Arquivo de 5 de novembro de 2009

Qual o melhor exame vestibular?

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

          Como vivemos numa sociedade altamente competitiva, é frequente encararmos todas as coisas sob a ótica da competição, da disputa, do jogo ou do debate para ver quem ou o que é melhor. Os exames vestibulares não escapam deste foco de observação. Alguns dizem que os da Universidade X são os melhores, porque focalizam exatamente os programas oficiais do ensino médio, não apresentando invenções ou pegadinhas. Outros discordam na hora: os exames da Universidade Y é que são os melhores, porque sua metodologia privilegia estes ou aqueles conteúdos, mais favoráveis à avaliação do raciocínio, etc. etc. Há quem afirme que os exames da universidade Z são os melhores, porque oferecem mais chances de aprovação aos alunos egressos do ensino médio público, enquanto os piores são os da Universidade W, que beneficiam os candidatos egressos de escolas particulares. E não falta quem afirme que o melhor de todos os exames é o da universidade U, porque privilegia mais as competências e o raciocínio e, além de tudo, possui uma metodologia infalível para identificar e penalizar “chutes”, respostas que o candidato acertou por Chutologia, vale dizer, pelo mero palpite. Mas exatamente por isso há também quem afirme que o da universidade U é o pior dos exames, porque apavora os alunos com esse tal método de flagrar “chutadores”; afinal, dizem, um exame vestibular que se preze deve avaliar ações concretas e não intenções. Esse poder de avaliar intenções só Deus possui.   

            Para falar a estrita verdade, todas essas opiniões são equivocadas, não têm qualquer valor objetivo, pois se baseiam mais em impressões do que em análise atenta e rigorosa. E o primeiro desses erros é julgar que existe um exame vestibular melhor que outros ou um método melhor que outros. O segundo é imaginar que as universidades competem entre si para ter o melhor exame. Se existisse essa competição, poderíamos jogar todos os vestibulares fora, como nocivos aos candidatos. Todos os exames são, de fato, meios de avaliação que cada universidade produz, mobilizando seus melhores especialistas, para selecionar com justeza e justiça os candidatos de acordo com o perfil dos cursos que oferecem.

            Muitas vezes surge entre os estudantes e até na mídia a questão dessa diversidade de exames vestibulares. Muitos, por isso, chegam a sugerir que o melhor seria substituir todos por um só grande exame, uma espécie de vestibulão nacional que evitaria os defeitos e os problemas apontados. Evitaria mesmo? Ou agravaria? Pode-se até discutir se é procedente a intenção de produzir um “vestibular único nacional” que elimine os das universidades (e essa é uma discussão ainda para durar muitos anos, pois os argumentos pró e contra são respeitáveis), mas não se pode tentar ver neste ou naquele exame a panaceia das panaceias, o método dos métodos, a forma capaz de eliminar a injustiça social que se observa no maior ingresso nas universidades de estudantes oriundos de escolas particulares. Nenhum exame tem esse poder maravilhoso.

            Em resumo: exames vestibulares são apenas isso, exames vestibulares, meios de seleção empregados por diferentes universidades para selecionar candidatos, meios de seleção produzidos por especialistas e com base em pressupostos científicos. Nenhuma universidade, assim, tenta enganar os candidatos dizendo que seu exame é o melhor, que seu método é o melhor de todos. Ao contrário, todas as universidades revelam que seus exames são rigorosos e se destinam a avaliar de fato e não a prometer milagres.

          Para falar pouco e dizer tudo, concisamente, só há um tipo de milagre em todo o processo dos exames vestibulares: a determinação e a garra que muitos candidatos demonstram, ao longo dos anos, em preparar-se para sua magnífica aprovação, qualquer que seja o vestibular, para poderem realizar o objetivo de fazer o curso sonhado na universidade desejada.

Qualidades das Respostas a Questões Discursivas

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

3 – PROPRIEDADE

 Você não vai acreditar: um dos principais problemas das redações de vestibular no que diz respeito ao emprego de palavras é a impropriedade. Sabe o que é isso? O emprego de palavras numa acepção que estas não aceitam e que não encontra respaldo nos dicionários. E sabe por que é um grande problema? Dá para imaginar, não dá? Uma palavra empregada numa frase para ter um significado que não tem, ou que é só imaginado pelo escritor, não será entendida no sentido que ele imagina, mas apenas no que a palavra realmente possui, o que fará a frase como um todo ter drasticamente alterado o seu sentido. Se escrevo, por exemplo, A guerra é eminente, não cometi apenas o engano de trocar iminente (que ameaça acontecer logo) por eminente (alto, elevado, sublime), mas alterei drasticamente o sentido da frase toda. Só um doido poderia julgar a guerra “alta, elevada, sublime”.    

