O que é que há com o verbo haver?

May 5th, 2015

Muitos estudantes saem do Ensino Médio com a ideia de que saber escrever é resultado de técnicas aprendidas ao longo de seus cursos e cursos de redação dados por especialistas. Esta é uma parte da verdade, não a verdade inteira. O melhor método de redação do melhor especialista não lhe ensinará muita coisa, se você não conquistar o domínio da construção de frases adequadas, que se organizem com harmonia na produção progressiva do sentido gloobal do texto.

O blogueiro está querendo dizer que uma boa construção de frases é o passo principal para uma boa construção de texto. Veja um exemplo dos mais interessantes: o verbo haver. Você pensa que conhece tudo desse verbo? Se conhece, está de parabéns, deve conhecer também muitos outros. Se não conhece, está na hora de desconfiar que há muita coisa na construção de frases que precisa dominar. Considere estes exemplos apresentados no Dicionário Aurélio:

1. Todos houveram medo de se envolver na questão.
2. Houveram que era convardia suportar semelhante afronta.
3. Há pessoas que nunca conseguem um amigo.
4. Houve algumas vezes desentendimentos entre os dois.
5. Havia meses que não chovia.
6. Os sentenciados houveram do juiz a comutação da pena.
7. Todos o havemos por inteligente.
8. Não há entender o comportamento de certas pessoas.
9, O centroavante se houve com grande esforço na partida.
10.  Eusébio não sabia haver-se com mulheres.
11. Marta houve por bem não se cansar com Maurício.
12. Bem hajas tu, que obtiveste a solução do problema.

Notou a beleza do leque de significados do verbo haver? Este verbo não lhe parecia antes meio fraquinho, um tanto anêmico, nada mais que uma palavrinha a surgir de vez em quando nas frases? Pois é. Agora percebe mais uma vez o acerto do ditado popular: As aparências enganam. No exemplo 1, haver significa sentir, experimentar. No segundo,  significa consideraram, julgaram. No terceiro, existir (sempre lembrando que, neste sentido, haver é um verbo impessoal, empregado na terceira pessoa do singular). No quarto exemplo, o significado do verbo é suceder, acontecer, ocorrer. No quinto, é o mesmo de fazer, como expressão de tempo transcorrido: havia (fazia) meses que não chovia. No sexto exemplo, haver  significa obter, conseguir, alcançar. No sétimo, julgar, supor, considerar.  Já no oitavo exemplo o significado é o de existir meio de, ser possível: não existe meio de entender o comportamento de certas  pessoas; não é possível entender o comportamento de certas pessoas. No nono exemplo, haver-se significa portar-se, comportar-se, proceder. Na décima frase, haver-se equivale a entender-se, relacionar-se, arranjar-se. No décimo exemplo, muito elegante é a locução haver por bem, no sentido de decidir-se, resolver. E a última frase, com o verbo haver precedido pelo advérbio bem, expressa um bom desejo, uma previsão positiva a respeito de alguém.

Notou? Embora tenham sido colocadas apenas algumas possibilidades de emprego e significação, você faz uma boa ideia agora da riqueza expressiva de um só verbo da língua portuguesa. Imagine quantos mais oferecem essa gama de possibilidades.

Dá para perceber, agora, o grande repertório necessário para ser um bom escritor, não dá? Não se espante se não tiver conhecimento de boa parte dos empregos do verbo haver acima, bem como das próprias construções que provocam. Experimente consultar dicionários para familiarizar-se com os usos e os sentidos que ainda não conhecia. É um bom exercício, que não deve parar no verbo haver, mas alcançar muitos outros. O verbo é o sol, o núcleo do sistema da oração, e quanto mais formas verbais e suas variações de significado e capacidade de estruturação frasal dominarmos, mais flexibilidade e criatividade de discurso conquistaremos.

Compreendeu? Este é o filão da mina de diamantes do melhor discurso, exatamente aquele que você procura. Mãos à obra! Apreenda a ser um bom minerador!

Haja vista, hajam vista. Difícil? Que nada!

April 24th, 2015

Se você é daqueles que não gosta de errar, mas não quer deixar de usar expressões que atribuem certo charme de bom escritor a seus textos, por certo já esbarrou em dúvidas sobre o emprego de haja vista e construções semelhantes. Esta expressão significa, de fato, veja, observe, note e acepções semelhantes. E muito provavelmente algum colega já reparou em seu texto para dizer: Escreveu errado, meu amigo! E você acaba não tendo certeza se errou mesmo, ou se seu amigo é que não sabe nada a respeito e imagina que sabe.

Para dirimir tais dúvidas, mestre Arthur Schwab apresentou dez exemplos em seu livro Louçanias de Linguagem. Observando-os com olhos atentos e vontade de aprender de uma vez por todas, você descobrirá que o uso prático de haja vista é bastante elástico em termos de diferentes construções gramaticais, de sorte que o mais difícil, no caso, parece ser não acertar. Eis os dez exemplos pesquisados por Arthur Schwab e dados por ele como português correto:

Hajam vista os lances que seguem. (Sá Nunes)
Haja vista dos excertos seguintes. (Id.)
Haja vista, por exemplo, ao que se encontra no Manual do Cristão (Id.)
Haja vista a esses magníficos exemplos. ((Id.)
Haja vista os teus favores às obras do porto da Bahia. (Rui Barbosa)
Hajam também vista as frases… (Cândido Lago)
Haja vista ao Soares dos Passos. (Castilho)
Haja vista às tão graciosas e admiráveis fábulas de La Fontaine. (Id.)
Hajam vista exemplos tais de autores lusitanos. (Lindolfo Gomes)
Haja vista dos elos que eles representam na cadeia da criação. (Camilo Castelo Branco).

