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É melhor usar períodos curtos para errar menos?

Thursday, July 13th, 2017

Um dos mitos que percorre os estudos dos vestibulandos é o de empregar períodos curtos “para errar menos”.  Há até quem defenda e ensine essa prática. Teria ela alguma base lógica?

O primeiro ponto fraco que você deve observar nesse mito é o de que, se alguém tem bom domínio de discurso e da norma-padrão, não fará diferença usar períodos curtos ou longos, pois o índice de erros de ordem gramatical e ortográfica será o mesmo. O conselho, porém, de usar períodos curtos diz respeito à elaboração da redação. Muitos acreditam que, com períodos curtos, poderão melhor concatenar suas ideias e argumentos, e além do mais errarão menos na coesão e nos aspectos gramaticais e ortográficos. Certo? Nada disso: errado. Mais uma vez errado.

Períodos curtos podem vir a calhar em poemas líricos, descrições e até mesmo alguns gêneros de narrativas. Os exames vestibulares, porém, costumam solicitar redações dissertativas. e aí a coisa muda de figura. A dissertação é por natureza argumentativa, expressa-se sob forma de raciocínios, demonstrações animadas por argumentos. Por essa virtude, precisa de períodos longos, compostos por subordinação e períodos mistos, para carregar em seu bojo o fio da argumentação. Evidentemente, numa dissertação podem aparecer alguns períodos curtos, mas estes serão períodos de ligação entre os longos, que a encorpam.

Você quer uma prova disso? Leia os artigos assinados de jornais, bem como os editoriais, todos de natureza dissertativa, e perceberá que os períodos mais longos predominam para expressar as opiniões dos jornalistas e das personalidades que assinam os textos.

Eis a questão: ninguém consegue expressar uma argumentação sem o emprego dos períodos longos e, em seu conjunto, do discurso indicado para fazê-lo. Por isso, se até agora vem trocando a dificuldade pela facilidade, mude imediatamente de escolha. Leia mais textos dissertativos e observe como os autores concatenam os períodos com o objetivo de demonstrar um argumento. Com isso, alcançará um domínio cada vez maior do discurso dissertativo.

E não se esqueça: mitos como o dos períodos curtos, podem ser muito atraentes, como costumam ser todos os mitos, mas também, como estes, são ficções que tentam parecer verdades absolutas, sem jamais o conseguirem.

E um conselho que o Blogueiro gosta de dar e repetir: não tema a dificuldade, acautele-se contra a facilidade. A Ciência nem sempre será um passeio agradável, mas será  usualmente uma jornada longa, trabalhosa, repleta de obstáculos que podemos e devemos superar.

 

Educar ou educar-se?

Thursday, July 6th, 2017

O Blogueiro, viajando, como de costume, pelos dicionários, reencontrou no Aurélio Eletrônico estes conceitos sobre o termo “educação”:

 

[Do lat. educatione.]

S. f.

1.  Ato ou efeito de educar(-se).

2.  Processo de desenvolvimento da capacidade física, intelectual e moral da criança e do ser humano em geral, visando à sua melhor integração individual e social: 2

3.  Os conhecimentos ou as aptidões resultantes de tal processo; preparo: 2

4. O cabedal científico e os métodos empregados na obtenção de tais resultados; instrução, ensino: 2

5.  Nível ou tipo de ensino: 2

6.  Aperfeiçoamento integral de todas as faculdades humanas.

7. Conhecimento e prática dos usos de sociedade; civilidade, delicadeza, polidez, cortesia: 2

8.  Arte de ensinar e adestrar animais; adestramento: 2

9. Arte de cultivar as plantas e de as fazer reproduzir nas melhores condições possíveis para se auferirem bons resultados.

 

É bem interessante, com base neste e noutros exemplos, verificar como os dicionários não são apenas fontes de definições sobre os significados das palavras, mas também verdadeiras lições sobre a própria realidade das coisas. Aprendemos muito, se somos frequentadores assíduos de suas páginas.

