente escrevem assim. Tome cuidado, portanto, com estas e outras palavras perigosas. Pronuncie sempre e escreva sempre: caderneta, lagarto, bicarbonato, meteorologia.

E, já que falamos em meteorologia, tome muitíssimo cuidado com a palavra intermitente. Se você consultar o Aurélio, verificará que o adjetivo intermitente tem como significado: Que apresenta interrupções ou suspensões; não contínuo. E o dicionário Houaiss deixa ainda mais claro: em que ocorrem interrupções; que cessa e recomeça por intervalos; intervalado, descontínuo. Preste bem atenção, portanto: intermitente é um adjetivo com que designamos processos que não são contínuos, que apresentam interrupções, suspensões, intervalos! O dicionário Houaiss ainda nos informa que podemos falar em trovoadas intermitentes, soluços intermitentes, pulso intermitente. Se dizemos que alguém está com febre intermitente, significamos que passa por períodos febris e períodos não febris, isto é, a pessoa passa por períodos de febre alta e períodos de temperatura normal.

Captou? Intermitente não é sinônimo de contínuo nem de ininterrupto: é antônimo. Então, se dissermos, como dizem frequentemente os sites de previsão do tempo, que amanhã haverá chuvas intermitentes durante o dia, estaremos significando que amanhã haverá, ao longo do dia, períodos com chuva e períodos sem chuva.

Prestando bastante atenção, portanto, as palavras não parecem assim tão perigosas, não é verdade? Perigosa, mesmo, é a desatenção!

 

Carta ao blogueiro

Tuesday, September 20th, 2011

Meu caro Blogueiro,

 

Meu nome é Vírgula. Em primeiro lugar, faço questão de louvar este Blogue, inteiramente dedicado aos estudantes e apresentado de uma forma tão carinhosa, que me parece ser escrito por uma mulher. Só nós, mulheres, temos essa doçura em nos dedicar às causas e às pessoas.

Infelizmente, como nem tudo é perfeito neste mundo, estou escrevendo também para reclamar de discriminação. Sim, discriminação, que venho sofrendo neste Blogue nos últimos dois anos. Escreveu pouco sobre pontuação e nada sobre mim. Que é isso? Você pensa que é o rei dos blogueiros e elimina assuntos apenas porque quer? Saia dessa vida. Um Blogger, sem mim, não é nada. Os vestibulandos, sem mim, não são nada. Sou o corpo e a alma da pontuação, sacou? E você tem de dizer isso a eles: só escreverão bem no dia em que me dominarem. E, para me dominar, precisam me amar primeiro, e para me amar precisam conhecer, compreender e aceitar todas as minhas reações tipicamente femininas.

Aceite esta verdade: só existe um sinal de pontuação: eu, a Vírgula, Senhora de Todos os Sentidos, Rainha-Mãe dos Argumentos, Suprema Musa dos Melhores Escritores, Soberana dos Duplos Sentidos. Os outros sinais? São marcas quaisquer, sinalizadores chinfrins de quase nada. Em livro de pontuação que se preze, eu ocupo a maior parte do espaço. Para que serve o ponto, mesmo? Para fechar período, fechar parágrafo, fechar texto. E acabou. Mas todos falam primeiro dele, como se fosse o maioral, quando é apenas meu porteiro. E para que sirvo eu? Minha nossa! Nem eu mesma sei quantas funções textuais posso exercer, sintáticas, lógicas, semânticas, estilísticas, filosóficas. Uma enormidade.

Quer mais uma prova prática, Blogueiro? Quantos livros já leu dedicados ao ponto, ou ao ponto de interrogação? Nenhum, porque não há nada mais que dois ou três parágrafos a escrever sobre os cujos. E sobre mim? Não só artigos, como livros. Eu mereço. O Celso Pedro Luft escreveu um belo livro sobre mim: A Vírgula. Gostei. Mas o título seria melhor assim: A Vírgula, Senhora de Todos os Textos. Eu mereço. O Rogério Chociay escreveu Pontuação, ponto por ponto, para falar quase só de mim. Adorei. Mas ficaria melhor: Pontuação, vírgula por vírgula?

Você acaba de entender, caro Blogger, que o nome Manual de Pontuação é impróprio: por mérito e justiça, deveria ser substituído por Manual de Virgulação. Falar dos outros é apenas fazer a introdução a tudo que vão falar de mim.