Percebeu a moral da estória? Não? Então entenda assim: o emprego de haja vista é muito variado, praticamente não há possibilidade de errar. Guarde esses dez exemplos com que o mestre procurou cercar a maioria dos empregos. Compare a frase em que você usou a construção com tais exemplos. Muito provavelmente vai ter a mesma estrutura sintática de algum deles. Pode empregar então sem susto. Em pouco tempo você não precisará consultar mais os dez exemplos e saberá o que fazer, sem ter de folhear gramáticas e decorar regras.

Aproveite esta lição: boa linguagem é bom uso, não é ter dez gramáticas na estante. Se começar a observar com mais atenção os usos dos bons escritores que você tem de ler para os exames vestibulares e que continuará lendo ao longo da vida para manter sempre um discurso elegante, não tenha dúvidas de que acabará escrevendo cada vez melhor. E isso é muito importante hoje em dia. Em qualquer profissão, quem escreve bem está três passos adiante dos concorrentes.

Ah! E não confunda: internetês é uma linguagem; português é outra, cada qual válida e eficiente em seu próprio contexto. Valeu?

Leitura oral: a prova definitiva

April 16th, 2015

A série de artigos postados neste blogue sobre as qualidades e defeitos das respostas a perguntas discursivas teve a intenção de fornecer a você instrumentos para garantir um índice maior de acerto ao responder, tudo com base no seguinte fato: não basta saber a resposta; é preciso saber responder. Se levar a cabo algumas das práticas sugeridas, pode ter certeza de que terá uma melhora acentuada em seu rendimento e em suas notas.

Há, no entanto, algo mais a dizer sobre o assunto, como espécie de uma última demão de tinta que o pintor aplica a uma parede para obter o melhor resultado final. Trata-se de uma forma de conferência de sua resposta, espécie de prova dos noves ou prova real do discurso com que respondeu a uma questão. Muitos jornalistas, escritores, pesquisadores e professores mantêm um hábito muito eficiente de fazer uma última correção em seus textos: ler em voz alta o que escreveram. A leitura de um texto em voz alta é um exclente método para descobrir cochilos no discurso, de apontar enganos de concordância, regência, emprego de vocábulos e até mesmo de ortografia. Quando deixamos de fazer essa última verificação, com toda a certeza tais cochilos só irão aparecer aos olhos da banca de correção, no caso de vestibulares e concurso, ou dos leitores, no caso de artigos jornalísticos, textos científicos de teses e dissertações, textos literários em prosa ou em verso. A permanência de tais errinhos até o final da redação se deve ao fato de estarem os escritores durante o processo de escrever mais preocupados com o conteúdo, com as ideias do que propriamente com a forma final de discurso que assumem.

É aí que entra o método final de triagem: a leitura em voz alta. Um texto assim lido revela claramente as virtudes e defeitos do escrito. É evidente que, no caso de provas de vestibulares, os candidatos não podem ficar lendo em voz alta o que respondem, pois os examinadores acabarão pensando que se trata de transmissão de informações de um candidato a outro, ou seja, de “cola”. O método, porém, pode ser aplicado em casa, nas simulações e exercícios, para fazer com que o candidato verifique sua eficácia. Na sala, durante as provas, a conferência deve ser feita em silêncio, com a mente simulando uma leitura oral. É mera questão de treinamento. E pode ter certeza de que, assim fazendo, conseguirá uma verdadeira prova real, final, do que respondeu, pois aqui e ali se deparará com os lapsos normais de discurso, um defeitinho de concordância, um deslize de regência, uma palavra cujo significado não se encaixa bem na resposta e deve ser substituída.

Para acreditar neste conselho, faça uma experiência e acostume-se a praticar o que escritores de talento têm como hábito. Perceberá como é efiente esta última demão de tinta em seu discurso. E não deixe de fazer o mesmo com seu texto de redação. É mais uma garantia de acerto e mais uma certeza de que sua nota se elevará.

Experimente. Funciona mesmo!

 

Respostas inseguras: um perigo!

April 13th, 2015

Para encerrar este ciclo de artigos postados sobre os modos de responder a questões discursivas de todas as disciplinas, observe hoje o pior tipo de resposta: aquela em que o candidato, ou por excesso de cuidado, ou por insegurança mesmo, parece ao mesmo tempo apresentar uma resposta e uma manifestação de dúvida. Isso é péssimo.

Ora, se existe algo que você, ao responder perguntas discursivas, pode ter certeza é se sabe ou não sabe a resposta plena. Se sabe, nenhum problema, tem de levar em conta os alertas que foram feitos em artigos anteriores para atribuir a sua resposta uma forma clara e transparente, que não vá causar dúvidas às bancas de correção sobre sua certeza. Vale dizer: se você sabe a resposta, só tem de tomar cuidado para não tropeçar no discurso.

