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Literatura é para ler!

Thursday, June 22nd, 2017

O Blogueiro, quando ainda começava a carreira, ouvia um colega, da área de Exatas, dizer e repetir: Gente! Literatura não é para estudar. É para ler!

A frase vinha no meio de discussões sobre a importância dos estudos literários nos ensinos fundamental e médio, bem como universitário. E o colega, de fato, queria chamar a atenção para o erro de perspectiva que por vezes as escolas cometem, obrigando os estudantes a pesquisar em obras literárias temas como personagens, enredo, espaço, tempo, etc., etc. O colega, professor de matemática, era o maior crítico desse sistema de ensino, sempre afirmando que os textos literários, uma vez lidos, eram ensinamentos por si mesmos, sem necessidade de ficar, como ele dizia, escarafunchando a estrutura das obras, o que só fazia os estudantes desgotarem da leitura e do hábito de ler. A garotada precisa gostar de ler, e não de fazer a análise das obras! dizia ele.

Não se pode deixar de dar razão, ainda hoje, ao colega. Nos próprios vestibulares, nem sempre as obras são focalizadas como tais, nem é verificado o importante: se os candidatos realmente as leram. Algumas universidades colocam, para seus vestibulares, relações de obras literárias, e isso é quase sempre justificado como incentivo à prática da leitura. Seria, quase sempre, mas quase sempre não é. Basta sair uma nova relação de obras para o vestibular de uma universidade e logo toda uma série de livrinhos surge com interpretações de todas elas, de sorte que, frequentemente, os estudantes, em vez de lerem as obras, apenas lêm os livros que as analisam e interpretam para “facilitar” o trabalho dos estudantes. Na verdade, o resultado é afastar os estudantes do verdadeiro prazer da leitura.

Nada mais contraproducente. Se você se enquadra nesses leitores de livros sobre obras literárias, mude seu foco. Pode até ler. Mas, antes, leia integralmente as obras literárias focalizadas. É neste sentido que o colega do Blogueiro dizia que literatura é para ler, não para estudar. Nem mil livros de crítica e interpretação juntos conseguem nos revelar o que uma obra de Machado de Assis, de Saramago, de Gonçalves Dias, de Fernando Pessoa nos revela à simples leitura. Os livrinhos que circulam por aí apresentando análise e interpretação das obras não passam de meros simulacros, tentativas sempre frustradas de substituir o insubstituível. Como foi dito acima, você pode até se servir desses livrinhos, depois que fizer a leitura das obras, para auxiliá-lo a observar melhor este ou aquele detalhe que poderá ser focalizado numa prova. Apenas isso.

Diria hoje aquele colega, com muita razão, que uma canção é criada para ser ouvida, uma pintura é criada para ser vista, um romance é criado para ser lido. Nada pode substituir o que denominamos, singelamente, contemplação da obra de arte, já que ela é destinada exatamente a isso.

Você deve ter inferido, com os comentários do Blogueiro, que o hábito da leitura não é um fato para morrer após os vestibulares, mas, ao contrário, algo que levará para toda a sua vida, algo que o fará experimentar conhecimentos e emoções sobre a própria natureza do ser humano. A literatura revela, por meio do discurso, a humanidade verdadeira e autêntica. Perguntas em exames vestibulares e concursos são meros incidentes que não devem afastá-lo do hábito de fruição das próprias obras, ou seja, um hábito formador, um modo de refletir permanentemente sobre o mundo, a vida e a relação entre o homem e o universo.

É claro que você não quer ser para sempre um iletrado. Pense bastante nisso!

 

De que o quê

Wednesday, June 14th, 2017

Enquanto espera a classificação do Vestibular de Inverno da Unesp, você certamente não vai ficar parado. O vestibular de 2018 ocorrerá logo, assim como os de outras universidades, que sua situação de vestibulando obriga a também prestar. Como é óbvio, você quer ser aprovado e não medirá esforços e vestibulares para consegui-lo.  Se for aprovado agora, agarre sua vaga.

