Primeira fase, segunda fase – não é fase demais?!

November 15th, 2017

Você com certeza já tentou imaginar a razão por que alguns vestibulares, como o da Unesp, se realizam em duas fases, uma com questões objetivas, outra com questões discursivas e redação. Não seriam fases demais? Não seria melhor fazer tudo numa fase só?

À primeira vista, podemos até pensar que sim. Na verdade, porém, basta um pouco de reflexão para perceber que andam certos os principais vestibulares do país ao dividir as provas em duas fases distintas, ambas classificatórias. Por quê? Por muitas razões, que o Blogueiro gosta de comentar. A primeira delas é o grande número de candidatos, que complicaria e encareceria a realização numa fase só. Imagine quantos profissionais seriam necessários para uma banca de correção de redações e outra para a correção de questões discursivas de cento e tantos mil candidatos! O encarecimento em virtude do aumento brutal do número de profissionais seria repassado, neste sentido, para o valor das taxas de inscrição. Nada recomendável, não é?

Mas as justificativas não ficam por aí. Imagine você, em segundo lugar, que fazer tudo numa fase só aumentaria o número de questões e do período de realização da prova. Se quatro horas já são difíceis de enfrentar, imagine uma prova que durasse cinco ou seis horas. Também nada recomendável, não é?

Em terceiro lugar, imagine que, mantido o período da prova em quatro horas, seria muito complicado abranger todo o programa das disciplinas. Uma das consequências seria uma prova com menor poder de avaliação. A outra, você bem sabe, seria o aumento do número de reclamações sobre o horizonte de avaliação da prova. Em quarto lugar, é preciso ter em mente que na primeira fase não haveria período de tempo adequado para uma boa redação, criada e revisada.

Bastam esses quatro aspectos, portanto, para demonstrar que um vestibular em duas fases é o mais indicado. Na primeira, com uma prova abrangente formada por questões objetivas, ocorre a seleção inicial, tendo como parâmetro o número de vagas disponíveis. Na segunda, os melhores da primeira fase passam por uma nova triagem, com vistas a elaborar a relação dos que comprovam mais condições de obter as vagas. Além do mais, sendo uma fase formada por questões objetivas, outra por questões discursivas e uma redação, o perfil de competência do candidato é estabelecido com muito maior precisão.

Se tudo ficou bem claro, as perguntas colocadas no primeiro parágrafo deste artigo estão perfeitamente respondidas: duas fases representam o ideal. E você se sente plenamente convencido de que tem muito mais chances com um vestibular assim estruturado e realizado. Boas provas!

 

 

Falar bem ou falar mal, saiba o que fala!

November 10th, 2017

No artigo anterior, o Blogueiro focalizou um assunto muito importante, que andou e anda preocupando os candidatos aos exames vestibulares: o receio de ver recusadas redações que, por exemplo, argumentem contra a ética vigente e os próprios fundamentos da democracia. E assim também outros posicionamentos considerados abomináveis pela sociedade atual. A questão estava pendente: deveriam receber nota zero redações com tais teores? Nas bancas de que participou, o Blogueiro sempre achou que não, argumentando que não se corrigem opiniões, mas redações, já porque pode haver, por exemplo, bons textos que opinem contra a democracia, já porque pode haver maus textos que a defendam

No final da semana, uma decisão da presidente do Supremo Tribunal Federal, ministra Cármen Lúcia Antunes Rocha, sobre essa matéria, pôs fim a todas as especulações e preocupações a respeito, já que reafirmou o princípio constitucional da livre manifestação de opinião. A partir dessa decisão do STF, nenhuma redação de vestibular ou de concurso público pode ser zerada por defender argumentos que se oponham aos fundamentos democráticos vigentes. Em conclusão: mesmo que defenda uma tese abominada pela sociedade democrática, a redação tem de ser corrigida como texto, não como opinião.