O problema começa quando você tem certeza de parte da resposta e não muita da outra parte. O que fazer? Em primeiro lugar deve pensar que, se sabe parte da resposta,  deve conseguir manifestar claramente essa parte, para receber parte da nota. Parece óbvio, mas não é tanto assim, porque você tem de tomar cuidado com o discurso em que demonstrará essa parte que sabe. E é melhor pensar assim: essa parte eu tenho certeza de que está correta; então, não vou deixar que a tentativa de responder também a de que não tenho tanta certeza atrapalhe. Isso mesmo. Boa política essa, que leva a separar, como diz o povo, alhos de bugalhos. É bom deixar os alhos bem claros e separá-los dos bugalhos.

Se o candidato, porém, menospreza tal cuidado e acredita que pode tentar outro caminho, é preciso estar alerta para não demonstrar, sem querer, insegurança. Este alerta é feito com base em experiências de correção e em estudos como o do livro da Vunesp que vem sendo citado desde o primeiro artigo desta série. Observe estes dois exemplos para perceber que, ao tentar esconder a insegurança, podemos fazer exatamente o oposto: revelá-la. Ainda está sendo focalizada a pergunta que serviu de base para os artigos anteriores: Explique o significado que adquire no texto de Darcy Ribeiro a expressão “guerra biológica”.

 

Primeira resposta: Seria o confronto entre os índios saudáveis e os brancos impregnados de doenças. Vivendo no meio da natureza por vários anos os índios não estavam imunes às doenças do velho mundo que seriam trazidas pelos europeus. Dessa forma, os índios morreriam facilmente com qualquer doença, até mesmo as mais fracas gripes. Esse fator seria decisivo para a dizimação dos nativos.

Segunda resposta: A “Guerra Biológica” no texto de Darcy Ribeiro seria a disseminação, entre os índios, das doenças que os brancos traziam, às quais os índios não eram imunes.

 

Se você vem lendo com atenção todos os artigos desta série, por certo detectou a manifestação de insegurança nas respostas causada pelo emprego dos verbos no futuro do pretérito: seria, seriam, morreriam, seria (na primeira resposta) e seria (na segunda resposta). Ora, o futuro do pretérito atribui a essas respostas um teor de incerteza. Afinal, seria ou não seria? Os candidatos estão em dúvida ou com receio de afirmar categoricamente? Esse é o problema. O futuro do pretérito, que na nomenclatura das gramáticas antigas era denominado, talvez com mais propriedade, condicional, acaba nas duas respostas sugerindo uma evasiva: o candidato não sabe direito se quer ou não afirmar. Poderia não ser insegurança, mas apenas um uso equivocado desse tempo verbal? Poderia, mas o efeito é exatamente o mesmo para o leitor da resposta: está ou não afirmando e confirmando?

Pelo que ficou dito, tome muito cuidado, em suas respostas, com o futuro do pretérito, para evitar que, como nas duas respostas acima, uma certeza se torne, na sua resposta, incerteza ou seja tomada como insegurança. Note que, em ambas as respostas, a simples mudança do tempo verbal para o imperfeito e o perfeito do indicativo elimina o problema: era, eram, morriam, foi (na primeira resposta) e era (na segunda resposta), sendo que nesta, em termos de discurso, ficasse melhor empregar o presente do indicativo e dizer significa, já que se faz menção direta ao texto de Darcy Ribeiro.

Valeu o alerta? Respostas precisam dar sempre sugestão de segurança, de certeza. Manifestação de dúvida não é resposta adequada.

 

 

Resposta pouca? Pode ser pouco

April 8th, 2015

Você é da Lacônia?

Pergunta inesperada, não? Se uma pessoa faz essa indagação a outra com intenção crítica, está fazendo uma referência à antiguidade clássica, mais precisamente à Grécia. A Lacônia, também chamada Lacedemônia, região da Grécia onde ficava Esparta, caracterizava-se, além do espírito altamente guerreiro dos espartanos, pela concisão, por vezes extrema, no modo de falar. Foi desse passado que os termos lacônico e laconismo, chegaram até o presente, com o significado de fala muito concisa, isto é, muito econômica em palavras. O conceito de concisão, assim, se opõe ao de prolixidade, que é o excesso ou desperdício de palavras no discurso.

A concisão tem sido considerada uma virtude da fala e da redação exatamente por essa economia. No entanto, um passinho a mais na economia produz o laconismo, que é considerado um defeito, pois faz com que um ponto ou outro do discurso seja difícil de ser entendido.

Esta explicação tornou-se necessária para continuar explicando a questão da qualidade das respostas discursivas em provas, apresentada com base em uma publicação da Vunesp. Mencionam-se nessa pesquisa, além dos tipos de resposta abordados em artigos anteriores, as respostas chamadas lacônicas, que são muito perigosas em termos de correção. Lembra da pergunta, repetida nos artigos anteriores? Lembra, sim: Explique o significado que adquire no texto de Darcy Ribeiro a expressão “guerra biológica”.

Uma resposta concisa a essa questão estaria colocada entre as precisas ou as suficientes, sem qualquer problema. A economia em excesso, porém, produz outro resultado. Examine estas duas respostas:

 

1 – De um lado estavam os brancos com doenças perigosas, transmissíveis e de outro estavam os índios inocentes e que não sabiam o que era aquilo.