Num caso ou noutro, vale aqui um bom lembrete para auxiliá-lo com o aprimoramento da sua capacidade de responder com clareza e correção a respostas a questões discursivas e em redações, quer no curso universitário, quer em vestibulares: o emprego errado da preposição de antes da conjunção que. Trata-se de um equívoco que pode comprometer o charme de seu discurso, tanto oral como escrito.

Já prestou bastante atenção às falas de personalidades em entrevistas a rádios e televisões? Se prestou, deve ter muitas vezes percebido que os entrevistados brasileiros, alguns muito conhecidos e ilustres, escorregam ao introduzir um de completamente desnecessário em muitas passagens de suas falas. Será que o fazem também ao escreverem? Muito provavelmente, a não ser que se sirvam de ghost-writers para traduzir suas opiniões em textos e documentos. Observe alguns exemplos do que o Blogueiro está apontando:

 

Meu grande amigo Jonas disse de que está preocupado com a situação nacional.

O acusado confirmou de que não pode mais suportar tantos processos.

Todos os representantes das classes profissionais consideram de que esse projeto de lei será prejudicial.

 

Notou? Em todos os três exemplos forjados pelo Blogueiro com base em textos reais publicados via internet ocorre a preposição de sem qualquer justificativa, o que é lamentável. Os verbos dizer, confirmar e considerar, quando têm seu objeto direto representado por uma oração substantiva precedida do conectivo que não precisam desse de. Observe o que aconteceria se os objetos diretos, em vez de orações, fossem sintagmas nominais:

 

Meu grande amigo Jonas disse a verdade.

O acusado confirmou sua decepção.

Todos os representantes consideram esse projeto de lei prejudicial.

 

Ficou claro? Os três verbos mencionados pedem como complemento um objeto direto (justamente chamado direto por não necessitar de preposição para relacioná-lo ao verbo). Assim, quando tal objeto direto é representado por uma oração substantiva, não existe a menor necessidade de inventar a preposição antes do que. Exatamente o contrário ocorre com as orações subordinadas substantivas objetivas indiretas, que são sempre precedidas de uma preposição solicitada pelo verbo. Tal preposição pode ser, inclusive, de, como nos exemplos: Desconfio de que a outra equipe falsificou os resultados (desconfio disso); Ela não precisa de que a protejam (não precisa disso). Nestes dois casos entre parênteses fica claro que o verbo é transitivo indireto e solicita a preposição de antes do complemento.

Como sair dessa enrascada? Você já descobriu a solução pelo modo como o Blogueiro explicou: empregando um objeto não oracional, se a preposição desaparecer, não deve surgir quando o objeto for oracional, já que a oração será uma subordinada substantiva objetiva direta. O oposto é também verdadeiro: se a preposição se mantiver quando o objeto for não oracional,  justifica-se também no objeto oracional, revelando-se, portanto, como subordinada substantiva objetiva indireta. Dê uma boa estudada em exemplos de subordinadas objetivas diretas e também nas indiretas, para firmar bem esse conhecimento. Chega desse vício de inventar de que para cá, de que para lá.

 

As perigosas concordâncias

Thursday, June 8th, 2017

Outro dia o Blogueiro, verdadeiro maníaco por encontrar exemplos de equívocos, flagrou em noticiário na internet um cochilozinho de revisão. Observe:

 

Explosões em um  funeral mata pelo menos 12 pessoas no Afeganistão.

 

Notou também? Já que o sujeito é “explosões”, no plural, o verbo deveria estar também no plural:

 

Explosões em um funeral matam pelo menos 12 pessoas no Afeganistão.

 

Um lapso de concordância, como você deve ter notado. E por que será que aconteceu? Porque o redator, por um segundo, iludiu-se, tomando o plural pelo singular, vale dizer, considerando as explosões como um fato só. Nesse segundo de distração, que pode ocorrer a qualquer de nós, a flexão do plural foi enfraquecida pela ideia de uma só explosão e, quando o verbo foi escrito, recebeu essa influência de singularidade, flexionando-se no singular e causando uma ruptura da concordância com o sujeito. Como diz o povo, o revisor pisou na bola, deixando como estava. Além da mencionada, uma boa saída teria sido

 

Explosão em funeral mata pelo menos 12 pessoas no Afeganistão.