Não poderia ser de outro modo: o sistema democrático se baseia, por princípio e natureza, no respeito às liberdades individuais, entre as quais a liberdade de pensar e opinar. Os políticos costumam dizer e repetir à saciedade que a democracia se fundamenta na convivência de contrários. Nada mais verdadeiro: no exato instante em que uma opinião, por mais extrema e abominável que seja, é censurada, não estamos mais num sistema democrático, mas num regime de força, numa ditadura.

Beleza! exclamará algum candidato e concluirá: Então vou poder dizer o diabo em minha redação sem que a banca corretora possa zerá-la. Não é bem assim, retrucará o Blogueiro, lembrando o dito popular: aí é que a porca torce o rabo. O candidato deve observar que, ao expressar sua opinião, pode estar infringindo em parte o regulamento da correção no que diz respeito ao desenvolvimento do tema. Nesse caso, bem como noutros semelhantes, sua redação não receberá zero, mas, em virtude da própria proposta, poderá ser penalizada com a perda de alguns pontinhos por não atender a um requisito. E ninguém quer saber de perder alguns pontinhos em vestibular, em que uma vaga pode ser decidida por minúsculas frações de pontos.

Por tudo isso, o Blogueiro reafirma o que disse no texto postado anteriormente, sugerindo ao candidato avalie muito bem a proposta de redação e desenvolva seu texto de acordo com esses parâmetros. De fato, embora não seja proibido, ainda mais após a decisão do STF, a redação de vestibular não é o local ideal para defender ideias extremamente contrárias ao status quo. É o local, porém, para o candidato demonstrar que é capaz de produzir um ótimo texto ao explorar o tema proposto. O maior valor, portanto, está no texto, e não na natureza da opinião.

É claro, todavia, que o Blogueiro apenas está dando um conselho brotado de sua experiência, já que também há certo tempo prestou seu vestibular. O candidato poderá ter raciocínio diverso: Sei bem que minha redação pode perder alguns pontos, mas vou manifestar minha opinião livremente e fazer um texto chocante. E, como escrevo muito bem, posso convencer a banca a não me penalizar de nenhum modo. Neste caso, o Blogueiro lhe deseja boa sorte. A conclusão de outros candidatos poderá ser muito diferente: Sou capaz de defender muito bem qualquer ponto de vista do tema proposto. Vou escolher o que me permita fazer um texto de melhor e maior qualidade, para receber o máximo possível de pontos. Esta é uma atitude muito mais ponderada e mais em acordo com os reais interesses dos candidatos em obterem suas vagas nos cursos pretendidos.

O assunto, portanto, está agora resolvido, sendo responsabilidade do próprio candidato o caminho a seguir: arriscar-se, confiando no seu taco, como se costuma dizer, ou escolher um trajeto mais seguro, menos sujeito a surpresas. Pense bem a respeito e tome sua decisão de acordo com sua própria personalidade e interesses.

 

 

Sua redação x sua opinião

November 1st, 2017

Preste muita atenção a este conselho nascido da experiência de um velho professor: na vida, nem sempre vale o que é, mas o que tem de ser.

Por que o Blogueiro está se valendo desse princípio? Porque está sendo muito discutido, nos meios de comunicação, o problema das opiniões dos vestibulandos em suas redações. E o tema é a aceitação ou não de opiniões dos candidatos que contrariem a ética e o estado democrático, só para citar dois dos pontos considerados nevrálgicos. Em resumo: tem o vestibulando e qualquer candidato a concursos o direito de defender, em sua redação, opiniões opostas a esses pontos? Trata-se de uma questão que, como diz o povo, dá muito pano pra mangas.

Algumas pessoas argumentam que nossa Carta Magna, a Constituição brasileira, estabelece a liberdade de opinião. É verdade. Todos temos o direito de escolher nossas opiniões e manifestá-las, mesmo que contrariem o status quo, vale dizer, o que se pensa e se defende comumente no estado de direito democrático. Aí é que reside o problema verdadeiro: mesmo que tenhamos o direito de defender certos pontos de vista que o senso comum abomina como antiéticos e antidemocráticos, será aconselhável fazê-lo em todas as situações? Claríssimo que não. Nossa vida é uma sequência de situações, e em cada uma delas nossas atitudes nem sempre podem ser as mesmas: dependem do que esteja em jogo em cada caso.