2 – A dominação das doenças sobre os sistemas imunológicos despreparados dos índios.

 

Em ambas, como você observa, atinge-se um aspecto da resposta certa e ficam outros a mencionar para o candidato deixar claro que entendeu perfeitamente a questão. Com esse problema, a nota do candidato fica dependente da banca de correção e da planilha que lhe serve de base. Isso não é lá muito confortável, não é verdade? As duas respostas acima revelam que os candidatos pareciam conhecer bem a resposta plena, mas preferiram economizar ou, talvez, ficaram com receio de dizer um pouquinho mais.

Percebeu bem o problema? Com receio excessivo da prolixidade, que representa desperdício, os candidatos caíram no extremo oposto, o laconismo, ou seja, a economia exagerada de palavras e explicações.

Ficou claro? Então trate de fazer uma verificação atenta em seu modo de responder, para compreender a diferença vital entre concisão, que é virtude, e laconismo, que é defeito de expressão.

Vale aqui, como fecho, repetir o título deste artigo, que agora você compreende bem: Resposta pouca? Pode ser pouco.

 

Falar demais, dizer de menos

March 27th, 2015

Retomando a série de artigos sobre as respostas discursivas e aproveitando para lembrar que o que o blogueiro explica serve para todas as disciplinas, e não apenas língua portuguesa, repare no título deste artigo. Reparou?  Não parece um paradoxo? Parece, mas não é, trata-se de um fato comprovável. Você mesmo critica livros que é obrigado a ler, afirmando que são muito complicados, que escrevem muito, para a gente no final não entender quase nada. Não é fato? É, sim. E sua conclusão é verdadeira. Há escritores que adoram frases longas, enfeitadas e que acabam não dizendo muita coisa para nós. Isto ocorre mesmo em artigos de jornais assinados por pesquisadores, especialistas, políticos, empresários. Alguns têm o dom de dizer exatamente o que querem dizer, fazendo com que nosso entendimento seja pleno. Têm o dom da precisão. Outros parecem ter o dom ou o prazer oposto: preferem encompridar os períodos, tornando-os às vezes muito longos, longos demais, o que prejudica nossa compreensão: Afinal, o que esse cara está querendo dizer? perguntamos, insatisfeitos, não é verdade? É a pura verdade.

O problema, porém, pode merecer rótulo pelo provérbio Quem tem telhado de vidro não atira pedras no do vizinho. Quando se faz crítica a outros, temos antes de ter certeza se o defeito apontado não é praticado por nós mesmos. E é o que por vezes acontece: você não gosta de ler textos com essas características, mas não percebe que, ao escrever, apresenta as mesmas. É esse o problema que as bancas de correção encontram muitas vezes: respostas que falam demais e dizem de menos.

No estudo publicado pela Vunesp que o blogueiro está tomando por base, tais respostas são denominadas abundantes e prolixas. O adjetivo abundante é da mesma família do substantivo abundância. Não é preciso explicar muito o que significa: que revela abundância, abundoso, em grande número. Uma resposta abundante, por isso, é uma resposta que apresenta um discurso com muitos elementos, no fundo desnecessários. O livro mencionado oferece um ótimo exemplo. Você lembra da pergunta apresentada nos dois artigos anteriores sobre a “guerra biológica”: “Explique o significado que adquire no texto de Darcy Ribeiro a expressão ‘guerra biológica’”. Então observe esta resposta abundante:

 

Os índios da época não conheciam doenças, além de coceiras e desvanecimentos por perda momentânea da alma (como diz o autor do texto), por outro lado, os portugueses chegaram trazendo consigo muitas doenças, tais como tuberculose, sarampo, coqueluche, e com o passar do tempo os índios começaram, a contrair essas doenças, consequentemente muitos deles chegando à morte. Portanto além de os próprios portugueses contraírem e adoecerem de tais doenças, os índios os acompanhavam, não por opção.

 

Se você leu o exemplo de resposta precisa e resposta suficiente, nos dois artigos anteriores, é capaz de pereceber que a resposta acima foi alongada um tanto desnecessariamente em um aspecto, o que fez o candidato esquecer de mencionar “guerra biológica”. Mas a resposta não está certa? perguntará você. Sim, está, mas a nota que recebeu passou a depender do modo como foi corrigida.

Já as respostas prolixas complicam mais um pouquinho, porque além de abundarem apresentam elementos em confusão, por vezes difíceis de serem entendidos. Eis um exemplo:

 

Os colonos (seja português ou qualquer europeu) que vieram para o Brasil na época colonial, trouxeram consigo doenças seculares, que viriam a contribuir para a dizimação do indígena. Tais enfermidades, sendo antigas e muito dizimadas, às vezes não eram tão prejudiciais aos colonos. No entanto, os indígenas (ou nativos), nunca houveram entrado em contato com essas pragas, ao contrário dos europeus, que já eram resistentes à muitas delas. Consequentemente, populações inteiras de nativos padeceram ou morreram.