Percebeu você o problema com clareza? Sim, mas avaliou também que, pelo fato de estar na rede, não deve ter sido considerado um grande problema. Os textos nela publicados não têm revisões muito exigentes, razão por serem uma verdadeira plantação de cochilos para ser colhidos pelos professores de português. Os revisores, nesses casos, recebem apenas um figurado puxão de orelha.

O maior problema estará se o texto for de uma redação sua, ou de uma resposta a questões discursivas de história, geografia, filosofia, biologia, etc., etc. Esse é um território perigoso, em que não se pode errar sem receber penalização, ou seja, desconto na nota. E ainda mais se a concordância equivocada influir no conteúdo do período como um todo, alterando o teor de sua resposta.

Para confirmar o perigo, observe este outro exemplo, agora forjado, mas bem possível:

 

Ações de hackers europeus causa prejuízos a empresas brasileiras.

 

Notou? Muito provavelmente aqui, outro fator somou-se aos acima comentados: a distância entre o núcleo do sujeito (ações) e o do predicado (causa). Esse distanciamento enfraqueceu a noção de plural e levou o escritor a flexionar o verbo no singular, erradamente, é claro. O correto seria escrever

 

Ações de hackers europeus causam prejuízos a empresas brasileiras.

 

Os exemplos contidos neste artigo, portanto, devem servir para você tomar o máximo cuidado com essas perigosas concordâncias, provocadas  por distrações ao longo das orações que escrevemos. Como evitar esse perigo? Simples. Leia sempre duas vezes, atentamente, o período que acabou de escrever. Estes e outros equívocos vão se revelar e você terá tempo de fazer os necessários reparos.

 

Não deixe isar dar azar!

Thursday, June 1st, 2017

Alguns estudantes costumam reclamar por não entenderem completamente a diferença entre os finais de palavras isar e izar e por isso acham que essa é a origem de seus erros no emprego dessas terminações. Será? Isso tem sua parcela de verdade. Quem conhece bem as razões gramaticais e ortográficas para o emprego de isar e izar com certeza não errará. Mas, convenhamos, não é muito fácil conhecer todas essas razões. Até bons estudiosos por vezes vacilam.

Que fazer, então? Para quem não consegue dominar todos os aspectos gramaticais e ortográficos, há outro lado para essa moeda. Pode-se não errar, servindo-se de um artifício. Vamos ver se você percebe.

Em primeiro lugar, você já deve ter observado que as palavras com essas duas terminações são verbos. Em segundo, já sabe que os verbos em izar correspondem a uma quantidade muitíssimo mais numerosa que os terminados em isar. Por quê? Porque se trata de verbos derivados de substantivos ou de adjetivos que ganham o sufixo izar. E você sabe que substantivos e adjetivos são as palavras mais numerosas do idioma. Assim, do adjetivo americano se forma americanizar; de eterno, eternizar; de símbolo, simbolizar; de temor, atemorizar; de urbano, urbanizar; de vândalo, vandalizar; de visual, visualizar, e assim uma enorme quantidade de outros.

Aqui surge uma informação fundamental. Nos verbos terminados em isar as palavras primitivas já possuem o s final, de sorte que o verbo se forma com o sufixo ar. Ou então, em uns poucos casos, os verbos em isar já vieram formados de outros idiomas com essa terminação ou equivalente.