Chegou a hora da verdade, queridinho! Quer aprender a postar textos ainda melhores? Então leia e releia os escritos destes meus amantes: José de Alencar, Machado de Assis, Euclides da Cunha, Lima Barreto, Rui Barbosa, Graciliano Ramos, Érico Veríssimo, Jorge Amado, Fernando Pessoa, Monteiro Lobato e Saramago. O Rogério Chociay, que é ligadão em mim, mostrou meu poder na Revista Língua Portuguesa, que cito abaixo, com as modificações necessárias:

 

Um. Quando surjo na escrita, marco uma pausa inconclusa na fala. Exemplo: Quando surjo na escrita, marco uma pausa inconclusa na fala. Esta pausa inconclusa é um excelente indício de que devo ser colocada com carinho naquele ponto.

Dois. Opero no nível da oração, marcando fronteiras entre orações ou entre elementos oracionais. Exemplo de Lima Barreto em que eu surjo com meu charme todo: Julião Machado, segundo me dizem, é homem culto e ilustrado; e, como entre nós, no nosso meio doutoral e bacharelesco, os artistas são apresentados como ignorantes, ele quer mostrar com as suas legendas, longas, virguladinhas, que não é.

Três. Tenho habilidades seriais: sinalizo séries de vocábulos, de termos, de orações. Exemplo de Rui Barbosa: Preguei, demonstrei, honrei a verdade eleitoral, a verdade constitucional, a verdade republicana. Nesta função de seriadora, às vezes cedo espaço para o filho que tive com o ponto, o ponto-e-vírgula, e fazemos uma fantástica harmonia, como nesta passagem do grande Monteiro Lobato: Mal o avistavam, já as caras refloriam; se fazia um gesto, espirravam risos; se abria a boca, espigaitavam-se uns, outros afrouxavam os coses, terceiros desabotoavam os coletes. Não é maravilhoso ter um filho talentoso como a gente?

Quatro. Marco bem a intercalação de elementos na oração, mas não reclamo se você por vezes usar para isso os travessões ou os parênteses. Exemplo: Quebro meu silêncio — mais expressivo que o seu — para reclamar da discriminação.

Cinco. Sinalizo com eficácia a transposição de um elemento do meio ou do final de uma oração para o início, ou do início para o final. Exemplo: Era um sujeito de fala mansa e longas dissertações, o Inácio.

Seis. Ajudo a Elipse e sua irmã, a Zeugma, marcando a omissão de termos no período: Aqueles são a parte da natureza. Estes, a do trabalho. (Rui Barbosa).

Sete. Muitas vezes sou facultativa, permitindo que você me use ou não me use. Foi o que fez Euclides ao não me usar após “mas” e após “típico” em Mas neste clima singular e típico destacam-se outras anomalias, que ainda mais o agravam. Euclides, aliás, era mestre em se servir de minhas femininas sutilezas. Eu o amei por isso.

Oito. Sou lógica e enquadrada, não separo o inseparável. Não me ponha nunca entre o sujeito e o predicado ou entre o verbo e seu objeto. Não escreva Pedro, compra livros, mas Pedro compra livros; nunca escreva Pedro compra, livros, mas Pedro compra livros. É claro que, se se tratar de um aposto, você pode me colocar duas vezes, antes e depois, para marcar bem esse fato: Pedro, meu irmão mais novo, compra livros.

Nove. Sou moça certinha, mas, vez por outra, por ênfase, expressividade ou mesmo extensão de uma frase, você pode deixar de me usar onde usaria, ou me usar onde não me usaria. Malícias do ofício! Foi o que fez Euclidinho, ao me fazer marcar pausa respiratória em Mas no sul a força viva restante no temperamento dos que vinham de romper o mar imoto, não se delia num clima enervante.