Alguém poderia até dizer: É, mas a Constituição brasileira me dá o direito de defender meus pontos de vista. Agora o Blogueiro chega ao ponto. É a redação de concurso público ou de vestibular o meio adequado para a defesa de pontos de vista extremos, contrários, por exemplo, à igualdade de direitos no que se refere a credo religioso, a escolhas sexuais e opções políticas? Não é. Qualquer de nós pode ter suas opiniões, por mais absurdas que sejam, mas nem todo meio e nem todo momento serão adequados para defendê-las. E a redação de vestibular não é seguramente esse meio, por muitas razões, inclusive a mais importante: obter o máximo possível em termos de pontuação.

Se o candidato sabe, deste modo, que em determinado vestibular haverá perda de pontos em caso de opiniões que contrariem os princípios éticos vigentes, deverá ter a perspicácia de conduzir sua argumentação sem correr esse risco. Para falar a verdade, o melhor mesmo será assumir tal atitude em qualquer vestibular ou concurso que venha a prestar. Com isso, um possível perigo será 100% neutralizado, podendo o candidato, em seu texto, cuidar de outros aspectos que possam levá-lo a uma pontuação maior.

Conclusão: do mesmo modo que, para não ser penalizado na nota, o candidato procura respeitar a ortografia, os princípios gramaticais, a coesão textual, deve tomar todos os cuidados para evitar que o conteúdo de seu texto possa ser penalizado pela adoção de posturas negadas e até combatidas pela sociedade atual.

Não se trata, portanto, de uma questão de direitos, mas de postura realista e de discernimento: nem sempre vale o que é em todas as situações, mas o que deve ser em situações determinadas. Valeu a observação?

 

 

Evasão universitária: algo para você pensar

October 27th, 2017

Você por certo sabe o que é evasão escolar: é o nome que se dá ao fato de estudantes que iniciam cursos, em qualquer nível, desistirem antes de formar-se, quer por necessidade, quer por decisão pessoal. No caso dos ensinos fundamental e médio, a evasão escolar é muito preocupante, pois significa que crianças e jovens crescerão sem a formação escolar necessária para a ascensão social e profissional em suas vidas.

A evasão, porém, atinge igualmente o ensino superior: jovens que conseguiram aprovação em vestibulares para os tão sonhados cursos acabam desistindo, muitas vezes ainda nos primeiros anos, de modo que o número dos que completam os cursos acaba sendo inferior — em alguns casos bem inferior — aos que iniciaram.

Mas afinal, pensará você, o que é que eu tenho a ver com isso, senhor Blogueiro, se sou apenas um candidato ainda? Na verdade, esse assunto deve interessá-lo, e muito, como base para suas reflexões sobre o que pretende ao prestar o vestibular. Pense bem: por que será que o índice de evasão universitária, mesmo nas universidades públicas é tão alto, muitas vezes beirando os 20%? Os estudos a respeito revelam que os estudantes desistentes apontam muitos motivos para abandonar os cursos que iniciaram: falta de conhecimento prévio a respeito do curso escolhido, dificuldade das aulas, pouca diversidade das grades curriculares, falta de didática de alguns professores, falta de segurança nas cidades em que se localizam as unidades universitárias, falta de infraestrutura, falta de apoio sob forma de bolsas para estudantes que necessitam, etc., etc.

Está percebendo agora como esta questão lhe interessa mesmo neste momento? Os motivos apontados devem interessá-lo e muito, pois poderá ocorrer que você se veja, quando na universidade, naquelas condições apontadas. O primeiro motivo, sobretudo, é algo que deve merecer toda a sua atenção. Não basta gostar do curso, estar apaixonado(a) por ele desde pequeno(a). É preciso investigar mais, verificar a grade curricular, ou seja, o conjunto das disciplinas e conteúdos que serão abordados ao longo do curso, para ter uma noção plena do caminho que vai trilhar. Em cursos da área de Exatas, muitas desistências são explicadas pela grande dificuldade de acompanhar as disciplinas da área nos primeiros anos.