Outra grande vantagem que você pode tirar desse conhecimento, que evita a gramatiquice, está no fato de os verbos em isar constituírem um conjunto pouco numeroso e limitado, apenas vez por outra aumentado por palavra de terminologia científica. Assim, basta conhecer a lista para resolvermos facilmente nossas dúvidas. Eis os principais verbos, por mais usados, com terminação em isar, com as origens indicadas entre parênteses:  alisar (liso), analisar (análise), anisar (anis), avisar (aviso), bisar (bis), catalisar (catálise), precisar ( preciso)cutisar (cútis), descamisar (camisa), dialisar (diálise), divisar (divisa), eletrolisar (eletrólise), encamisar (camisa), escamisar (camisa), frisar (frisa), frisar (friso), improvisar (improviso), grisar (gris), guisar (guisa), irisar (íris), hidrolisar (hidrólise), lambrisar (lambris), lapisar (lápis), paralisar (paralisia), pesquisar (pesquisa), pisar (lat. pinsare), propolisar (própolis), psicanalisar (psicanálise), repisar (pisar), reprisar (do francês repriser), revisar (do espanhol revisar), tamisar (do francês tamiser), televisar (tele + visar), visar (do francês viser).

Percebeu? São poucas palavras, e essa lista poderia ainda ser diminuída com a eliminação de algumas cujo uso é raro ou técnico ou científico, que provavelmente nunca aparecerão em textos que você ler. Não é nada difícil, portanto, a memorização.

O que se depreende deste fato? Algo bastante elementar, como diria Sherlock Holmes: o pequeno número de verbos terminados em isar funciona como parâmetro para ter certeza dos que devem ser escritos com izar. Compreendeu agora? Isso sem nenhuma gramatiquice, vale dizer, sem necessidade de dominar normas de formação das palavras. Seu objetivo, ao estudar, não é compreender a regra ortográfica originada pela formação dessas palavras, mas, simplesmente, saber escrevê-las. Evidentemente, sempre poderá haver uma duvidazinha aqui, outra ali, mas a grande maioria dos casos estará resolvida com as recomendações colocadas neste artigo pelo Blogueiro.

Conclusão que é, de fato, uma introdução: a ortografia não é algo aleatório, criado pelo capricho dos gramáticos e filólogos, mas, na verdade, é uma organização muito lógica, cujos segredos se pode dominar sem excessivo esforço e sem ser preciso decorar regras. Pense nisso quando tentar resolver outras dúvidas, pense que a ortografia é, de fato, o que está escrito nos textos, pense que por trás disso há uma lógica que, uma vez devassada, torna o grafar muito mais fácil.

 

Ah! Esses eis, is e us incomodam muita gente!

Friday, May 26th, 2017

No artigo anterior, você recebeu aviso para tomar cuidado com o u de poupar, poupança, poupo, roubar, roubo, roubalheira. Não foi útil? Foi, sim. Você não vai cair nessa de escrever “popar, popança, popo, robar, robo, robalheira”. O povo em geral usa essas pronúncias, mas você, formado pelo ensino médio e pretendente a uma vaga num curso superior, sabe que nessa questão a universidade se pauta pela norma-padrão, e não pelo uso popular.

O Blogueiro deixou para  hoje outros alertas a fazer com respeito a possíveis confusões, desta vez envolvendo a presença de ei, de u e de i em certas formas nominais ou verbais.

Você com certeza já ouviu alguém falar O avião posou. E sabe que esse alguém errou redondamente. O correto é O avião pousou. As pessoas confundem o verbo posar com o verbo pousar. Ora, posar é “fazer pose”. Já pousar, entre outros muitos sentidos, tem o de descer, aterrissar (um avião). Por isso é também muito errado dizer que O artista pousou para uma sessão de fotos, mas, sim, O artista posou para uma sessão de fotos.

Perigoso esse u, não? Sim, muito perigoso. É como uma armadilha que a língua apronta para verificar quem sabe ou finge que sabe. Se alguma vez você errou, depois desta explicação não errará mais, certo?

Note também outra armadilha: toucar e tocar. Toucar, que aparece em muitas narrativas literárias e poemas, pode significar colocar a touca, ou também enfeitar ou enfeitar-se, quando pronominal: Ela toucou-se de lindos laços coloridos. Note, aliás, que, pela própria família de vocábulos, pode-se descobrir como deve ser escrito: touca, toucador, toucado, toucar. Nem é preciso explicar muito sobre tocar, que é palavra bem diferente, não é?