 

É preciso dizer mais? Claro que é. E vou buscar Saramago em meu apoio, pois foi de todos meu predileto. O amor do Saramago por mim ultrapassou as raias da paixão, tornando-se quase um sentimento de posse doentio, porque mandou os travessões de diálogo, o ponto de exclamação e os dois-pontos ao exílio perpétuo, me concedendo o direito total e inalienável de marcar todos os diálogos de narrativas suas, me levando a operar também entre períodos, como no livro O Evangelho segundo Jesus Cristo. Veja que lindeza são os diálogos marcados por mim, e não pelo exibicionista travessão, pelo ponto exclamativo e pelos dois-pontos:

 

Dentro da caverna, José não fez reparo na candeia acessa. As brasas, no chão, tinham-se coberto de uma fina camada de cinza, mas, no interior do lume, entre elas, palpitava ainda, buscando forças, a raiz duma chama. Enquanto ia descarregando o burro, José disse, Já não corremos perigo, foram-se embora os soldados, e nós o melhor que temos a fazer é passar a noite aqui, amanhã partimos antes de o sol nascer, iremos por um atalho, e, onde atalho não haja, por onde calhe. Maria murmurou, Tantos meninos mortos, e José, bruscamente, como o sabes, foste contá-los, perguntou, e ela, Lembro-me deles, de alguns, Dá antes graças a Deus por teres o teu filho vivo, Darei, E não olhes para mim como se eu tivesse feito algum mal, Não estava a olhar-te, Nem me fales nesse tom que parece de juiz, Ficarei calada, se quiseres, Sim, é melhor que te cales.

 

Percebeu, Blogueiro? O Saramago era Mago, era muito bom escritor porque conhecia meu corpo e minha alma, sabendo onde tocar para obter o que desejava. Tive até pena do travessão, do exclamação e dos dois-pontos irem para o degredo, mas fico muito melhor no lugar deles. Quer provar? Veja como o relato ficaria lento, truncado e grosseiro com o trapalhão travessão e os mexeriqueiros exclamação e dois-pontos:

 

Dentro da caverna, José não fez reparo na candeia acessa. As brasas, no chão, tinham-se coberto de um fina camada de cinza, mas, no interior do lume, entre elas, palpitava ainda, buscando forças, a raiz duma chama. Enquanto ia descarregando o burro, José disse:

—  Já não corremos perigo, foram-se embora os soldados, e nós o melhor que temos a fazer é passar a noite aqui, amanhã partimos antes de o sol nascer, iremos por um atalho, e, onde atalho não haja, por onde calhe.

Maria murmurou:

—  Tantos meninos mortos!

E José, bruscamente:

— Como o sabes, foste contá-los? perguntou, e ela: — Lembro-me deles, de alguns.

— Dá antes graças a Deus por teres o teu filho vivo!

— Darei.

— E não olhes para mim como se eu tivesse feito algum mal!

— Não estava a olhar-te.

—  Nem me fales nesse tom que parece de juiz!

— Ficarei calada, se quiseres.

—  Sim, é melhor que te cales!

 

Notou? Se não quer acreditar em mim, acredite no Saramago. O texto fica muito mais lindo, mais solto, mais fluido, comigo. Viu como José é duro e turrão nessa passagem, parecendo o tempo todo um brutal ponto final? E como Maria é doce e delicada como uma vírgula? As mulheres somos sempre assim, essa é a nossa força e por isso estamos começando a dominar o mundo.

Falou? Então, deixe de me discriminar! É crime. Os vestibulandos  ganharão muito, se aprenderem cada vez mais sobre meu charme. Eu retribuo sempre.

 

Um beijo grande.

Sempre sua,

Vírgula.

 

Repúblicas: Um passo para a maturidade

Tuesday, September 20th, 2011

O estudante Luiz, em email ao Blogue, lembra que não falamos ainda das repúblicas, tão importantes que são para os estudantes universitários. Não resta a menor dúvida. É uma boa lembrança esta.

Um passeio pelas enciclopédias online revela que o nascimento das repúblicas estudantis remonta à velha e boa Universidade de Coimbra, que formou os primeiros brasileiros no ensino superior. Não vem ao caso, porém, fazer história, mas apontar para a eficácia da realidade.

Diferentemente das moradias estudantis, disponibilizadas por muitas universidades a estudantes cujas famílias têm dificuldades financeiras para mantê-los nas cidades onde se situam os câmpus, as repúblicas são moradias particulares, em prédios muitas vezes construídos para ser alugados a estudantes ou, simplesmente, casas ou apartamentos comuns alugados por grupos de estudantes como moradia.

