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Acho que nunca vou passar…

Monday, December 21st, 2009

            Muitos candidatos, depois de prestarem seus primeiros exames vestibulares e não obterem aprovação, desesperam-se e assumem uma atitude disfórica, derrotada e derrotista: Acho que nunca vou passar…

            Que pode dizer a eles um educador que, se pudesse, os aprovaria a todos, indistintamente, pois acha que todos deveriam ter a chance de iniciar o curso universitário? Dar conselhos é fácil, mas não é muito fácil encontrar a relação ideal entre o conselho dado e a carência real daquele que os recebe. É fácil, assim, dizer: Tente de novo! Você conseguirá! Tenha ambição e determinação! Não desista, um dia você chega lá! etc., etc.

            O grande problema é que, como a sabedoria popular nos ensina e a Psicologia confirma, cada pessoa é uma pessoa. Assim, o conselho que serve para uma pode não servir para outra; o conselho que se dá para uma pessoa parar de chorar pode aumentar o choro de outra. Que fazer, então, para amenizar, pelo menos um pouco, a decepção daqueles estudantes que não conseguiram aprovação em exames vestibulares?

            Talvez o melhor caminho seja o de levar em conta a sabedoria popular: cada estudante é um estudante, e para dar um conselho que sirva a todos é preciso levar em conta essa diversidade. Ora, muitos estudantes são do tipo “eu passo, nem que seja necessário fazer dez exames vestibulares seguidos”. Estes, com certeza, passarão, pois têm o gene da teimosia, da obstinação, e irão aos poucos adquirindo mais conhecimentos e habilidades para um dia receberem aprovação. Outros, mais práticos e menos teimosos, desistirão logo após a primeira reprovação e irão buscar outras atividades profissionais, nas quais poderão dar-se muito bem. Outros ainda tentarão mais uma vez e, reprovados de novo, desanimarão, dizendo-se “nunca conseguirei passar…”. Outros, diferentemente, passam nos exames, ingressam num curso, desistem, por sentirem incompatibilidade, e caem no desânimo: e agora?

            Talvez a estes três últimos grupos se deva dizer que é preciso avaliarem melhor não apenas suas possibilidades, mas também as possibilidades oferecidas pelas universidades com a grande variedade de cursos que apresentam. Ora, se em virtude de não ter podido frequentar uma boa escola ou, mesmo tendo frequentado, não consegui aprovação em um ou dois anos de tentativas nos cursos que pretendia, talvez o caso não seja desistir ou imaginar que não tenho e nunca terei capacidade para fazer um curso, mas raciocinar diferentemente: não tenho condições atuais de enfrentar a concorrência naqueles cursos, mas posso perfeitamente ser aprovado em outros cursos em que a concorrência não seja tão acirrada. Muitos estudantes recusam-se a admitir esta hipótese e preferem desistir de prestar exames para outros cursos. A base desta atitude radical muito provavelmente reside num conceito equivocado de “vocação”. Imaginar que nossa vocação aponta numa só direção é fazer um julgamento falso. Na realidade, a natureza nos diferencia em termos físicos e em termos psicológicos, inclusive de temperamento ou personalidade, mas nunca nos faz dotados apenas para uma só atividade ou profissão. Ao contrário, cada homem apresenta muitas possibilidades ou muitas vocações e em sua vida escolhe uma delas por vontade própria ou, muitas vezes, em função de pressões do próprio ambiente em que vive. Assim, uma pessoa que se formou em Medicina poderia perfeitamente ter-se formado em Direito e ser um excelente advogado ou magistrado. Por quê? Porque, muitas vezes, aquilo que imaginamos ser nossa única vocação não é nossa única vocação, ou, de outro modo, apenas algo que idealizamos em virtude de influência alheia ou algum acontecimento em nossa vida. Um caso real é o de uma estudante que ingressou em Engenharia Química, desistiu depois de dois anos, prestou Letras e concluiu o curso, mas resolveu não seguir a profissão, e depois fez o curso que considera o que mais queria na vida: Design de Moda. O que significa isso? Indecisão da estudante? Não, apenas busca daquele objetivo na vida capaz de fazê-la sentir-se integralmente realizada. Alguns descobrem isso na primeira tentativa; para outros, são necessárias muitas tentativas. E todos estão certos, e todos são normais.

                Aonde nos levam o raciocínio e os exemplos acima? A não fazer a nossa vida como a  busca obstinada de um só caminho, um só curso, uma só profissão. E a aceitar que, em certos momentos, é melhor mudar de rumo e escolher uma rota alternativa, que nos poderá trazer até mais realização e felicidade do que a que havíamos escolhido. Afinal, nada nos garante que estávamos certos na primeira escolha. E as escolhas de todo homem são sempre muitas. Como diria um rio, se rios pudessem falar, o importante é estar com as águas sempre em movimento, para não deixar de ser rio, e contornar com sabedoria os obstáculos, quando não puder transpô-los.