A sequência ei também pode causar confusão em muitas palavras. Você já ouviu pessoas falarem, por exemplo, Depois do acidente, o homem ficou alejado. Na verdade, está faltando um i nessa pronúncia popular. A forma correta será aleijado, correspondente ao verbo aleijar: Depois do acidente, o homem ficou aleijado. O mesmo deve ocorrer com a palavra cabeleireiro: O cabeleireiro tingiu demais os cabelos da moça. Nada, portanto, de escrever “cabelereiro”, pois o i faz parte das palavras cabeleira, cabeleireiro.

E preste muita atenção também em famílias de palavras como negociar,renegociar,  negócio, negociação, negociável, negocioso, negociata, negocista. Observe que o i está presente em todas, inclusive na conjugação verbal: negocio, negocias, negocia, negociamos, negociais, negociam. O mesmo vale para fiar, fiança, fiador: fio, fias, fia, fiamos, fiais, fiam. Portanto, nada de falar negoceio.

Percebeu bem como escapar dessas armadilhas. Fácil. Em primeiro lugar, verificando outras palavras da mesma família, que lhe revelarão um padrão. Em segundo, sempre verificar, no caso de verbos, a conjugação correta. Não se deixe levar pela pronúncia comum, familiar, popular, porque a norma-padrão tem suas próprias exigências.

É claro que, em provas, são errinhos banais, é bem verdade, mas são erros. Têm de ser corrigidos por você mesmo, antes que alguém da banca o faça. Para que arriscar, não é?

 

 

Não “pope”: poupe

Tuesday, May 16th, 2017

Certos errinhos nos pegam muitas vezes desprevenidos. De tão comuns que são, até parecem acertos. Um deles diz respeito ao verbo poupar. As pessoas estão tão acostumadas a falar no discurso informal eu popo, eu tenho uma popança, eu sou um popador, que o u acaba sendo desprezado também no discurso formal, o que representa um péssimo cartão de visitas para quem fala ou escreve. Na verdade, a norma-padrão exige as formas eu poupo, eu tenho uma poupança, eu sou um poupador. Observe, a este respeito, como se conjuga o verbo poupar:

 

Eu poupo

Tu poupas

Ele poupa

Nós poupamos

Vós poupais

Eles poupam

 

E assim todas as formas dos modos e tempos desse verbo exigem o u: poupava, poupara, pouparei, pouparia, poupe, poupasse, poupar, poupando, poupado.

Tome cuidado, portanto. Não importa que lá entre amigos, em conversas informais, você esqueça do u. Mas em sala de aula, em redações, em respostas discursivas, o u é inteiramente necessário. E de repente essa diferença entre o uso formal e o uso informal pode ser até objeto de uma questão. Esteja preparado, pois.

Muito mais cuidado ainda é necessário em outra série de palavrinhas cognatas: roubar, roubo, roubalheira, roubado, roubada. Nada de dizer eu robo. Este equívoco é tão comum, que você ouve até em telejornais, entrevistas, artigos na internet. Essa pronúncia sem u povoa a fala diária e acaba se infiltrando no discurso de políticos, jornalistas e profissionais de diferentes áreas quando dão entrevistas ou se manifestam oralmente em vídeos. Preste atenção, portanto, nas formas aceitas pela norma:

 

Roubar pode ser um vício perigoso.

Ele roubou aquela camisa da loja.

Esse imposto é um verdadeiro roubo.

A Justiça está acabando com toda a roubalheira.

Achado não é roubado, mas pode ser, se não devolvido.

Fazer sociedade com aqueles tipos foi uma roubada.

 

Percebeu? Você encontrará com facilidade exemplos de pronúncia erronha dessas palavras na televisão e na rede. Note que, como no caso de poupar, toda a conjugação do verbo roubar exige o u: roubo, roubava, roubara,  roubarei, roubaria, roube, roubasse, roubar, roubando, roubado. E note também como ficaria horrível em sua redação ou resposta discursiva: “roba, robou, robo, robalheira, robado, robada”. Alguém pode até dizer a você, que se trata de um errinho insignificante, que não vai prejudicar sua nota. Será que não vai? Afinal, nenhum erro pode ser considerado insignificante. É melhor não arriscar. Não caia nessa roubada, certo?

