Arquivo de 5 de agosto de 2011

Até a Lei de Murphy tem exceções

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Quem nunca ouviu falar na Lei de Murphy? No livro “A completa Lei de Murphy”, de Arthur Bloch, traduzido e adaptado admiravelmente ao português por Millôr Fernandes, o enunciado fundamental da Lei de Murphy é: Se alguma coisa pode dar errado, dará.

Quem lê pela primeira vez o livro imagina que a Lei de Murphy é uma brincadeira ou uma piada do grande escritor e humorista. Afinal, parece muito pessimista e até ridículo imaginar que se alguma coisa pode dar errado, dará. E mais pessimista ainda aceitar alguns corolários dessa lei apresentados no livro, como, por exemplo,

 

  • Se há possibilidade de várias coisas darem errado, todas darão; ou a que causar mais prejuízo.
  • Se você perceber que há quatro maneiras de uma coisa dar errado, e driblar as quatro, uma quinta maneira surgirá do nada.
  • Tudo leva mais tempo do que qualquer tempo de que você dispõe.
  • Toda solução cria um novo problema.

 

Na verdade, apesar dessa rejeição inicial à Lei de Murphy e seus corolários, quando começamos a observar nossas próprias experiências com base nela, acabamos concluindo que tem realmente muito fundamento: inúmeras vezes, aquilo que tinha tudo para dar errado, realmente deu. A fatia de pão, quando caiu, caiu sempre com a margarina para baixo. Pior: outras vezes, aquilo que tinha tudo para dar certo, deu errado. O candidato acertou a questão, mas marcou errado no gabarito. Experiências como essas nos fazem descobrir, como até mesmo grandes instituições e empresas descobriram, que a Lei de Murphy, assim entendida, é um excelente instrumento para que possamos evitar erros e fracassos, deixando nossas antenas sempre ligadas na possibilidade de que o errado possa dar errado e o certo acabe dando errado: é bom segurar mais firme a fatia de pão, porque ela tende a cair; é bom verificar três vezes se a resposta certa foi marcada adequadamente no gabarito, porque a tensão pode causar distração. Esse princípio de desconfiança é o grande trunfo que a Lei de Murphy fornece para a vida prática.

Os vestibulandos que levam a sério a Lei de Murphy têm uma grande vantagem, pois alimentam permanentemente o cuidado com cada passo que dão nas provas, olhando para trás a todo instante e conferindo. Deste modo, mesmo quando não conseguem aprovação, ficam com a alma lavada, certos de que todas as precauções foram tomadas, mas não deu mesmo para atingir o melhor resultado.

Ora, ocorre que a própria Lei de Murphy, nascida de observações objetivas e de muita lógica, tem também de submeter-se à Lógica: se algo pode dar errado, dará. Isso é certo. Mas se esse “algo” for a própria Lei de Murphy, cria-se um paradoxo: se a Lei de Murphy pode dar errado, dará. Se você percebeu bem o que significa esta última frase, concluiu que a Lei de Murphy não perdoa nem a si mesma. Como entender o paradoxo, neste caso? Muito simplesmente: se a Lei de Murphy pode dar errado, dará, isto é, o que tem tudo para dar errado, segundo a Lei de Murphy, também pode dar certo alguma vez.

Complicado? Não, na verdade é muito simples, e um exemplo recente no vestibular da Unesp o comprova: muitos candidatos que não haviam obtido aprovação no Vestibular Meio de Ano estavam aborrecidos, por terem feito tudo para passar, por terem sonhado dias e noites com as vagas e, no entanto, não passaram. A Lei de Murphy, no caso, parecia implacável. Parecia, mas o paradoxo às vezes acontece, previsto pela própria lei: noventa por cento dos candidatos aprovados no Vestibular Meio de Ano da Unesp não se matricularam, o que implica dizer que, como informaram até antecipadamente muitos órgãos da imprensa, fizeram o vestibular do meio de ano como treinamento para os vestibulares de final de ano, para cursos não contemplados neste vestibular. Nada mais natural: o mesmo que ocorre com os chamados “treineiros”, estudantes do segundo ano do Ensino Médio que prestam vestibulares “para aprender, para treinar”. Nos próximos vestibulares de meio de ano, assim, a Unesp estenderá a tais candidatos que só pretendem “treinar” o mesmo status de “treineiros”, de sorte que a lista final de aprovados corresponderá, realmente, aos que declararem pretender as vagas.

O que vale, porém, para os candidatos ora chamados a preencher noventa por cento das vagas é festejar a conquista e a Lei de Murphy, uma lei tão eficiente que prevê as próprias exceções. Parabéns a todos os “não treineiros” que estão sendo convocados para a matrícula. Que a Lei de Murphy esteja sempre com vocês!