Arquivo de 26 de outubro de 2009

Qualidades das Respostas a Questões Discursivas

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

1 – CORREÇÃO E CLAREZA

Em texto postado anteriormente, foi focalizada a natureza das questões discursivas e o melhor modo de entendê-las e respondê-las com acerto. Evidentemente, você sabe que o assunto não foi esgotado e deseja mais explicações, sobretudo porque, muitas vezes, acreditou ter dado a resposta correta a uma questão e não conseguiu ter a nota integral. Por que seria? É possível saber a resposta correta e não responder adequadamente? É possível, acontece muito, mas também é uma pena que aconteça.

            Seus professores dos ensinos fundamental e médio focalizaram muitas vezes esse problema, mas é muito possível que você não tenha conseguido extrair todas as consequências dessas lições. Vamos tentar também ajudá-lo mais um pouquinho. Seus livros escolares e apostilas, ao focalizarem as qualidades de uma boa redação, colocaram com certeza alguns conceitos fundamentais: correção, clareza, concisão, propriedade, objetividade.

            O que é correção? Não é preciso dizer, você está cansado de saber o que é correção, pois foi verdadeiramente bombardeado ao longo dos ensinos fundamental e médio com as exigências de correção: grafe as palavras corretamente, faça a concordância adequada, não erre na regência desse verbo, pontue corretamente, coloque os termos da oração na ordem certa, estruture corretamente as orações no período, etc., etc., etc. Embora um ou outro professor possa ter exagerado no tom ao falar de correção gramatical, na verdade todos tiveram a melhor das intenções ao fazer essa exigência. Hoje, você sabe que deve seguir, nas suas respostas discursivas e na prova de redação, a norma culta, que é o modelo de realização da língua com prestígio social, profissional, escolar, empregado em todas as áreas da comunicação e na mídia. Você aprendeu a distinguir o discurso culto e o discurso coloquial.  Assim, ser correto no uso do discurso culto é seguir adequadamente o modelo da norma culta, nada mais, nada menos. Mas não é preciso ser paranoico neste sentido (alguns professores até parecem tomados de paranoia), pois o domínio da norma culta pode apresentar diferentes níveis: você domina a norma culta como um indivíduo de 18 anos, que acaba de se formar no ensino médio. Em resumo, é alguém que aprendeu a escrever usando a ortografia oficial, estruturando adequadamente os termos na oração e as orações no período, fazendo a pontuação conveniente, evitando enganos crassos em concordância nominal e verbal e usando a regência adequada no emprego de verbos e de substantivos e adjetivos que solicitam complementos nominais. Fazer isso é ser correto em seu discurso. Mas não se preocupe: a universidade sabe disso e sabe que o seu domínio da correção se situa em um nível correspondente a sua faixa etária. Ninguém espera que você escreva como Rui Barbosa aos cinquenta anos. Um cochilinho gramatical ou outro, um deslize de regência ou uma grafia equivocada não serão motivo para reprová-lo. Os grandes escritores também costumam errar em seus livros e corrigem os erros nas novas edições, sem que ninguém os condene por isso. Ninguém é perfeito, embora todos devamos procurar sempre um desempenho melhor em nosso discurso. 

            E o que é clareza? Ora, parece que todo o mundo sabe o que é clareza. Para que explicar o óbvio? Não é bem assim. Muitas vezes o óbvio é tão óbvio que o desprezamos, e por isso mesmo erramos. Então examinemos esse óbvio: um texto pode ser correto, mas não ser claro; ou seja, pode ter correção, mas não ter clareza. Por quê? Porque o conceito de clareza não diz respeito apenas ao emissor, mas também ao receptor. Tem de ser examinado, portanto, sempre de acordo com esses dois polos. Se o receptor de um texto meu não possuir grande domínio da língua portuguesa e tiver vocabulário pobre, um texto repleto de palavras rebuscadas e difíceis não será claro para ele. Assim, se eu sei que meu receptor tem dificuldades com a língua e o vocabulário e quero ser imediatamente entendido por ele, tratarei de não colocar vocábulos que possam dificultar sua compreensão. Procurarei escrever dentro de um padrão que possa ser compreendido por ele. Não esqueça disso: a alma da comunicação é a busca de ser compreendido pelo outro. Por outro lado, se o leitor de meu texto for uma pessoa culta, isso também não significa que eu tenha de escrever rebuscadamente, só para me exibir, porque com isso acabarei fazendo bobagens, empregando palavras inadequadas, prejudicando, enfim a clareza de meu texto. O segredo, neste caso, é ser sempre simples, direto e eficiente.

            Um período inteiramente correto, como o seguinte, peca contra a clareza: O delegado prendeu o bandido na casa dele. Na casa de quem? do delegado? do bandido? Este período, correto, peca por falta de clareza, pois gera uma ambiguidade de sentido. Se aparecer numa notícia de jornal, o leitor não saberá em que lugar foi realmente capturado o bandido. Haveria muitos modos diferentes de solucionar a questão, como, por exemplo: O delegado foi até a casa do bandido e o prendeu. Isso se a captura ocorreu na casa do bandido. Se ocorreu na casa do delegado, a formulação poderia ser esta: Ao entrar em casa, o delegado flagrou o bandido e conseguiu prendê-lo.

            Assim, qual o melhor modo de obter clareza em suas respostas a questões discursivas? Simplesmente considerando os dois polos do discurso, o do emissor e o do receptor. Quando planejar a redação da resposta, coloque-se também como crítico de sua resposta e tente descobrir o que poderia não parecer muito claro para a banca de correção. Fazendo habitualmente tal exercício, você aprenderá a ser ainda mais preciso em suas respostas.

            O mesmo método é aplicável a sua redação: escreva o rascunho e leia-o como um crítico, para detectar os pontos em que ocorrem ambiguidades, uso inadequado de vocábulos, lapsos de concordância e regência, cochilos de ortografia. Com isso, eliminará muitos problemas e tornará sua redação mais eficiente.

            No próximo texto, falaremos de outras qualidades do discurso.