As repúblicas constituem, assim, em primeiro lugar, uma bela economia da parte de cada estudante, pois o aluguel de uma casa, por exemplo, pode ser dividido por seis ou oito ou mais moradores. Embora o aspecto econômico seja, de fato, relevante, o melhor das repúblicas está no que se aprende em termos de convivência, de relações entre jovens de diferentes famílias. Cada estudante não está mais sob o teto paterno, não tem a comida pronta e a roupa lavada que a mãe com tanto carinho providenciava. A vida agora passa a ser em comum com pessoas que, até ontem, eram estranhas, e vida em comum significa direitos e deveres em comum. Não dá mais para deixar roupas e objetos no chão, esperando que alguém recolha, nem usar a cozinha e abandonar panelas sujas, pratos e talheres, nem tampouco alimentar-se com o que outros colocaram para si mesmos na geladeira; sem falar no uso do banheiro, que agora é coletivo. E outras coisinhas mais.

Conviver, de repente, com estranhos, não é fácil. A diferença de personalidades muitas vezes se torna intransponível e chega o momento de alguém sair, para tentar um ambiente em que os temperamentos não colidam tanto com o seu. Sem falar nas dissensões grupais, em que três ou quatro, de um lado, e três ou quatro, de outro, não conseguem mais conviver em harmonia e ocorre uma cisão em duas repúblicas distintas. Tudo isso se torna, ao fim e ao cabo, altamente educativo e formador para os estudantes, que descobrem a arte, a ciência e a técnica de viver em grupo.

Quando, finalmente, tudo dá certo numa república, a vida em comum se torna muitíssimo agradável. Todos se tornam amigos, todos aprendem a se respeitar e a exigir com respeito o direito e as obrigações de todos. A república, de repente, se torna uma família e os estudantes se sentem irmãos, adotando o um por todos e todos por um como lema e princípio. É um fato normal e corriqueiro estudantes de repúblicas se tornarem muito amigos após formados, mesmos distanciados por morarem em cidades diferentes. De tempos em tempos, programam reuniões e jantares para “matar as saudades” e comemorar aqueles quatro ou cinco anos que nunca mais se repetirão.

Tudo isso, sem falar nas festas, nas brincadeiras, nas pegadinhas que os membros de umas repúblicas aplicam nas outras. Um profissional formado há certo tempo em universidade pública paulista costuma contar a brincadeira que os membros de sua república aprontaram. A coisa aconteceu mais ou menos assim: depois de uma passeata de protesto em que os estudantes fizeram o enterro simbólico de certo político, os membros de uma república ficaram encarregados de levar o caixão para o diretório, mas, alegres que estavam, levaram para a república. Lá, um teve a ideia de deixarem o caixão na varanda da casa, a tampa semiaberta; na parte correspondente aos pés botaram um par de tênis velhos do colega que tinha os pés maiores (44), deixando os bicos para fora, como se alguém estivesse mesmo deitado ou morto no caixão; na parte correspondente à cabeça, dentro do caixão, colocaram o crânio de um boi com chifres, que pertencia a um dos estudantes; e forraram o resto com roupas velhas. As pessoas passavam, na calçada, e se espantavam com a presença de um caixão, imaginando, pelos bicos dos tênis, que havia um defunto, ou pelo menos um boneco dentro. Alguns passantes riam, entendendo a brincadeira, e outros não gostavam muito, julgando que era de mau gosto. Um entregador de pizza, certa noite, chegou a abrir a tampa do caixão e fugir assustado ao ver o crãnio do boi. Final da história: um vizinho denunciou e a polícia veio e apreendeu o caixão, intimando os membros da república a darem explicações ao delegado. No final, tudo terminou entre risadas, na delegacia, e o caixão voltou ao diretório. E os integrantes da república tinham mais uma história para, futuramente, contar entre risos aos filhos e netos.

Pode-se, pois, dizer com propriedade que a convivência em repúblicas é uma universidade paralela, a universidade da vida, do respeito mútuo, do reconhecimento das identidades e da aceitação das diferenças entre os indivíduos. Quem aprendeu as relações humanas de uma república já está preparado para o convívio com muitas outras pessoas no seu futuro trabalho, já exercitou num microcosmo o que por certo encontrará no macrocosmo da profissão.