 

Como você pode perceber, quase deve ter faltado espaço para a resposta acima no local adequado. Tentando ser explicativo demais, o candidato se excedeu em detalhes, cometeu alguns errinhos no emprego de palavras e acabou não relacionando todos os aspectos, embora tenha atingido uma parte correta da resposta. A prolixidade levou o candidato até a esquecer-se de empregar o termo “guerra biológica” e relacionar seu significado ao que descreveu.

Percebeu? Muitas vezes, falar demais é dizer de menos. Observe seu modo de responder, seus exemplos em provas e tarefas para verificar se, afinal, você não tem os vícios da abundância e da prolixidade. É bom que não tenha, mas, se tiver, trate de estabelecer um método para eliminá-los. Valeu?

 

Temperança, dignidade, solidariedade: por um mundo melhor

March 6th, 2015

O papai orgulhoso de uma garota de sete anos disse noutro dia ao blogueiro que sua filha participou de uma exposição escolar em que deveria fazer um desenho sobre o seu futuro e escrever como título um lema para o desenho.

Ao comparecer à festa e procurar os trabalhos das crianças, o papai foi verificando que em sua maioria procuraram desenhar seus próprios sonhos e escrever como título o que desejavam ser. Nada mais normal. Ao deparar-se com o de sua filha entre as dezenas de outros, teve a surpresa, mais que agradável, de ver que ela não se referira a si mesma, mas desenhara pessoas sorridentes em meio a flores coloridas e, em baixo, como lema: Eu desejo fazer o mundo melhor. Belo sonho, não?

Ora, o blogueiro hoje quer trazer para o mundo dos vestibulandos esta ideia que a menina de sete anos tão lindamente adotou. É claro que tal lema circula na mídia e que ela, portanto, não o inventou. Escolheu-o, porém, entre milhares de outros, muitos dos quais expressam vícios, violência, ambições e egoísmo. Teve a garota o mérito de entender e ilustrar com seus desenhos a noção de que é preciso tornar o mundo melhor, de sorte que nele todos possam sorrir. A ilustração com sorrisos e flores, deste modo, simboliza a alegria, o bem-estar, a paz, a solidariedade, a felicidade tanto individual como coletiva. A criança, quando bem tratada e educada pelos pais e pela escola, já vive nesse mundo melhor. Nós, adultos, embora queiramos a mesma coisa, muitas vezes nos sentimos tocados pelo pessimismo de não poder vê-lo em vida e até de acreditar que não ocorra nunca no planeta. O pessimismo, todavia, tem de dar lugar e vez ao ideal de, estimulando os jovens, fazer com que tornem sua essa meta. É um caminho. O primeiro passo, portanto, para a busca desse mundo melhor não é ainda olhar para o coletivo, mas para si mesmo. Para mudar o mundo precisamos primeiro mudar a nós mesmos.

A chamada “civilização” atual, porém, oferece inúmeros caminhos para afastar os jovens desse objetivo e para mergulharem numa conduta turbulenta, muitas vezes autodestrutiva. E assim, quem podia mudar o mundo, para evitar que seja destruído, acaba fracassando em mudar a si mesmo e a conquistar o que hoje é fundamental para o equilíbrio das pessoas: temperança, amor,  dignidade, solidariedade.

É triste observar os falsos rumos que o mundo oferece hoje às pessoas, particularmente aos jovens, sob ilusórios rótulos de modernidade: bebida, drogas, prazeres desenfreados, violência, questionamento dos valores éticos da sociedade, e muito disso estimulado pelo cinema, pela mídia, pelo mau uso da tecnologia da comunicação. Os jovens estão enfrentando todos os dias essa armadilha e em boa parte acabam sendo apanhados. Assim, numa inversão de valores, o lar e a escola mudam de endereço, passando a residir nos games, nos celulares, nos tablets, em suspeitas relações online, na quebra dos princípios da própria vida em sociedade. Como esperar que, sob estes desvalores, todos possam atingir uma maioridade equilibrada e digna, como cidadãos úteis a si mesmos e à coletividade?

O que o blogueiro acaba de dizer não é discurso “quadrado” de pessoa mais velha ou idosa, mas a nua e crua descrição do que está ocorrendo na realidade e todos os dias é noticiado pela mídia. E a pergunta que fica é como criar mecanismos, procedimentos, práticas para que  jovens como você consigam atravessar esse terreno pantanoso sem grandes danos físicos, intelectuais e morais?

Pense nisso, caro vestibulando, e você também, caro estudante que acaba de ser aprovado e de matricular-se na universidade. E pense a partir de um lema que vem dos antigos gregos e em língua latina é definido In medio virtus (In medio stat virtus): A virtude está no meio. Significa meio, neste caso, a moderação, a capacidade de controlar-se, de não exagerar, de não fazer nada em excesso. O homem verdadeiramente virtuoso é aquele que se revela capaz de moderar seus apetites e paixões, de não se deixar levrar pelos extremos. É também aquele que ama seus semelhantes, que ignora todas as diferenças entre os povos e considera seu irmão cada pessoa que vive no planeta. Não é, portanto, o imoderado, o intemperante, aquele que se abandona aos prazeres, à violência e ao desprezo de seus iguais.