Você estará se perguntando por que razão o Blogueiro deu agora para falar sobre palavras e dicionários. Muito simples: ao aprendermos suas lições sobre a realidade das coisas, não podemos ignorar que somos parte dessa realidade e que muito do que os dicionários dizem nos alcança diretamente, podendo nos trazer ótimas reflexões. Aprendemos que educação é “ato ou efeito de educar ou educar-se” e isso nos leva a fazer ilações sobre nossa própria ânsia de conquistar uma vaga em curso universitário. Quando chegamos aos dezoito anos, imaginamos um futuro próximo iniciado pela alegria da aprovação e continuado nos bancos universitários pela formação em determinada carreira. Chegamos até a perder de vista que o trajeto iniciado no ensino fundamental e que nos leva à obtenção do diploma universitário representa a nossa própria educação.

Mas, afinal, o que é mesmo educação? Aqui entra a utilidade de um dicionário como o Aurélio: educação é desenvolvimento de capacidade física, intelectual  e moral do ser humano, visando à sua melhor integração individual e social; é o aperfeiçoamento integral de todas as faculdades humanas; é o conhecimento e prática dos usos de sociedade; é civilidade, delicadeza, polidez, cortesia; é o conjunto de conhecimentos ou as aptidões resultantes de tal processo; é preparo; é o cabedal científico e os métodos empregados na obtenção de tais resultados; instrução, ensino.

Obviamente, os ensinos fundamental, médio e universitário lhe fornecem uma parte de tudo isso, vale dizer, o educam. A outra parte, porém, tão importante quanto, é você mesmo que obtém por sua vontade e empenho, ou seja, você se educa ao longo de todo o processo de ensino.

Percebeu até onde o Blogueiro quer chegar? A educação é um veículo dirigido por dois motoristas: a escola e você mesmo. Você é educado ao mesmo tempo em que se educa, para tornar-se um verdadeiro cidadão. Um engenheiro não pode ser apenas um engenheiro, um médico não pode ser apenas um médico, um geógrafo não pode ser apenas um geógrafo, mas todos têm de ser cidadãos plenos habilitados para a engenharia, medicina e geografia, o que implica responsabilidades sociais e morais que vão muito além de uma habilitação em qualquer que seja o campo.

Em conclusão: ao ingressar num curso universitário, será preciso que você tenha esse fato sempre em mente, para atingir a plenitude de sua existência como cidadão complexo e completo.

 

Aprender ou “quebrar o galho”?

Thursday, June 29th, 2017

Num artigo postado recentemente, denominado Os problemas da decoreba, você foi alertado para não confundir a memorização de dados com conhecimento. O Blogueiro, porém, sentiu que estava faltando alguma coisa, não havia dito tudo o que desejava a respeito. Passado algum tempo, como costuma ocorrer com os professores, sempre preocupados em explicar do melhor modo possível os conteúdos das disciplinas, as ideias chegaram para esclarecer o que faltava. Preste atenção.

Você com certeza já viu chover conselhos sobre a melhor maneira de estudar ou o mais aconselhável método de fixar conteúdos para otimização de seus desempenhos nas provas. O Blogueiro, que também teve seu tempo, passou por semelhante caminho, razão por que, neste artigo, não vai dar nenhuma aula de psicologia, mas, simplesmente, comunicar o resultado de suas próprias experiências como estudante, vestibulando, professor e escritor.

A questão se resume em decidir por um maior empenho de aprender ou, simplesmente, de memorizar. Afinal, você se pergunta, qual o melhor caminho para meu desempenho nas provas de qualquer disciplina?

De fato, há conteúdos que precisamos, ao longo de nosso aprendizado, fixar muito bem na memória. E outros, realmente, que precisamos estudar e aprender, para nos tornarmos capazes de responder a qualquer questão a respeito.

Que fazer? Memorizar mais? Aprender mais? Na verdade, não é bem esta a questão. Quem separa aprendizado de memória não está entendendo bem a coisa. Numa operação de multiplicação, por exemplo, não utilizamos apenas o conhecimento do modo de fazer a operação, mas, igualmente, jogamos com dados de memória, como a tabuada. Sem esta, que memorizamos desde os primeiros bancos escolares, levar a cabo a operação se tornaria bem mais complicado. O mesmo raciocínio vale para todas as áreas e conteúdos: em qualquer forma de conhecimento, os dados retidos na memória operam em nossos raciocínios quando resolvemos determinada questão.