É possível, portanto, que uma redação correta, obediente à norma culta, clara e concisa sofra sério prejuízo devido a uma palavra empregada impropriamente, que trunca a sequência do discurso e gera uma afirmação absurda. E nem sempre é possível, a quem corrige, detectar o que quis realmente dizer o candidato, ou seja, qual palavra deveria ter sido usada, com propriedade, para carregar o sentido adequado. 

Com o exemplo e a explicação acima, dá para perceber o que é propriedade  e qual a sua importância. Algum professor já deve ter apontado um emprego impróprio de determinado vocábulo em redação que você apresentou. O que quis dizer esse professor? Simplesmente que você empregou um vocábulo num sentido que não é registrado como válido em nenhum dicionário, mas resulta de um engano seu ou de algumas pessoas. Um exemplo bem comum de impropriedade atualmente ocorre com a palavra “intermitente”. Muitas pessoas pensam, sem consultar dicionários, que “intermitente” significa contínuo, constante, mas, na verdade, o significado é bem outro, como se pode verificar no Dicionário Aurélio: que apresenta interrupções e suspensões, não contínuo.  

Então, por que algumas pessoas empregam essa e outras palavras impropriamente? Há pelo menos quatro motivos: a) porque não verificaram no dicionário; b) porque se basearam em texto de outra pessoa; c) porque se deixaram levar por uma impressão errada, talvez baseada numa falsa analogia, d) porque confundiram duas palavras muito parecidas na pronúncia e usaram uma pela outra.

Isso não acontece apenas a pessoas comuns como nós, mas também a escritores e jornalistas. A frase seguinte foi retirada de um jornal:

 

O final da reforma da pista, a chuva fina e intermitente e o desembarque de carros e caixas fizeram do autódromo José Carlos Pace, em Interlagos, um exemplo de desordem.

 

Ora, parece que o jornalista quis dizer “chuva fina e constante, contínua” e, neste caso, ao empregar intermitente revelou desconhecer que esta palavra significa exatamente o contrário do que queria dizer. Quando um site de Meteorologia informa que haverá “chuvas intermitentes no decorrer do dia” quer dizer que haverá ao longo do dia períodos de chuva espaçados por períodos de tempo bom. Quem toma “intermitente” e “ininterrupto” como sinônimos baseia-se numa falsa analogia.

Outra palavra que costuma ser empregada impropriamente é diuturno. Talvez iludidas pela semelhança da imagem sonora desta palavra com a de diurno, algumas pessoas empregam uma pela outra. Assim, em lugar de dizerem “período diurno” acreditam estar falando ou escrevendo muito bem e elegantemente “período diuturno”. O problema é que diuturno, segundo o Aurélio, significa que vive muito tempo ou que tem longa duração. Nada a ver, portanto, com diurno.

Algo semelhante ocorre com a palavra lutulento, que as pessoas encontram em poemas e, sem verificar no dicionário, imaginam que signifique “lutuoso, referente ao luto, à morte”, quando, de fato, significa lodoso, lamacento, que apresenta lodo. Outro exemplo interessante é esquálido, adjetivo que muitíssimas pessoas imaginam significar “magro, raquítico, muito magro”, quando, na verdade, significa, segundo o Aurélio, “sórdido, sujo, desalinhado; descorado e fraco, macilento”. Nenhuma relação lógica com “magreza”, portanto. Mas o engano se explica porque as pessoas imaginam haver parentesco semântico entre “esquálido” e “esqueleto”. Não há, nem semântico nem etimológico: “esquálido” vem do latim e “esqueleto”, do grego.  

Percebeu o perigo de empregar impropriamente vocábulos, simplesmente por não ter o pequeno trabalho de consultar um dicionário, trabalho ainda mais facilitado hoje em dia pela existência de dicionários instalados no próprio computador ou em sites na internet? Mas não pense que só essas poucas palavras oferecem perigo. A relação é enorme. O uso impróprio é muitas vezes provocado pela paronímia, isto é, pela semelhança quase absoluta de sons entre duas palavras, que leva o estudante a empregar uma pela outra. Observe estes pares de palavras que têm significados bem distintos, embora a imagem sonora das duas palavras seja quase a mesma:

 

Arrear / arriar

Apóstrofe / apóstrofo

Degradar / degredar

Despensa / dispensa

Eminência / iminência

Infligir / infringir

Vultoso / vultuoso

   

São muitos os pares de palavras como esses, parecidos apenas na imagem sonora, não nos respectivos significados. Aproveite para verificar no dicionário estes sete pares. Vai que de repente aparece uma dessas palavras em questões de prova e você não sabe? Tão ruim quanto empregar uma palavra com impropriedade é entendê-la com impropriedade ao ler uma questão. Não acha? É melhor sempre prevenir do que remediar, certo? Então, abra todos os dias o dicionário e faça guerra sem tréguas à impropriedade. Sua redação vai sentir a diferença.