Arquivo de 7 de dezembro de 2009

Controle suas respostas

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

            À primeira vista, as questões discursivas não oferecem maior dificuldade quando o candidato conhece as respostas. É só responder, e pronto!

            Cuidado! Nada mais perigoso, num vestibular, após a leitura do enunciado de uma questão, do que a euforia causada pela “certeza” de que se conhece a resposta. E por uma razão muito simples: resposta certa não é a que está na cabeça, mas a que se coloca de fato no papel; e entre a cabeça e o papel podem ocorrer equívocos, deslizes, lapsos que tornam errada uma possível resposta certa.

            Não é preciso explicar muito esse fato no que diz respeito às questões que envolvem disciplinas da área de Exatas. Um dado mal lido, um algarismo trocado, um sinal invertido e tudo desanda. Responder questões de Matemática, Física e Química, por exemplo, é um vigiar-se permanente, é ir e vir o tempo todo do enunciado à resposta e da resposta ao enunciado em busca de cochilos, para se ter certeza, ao final, de que se chegou realmente a uma resposta correta. É cansativo, extenuante, mas não há outro modo de garantir um resultado exato.

            Nas disciplinas das áreas de Ciências Humanas e Linguagens, embora os riscos pareçam diminuir, já que o candidato usará seu próprio discurso para responder, a possibilidade de cometer equívocos é também bastante grande: é muito fácil equivocar-se e transformar uma possível resposta certa em uma resposta parcial ou totalmente errada. Por quê? Vale a  pena repetir o que foi dito no segundo parágrafo: porque resposta certa não é a que está na cabeça, mas a que se coloca de fato no papel, por meio de nosso discurso.

            Quantas vezes, em conversas do dia a dia, em casa ou na escola, você fez determinada afirmação e seu interlocutor entendeu algo diferente do que você queria dizer? Muitas vezes. Fatos como esse são comuns na comunicação oral: achamos que fomos claros e não fomos; julgamos que nosso interlocutor está entendendo tudo e ele não está entendendo nada do que afirmamos. Culpa de quem? Nossa, evidentemente. Se conhecemos um assunto ou um argumento e não conseguimos expressá-lo com eficácia em nossas conversas, a falha é nossa. Pode haver um pouco de responsabilidade de nosso interlocutor, por não entender? Pode, mas é melhor pensar sempre que a maior parte da responsabilidade é nossa: se conseguimos expressar claramente uma ideia, uma opinião, a maioria de nossos interlocutores entenderá.

            Quando se escreve, não é diferente, mas aumenta a nossa responsabilidade. Ao escrever, temos tempo de reler e consertar eventuais equívocos ou lapsos. Quando se trata de vestibular, então, toda a responsabilidade, 100%, recai sobre nós mesmos, pois as pessoas que corrigirão nossa prova são especialistas em analisar respostas discursivas, com experiência suficiente para não cometer qualquer engano de leitura. Ao escrever uma resposta discursiva, deste modo, como no futebol, a bola estará inteiramente com você: você poderá controlar, driblar, fazer uma firula, chutar de esquerda, de direita, de bico, “de trivela”, “de letra”, “de puxeta”, “de bicicleta”, de cabeça e até de barriga, que vale, mas se ajeitar com a mão, como fez o atacante francês no último jogo da seleção de seu país, pode ter certeza de que o árbitro não falhará, pois não terá apenas uma fração de segundo para decidir, como o do jogo entre França e Irlanda, mas poderá ler e reler sua resposta para confirmar o lapso cometido ou a manobra equivocada.

            Tudo bem, dirá você, isso eu já sei, meus professores vêm falando e repetindo tudo desde a primeira série do ensino médio. Preciso de exemplos claros para me orientarem a aperfeiçoar minhas respostas discursivas!

            Tem toda a razão. É isso o que faremos a partir de agora, em textos que iremos postando. Podemos encerrar o de hoje dizendo que as respostas discursivas não pertencem apenas a duas categorias — certas e erradas. Entre esses polos do absolutamente certo e do absolutamente errado podem ocorrer respostas que deixam a desejar: o candidato não conseguiu utilizar o discurso adequado para expressar o que sabia e, por isso, deixou de receber a nota integral.

            Responder questões discursivas, deste modo, não é tão simples quanto parece, mas constitui uma tarefa que requer o máximo de atenção: o candidato tem de demonstrar à banca de correção, por meio do discurso, que entendeu o enunciado e encontrou a resposta adequada. O problema é que há diferentes caminhos para cumprir essa tarefa, que podem levar a diferentes respostas, nem todas merecedoras de nota integral. No livro Língua Portuguesa no vestibular da Unesp: das perguntas às respostas, publicado pela Fundação Vunesp, se estabelecem os seguintes tipos de respostas, com base na análise de exames vestibulares: precisas, suficientes, abundantes, prolixas, complicadas, lacônicas, incompletas, inseguras, ingênuas, equivocadas, desestruturadas. Em termos de atribuição de nota, esses tipos vão da nota integral (respostas precisas) à nota mínima possível (respostas desestruturadas).

            Valerá a pena conferir, pois essas informações aumentarão em muito suas possibilidades de responder de forma adequada, sem perder pontos preciosos por uma distração, um descuido ou, mesmo, por imaginar que a banca, na correção, preencherá os vazios ou eliminará os excessos de suas respostas.