A todo instante, hoje, lemos notícias de pessoas que faleceram precocemente por causa de abuso de álcool, uso de drogas e prática de violência; aumentam os casos de mortes desse tipo em trotes, que as universidades do país inteiro proibiram em seus câmpus mas são realizados em algumas repúblicas e em festas que imitam imbecilmente filmes estrangeiros de quinta categoria. Crendo-se muito livres e senhores de si, os pobres jovens acabam sendo vítimas ingênuas de maus modelos e incapazes de autocrítica.

Ante fatos como os apontados, o blogueiro pensa no que desenhou e disse aquela menina e conclui que não será em meio a tanta intemperança, a tanta falta de moderação, de bons princípios e costumes que será construído o sonhado mundo melhor.

É preciso mudar, é preciso fazer com que o mundo se transforme no caminho das novas gerações em um palco de alegrias, de satisfações, um mundo de temperança, de amor, de dignidade, de solidariedade.

Pense nisso. E pense que essa transformação começa pelo indivíduo e se consumará somente no dia em que todos julgarem e agirem do mesmo modo, visando ao bem de cada um e à felicidade de todos. Precisamos tornar realidade aquele mundo melhor sonhado pelas meninas e meninos de sete anos.

 

Estudo em grupo: uma boa!

February 26th, 2015

Algum tempo atrás o blogueiro estava numa praça muito arborizada, passeando com seus familiares, quando observou um grupo de jovens espalhados por um gramado, com apostilas e livros às mãos, conversando alegremente. Curioso, aproximou-se e ficou a ouvir o que falavam. Estavam estudando de uma forma descontraída, conversando, questionando-se e desafiando-se mutuamente para ver quem sabia melhor isto ou aquilo. E sempre, como disse, na maior alegria.

O blogueiro não resistiu à curiosidade e foi conversar com eles, perguntando se estavam estudando para as provas. Resposta negativa e positiva: não para as provas, pois já haviam terminado o ensino médio, mas para os vestibulares. Todos haviam feito no ano anterior os vestibulares sem conseguir aprovação.

Na verdade, estavam fazendo um curso pré-vestibular e tinham decidido estudar em conjunto umas três ou quatro vezes por semana. Mas estudar descontraidamente, disseram, sem aquela neura de querer aprender tudo de uma vez. No começo, eram dois, que foram aumentando e, naquele momento, haviam chegado a seis, dois rapazes e quatro garotas. Não havia nem sequer namoro envolvido naquela iniciativa, mas tão somente a necessidade de estudar e a certeza de que, em grupo, conseguiam resolver muitas dúvidas para as quais não encontravam soluções nem no cursinho.

O blogueiro resolveu deixá-los em paz. Agradeceu pelas informações, dadas em tom descontraído, quase afetuoso, e voltou para o passeio com seus familiares. Ficou, porém, o dia inteiro pensando naquele encontro e naquele jeito de estudar, que era uma das formas de aqueles estudantes aumentarem seus conhecimentos e dirimirem suas dúvidas. Realmente, o estudo em grupo que faziam não era algo milagroso, mas, simplesmente, um dos modos de melhorar os conhecimentos. Valia? Sim, valia muito!

Muitas vezes, uma das coisas mais aborrecidas dos estudos é a solidão em que cada candidato se encontra, fechado em seu quarto, escarafunchando livros e apostilas em busca de soluções, ou percorrendo sites com o mesmo objetivo. Mas nem as apostilas, nem os sites o tiram daquela sensação de solidão que volta e meia o apanha e insufla em seu espírito sensações pessimistas: Ai! que vontade de conversar com alguém sobre o que estou sentindo! Não é esse tipo de indagação interior que fazemos muitas vezes em nossas vidas em momentos de solidão meditativa?

Pois o estudo em equipe, na praça ou em qualquer outro local disponível, serve admiravelmente para cada candidato se livrar das sensações de pessimismo e desânimo. É uma mistura de estudo, reflexão, raciocínio, ponderação, brincadeira, sorrisos aliviados e, por vezes, gargalhadas. No meio de tudo, o conhecimento aumentando pela troca de conceitos, exemplos, experiências.

Nada mais natural e produtivo esse sistema, portanto. Somos nós, seres humanos, essencialmente sociais, não vivemos sozinhos, não vencemos sozinhos, não perdemos sozinhos. Precisamos sempre de outras pessoas ao nosso lado para dividir alegrias e tristezas. Há momentos, evidentemente, em que cada um de nós precisa estar sozinho para recarregar as baterias. Na maior parte do tempo, porém, vivemos junto com os outros, uns ao lado dos outros, em sociedade, e as ânsias de uns são as mesmas ânsias de outros.

Dedicar parte do tempo, assim, para o estudo com outros colegas, se revela um instrumento muito bom no processo de chegada aos vestibulares. E, por vezes, uma questão que o grupo focalizou e resolveu, entre risos e piadinhas, se torna exatamente aquela que nos trará a aprovação.

Percebeu? Quer no estudo, quer no trabalho, não se isole, não pense que conseguirá resolver tudo sozinho. O super-homem é apenas uma velha lenda, transformada em histórias em quadrinhos e filmes. Você não é, eu não sou, ninguém é. Somos todos seres sociais, interdependentes. A vitória e a felicidade não pertencem a uma só pessoa, mesmo que a disputa seja de um cá, outro lá. Um piloto que vence uma prova de Fórmula 1, não é um herói solitário, é um membro ativo e importante de toda uma equipe que trabalhou para que ele pudesse, em dado momento, vencer em nome de toda a equipe. O grande sucesso e enorme desenvolvimento do futebol no mundo talvez se deva exatamente a isso, ao fato de ser um esporte coletivo, em que alegrias e tristezas são sempre divididas entre onze jogadores titulares e seus reservas, além de técnico, médico e todos os que constituem a infraestrutura da equipe.

