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Controle suas respostas, 2

Wednesday, December 16th, 2009

Agora você já sabe, as questões discursivas pedem atenção e cuidado. Saber a resposta certa não basta; é preciso saber transformar em discurso claro e adequado tal resposta.  

            No livro Língua portuguesa no vestibular da Unesp: das perguntas às respostas, publicado pela Vunesp, há uma classificação das respostas fornecidas por candidatos em diferentes vestibulares, de acordo com o grau de eficácia e clareza do discurso. Assim, as respostas são consideradas precisas, suficientes, abundantes, prolixas, complicadas, lacônicas, incompletas, inseguras, ingênuas e equivocadas. Todos estes tipos de respostas são produzidos por fatores, alguns positivos, outros negativos, que intervêm no momento de o candidato ler o enunciado da questão e escrever a resposta:

 

  • precisa – atende cem por cento ao que foi solicitado no enunciado da questão, recebendo a nota integral;
  • suficiente – sem a mesma agilidade de discurso, consegue também atingir esse objetivo, recebendo nota integral;
  • abundante – o candidato acha que deve acrescentar exemplos e explicações, respondendo mais do que foi perguntado e pode receber ou não nota integral, conforme esses elementos abundantes auxiliem ou prejudiquem o entendimento da banca;
  • prolixa – resposta que peca pela falta de economia no discurso; o candidato “solta o verbo” para exibir sua capacidade de responder e a banca tem dificuldade de discernir a resposta correta  no meio desse discurso palavroso;
  • complicada – mistura alhos com bugalhos, parecendo encaminhar-se para a direção correta, mas perdendo-se em virtude do emprego impróprio de palavras, uso inadequado de conectivos, equivocos de regência e quebras de liames sintáticos;
  • lacônica – por sua brevidade excessiva, não consegue veicular completamente a resposta, ou deixa margens para dúvidas, o que implica não obter nota integral;
  • incompleta – omite alguns aspectos, recebendo, por isso menos nota;
  • insegura – o candidato revela sem perceber seus temores de não estar respondendo corretamente (embora às vezes esteja); essa manifestação de insegurança acaba prejudicando a clareza;
  • ingênua – revela, direta ou indiretamente, que o candidato entendeu a questão de modo muito plano, por vezes pessoal, sem ter alcançado o espírito da pergunta;
  • equivocada – o candidato parece ter respondido outra pergunta, e não aquela realmente feita: na resposta complicada o candidato confunde alhos com bugalhos, na equivocada aparecem apenas os bugalhos, de sorte que acaba não obtendo nota;

 

Neste e no próximo texto, você poderá estudar bons exemplos dos tipos de respostas, com base em uma questão de vestibular anterior da Unesp. Na prova de língua portuguesa desse vestibular, a pergunta de número 2 se baseou em um fragmento da Carta de Pero Vaz de Caminha e um fragmento do livro O povo brasileiro, de Darcy Ribeiro:

 

02. Darcy Ribeiro (1922-) e Pero Vaz de Caminha enfocam os primeiros contatos entre os portugueses e os indígenas brasileiros. No entanto, um dos principais aspectos que ressalta à comparação entre os fragmentos da Carta e do livro O povo brasileiro  é a diferença entre as visões de mundo dos dois escritores, distanciados no tempo por 495 anos. Tomando por base este comentário:

a) Localize uma passagem do texto de Caminha na qual, em meio a expressões de admiração e louvor, se subentende a ideia de conquista do indígena pelo branco civilizado.

b) Explique o significado que adquire no texto de Darcy Ribeiro a expressão “guerra biológica”.

 

A frase solicitada, que responde a primeira parte da pergunta, é “E tudo se passa como eles querem — para os bem amansarmos.”  Pode-se perceber que Pero Vaz se revela europeu civilizado, “superior”, que reduz os indígenas a animais que devem ser “amansados”. Está muito clara aí a ideia da conquista do indígena pelo branco, e a maioria dos candidatos não teve dificuldade com a resposta.