O Blogueiro já comentou o suficiente para que você entenda que separar a memorização do processo de conhecimento é algo absurdo. De nada adianta saber de cor a tabela periódica, por exemplo, se você não é capaz de resolver questões que impliquem dados da tabela. Mas se você estudar muito e resolver numerosas questões a respeito, um dos resultados será a memorização dessa tabela. O mesmo ocorre no estudo de língua portuguesa: de nada adianta ter memorizados os conceitos de sujeito, predicado, complementos, coordenação, subordinação, se você não praticar, e muito, a análise sintática de períodos e períodos, até se tornar capaz de resolver, sem grandes dificuldades, a análise de qualquer período que seja apresentado em prova.

Outro exemplo pode ser dado no campo das artes, como no teatro e no cinema: você pode decorar um texto inteiro de uma peça de teatro ou de um roteiro de cinema e repetir facilmente o memorizado, mesmo não sendo ator. Para ser um ator, terá de arrancar tudo que de emocional, sentimental, humano, as falas da personagem no contexto representem, e criar um desempenho que convença a todos os espectadores e lhes provoque emoções e sentimentos, como se estivessem ante uma pessoa real, não apenas um repetidor de falas.

Conclusão: com tudo o que o Blogueiro disse, faça-se esta pergunta: Quero aprender ou apenas “quebrar o galho”? Preocupe-se em aprender. Você pode sofrer um branco, numa prova, dos dados que memorizou. Mas, se tiver conhecimento sólido do teor da pergunta, se aprendeu mesmo, com toda a certeza não terá qualquer problema em responder adequadamente.

E guarde sempre em mente, como ficou dito no outro artigo, que os exames vestibulares de hoje têm como um de seus objetivos evitar ao máximo possível questões que impliquem apenas dados memorizados, mas busquem conteúdos que permitam ao candidato mostrar seus conhecimentos reais a respeito.  Pense nisso!

 

 

Literatura é para ler!

Thursday, June 22nd, 2017

O Blogueiro, quando ainda começava a carreira, ouvia um colega, da área de Exatas, dizer e repetir: Gente! Literatura não é para estudar. É para ler!

A frase vinha no meio de discussões sobre a importância dos estudos literários nos ensinos fundamental e médio, bem como universitário. E o colega, de fato, queria chamar a atenção para o erro de perspectiva que por vezes as escolas cometem, obrigando os estudantes a pesquisar em obras literárias temas como personagens, enredo, espaço, tempo, etc., etc. O colega, professor de matemática, era o maior crítico desse sistema de ensino, sempre afirmando que os textos literários, uma vez lidos, eram ensinamentos por si mesmos, sem necessidade de ficar, como ele dizia, escarafunchando a estrutura das obras, o que só fazia os estudantes desgotarem da leitura e do hábito de ler. A garotada precisa gostar de ler, e não de fazer a análise das obras! dizia ele.

Não se pode deixar de dar razão, ainda hoje, ao colega. Nos próprios vestibulares, nem sempre as obras são focalizadas como tais, nem é verificado o importante: se os candidatos realmente as leram. Algumas universidades colocam, para seus vestibulares, relações de obras literárias, e isso é quase sempre justificado como incentivo à prática da leitura. Seria, quase sempre, mas quase sempre não é. Basta sair uma nova relação de obras para o vestibular de uma universidade e logo toda uma série de livrinhos surge com interpretações de todas elas, de sorte que, frequentemente, os estudantes, em vez de lerem as obras, apenas lêm os livros que as analisam e interpretam para “facilitar” o trabalho dos estudantes. Na verdade, o resultado é afastar os estudantes do verdadeiro prazer da leitura.

Nada mais contraproducente. Se você se enquadra nesses leitores de livros sobre obras literárias, mude seu foco. Pode até ler. Mas, antes, leia integralmente as obras literárias focalizadas. É neste sentido que o colega do Blogueiro dizia que literatura é para ler, não para estudar. Nem mil livros de crítica e interpretação juntos conseguem nos revelar o que uma obra de Machado de Assis, de Saramago, de Gonçalves Dias, de Fernando Pessoa nos revela à simples leitura. Os livrinhos que circulam por aí apresentando análise e interpretação das obras não passam de meros simulacros, tentativas sempre frustradas de substituir o insubstituível. Como foi dito acima, você pode até se servir desses livrinhos, depois que fizer a leitura das obras, para auxiliá-lo a observar melhor este ou aquele detalhe que poderá ser focalizado numa prova. Apenas isso.