O blogueiro volta e meia relembra aqueles jovens e torce para que todos tenham conseguido aprovação nos exames que prestaram.

Pense também nisso e, quem sabe? comece a organizar sua equipe para algumas sessões semanais de estudo. Talvez seja isso mesmo que lhe esteja faltando para dar o sprint rumo à vitória final. Valeu?

 

Um mito sobre o vestibular

February 25th, 2015

Como em todas as atividades humanas, os vestibulares também apresentam seus mitos, ou seja, representações de fatos exagerados pela imaginação das pessoas, particularmente dos estudantes que começam a vislumbrar no horizonte de suas vidas tais exames. Na verdade, trata-se de ideias falsas, sem correspondentes objetivos com fatos reais, o que as aproxima um tanto das chamadas superstições, que também resultam de interpretações subjetivas da realidade.

Um desses mitos dos vestibulares diz respeito à estratégia que alguns estudantes estabelecem para prestar as provas: sabendo que não dominam — e não dominam, muitas vezes, porque não gostam — certas disciplinas, tratam de “dar tudo” o que podem nas disciplinas em que encontram mais facilidade, acreditando que uma nota mais alta nestas “compense” as notas baixas em outras. Puro mito e, por isso mesmo, fonte de enganos e aborrecimentos, pois nada garante objetivamente que essa “compensação” vá realmente ocorrer. O mais provável é justamente o contrário, pois esse conceito de “dominar” ou “não dominar” consiste num julgamento do próprio candidato. Para quebrar o mito e colocar a questão no plano real, a atitude do estudante tem de ser alterada radicalmente: deve estudar muito as disciplinas em que costuma ir mal, porque seu calcanhar de Aquiles mora justamente nelas. É, mas eu não gosto delas! dirá um estudante. Pois aprenda a gostar, que aprenderá a render muito mais. Entenda que o vestibular não é apenas um mero concurso para a obtenção de vagas, mas uma forma de avaliação para verificar se o candidato está inteiramente (e não pela metade) preparado para a vida acadêmica. Este blogueiro conheceu uma estudante que nunca gostara muito de Matemática, Física e Estatística, procurando apenas quebrar o galho nessas provas. Acabou sendo aprovada, depois de passar maus momentos com as três disciplinas mencionadas, que julgou nunca precisaria num curso de Biologia. Pois precisou. E demais. E teve de aprender com muito esforço durante o curso o que já poderia ter aprendido muito antes. O interessante foi que opinou, quando formada, que aprendera também a gostar dessas disciplinas, pois percebera como eram importantes e como era importante a interdisciplinaridade em qualquer curso universitário.

Outro exemplo, de maior alcance, diz respeito à Informática. É claro que os jovens adoram seus computadores, seus celulares, seus tablets. Nem todos, porém, fazem qualquer esforço para ter razoável habilitação em programas de redação de textos, de elaboração de planilhas e gráficos, como também de manipulação de imagens e produção de vídeos. Os programas estão ali, pedindo para ser utilizados, mas muitos usuários se interessam apenas pelo superficial, tornam-se exímios em games, em redes sociais, em trocas de todos os tipos de mensagens. No curso superior, todavia, quando recebem tarefas que requerem a habilitação em programas como os mencionados, têm de começar do zero a aprendizagem dos softwares fundamentais e de outros utilizados nas diferentes disciplinas.

É isso aí. Cuidado com os mitos. Eles podem parecer verdades, mas nem meia verdades são. Pior que isso, geram obstáculos futuros construídos pelo próprio indivíduo, com base em manias do tipo gosto x não gosto ou numa falsa noção de praticidade baseada na desinformação: para que estudar isso, para que aprender aquilo,  se não vou precisar mesmo?

Puro engano. Você não imagina como vai precisar!

 

Mais palavras, mais ideias, mais texto!

February 12th, 2015

Certo aluno, numa prova de redação, olhou desanimado para a folha em branco em que não havia conseguido escrever nada e declarou ao professor:

Professor, eu não tenho ideia!

O professor não deixou por menos e respondeu: Como? Você diz que não tem ideia? Está enganado, meu amigo! Você acaba de ter uma ideia, que é a ideia de não ter ideia!

Este blogueiro garante que o caso acima é verídico, ocorreu mesmo em sala de aula. E, por sua veridicidade (palavra bonita, não?), pode nos servir hoje para abordar um problema sério que muitos candidatos enfrentam ao escrever. Vamos colocar assim: você sabe falar, sabe ler, sabe escrever. E vive reclamando que, em muitas redações que faz, não tem ideias, e por isso não consegue escrever direito e tira notas baixas. Eu não tenho ideia ou ideias é, de fato, uma das explicações ou justificativas mais comuns de alunos que não conseguem fazer uma boa redação. Teriam razão ao dizer isso? É claro que não teriam e não têm. Raciocinemos: se alguém sabe escrever bem e faz uma redação ruim, ou não sabe escrever bem, ou não está bem informado sobre o tema. Justamente por isso, em vestibulares, são dados textos auxiliares para possibilitar ao candidato um melhor conhecimento do tema. O problema é que, se o candidato não conhecia nada do tema, informações de última hora talvez não sejam por ele muito bem assimiladas. Você já ouviu um ditado popular que bem descreve essa situação: marmelada na hora da morte mata.

