Archive for August, 2011

Palavras perigosas: vultoso, vultuoso

Wednesday, August 24th, 2011

Este e outros artigos que serão postados no Blogue buscarão trazer a você informações seguras sobre o emprego de palavras que, pela semelhança com outras, costumam levar estudantes, jornalistas e outros profissionais do discurso a enganos lamentáveis. Por isso, são palavras perigosas e merecem toda a nossa atenção e respeito.

Você com certeza já leu ou ouviu frases como: O gerente do banco fez um vultuoso desfalque. O governo descobriu um rombo vultuoso na Previdência. Uma importância vultuosa foi desviada daquela empresa para o bolso dos fraudadores.

Tome muito cuidado com a palavra vultuoso: embora pertença a nossa língua e esteja registrada nos dicionários, seu emprego é impróprio em todas as três frases acima apresentadas. Para descobrir o erro, basta ir a qualquer dicionário, o Aurélio, por exemplo, que diz:

 

vultuoso (ô). [Do lat. vultuosu.]Adj. Med. 1. Diz-se do aspecto da face quando está vermelha e tumefacta, e com os olhos salientes. [Cf. vultoso.]

 

A primeira informação do dicionário, entre parênteses, esclarece que a pronúncia do o tônico é fechada (ô). A segunda informação aponta a origem: a língua latina (vultuosu). A terceira informação nos diz que se trata de um adjetivo (adj.) comumente empregado na Medicina (Med.). A quarta informação, que nos interessa neste momento, é o significado: aspecto da face quando está vermelha, inchada e com os olhos salientes. A quinta informação, [cf. vultoso], é muito importante, trata-se de um aviso para consultar o que o dicionário apresenta sobre a palavra vultoso: cf. é abreviação de compare, confronte, confira. Evidentemente o dicionário não faz esse aviso sem necessidade: quer nos alertar sobre o perigo que a semelhança entre as duas palavras, vultuoso e vultoso, pode trazer no momento de empregar uma ou outra.

Antes de verificar o que significa vultoso, todavia, já temos uma certeza: um desfalque no banco e um rombo na Previdência não podem ser “vultuosos”, isto é, não podem ter a face inchada e os olhos saltados. Igualmente a quantia desviada da empresa não poderia ser “vultuosa”, já que o problema não é de Medicina, mas de patifaria mesmo.

Pode-se perceber, neste momento, a grande importância dos dicionários, principalmente para quem escreve: em primeiro lugar, evitam que empreguemos as palavras em sentidos que estas não podem assumir; em segundo lugar, nos revelam também muitos dados úteis a respeito da palavra. No verbete vultuoso, tivemos seis dados importantíssimos: a pronúncia correta, a origem, a classe de palavra, a área de emprego mais comum, o significado, e a outra palavra muito parecida. E vale a pena esclarecer que verbete, como informa o dicionário Houaiss, é o conjunto das acepções, exemplos e outras informações pertinentes contido numa entrada de dicionário, enciclopédia, glossário etc. Deu para entender? Quando consultamos as informações sobre uma palavra, num dicionário ou enciclopédia, estamos consultando um verbete. Sempre é bom saber, para não cair na asneira de pensar que verbete é um “verbo pequeno”.

Já é hora de consultar, como aconselhou Aurélio, o verbete vultoso:

 

vultoso (ô). [De vulto + -oso.] Adj. 1. Que faz vulto; volumoso: 2. De grande vulto ou importância; importante: 3. Muito grande; considerável, polpudo: [Cf. vultuoso.]

 

Observando as informações contidas neste verbete, descobrimos por que as pessoas fazem confusão entre vultoso e vultuoso. Ambas as palavras são adjetivos. A pronúncia é muito parecida, com o fechado, diferenciando-se as duas palavras apenas pela presença ou ausência do u. Já pela origem começa a diversificação: vultoso é uma palavra derivada de vulto (vulto+oso) e seu significado nada tem a ver com doença, vermelhidão, inchaço, olhos esbugalhados. As acepções indicadas pelo Aurélio matam toda a charada: que faz vulto, volumoso, de grande vulto ou importância, importante, muito grande, considerável, polpudo.

Estamos em condições, portanto, de não errar mais, ou seja, de usar esses dois adjetivos sem confundir seus contextos. Reescrevendo as três frases apresentadas no início deste artigo, diremos, com correção,

 

O gerente do banco fez um vultoso desfalque.

O governo descobriu um rombo vultoso na Previdência.

Uma importância vultosa foi desviada daquela empresa para o bolso dos fraudadores.

 

Para terminar esta matéria, vale a pena fazer uma singela ironia, lembrando que é sonho de todos ganhar um dia uma vultosa importância na loteria, mas ninguém quer jamais, por nenhum motivo, ficar com a face vultuosa, como ficou por instantes a da personagem Douglas Quaid, representada por Arnold Schwarzenegger no filme Total Recall. Deus nos livre!