Diria hoje aquele colega, com muita razão, que uma canção é criada para ser ouvida, uma pintura é criada para ser vista, um romance é criado para ser lido. Nada pode substituir o que denominamos, singelamente, contemplação da obra de arte, já que ela é destinada exatamente a isso.

Você deve ter inferido, com os comentários do Blogueiro, que o hábito da leitura não é um fato para morrer após os vestibulares, mas, ao contrário, algo que levará para toda a sua vida, algo que o fará experimentar conhecimentos e emoções sobre a própria natureza do ser humano. A literatura revela, por meio do discurso, a humanidade verdadeira e autêntica. Perguntas em exames vestibulares e concursos são meros incidentes que não devem afastá-lo do hábito de fruição das próprias obras, ou seja, um hábito formador, um modo de refletir permanentemente sobre o mundo, a vida e a relação entre o homem e o universo.

É claro que você não quer ser para sempre um iletrado. Pense bastante nisso!

 

De que o quê

Wednesday, June 14th, 2017

Enquanto espera a classificação do Vestibular de Inverno da Unesp, você certamente não vai ficar parado. O vestibular de 2018 ocorrerá logo, assim como os de outras universidades, que sua situação de vestibulando obriga a também prestar. Como é óbvio, você quer ser aprovado e não medirá esforços e vestibulares para consegui-lo.  Se for aprovado agora, agarre sua vaga.

Num caso ou noutro, vale aqui um bom lembrete para auxiliá-lo com o aprimoramento da sua capacidade de responder com clareza e correção a respostas a questões discursivas e em redações, quer no curso universitário, quer em vestibulares: o emprego errado da preposição de antes da conjunção que. Trata-se de um equívoco que pode comprometer o charme de seu discurso, tanto oral como escrito.

Já prestou bastante atenção às falas de personalidades em entrevistas a rádios e televisões? Se prestou, deve ter muitas vezes percebido que os entrevistados brasileiros, alguns muito conhecidos e ilustres, escorregam ao introduzir um de completamente desnecessário em muitas passagens de suas falas. Será que o fazem também ao escreverem? Muito provavelmente, a não ser que se sirvam de ghost-writers para traduzir suas opiniões em textos e documentos. Observe alguns exemplos do que o Blogueiro está apontando:

 

Meu grande amigo Jonas disse de que está preocupado com a situação nacional.

O acusado confirmou de que não pode mais suportar tantos processos.

Todos os representantes das classes profissionais consideram de que esse projeto de lei será prejudicial.

 

Notou? Em todos os três exemplos forjados pelo Blogueiro com base em textos reais publicados via internet ocorre a preposição de sem qualquer justificativa, o que é lamentável. Os verbos dizer, confirmar e considerar, quando têm seu objeto direto representado por uma oração substantiva precedida do conectivo que não precisam desse de. Observe o que aconteceria se os objetos diretos, em vez de orações, fossem sintagmas nominais:

 

Meu grande amigo Jonas disse a verdade.

O acusado confirmou sua decepção.

Todos os representantes consideram esse projeto de lei prejudicial.

 

Ficou claro? Os três verbos mencionados pedem como complemento um objeto direto (justamente chamado direto por não necessitar de preposição para relacioná-lo ao verbo). Assim, quando tal objeto direto é representado por uma oração substantiva, não existe a menor necessidade de inventar a preposição antes do que. Exatamente o contrário ocorre com as orações subordinadas substantivas objetivas indiretas, que são sempre precedidas de uma preposição solicitada pelo verbo. Tal preposição pode ser, inclusive, de, como nos exemplos: Desconfio de que a outra equipe falsificou os resultados (desconfio disso); Ela não precisa de que a protejam (não precisa disso). Nestes dois casos entre parênteses fica claro que o verbo é transitivo indireto e solicita a preposição de antes do complemento.