 

Meu bem, meu mal; meu bom, seu mau

Thursday, May 11th, 2017

Você achou o título deste artigo muito curioso, não achou? Claro que sim. E lhe pareceu que a segunda frase está incorreta, não? Na verdade, ambas as frases estão corretas, ou, melhor: em determinados contextos, ambas as frases podem estar corretas; em outros, incorretas.

Mas o que é um contexto, afinal? No sentido em que o Blogueiro empregou acima, contextos são as frases ou expressões ou passagens de um texto em que uma palavra pode estar inserida. Vale dizer: os antônimos bem e mal, bom e mau dependem, para estarem corretos, de estar inseridos nos contextos adequados.

Meu bem, meu mal é uma frase muito usada, aparece em títulos de obras, em letras de músicas, mais ou menos com o sentido de que algo que nos causa bem pode também, mudadas as circunstâncias, nos causar mal. Neste sentido, a frase meu bom, seu mau estaria errada? Em determinados contextos, não. Observe o diálogo:

 

— Seu amigo o salvou, mas o meu me traiu.

— Pois é: meu bom, seu mau…

 

Percebeu como o contexto legitima a frase? O segundo interlocutor, na verdade, serviu-se duas vezes da elipse da palavra “amigo” — meu bom amigo, seu mau amigo —, para definir, com algum deboche, os respectivos “amigos”. A frase ficou, assim, mais instigante. Generalizando, há bons e maus amigos: tive a sorte de ter um bom e você o azar de ter um mau.

É isso aí. Tome bastante cuidado, quer ao criar textos, quer ao interpretar textos alheios, com essas quatro palavrinhas. Suas apostilas lhe ensinam que bem é antônimo de mal e bom é antônimo de mau. Isso, apesar de verdadeiro e útil, não resolve todos os casos, pode provocar confusões na hora de escrever ou de ler. É preciso respeitar o contexto em que as palavras se inserem. Claro que, ao dizer ele não passa bem, a frase antônima que nos vem à memória é ele não passa mal. Ou também quando dizemos ele é um homem mau, o oposto será ele é um homem bom. Mas é preciso tomar cuidado com os contextos, por exemplo, em frases como ele julgou bem o réu, porque pode haver uma frase como ele julgou bom o réu. A primeira frase tem como oposta ele julgou mal o réu; e a segunda, ele julgou mau o réu. No primeiro caso, trata-se do modo de julgar (bem ou mal); no segundo, do caráter do réu (bom ou mau).

Até mesmo uma frase como eu espero que você faça bom a prova pode estar correta em um contexto apropriado. Observe o diálogo:

 

— Eu estive muito doente ontem, mas não desistirei do vestibular.

— Ótimo! Eu espero que você faça bom a prova.

 

Interessante, não é? “Bom”, nesse caso, significa bem disposto, sem doença, curado, em boas condições.

Conclusão: nestes como em muitos outros casos de dúvida, verifique o contexto, porque ele pode revelar agradáveis surpresas, que farão muito bem à sua nota!

 

Palavra-chave, uma boa dica

Thursday, May 4th, 2017

Quando fazemos a análise de um texto literário, seja em verso, seja em prosa, nossos professores sugerem que localizemos as palavras-chave. É considerada chave a palavra que representa, por si mesma, o significado global de um texto, ou, pelo menos, um significado que possa representar uma espécie de síntese do que está sendo comunicado no texto. Por essa mesma razão, além de sua utilização na análise de textos literários, as palavras-chave são empregadas em classificações bibliográficas, bem como na própria linguagem da informática, para indicar certos conteúdos predeterminados.

Note, a este respeito, que nos buscadores da internet chegamos aos sites desejados digitando a busca por meio de palavras-chave. Estabelecemos, assim, todo um sistema de buscas por meio da combinação de palavras que encerram os conteúdos procurados por nós para chegar aos sites. Por vezes, nesse trabalho, chegamos a digitar verdadeiras frases-chave, como modo de atingir mais depressa e com mais eficiência tais sites.