Já a segunda parte pedia uma interpretação, dentro do contexto, da frase “guerra biológica”, usada por Darcy Ribeiro para descrever um dos resultados da convivência do europeu com o indígena a partir do descobrimento.

Observe abaixo quatro diferentes respostas dadas a esta questão, transcritas exatamente como foram dadas pelos candidatos e classificadas como precisas, suficientes, abundantes e prolixas:

 

  • precisa – A “guerra biológica” à qual Darcy Ribeiro se refere diz respeito à pouca resistência dos índios às doenças desconhecidas trazidas pelos europeus. A “guerra” se travaria entre os agentes patogênicos europeus e o sistema imunológico nativo. Com parte da população indígena dizimada pelas pestes, a conquista se tornaria mais fácil.
  • suficiente – Além do significado conotativo, pode-se interpretar a expressão como a luta entre dois tipos de organismos, os índios e os brancos, luta que só terminará com a extinção completa de um dos grupos.
  • abundante – Os índios da época não conheciam doenças, além de coceiras e desvanecimentos por perda momentânea da alma (como diz o autor no texto), por outro lado, os portugueses chegaram trazendo consigo muitas doenças, tais como os índios começariam a contrair essas doenças, consequentemente muitos deles chegando à morte. Portanto além de os próprios portugueses contraírem e adoecerem de tais doenças, os índios os acompanhavam, não por opção.
  • Prolixa – Os colonos (seja português ou qualquer europeu) que vieram para o Brasil na época colonial, trouxeram consigo doenças seculares, que viriam a contribuir para a dizimação do indígena. Tais enfermidades, sendo antigas e muito dizimadas, às vezes não eram tão prejudiciais aos colonos. No entanto, os indígenas (ou nativos), nunca houveram entrado em contato com essas pragas, ao contrário dos europeus, que já eram resistentes a muitas delas. Consequentemente, populações inteiras de nativos padeceram ou morreram.

 

Se você comparar atentamente estas quatro respostas, verificará não apenas a razão da classificação, como também o cuidado que deve tomar para não prejudicar uma resposta que você conhece e com isso perder pontos preciosos. A resposta classificada como precisa deve servir como modelo. O candidato percebeu o espírito da questão e foi direto ao ponto, explicando de modo muito eficiente a metáfora “guerra biológica” empregada no texto de Darcy Ribeiro. Nada mais a acrescentar. Quem corrigiu esta questão precisou ler apenas uma vez. Já a segunda resposta, classificada como suficiente, deixou um pouco a desejar, mas, como abordou todos os aspectos importantes da resposta, recebeu nota integral: o candidato, correndo certo risco, disse exatamente o essencial para que sua resposta fosse considerada correta.

Algo diferente das duas respostas anteriores ocorreu com a terceira, considerada abundante. O candidato disse mais do que seria necessário: quis explicar demais e quase tropeça nas palavras, sugerindo que os índios não tinham doenças, além de “coceiras”, o que não é verdadeiro. Por isso, sua resposta ficou um pouco prejudicada por esse cuidado em explicar demais e não recebeu nota integral. Já a resposta seguinte, considerada prolixa, revela que seu autor acreditava no excesso como método para convencer ou distrair a banca. E se enganou, ao empregar equivocadamente os termos “seculares” e “dizimadas” e não fazer relação com o conceito de “guerra”. Não é um exemplo a ser seguido, mas a ser cuidadosamente evitado.

No próximo texto, com base na mesma pergunta, você verá como a leitura inadequada do enunciado, o descuido no redigir e até mesmo a falta de certa “malícia” podem prejudicar uma resposta. E concluirá que responder questões discursivas não é um ato mecânico, mas um hábito que se adquire com muita dedicação e cujo resultado pode representar a conquista da tão sonhada vaga.