Como sair dessa enrascada? Você já descobriu a solução pelo modo como o Blogueiro explicou: empregando um objeto não oracional, se a preposição desaparecer, não deve surgir quando o objeto for oracional, já que a oração será uma subordinada substantiva objetiva direta. O oposto é também verdadeiro: se a preposição se mantiver quando o objeto for não oracional,  justifica-se também no objeto oracional, revelando-se, portanto, como subordinada substantiva objetiva indireta. Dê uma boa estudada em exemplos de subordinadas objetivas diretas e também nas indiretas, para firmar bem esse conhecimento. Chega desse vício de inventar de que para cá, de que para lá.

 

As perigosas concordâncias

Thursday, June 8th, 2017

Outro dia o Blogueiro, verdadeiro maníaco por encontrar exemplos de equívocos, flagrou em noticiário na internet um cochilozinho de revisão. Observe:

 

Explosões em um  funeral mata pelo menos 12 pessoas no Afeganistão.

 

Notou também? Já que o sujeito é “explosões”, no plural, o verbo deveria estar também no plural:

 

Explosões em um funeral matam pelo menos 12 pessoas no Afeganistão.

 

Um lapso de concordância, como você deve ter notado. E por que será que aconteceu? Porque o redator, por um segundo, iludiu-se, tomando o plural pelo singular, vale dizer, considerando as explosões como um fato só. Nesse segundo de distração, que pode ocorrer a qualquer de nós, a flexão do plural foi enfraquecida pela ideia de uma só explosão e, quando o verbo foi escrito, recebeu essa influência de singularidade, flexionando-se no singular e causando uma ruptura da concordância com o sujeito. Como diz o povo, o revisor pisou na bola, deixando como estava. Além da mencionada, uma boa saída teria sido

 

Explosão em funeral mata pelo menos 12 pessoas no Afeganistão.

Percebeu você o problema com clareza? Sim, mas avaliou também que, pelo fato de estar na rede, não deve ter sido considerado um grande problema. Os textos nela publicados não têm revisões muito exigentes, razão por serem uma verdadeira plantação de cochilos para ser colhidos pelos professores de português. Os revisores, nesses casos, recebem apenas um figurado puxão de orelha.

O maior problema estará se o texto for de uma redação sua, ou de uma resposta a questões discursivas de história, geografia, filosofia, biologia, etc., etc. Esse é um território perigoso, em que não se pode errar sem receber penalização, ou seja, desconto na nota. E ainda mais se a concordância equivocada influir no conteúdo do período como um todo, alterando o teor de sua resposta.

Para confirmar o perigo, observe este outro exemplo, agora forjado, mas bem possível:

 

Ações de hackers europeus causa prejuízos a empresas brasileiras.

 

Notou? Muito provavelmente aqui, outro fator somou-se aos acima comentados: a distância entre o núcleo do sujeito (ações) e o do predicado (causa). Esse distanciamento enfraqueceu a noção de plural e levou o escritor a flexionar o verbo no singular, erradamente, é claro. O correto seria escrever

 

Ações de hackers europeus causam prejuízos a empresas brasileiras.

 

Os exemplos contidos neste artigo, portanto, devem servir para você tomar o máximo cuidado com essas perigosas concordâncias, provocadas  por distrações ao longo das orações que escrevemos. Como evitar esse perigo? Simples. Leia sempre duas vezes, atentamente, o período que acabou de escrever. Estes e outros equívocos vão se revelar e você terá tempo de fazer os necessários reparos.

 

Não deixe isar dar azar!

Thursday, June 1st, 2017

Alguns estudantes costumam reclamar por não entenderem completamente a diferença entre os finais de palavras isar e izar e por isso acham que essa é a origem de seus erros no emprego dessas terminações. Será? Isso tem sua parcela de verdade. Quem conhece bem as razões gramaticais e ortográficas para o emprego de isar e izar com certeza não errará. Mas, convenhamos, não é muito fácil conhecer todas essas razões. Até bons estudiosos por vezes vacilam.

Que fazer, então? Para quem não consegue dominar todos os aspectos gramaticais e ortográficos, há outro lado para essa moeda. Pode-se não errar, servindo-se de um artifício. Vamos ver se você percebe.