 

Até a Lei de Murphy tem exceções

Friday, August 5th, 2011

Quem nunca ouviu falar na Lei de Murphy? No livro “A completa Lei de Murphy”, de Arthur Bloch, traduzido e adaptado admiravelmente ao português por Millôr Fernandes, o enunciado fundamental da Lei de Murphy é: Se alguma coisa pode dar errado, dará.

Quem lê pela primeira vez o livro imagina que a Lei de Murphy é uma brincadeira ou uma piada do grande escritor e humorista. Afinal, parece muito pessimista e até ridículo imaginar que se alguma coisa pode dar errado, dará. E mais pessimista ainda aceitar alguns corolários dessa lei apresentados no livro, como, por exemplo,

 

  • Se há possibilidade de várias coisas darem errado, todas darão; ou a que causar mais prejuízo.
  • Se você perceber que há quatro maneiras de uma coisa dar errado, e driblar as quatro, uma quinta maneira surgirá do nada.
  • Tudo leva mais tempo do que qualquer tempo de que você dispõe.
  • Toda solução cria um novo problema.

 

Na verdade, apesar dessa rejeição inicial à Lei de Murphy e seus corolários, quando começamos a observar nossas próprias experiências com base nela, acabamos concluindo que tem realmente muito fundamento: inúmeras vezes, aquilo que tinha tudo para dar errado, realmente deu. A fatia de pão, quando caiu, caiu sempre com a margarina para baixo. Pior: outras vezes, aquilo que tinha tudo para dar certo, deu errado. O candidato acertou a questão, mas marcou errado no gabarito. Experiências como essas nos fazem descobrir, como até mesmo grandes instituições e empresas descobriram, que a Lei de Murphy, assim entendida, é um excelente instrumento para que possamos evitar erros e fracassos, deixando nossas antenas sempre ligadas na possibilidade de que o errado possa dar errado e o certo acabe dando errado: é bom segurar mais firme a fatia de pão, porque ela tende a cair; é bom verificar três vezes se a resposta certa foi marcada adequadamente no gabarito, porque a tensão pode causar distração. Esse princípio de desconfiança é o grande trunfo que a Lei de Murphy fornece para a vida prática.

Os vestibulandos que levam a sério a Lei de Murphy têm uma grande vantagem, pois alimentam permanentemente o cuidado com cada passo que dão nas provas, olhando para trás a todo instante e conferindo. Deste modo, mesmo quando não conseguem aprovação, ficam com a alma lavada, certos de que todas as precauções foram tomadas, mas não deu mesmo para atingir o melhor resultado.

Ora, ocorre que a própria Lei de Murphy, nascida de observações objetivas e de muita lógica, tem também de submeter-se à Lógica: se algo pode dar errado, dará. Isso é certo. Mas se esse “algo” for a própria Lei de Murphy, cria-se um paradoxo: se a Lei de Murphy pode dar errado, dará. Se você percebeu bem o que significa esta última frase, concluiu que a Lei de Murphy não perdoa nem a si mesma. Como entender o paradoxo, neste caso? Muito simplesmente: se a Lei de Murphy pode dar errado, dará, isto é, o que tem tudo para dar errado, segundo a Lei de Murphy, também pode dar certo alguma vez.

Complicado? Não, na verdade é muito simples, e um exemplo recente no vestibular da Unesp o comprova: muitos candidatos que não haviam obtido aprovação no Vestibular Meio de Ano estavam aborrecidos, por terem feito tudo para passar, por terem sonhado dias e noites com as vagas e, no entanto, não passaram. A Lei de Murphy, no caso, parecia implacável. Parecia, mas o paradoxo às vezes acontece, previsto pela própria lei: noventa por cento dos candidatos aprovados no Vestibular Meio de Ano da Unesp não se matricularam, o que implica dizer que, como informaram até antecipadamente muitos órgãos da imprensa, fizeram o vestibular do meio de ano como treinamento para os vestibulares de final de ano, para cursos não contemplados neste vestibular. Nada mais natural: o mesmo que ocorre com os chamados “treineiros”, estudantes do segundo ano do Ensino Médio que prestam vestibulares “para aprender, para treinar”. Nos próximos vestibulares de meio de ano, assim, a Unesp estenderá a tais candidatos que só pretendem “treinar” o mesmo status de “treineiros”, de sorte que a lista final de aprovados corresponderá, realmente, aos que declararem pretender as vagas.

O que vale, porém, para os candidatos ora chamados a preencher noventa por cento das vagas é festejar a conquista e a Lei de Murphy, uma lei tão eficiente que prevê as próprias exceções. Parabéns a todos os “não treineiros” que estão sendo convocados para a matrícula. Que a Lei de Murphy esteja sempre com vocês!

 

A genialidade verdadeira

Wednesday, August 3rd, 2011

O vestibulando aprovado nos exames das melhores universidades é um gênio? Um gênio como Leonardo da Vinci ou Eistein? Muita gente costuma dizer que sim, que somente gênios podem superar as homéricas dificuldades de tais vestibulares. Haveria algo de verdadeiro nesse julgamento popular?