Por isso, este Blogue está focalizando hoje o assunto, lembrando ainda, como sugere o Luiz, que há muitos sites especializados em indicar repúblicas para estudantes nos diferentes câmpus das universidades públicas paulistas. Basta pesquisar com termos como moradia estudantil e república de estudantes em buscadores da internet para receber muitas informações úteis. Nos próprios diretórios das unidades universitárias, durante as matrículas e ao longo do ano, são feitas muitíssimas indicações sobre a moradia e as repúblicas locais.

Vale lembrar que na vida nunca estamos e nunca estaremos sozinhos. O Homem é o que é na face da Terra porque aprendeu a viver e conviver em grupos.

 

Sem medo da Reforma Ortográfica

Thursday, September 8th, 2011

O estudante Thiago nos enviou uma mensagem perguntando se a Nova Ortografia vai ser exigida no Vestibular Unesp deste ano. Não, não vai. Como dissemos no artigo postado em 2009, intitulado A nova ortografia: um bicho-papão?, a exigência das alterações na ortografia vigente só serão exigidas a partir de dezembro de 2012. Até lá, portanto, esta não deve ser uma preocupação dos candidatos a vestibulares e a concursos de acesso.

Aproveitamos a oportunidade, porém, para dizer ao Thiago que releia atentamente, neste Blogue, o artigo acima mencionado, pois terá esclarecidas todas as suas dúvidas a respeito. E a principal delas é que não existe uma “nova ortografia”. A ortografia atual, criada em 1943, ainda está em vigência. Os jornais e a mídia em geral exageraram ao falar em “nova ortografia”, quando, na realidade, houve apenas algumas alterações na ortografia vigente, alterações que atingem no máximo 0,5% do vocabulário da língua portuguesa. O que significa isso? Significa que, a cada duzentas palavras de nosso vocabulário, apenas uma é atingida pela chamada “reforma ortográfica”. Isso é quase irrelevante. Fazendo um trocadilho, podemos dizer que a reforma ortográfica está longe de ser um bicho-papão, não passa de um bicho-papinho. Por isso, mesmo que estivessem já em vigência as alterações, a possibilidade de cometer erros ortográficos seria muito baixa, não traria nenhum prejuízo ao candidato em sua redação ou nas respostas a questões discursivas.

Então, Thiago, não se preocupe. Até 2012, continue escrevendo como sempre escreveu, ou, melhor: continue obedecendo às regras ortográficas que aprendeu ao longo dos ensinos fundamental e médio. Mas, como dissemos no artigo mencionado, se você é do tipo “ligadão” e não quer deixar para amanhã o que pode aprender hoje, siga os bem-humorados conselhos abaixo, que transcrevemos do artigo mencionado, e estará em dia com a reforma:

 

1) DEIXE de usar o trema. O trema morreu, que os Anjos digam amém!

 

Era um mal antiquíssimo criado por algum linguista louco e eloquente, uma coisa de equino que ninguém mais aguentava. Vamos ficar cinquenta vezes mais tranquilos e será ótimo depois de uma sequência de cinco anos comemorar um quinquênio sem tremar coisa nenhuma.

2) DEIXE de colocar o acento agudo sobre a vogal aberta tônica dos ditongos -EI- e -OI- em palavras paroxítonas terminadas em -EIA, -EIAS, -EICO, -EICOS, -OIA,           -OIAS, -OIAM, -OICO, -OICOS, -OIDE, -OIDES, -OIE, -OIES, -OIEM, -OIO, -OITO, -OITOS.

 

Que joia! Não me sinto mais um androide moloide que não sabia se devia acentuar ou não colmeia. Apoio e espero que você apoie e todos apoiem inteiramente essa ideia. Foi um esforço estoico e heroico acabar com essa paranoia.

 

Mas, cuidado! Só as paroxítonas com esses ditongos ficam sem acento; as oxítonas continuam sendo acentuadas: Você vai continuar pagando aluguéis, usando anéis, pescando com anzóis, comendo caracóis, enrolando fios nos carretéis, ligando os faróis, tirando o chapéu, andando ao léu, lavando os lençóis, defendendo o réu e sendo um fiel entre os fiéis.     

 

3) DEIXE de acentuar o -U- tônico que surge após ditongo em palavras paroxítonas como baiuca, bocaiuva, boiuno, reiuna, reiuno, feiura. Para falar a verdade, a gente já tinha deixado de fazer isso havia muito tempo, não é? E ninguém notava!