Em primeiro lugar, você já deve ter observado que as palavras com essas duas terminações são verbos. Em segundo, já sabe que os verbos em izar correspondem a uma quantidade muitíssimo mais numerosa que os terminados em isar. Por quê? Porque se trata de verbos derivados de substantivos ou de adjetivos que ganham o sufixo izar. E você sabe que substantivos e adjetivos são as palavras mais numerosas do idioma. Assim, do adjetivo americano se forma americanizar; de eterno, eternizar; de símbolo, simbolizar; de temor, atemorizar; de urbano, urbanizar; de vândalo, vandalizar; de visual, visualizar, e assim uma enorme quantidade de outros.

Aqui surge uma informação fundamental. Nos verbos terminados em isar as palavras primitivas já possuem o s final, de sorte que o verbo se forma com o sufixo ar. Ou então, em uns poucos casos, os verbos em isar já vieram formados de outros idiomas com essa terminação ou equivalente.

Outra grande vantagem que você pode tirar desse conhecimento, que evita a gramatiquice, está no fato de os verbos em isar constituírem um conjunto pouco numeroso e limitado, apenas vez por outra aumentado por palavra de terminologia científica. Assim, basta conhecer a lista para resolvermos facilmente nossas dúvidas. Eis os principais verbos, por mais usados, com terminação em isar, com as origens indicadas entre parênteses:  alisar (liso), analisar (análise), anisar (anis), avisar (aviso), bisar (bis), catalisar (catálise), precisar ( preciso)cutisar (cútis), descamisar (camisa), dialisar (diálise), divisar (divisa), eletrolisar (eletrólise), encamisar (camisa), escamisar (camisa), frisar (frisa), frisar (friso), improvisar (improviso), grisar (gris), guisar (guisa), irisar (íris), hidrolisar (hidrólise), lambrisar (lambris), lapisar (lápis), paralisar (paralisia), pesquisar (pesquisa), pisar (lat. pinsare), propolisar (própolis), psicanalisar (psicanálise), repisar (pisar), reprisar (do francês repriser), revisar (do espanhol revisar), tamisar (do francês tamiser), televisar (tele + visar), visar (do francês viser).

Percebeu? São poucas palavras, e essa lista poderia ainda ser diminuída com a eliminação de algumas cujo uso é raro ou técnico ou científico, que provavelmente nunca aparecerão em textos que você ler. Não é nada difícil, portanto, a memorização.

O que se depreende deste fato? Algo bastante elementar, como diria Sherlock Holmes: o pequeno número de verbos terminados em isar funciona como parâmetro para ter certeza dos que devem ser escritos com izar. Compreendeu agora? Isso sem nenhuma gramatiquice, vale dizer, sem necessidade de dominar normas de formação das palavras. Seu objetivo, ao estudar, não é compreender a regra ortográfica originada pela formação dessas palavras, mas, simplesmente, saber escrevê-las. Evidentemente, sempre poderá haver uma duvidazinha aqui, outra ali, mas a grande maioria dos casos estará resolvida com as recomendações colocadas neste artigo pelo Blogueiro.

Conclusão que é, de fato, uma introdução: a ortografia não é algo aleatório, criado pelo capricho dos gramáticos e filólogos, mas, na verdade, é uma organização muito lógica, cujos segredos se pode dominar sem excessivo esforço e sem ser preciso decorar regras. Pense nisso quando tentar resolver outras dúvidas, pense que a ortografia é, de fato, o que está escrito nos textos, pense que por trás disso há uma lógica que, uma vez devassada, torna o grafar muito mais fácil.

 

Ah! Esses eis, is e us incomodam muita gente!

Friday, May 26th, 2017

No artigo anterior, você recebeu aviso para tomar cuidado com o u de poupar, poupança, poupo, roubar, roubo, roubalheira. Não foi útil? Foi, sim. Você não vai cair nessa de escrever “popar, popança, popo, robar, robo, robalheira”. O povo em geral usa essas pronúncias, mas você, formado pelo ensino médio e pretendente a uma vaga num curso superior, sabe que nessa questão a universidade se pauta pela norma-padrão, e não pelo uso popular.

O Blogueiro deixou para  hoje outros alertas a fazer com respeito a possíveis confusões, desta vez envolvendo a presença de ei, de u e de i em certas formas nominais ou verbais.