As pessoas comumente consideram “genial” o indivíduo capaz de fazer determinadas ações com muitíssimo mais facilidade e eficácia que outras. Um corredor que ganha por três vezes a São Silvestre é um gênio. Um nadador que quebra um recorde mundial é um gênio. Um grande compositor de MPB é um gênio. Um jogador de futebol com desempenho diferenciado é um gênio. Um político que chega a ser presidente é um gênio. Um escritor que vende muitos livros é um gênio. Com tantos gênios assim, a própria genialidade parece tornar-se comum entre nós e acabamos concluindo que somos um país de gênios. E nós mesmos começamos a acreditar que também somos geniais em alguma coisa. Talvez sejamos mesmo!

Numa análise rigorosamente lógica, não podemos excluir, de fato, que um vestibulando possa ser da mesma estirpe de um Leonardo ou um Einstein, porque bem pode acontecer que seja. Nunca se sabe quando uma dessas mentes brilhantes vai aparecer, nem onde, justamente porque, nessa questão de altas vocações, a Natureza parece operar aleatoriamente. O problema é que a Natureza opera também com extrema economia, e por isso não cria Leonardos e Einsteins aos milhares, como gostaríamos.

Chegamos ao ponto: o vestibulando aprovado nos exames das melhores universidades pode ser considerado mesmo um gênio? Muitas pessoas responderão afirmativamente, outras negativamente a esta questão. Preferimos ficar com as primeiras, justificando nossa resposta: mesmo excluída a primeira hipótese, da genialidade tipo Leonardo e Eistein para a maioria das pessoas e dos vestibulandos, não fica excluída outra possíbilidade nem sempre observada com a devida atenção: uma pessoa não precisa ser brilhante em tudo, mas, se tiver certo potencial e o desenvolver ao máximo, pode assim atingir desempenhos excelentes. Um atleta que vence cinco vezes seguidas uma difícil e concorrida prova esportiva pode não ter diploma, pode não ser um bom enxadrista, pode não ser capaz de desenvolver uma equação, mas foi altamente capaz de, detectando sua potencialidade para determinado esporte, atingir o topo do desempenho por diversas vezes. Merece, assim, o julgamento popular de “gênio” daquele esporte.

Ora, um vestibulando, ao analisar suas metas, se encontra na mesma situação inicial do atleta: ao descobrir que tem potencialidade, pode desistir de desenvolvê-la, por julgar-se incapaz do grande esforço que terá pela frente, ou pode decidir enfrentar toda e qualquer dificuldade para atingir o ponto máximo. Se conseguir, com muita determinação, deve ser considerado “genial”? A resposta só pode ser afirmativa: sim, deve mesmo.

Ao ouvir essa resposta, alguém poderá dizer que muitos estudantes são excelentes em Matemática e péssimos em Língua Portuguesa, ou vice-versa; outros parecem ter nascido sabendo tudo de Biologia e sofrem horrores para aprender quase nada de Álgebra. E outra pessoa poderia até dizer, meio irritada: Não adianta a um vestibulando ser genial em Exatas e nada genial nas outras áreas: até mesmo um gênio da Álgebra tem de saber escrever uma boa redação e saber responder questões de Biologia e História!

Exatamente. Aí está. Quem faz uma pergunta como essa logo saca a solução do problema: o vestibulando tem de ser genial, sim, não numa área, numa disciplina ou numa especialidade, nem tampouco genial em todas, o que o tornaria um Leonardo da Vinci; tem de ser genial na dosagem de seu esforço no estudo, no sentido de não abrir mão de nenhum conhecimento em qualquer das áreas envolvidas nos exames que tem de prestar. Os conteúdos que se estudam no Ensino Médio se prendem a três grandes áreas, que os Parâmetros Curriculares Nacionais do Ensino Médio assim estabelecem: Linguagens, Códigos e suas Tecnologias, Ciências Humanas e suas Tecnologias, Ciências da Natureza, Matemática e suas Tecnologias. O Ensino Médio tem o objetivo de dar ao estudante essa formação ampla, justamente para que possa, após diplomado, ter um horizonte também amplo de escolhas. No caso da opção por curso superior, por isso, não é a natureza do curso, Medicina, Mecatrônica ou Sociologia, que define como o estudante se deve preparar, mas, ao contrário, a percepção, verdadeiramente genial, de que deve privilegiar, na sua preparação, o aperfeiçoamento dessa formação ampla, porque será ela a ser avaliada nos exames. Vale dizer: tudo deve ser valorizado, nada deve ser desprezado em termos de áreas e conteúdos. Quando um candidato chega a essa conclusão e, determinado, faz todo e qualquer sacrifício para levá-la a cabo em seus estudos preparatórios, pode-se dizer que está agindo de forma verdadeiramente genial, diferenciada.

O gérmen dessa genialidade habita em todos nós. A questão é sabermos alimentá-lo e fazê-lo crescer, para atingirmos nossos maiores e melhores objetivos na vida.