O próprio Blogueiro se enganou, anos atrás, quando ingressou no curso de Letras Clássicas. Imaginava que iria formar-se como escritor, que era seu objetivo de vida. Na verdade, os cursos de Letras formam professores, de sorte que o Blogueiro acabou virando um professor. É claro que também se tornou escritor, embora o magistério lhe tenha causado dificuldades para atingir plenamente seu objetivo inicial. Menos mal, porque foi o magistério que sustentou sua vida, já que em nosso país a carreira de escritor não é lá muito bem remunerada.

Percebeu? Obter informações completas sobre o curso que pretende fazer é algo crucial, para evitar problemas futuros que possam levá-lo a desistir. Do mesmo modo, verificar as condições que terá na unidade universitária que ministra o curso é algo também muito importante. Para alguns, um curso numa capital é o mais desejável; para outros, será melhor numa cidade de menor porte; para outros, ainda, o ideal será na próprima cidade em que residem.

Por fim, é bom interessar-se, também, pela leitura de informações sobre os índices de evasão do curso escolhido e das razões apresentadas pelos desistentes. Não é impossível que algumas dessas razões possam fazê-lo alterar a localização do curso escolhido e até mesmo escolher outro curso.

Ficou claro para você? Ingressar numa universidade não é um ato que se limite apenas a prestar provas e receber aprovação. Será preciso, também, muita informação, muita reflexão, muita ponderação até que possa decidir com segurança. Pense nisso.

Informática: o denominador comum!

October 25th, 2017

O Blogueiro conversou ontem com uma estudante universitária que disse ter lido quase tudo do nosso Blogue, quando se preparava para o vestibular. Foram muitos elogios à utilidade dos artigos, particularmente os que abordam os problemas das provas objetiva e discursiva. Sem se revelar, o Blogueiro ficou extremamente feliz, ao perceber que os objetivos do Blogue de auxiliar os candidatos em todos os aspectos possíveis das provas estão sendo atingidos.

Conversa vai, conversa vem, a interlocutora mencionou uma passagem de que o Blogueiro nem se lembrava mais: a questão da Informática nos estudos. Essa referência provocou reflexões que culminaram com o artigo de hoje. Evidentemente, os estudantes contam com celulares, tablets, computadores não apenas para comunicar-se e se divertir, mas também para estudar. Celulares e tablets são, de fato, pequenos computadores de bolso, com os quais se faz quase tudo o que fazem laptops e computadores de mesa. A Informática invadiu nossas vidas. Tomou conta. Aos poucos, estamos até abandonando os livros em papel (as árvores agradecem) e utilizando para leitura os e-readers, que têm a vantagem de ser verdadeiras bibliotecas de bolso.

É claro que essa profusão de aparelhos e o enorme horizonte de comunicação que propiciam tem também seus lados negativos, que não precisam ser abordados neste artigo. O Blogueiro faz questão de enfatizar o aspecto da utilidade desses aparelhinhos em nossa vida particular e profissional. Este é o alerta: se ainda não está totalmente preparado para a utilização de todos os programas e recursos que a Informática coloca em nossas mãos, já é tempo de abrir os olhos. Você está prestes a fazer mais de um vestibular e, por certo, será aprovado em um deles. Então não pode ignorar que hoje, em todas as formas de atividades, a Informática está presente, é o denominador comum. Qualquer que seja o curso que venha a fazer, os computadores e seus programas representarão um dos instrumentos indispensáveis. Assim, na mesma medida em que vislumbra sua formação no curso universitário, tente vislumbrar também o papel que os computadores e programas representarão nas variadas atividades profissionais que você terá. É inimaginável, hoje, por exemplo, qualquer forma de trabalho de formação superior sem a Informática, que acabou se tornando a linguagem das linguagens.