Você com certeza já ouviu alguém falar O avião posou. E sabe que esse alguém errou redondamente. O correto é O avião pousou. As pessoas confundem o verbo posar com o verbo pousar. Ora, posar é “fazer pose”. Já pousar, entre outros muitos sentidos, tem o de descer, aterrissar (um avião). Por isso é também muito errado dizer que O artista pousou para uma sessão de fotos, mas, sim, O artista posou para uma sessão de fotos.

Perigoso esse u, não? Sim, muito perigoso. É como uma armadilha que a língua apronta para verificar quem sabe ou finge que sabe. Se alguma vez você errou, depois desta explicação não errará mais, certo?

Note também outra armadilha: toucar e tocar. Toucar, que aparece em muitas narrativas literárias e poemas, pode significar colocar a touca, ou também enfeitar ou enfeitar-se, quando pronominal: Ela toucou-se de lindos laços coloridos. Note, aliás, que, pela própria família de vocábulos, pode-se descobrir como deve ser escrito: touca, toucador, toucado, toucar. Nem é preciso explicar muito sobre tocar, que é palavra bem diferente, não é?

A sequência ei também pode causar confusão em muitas palavras. Você já ouviu pessoas falarem, por exemplo, Depois do acidente, o homem ficou alejado. Na verdade, está faltando um i nessa pronúncia popular. A forma correta será aleijado, correspondente ao verbo aleijar: Depois do acidente, o homem ficou aleijado. O mesmo deve ocorrer com a palavra cabeleireiro: O cabeleireiro tingiu demais os cabelos da moça. Nada, portanto, de escrever “cabelereiro”, pois o i faz parte das palavras cabeleira, cabeleireiro.

E preste muita atenção também em famílias de palavras como negociar,renegociar,  negócio, negociação, negociável, negocioso, negociata, negocista. Observe que o i está presente em todas, inclusive na conjugação verbal: negocio, negocias, negocia, negociamos, negociais, negociam. O mesmo vale para fiar, fiança, fiador: fio, fias, fia, fiamos, fiais, fiam. Portanto, nada de falar negoceio.

Percebeu bem como escapar dessas armadilhas. Fácil. Em primeiro lugar, verificando outras palavras da mesma família, que lhe revelarão um padrão. Em segundo, sempre verificar, no caso de verbos, a conjugação correta. Não se deixe levar pela pronúncia comum, familiar, popular, porque a norma-padrão tem suas próprias exigências.

É claro que, em provas, são errinhos banais, é bem verdade, mas são erros. Têm de ser corrigidos por você mesmo, antes que alguém da banca o faça. Para que arriscar, não é?

 

 

Não “pope”: poupe

Tuesday, May 16th, 2017

Certos errinhos nos pegam muitas vezes desprevenidos. De tão comuns que são, até parecem acertos. Um deles diz respeito ao verbo poupar. As pessoas estão tão acostumadas a falar no discurso informal eu popo, eu tenho uma popança, eu sou um popador, que o u acaba sendo desprezado também no discurso formal, o que representa um péssimo cartão de visitas para quem fala ou escreve. Na verdade, a norma-padrão exige as formas eu poupo, eu tenho uma poupança, eu sou um poupador. Observe, a este respeito, como se conjuga o verbo poupar:

 

Eu poupo

Tu poupas

Ele poupa

Nós poupamos

Vós poupais

Eles poupam

 

E assim todas as formas dos modos e tempos desse verbo exigem o u: poupava, poupara, pouparei, pouparia, poupe, poupasse, poupar, poupando, poupado.

Tome cuidado, portanto. Não importa que lá entre amigos, em conversas informais, você esqueça do u. Mas em sala de aula, em redações, em respostas discursivas, o u é inteiramente necessário. E de repente essa diferença entre o uso formal e o uso informal pode ser até objeto de uma questão. Esteja preparado, pois.

Muito mais cuidado ainda é necessário em outra série de palavrinhas cognatas: roubar, roubo, roubalheira, roubado, roubada. Nada de dizer eu robo. Este equívoco é tão comum, que você ouve até em telejornais, entrevistas, artigos na internet. Essa pronúncia sem u povoa a fala diária e acaba se infiltrando no discurso de políticos, jornalistas e profissionais de diferentes áreas quando dão entrevistas ou se manifestam oralmente em vídeos. Preste atenção, portanto, nas formas aceitas pela norma:

 

Roubar pode ser um vício perigoso.