 

Mas, cuidado também aqui! Só as paroxítonas. As oxítonas continuam com o acento: teiú, teiús, sucuruiú, sucuruiús, tuiuiú, tuiuiús, Piauí.

 

4) DEIXE de usar o acento circunflexo sobre o -E- e o -O- tônicos de palavras paroxítonas terminadas em -EEM, -OO, -OOS: creem, deem, descreem, leem, preveem, releem, reveem (verbo rever), veem (verbo ver), abençoo, abotoo, acoroçoo, acorçoo, assoo, caçoo, coo, doo, enjoo, magoo, perdoo, reboo, ressoo, revoo, soo, voo.

 

Não confunda: continua valendo a distinção gráfica entre a terceira pessoa do singular e a do plural no caso dos verbos “ter” (ele tem, eles têm) e “vir” (ele vem, eles vêm). E assim também correspondentemente em: mantém, mantêm; retém, retêm; entretém, entretêm; sustém, sustêm; contém, contêm; advém, advêm; convém, convêm; provém, provêm. Mas, como você já fazia isso, é só um lembrete.

 

5) DEIXE de usar o acento diferencial em pólo, pôlo, péla, pêlo, pára, pêra. Agora é tudo polo, polo, pela, pelo, para, pera, não importando a pronúncia nem a classe de palavra. Veja como ficou fácil: Ele come uma pera e para para jogar polo. Sobraram apenas duas palavras em que é obrigatório: pôr (verbo) para diferençar de por (preposição) e pôde (pretérito perfeito) para diferençar de pode (presente do indicativo, com “o” aberto); e uma palavra que você poderá usar com acento diferencial, se achar que tornará mais clara a frase em que aparecer: fôrma, para diferençar de forma.

 

Ontem o padeiro não pôde pôr a massa na fôrma, porque estava amassada e perdeu a forma, mas hoje ele pode, por ter comprado duas fôrmas novas.

 

6) DEIXE de usar o acento agudo no -U- tônico dos grupos -GUE, -GUI, -QUE, -QUI: apazigue, apazigues, arguem, argui, arguis, arguem, averigue, averigues, averiguem, oblique, obliques, obliquem, redargui, redarguis, redarguem.

 

Muito fácil, não? Não é muita coisa.

 

Sim, mas a regra do hífen? Nossa! Essa é uma dureza! Quando tentamos entendê-la inteiramente, saímos com muitas dúvidas e dores de cabeça. A reforma ortográfica tentou mexer nas regras do hífen para simplificar, mas em alguns casos criou mais dúvidas que certezas. Muita gente ainda discute se este ou aquele composto se usará agora com hífen ou sem ele. Pior: o VOLP, Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, que deveria incorporar todas as alterações para facilitar nossa vida, especialmente no caso do hífen, acabou complicando, pois lá não encontramos muitos compostos e encontramos outros cuja solução não combina com nossa interpretação da regra. Muitas discussões e debates vêm ocorrendo via internet sobre o assunto, mas o problema só será solucionado quando da segunda edição do VOLP, se este realmente incorporar todos os exemplos faltantes e alterar alguns que professores e especialistas consideram fora da regra.

Por isso, estude bem as regras e os exemplos acima e estará quase 100% em dia com a ortografia. Quanto ao hífen, é melhor sempre verificar no VOLP e comparar com a última edição de um dos grandes dicionários eletrônicos que possuímos, como o Aurélio, o Houaiss e tantos outros.

Valeu, Thiago!

 

Ser eficiente é um problema?

Friday, September 2nd, 2011

Ser bom é um problema? É um problema ser eficiente? Às vezes parece que sim.

Indagações como essa surgem em nossas mentes quando, ao realizarmos um trabalho, fazemos tudo com a maior eficiência e ainda assim alguma coisa, independentemente de nossa vontade, não ocorre exatamente da forma programada. Em casos como este, duas atitudes são possíveis, uma pessimista, outra otimista. O pessimista se lamentará: O que foi que eu fiz? Fiz tudo certinho, caprichei, e ainda assim deu errado?!

Já o otimista tem outra postura: Ops! Fiz tudo certinho e tudo deu certo. Esse problema inesperado não é resultado da minha ineficiência, mas da minha eficiência. Vou resolvê-lo também. A vida é bem assim: enquanto o pessimista fica batendo a cabeça no muro das lamentações inúteis, o otimista busca uma forma de tornar o perfeito mais perfeito ainda.