Esse emprego instrumental das palavras é de grande utilidade, também, em nossas provas, seja de concursos de acesso em geral, seja em vestibulares, em questões, em textos de apoio, em propostas de redação.

Ao ler uma questão, quer objetiva, quer discursiva, devemos ter em mente que uma ou mais palavras nela carregam o significado mais abrangente e principal. Isso é importantíssimo, porque sua resposta tomará por base tal ou tais palavras-chave. No caso das questões objetivas, essa estratégia é importantíssima, porque nos ajudará a eliminar alternativas improcedentes, bem como discernir entre duas alternativas aparentemente procedentes qual está mais entrosada com o conteúdo do enunciado da pergunta.

No caso das questões discursivas, a identificação da ou das chaves evitará que nos desviemos perigosamente do que é explicitamente solicitado na pergunta. A inobservância desse pormenor já fez muitos candidatos responderem de modo errado perguntas cujas respostas conheciam.

O mesmo se pode dizer de textos de apoio a questões, quer objetivas, quer discursivas. É preciso identificar as palavras-chave e verificar em que medida estão relacionadas com as dos enunciados das questões. Certa feita, numa série de questões objetivas, o Blogueiro percebeu que suas palavras-chave apontavam para uma interpretação particular do elaborador dessas questões e não de sua própria interpretação, que lhe parecia mais lógica. Por isso, seguiu a trilha da interpretação do elaborador, que se revelava na série de enunciados. Foi uma forma de esperteza que rendeu ao Blogueiro o acerto de toda a série de questões, muito embora não concordasse com a interpretação do elaborador. Isso acontece também.

Finalmente, considere muito importante a identificação de palavra-chave na proposta de redação. Se menosprezar esse detalhe, poderá até fazer uma bela redação, mas afastada do que pretende realmente a proposta.

Um bom treinamento, na atualidade, para a identificação de palavras-chave está nas entrevistas publicadas em jornais e revistas, seja em papel, seja na rede. Localize a palavra-chave de cada pergunta do entrevistador e a da resposta do entrevistado. Você terá, assim, muitas surpresas, ao verificar como os repórteres se revelam espertos e maliciosos, e como os entrevistados são capazes de escapar de armadilhas das perguntas, ou até mesmo de mentir para evitar a confissão de atos, digamos, um tanto deprimentes.

Valeu? Então incorpore mais esse método aos seus estudos.

 

 

 

Os problemas da decoreba

Wednesday, April 26th, 2017

Um dos termos mais empregados na gíria dos estudantes é decoreba, que significa hábito ou mania de decorar, de estudar memorizando fórmulas, datas, aspectos, características, sem ir ao fundo dos conteúdos para aprender de fato. Vale dizer: estudar sem aprender o principal, o núcleo, mas apenas os aspectos periféricos. Isso realmente é válido?

Na verdade verdadeira, como dizemos brincando, não é. Realmente não é. Quem vive da decoreba ignora que não só os estudantes evoluem em seus modos de estudar, mas também as bancas elaboradoras em seus modos de perguntar. Se você examinar com atenção as provas de diferentes exames vestibulares atuais, verificará com certeza que as questões exploram o que é principal nos conteúdos, deixando de lado o que é apenas marginal, complementar.

Em qualquer ciência, ao assimilar e dominar fundamentos e conteúdos teóricos, os elementos periféricos são assimilados automaticamente, em virtude das estreitas relações que mantêm com tais conteúdos. Bom exemplo é a Medicina. Se você encontrar uma terminologia, uma relação de termos usados na Medicina, poderá memorizar o significado desses termos, não necessariamente a ciência que os utiliza para denominar os conceitos com que trabalha.

Há, evidentemente, em qualquer ciência, muitos dados que se memorizam, não pelo simples memorizar, mas pelo fato de estarem indissoluvelmente inseridos na atividade científica, razão por que, com a ajuda desta, são registrados na memória com menor esforço.