Ele roubou aquela camisa da loja.

Esse imposto é um verdadeiro roubo.

A Justiça está acabando com toda a roubalheira.

Achado não é roubado, mas pode ser, se não devolvido.

Fazer sociedade com aqueles tipos foi uma roubada.

 

Percebeu? Você encontrará com facilidade exemplos de pronúncia erronha dessas palavras na televisão e na rede. Note que, como no caso de poupar, toda a conjugação do verbo roubar exige o u: roubo, roubava, roubara,  roubarei, roubaria, roube, roubasse, roubar, roubando, roubado. E note também como ficaria horrível em sua redação ou resposta discursiva: “roba, robou, robo, robalheira, robado, robada”. Alguém pode até dizer a você, que se trata de um errinho insignificante, que não vai prejudicar sua nota. Será que não vai? Afinal, nenhum erro pode ser considerado insignificante. É melhor não arriscar. Não caia nessa roubada, certo?

 

Meu bem, meu mal; meu bom, seu mau

Thursday, May 11th, 2017

Você achou o título deste artigo muito curioso, não achou? Claro que sim. E lhe pareceu que a segunda frase está incorreta, não? Na verdade, ambas as frases estão corretas, ou, melhor: em determinados contextos, ambas as frases podem estar corretas; em outros, incorretas.

Mas o que é um contexto, afinal? No sentido em que o Blogueiro empregou acima, contextos são as frases ou expressões ou passagens de um texto em que uma palavra pode estar inserida. Vale dizer: os antônimos bem e mal, bom e mau dependem, para estarem corretos, de estar inseridos nos contextos adequados.

Meu bem, meu mal é uma frase muito usada, aparece em títulos de obras, em letras de músicas, mais ou menos com o sentido de que algo que nos causa bem pode também, mudadas as circunstâncias, nos causar mal. Neste sentido, a frase meu bom, seu mau estaria errada? Em determinados contextos, não. Observe o diálogo:

 

— Seu amigo o salvou, mas o meu me traiu.

— Pois é: meu bom, seu mau…

 

Percebeu como o contexto legitima a frase? O segundo interlocutor, na verdade, serviu-se duas vezes da elipse da palavra “amigo” — meu bom amigo, seu mau amigo —, para definir, com algum deboche, os respectivos “amigos”. A frase ficou, assim, mais instigante. Generalizando, há bons e maus amigos: tive a sorte de ter um bom e você o azar de ter um mau.

É isso aí. Tome bastante cuidado, quer ao criar textos, quer ao interpretar textos alheios, com essas quatro palavrinhas. Suas apostilas lhe ensinam que bem é antônimo de mal e bom é antônimo de mau. Isso, apesar de verdadeiro e útil, não resolve todos os casos, pode provocar confusões na hora de escrever ou de ler. É preciso respeitar o contexto em que as palavras se inserem. Claro que, ao dizer ele não passa bem, a frase antônima que nos vem à memória é ele não passa mal. Ou também quando dizemos ele é um homem mau, o oposto será ele é um homem bom. Mas é preciso tomar cuidado com os contextos, por exemplo, em frases como ele julgou bem o réu, porque pode haver uma frase como ele julgou bom o réu. A primeira frase tem como oposta ele julgou mal o réu; e a segunda, ele julgou mau o réu. No primeiro caso, trata-se do modo de julgar (bem ou mal); no segundo, do caráter do réu (bom ou mau).

Até mesmo uma frase como eu espero que você faça bom a prova pode estar correta em um contexto apropriado. Observe o diálogo:

 

— Eu estive muito doente ontem, mas não desistirei do vestibular.

— Ótimo! Eu espero que você faça bom a prova.

 

Interessante, não é? “Bom”, nesse caso, significa bem disposto, sem doença, curado, em boas condições.

Conclusão: nestes como em muitos outros casos de dúvida, verifique o contexto, porque ele pode revelar agradáveis surpresas, que farão muito bem à sua nota!