Ora, pressupondo que o candidato saiba escrever razoavelmente e conheça bem o tema, conclui-se que só pode fazer uma redação pelo menos razoável, não é verdade? Então, neste caso, a justificativa não tenho ideia não pode ser considerada válida. Ou o candidato não conhece tão bem o tema como imagina.

O que é conhecer bem um tema, afinal? Eis a questão. Muitos consideram que conhecer bem um tema é ter feito leituras a respeito. Esta é uma meia verdade. Onde estaria a outra metade?  Em algo em que muitos não prestam a adequada atenção: o vocabulário! Sim, é isso mesmo, todo tema tem seu vocabulário próprio, que transporta as noções e os conceitos com ele relacionados. Por exemplo, o tema da escravidão e do preconceito racial, que volta e meia retorna nas propostas de redação deste ou daquele vestibular. Parece à primeira vista que é muito fácil escrever uma redação sobre o preconceito racial em nosso país, oriundo do período da escravatura. Não é tanto assim. É preciso levar em conta que o Brasil já teve um sistema escravagista, em que índios e negros eram submetidos ao cativeiro e a duros trabalhos, e que muitos efeitos desse sistema, apesar da abolição, persistem até hoje, particularmente o preconceito. Além disso, há um vocabulário próprio e alguns conceitos básicos que o redator não pode deixar de dominar: preconceito racial, discriminação racial, segregação racial, preconceituoso, segregacionista, escravagista, escravismo, escravização, escravidão, cativeiro, servidão, tráfico negreiro, navio negreiro, senzala, escravizar, acorrentar, agrilhoar, mergulhar no cativeiro, escravo, cativo, nascido de ventre livre, libertação, livramento, alforria, abolição, abolicionismo, 13 de maio, lei áurea, abolicionista, antiescravista, Isabel, a Redentora, libertar, dar liberdade, restituir à liberdade, grilhões, quebrar os grilhões, redimir, remir, alforriar, sacudir o jugo, carta de alforria, forro, liberto, direitos humanos, direitos do homem, igualdade, fraternidade, solidariedade, etc., etc. Além disso, é preciso conhecer também o fato de não existirem raças humanas, mas a raça humana, que é uma só: diferenças físicas como cor da pele, formato de partes do corpo não são suficientes para caracterizar diferentes raças. Quantos conceitos! Quantas noções! Quantos fatos! E veja que foi apresentado um vocabulário apenas resumido, que poderia ser muito aumentado.

Você percebeu a importância do vocabulário para o domínio de um tema. Sem esse vocabulário, pode-se escrever até uma redação razoável, mas que tangenciará alguns aspectos que são fundamentais ao tema. Pense agora em outros temas, como a poluição ambiental, a corrupção na política e nos negócios, o futuro do planeta, as guerras no mundo moderno, as relações entre os povos, etc., etc. Preparar-se para uma redação, deste modo, não é apenas ler algo sobre ele, mas atentar para os conceitos que o envolvem, para os vocábulos que transportam as suas ideias e para as relações que esse tema apresenta com outro ou outros, todas elas, evidentemente, mediadas pelo vocabulário.

Quer um conselho a esse respeito? Nunca deixe de consultar o dicionário ao ler um texto e encontrar palavras cujo sentido não conheça. É claro que o contexto pode permitir que compreendamos superficialmente o sentido dessas palavras, mas na hora de empregá-las num texto, como diz o povo: o bicho pega! A melhor maneira de dominar o vocabulário de um tema é esta: para cada palavra cujo significado dê trabalho à leitura, um passeio por um ou mais dicionários é o melhor remédio. Você sairá desse passeio dominando a palavra e o conceito que ela transporta. O dicionário, além disso, fornece frequentemente sinônimos que se tornam úteis, numa espécie de jogo do tipo palavra puxa palavra. Na hora de escrever, não terá dificuldade nem de usar a palavra, nem de usar os seus sinônimos. Em revistas e na mídia em geral você pode encontrar seções do tipo enriqueça seu vocabulário, com relações de palavras e seus possíveis sentidos. Você não gosta disso, nem tampouco o blogueiro, porque, se for para ficar lendo relações de palavras e seus sentidos é melhor apanhar o dicionário e ler uma página por dia. Nada disso funciona. O melhor, mesmo, é procurar o sentido da palavra no momento em que ela surge num texto que estamos lendo; fixamos, assim, muito mais eficientemente esse conhecimento. Cansativo? Nada disso! Cansativo era no passado, antes da internet e dos dicionários online. Hoje, com um ou dois cliques você chega até a palavra e suas acepções.

Valeu o conselho? Então não esqueça: um bom escritor tem de ter necessariamente um bom vocabulário para expressar suas ideias. Com um vocabulário pobre, o que expressaria? Procure ser um bom escritor e todas as provas e portas se abrirão para você!