Percebeu? A memorização só é válida, em qualquer estudo de qualquer disciplina, na medida em que os elementos decorados não se fechem em si mesmos, mas impliquem e evoquem suas relações com os fatos, fenômenos e conceitos dessa disciplina. Fazendo um trocadilho, podemos dizer que o decorar não pode ser decorativo. A própria palavra decoreba, que quase sempre pronunciamos em tom jocoso, debochado, constitui prova disso.

Com base nestes lembretes, você deve mudar um pouco a ótica de seu método de estudo, passando a considerar a memorização apenas uma ferramenta auxiliar, e não o fundamento de seu aprendizado. Aprender é muito mais profundo.

 

 

 

 

 

Afinal, que é um parágrafo?

Wednesday, April 19th, 2017

Alguns estudiosos costumam comparar o parágrafo, entendido como unidade de um texto em prosa, com a estrofe, unidade de um texto em verso. É fácil entender a estrofe como unidade do texto em verso. Num soneto, por exemplo, verificamos com facilidade que a separação dos versos em quatro conjuntos, dois de quatro versos (quadras ou quartetos) e dois de três versos (tercetos) não é arbtrária, mas corresponde a quatro planos de significado, unidos numa sequência semântica da qual o último terceto encerra a chamada chave de ouro, magnífica conclusão do poema. Leia qualquer soneto de Camões, de Bocage ou de Gregório de Matos para verificar esse fato.

O problema, porém, é o parágrafo. Sua comparação com a estrofe não é lá muito fundamentada: são fenômenos bastante diferentes. Muitos estudiosos já tentaram estabelecer uma teoria do parágrafo, mas fracassaram, não tendo conseguido ir além do fato de que há certa unidade de sentido em cada um deles na sequência que os faz constituir um texto.

Isso é muito pouco e pouco preciso, os escritores que o digam! Se houvesse indicadores exatos de quando sair de um parágrafo para outro, o problema nem existiria, mas, na verdade, não há. As lições que lemos a respeito em livros sobre redação nos dizem que devemos sentir, de certo modo intuir o ponto em que um parágrafo se encerra e se inicia outro. Acrescentam que cada parágrafo é uma unidade de sentido. Não há, entretanto, normas e regras invariáveis para paragrafar. E é justamente por isso que, quando saímos dos livros e apostilas para o ato de criação de um texto, temos dúvidas e mais dúvidas. Que fazer?

O primeiro ponto a extrair dos comentários acima é que não há critérios cem por cento objetivos para elaborarmos a divisão de um texto em parágrafos. O segundo, que cada um deve perceber por si mesmo, conforme a sequência de períodos que vai gerando o texto, o momento de fazer a transição, iniciando um novo parágrafo. A verdadeira unidade de um texto, neste sentido, é o período. É a sequência de períodos que vai conduzindo o sentido de um texto para o seu encerramento. Os parágrafos são conjuntos de períodos estabelecidos de acordo com o que vai percebendo o escritor à medida em que escreve. É por esse motivo que encontramos textos em que predominam extensos parágrafos e outros em que os parágrafos apresentam formas mais variadas.

Para falar francamente, os parágrafos de um texto poderiam ser até suprimidos, escrevendo-se tudo numa só sequência, sem qualquer prejuízo para o significado global e unitário de um texto. É o que, aliás, alguns escritores experimentaram fazer, na modernidade, excluindo a divisão de narrativas em parágrafos e até mesmo suprimindo sinais como o travessão de diálogo e as aspas. É claro que você não vai fazer isso em sua redação de concurso ou de vestibular, pois não está de fato criando uma narrativa literária. O melhor caminho, portanto, é seguir mesmo sua própria percepção do texto que vai sendo criado e dividi-lo em parágrafos que se ajustem melhor à sequência, até mesmo para facilitar o trabalho do seu leitor.

Quer saber de uma coisa? Não se preocupe muito com a exatidão da divisão em parágrafos, mesmo porque esta não existe, mas siga sempre seu próprio julgamento, ou, como dizem os ingleses, seu feeling. É isso aí!