Estas reflexões vêm a propósito de fatos que  envolveram o Vestibular Meio de Ano da Unesp, os mais concorridos da Universidade em termos de relação candidato x vaga. Publicada a lista de aprovados, 90% dos convocados em primeira chamada não se apresentaram, de modo que a Universidade passou a fazer novas chamadas. Os jornais e os informativos eletrônicos, em sua ânsia de transmitir as notícias puramente, sem desvios da verdade, por vezes sem querer deixam passar a impressão de que alguma coisa deu errado no vestibular da Unesp. Deu mesmo? Se a Unesp fosse uma universidade pessimista, como o indivíduo pessimista acima comentado no parágrafo anterior, estaria a se lamentar e se desculpar e ao mesmo tempo a indagar: Onde foi que eu errei? Onde foi que eu errei?

A Unesp, porém, é uma universidade nascida do idealismo, da vontade de construir um Brasil cada vez melhor. Sempre foi, por isso, uma instituição otimista, de sucesso permanente e, como tal, teve discernimento suficiente para perceber que o fato, em vez de comprovar uma falha, um erro, comprova toda a eficiência que vem sendo demonstrada em suas ações, no seu grande desenvolvimento, na sua abrangência geográfica cada vez maior no Estado de São Paulo (uma das razões para o Vestibular Meio de Ano). Deste modo, a Unesp sabe que a questão dos aprovados não inscritos não atesta uma falha, ao contrário, atesta a grande qualidade que atingiram seus exames vestibulares, a ponto de representarem um modelo, um denominador comum, um certificado de competência para aqueles que são aprovados.

Os exames vestibulares da Unesp, sobretudo após a reforma ocorrida nos últimos três anos, vêm sendo considerados modelares e recebendo elogios constantes dos professores e dos candidatos. A adesão da filosofia de seu vestibular aos Parâmetros Curriculares Nacionais para o Ensino Médio, bem como à Proposta Curricular do Estado de São Paulo é um dos fatores desse sucesso, para o qual também tem concorrido permanentemente a invejável dedicação de todos os integrantes da Vunesp. Assim, não é de estranhar nem de lamentar que muitos candidatos tenham prestado o exame de meio de ano com vistas a uma autoavaliação para o de final de ano. Como tais estudantes por certo desejam vagas em cursos não oferecidos no meio de ano, serviram-se do exame para verificar se estão “tinindo” para o final de ano. Isso é um problema para o candidato? Não, é um recurso bastante válido, que mostra sua obstinação em passar. O estudante tem todo o direito de fazê-lo, já que sua vida futura depende de um bom resultado e qualquer atitude que venha a tomar para melhorar seu desempenho merece elogio e apoio.

Ora, o bom professor sabe que, muitas vezes, é ele que aprende com a lição dos alunos. A Unesp faz um vestibular de altíssima qualidade. Os estudantes o reconhecem e ensinam uma maneira diferente de utilizá-lo. Sob este ponto de vista, a presença dos carinhosamente chamados “treineiros” é um problema para a Unesp? Não, é uma solução. É uma comprovação de eficiência de seus exames. Sendo, porém, um fato novo, a Universidade tratará de instituir no regulamento de seu vestibular diferentes categorias, para que os estudantes que não pretendem assumir as vagas, mas apenas avaliar suas possibilidades, não sejam arrolados na convocação para a matrícula. Há muitas ideias a discutir neste momento: poderá, por exemplo, haver uma lista à parte, ou, de outro modo, os candidatos “treineiros” poderão receber por meio eletrônico ou pelo correio a comunicação da classificação que obtiveram em termos de um resultado geral. Isso os deixará satisfeitos, e mais ainda os convocados em primeira chamada que desejarem assumir as vagas.

Qualquer que seja a solução encontrada para este belo problema, que é belo porque não é problema, a Unesp sai, como sempre, fortalecida: é uma das mais importantes instituições de ensino superior do país e do mundo; seus exames vestibulares representam, para os candidatos, um parâmetro de qualidade.

Voltando ao parágrafo inicial, podemos novamente perguntar: Ser bom é um problema? É um problema ser eficiente? Às vezes parece que sim. Apenas parece. Ser bom, ser eficiente não cria problemas, cria atestados de competência.