Em inícios dos anos noventa, no século passado, alguns professores universitários eram avessos aos computadores. Hoje, fazendo um trocadilho, é impensável pensar que alguns pensem assim. No mencionado início dos anos noventa, um professor de Arquitetura afirmou a um aluno, com muita convicção, que a prancheta e o lápis jamais seriam substituídos. Pura ilusão. Não demorou muito para os softwares de computador se tornarem uma sofisticada prancheta eletrônica com milhares de recursos. As maquetes se tornaram digitais e as animações passaram a fornecer uma visão das obras projetadas muito mais próxima da realidade. Nem é preciso mencionar outros exemplos que você conhece muito bem, como os milhares de recursos e possibilidades que a Informática tornou possível hoje para a Medicina, as Engenharias, a Agronomia, o Jornalismo, a Publicidade, o Ensino, a Administração, etc., etc., etc.

É isso aí. Na mesma medida em que vai ganhando certeza de que conquistará sua vaga, informe-se também sobre os softwares que serão utilizados ao longo de sua formação nesse curso. Se ainda não sabe utilizar, terá algum tempo para preparar-se até o início das aulas. Se já sabe, procure melhorar ainda mais seu desempenho. Será um modo de ingressar no ensino superior com o pé direito, ou, dito de outro modo, com outra metáfora, muito bem calçado.

 

 

Expressão idiomática: uma faca de dois gumes

October 18th, 2017

Alguém já aconselhou a “enfeitar” seus textos com expressões idiomáticas, quer da língua portuguesa, quer do latim? Ou você mesmo resolveu fazer isso? Então é bom ser cuidadoso. Enfeites mal empregados podem tornar-se atrapalhos, isto quando não revelam ignorância. Um bom exemplo que pessoas experientes nos dão é que só devemos fazer aquilo que revele nossa capacidade, não nossa ingenuidade. Isto em qualquer atividade que tenhamos, seja na escola, seja no trabalho, seja em nossas relações com amigos e familiares. Você por certo já ouviu um narrador de futebol ou vôlei ou basquete dizer de um atleta: tentou enfeitar e se deu mal.

A questão do uso das frases idiomáticas se encaixa na observação acima. É interessante empregá-las em nossos escritos ou até mesmo em nosso discurso oral? Claro que é. Mas empregá-las com cuidado e conhecimento do que estamos realmente dizendo. Se alguns colegas seus lhe disseram que empregar expressões latinas revela conhecimento, entenda isso com muita consciência do que está fazendo. Todas as línguas são ricas em expressões idiomáticas, e isso até dificulta o aprendizado por estrangeiros. Você por certo já se deparou com muitas delas em textos em inglês e pode ter passado dificuldades para entender alguma em prova, quando conseguiu entender. Para um falante de inglês, a mesma coisa ocorre com expressões idiomáticas em português. Imagine um novaiorquino tentando entender uma expressão como confundir alhos com bugalhos. Você mesmo, que fala português, entende?

Complicado, não é? Por isso, muito cuidado ao empregar expressões como esta, se continuar sem entender. Mas, se pesquisar e verificar pelo menos alguma explicação, como por exemplo a do fato de que a bolota, fruto do carvalho, quando descascada para fazer farinha, fica bastante semelhante, visualmente, ao alho, poderá compreender melhor que, confundir alhos com bugalhos significa confundir coisas que podem até ter certas semelhanças, mas são muito diferentes. Percebeu?

Nós assimilamos muitas expressões idiomáticas à medida que vamos aprendendo a falar, desde pequenos, e acabamos empregando todas elas adequadamente, sem problemas. No escrever, porém, é preciso ter bastante precaução para não cometer nenhum deslize que prejudique a compreensão do que estamos declarando.

Os comentários feitos até aqui são reveladores, não são? Então passe a examinar com muita atenção cada expressão idiomática que lhe escapa em seu texto. Se tiver dúvida, a internet atualmente tem sites que focalizam e muito bem essa questão. Verifique, só para exercitar-se, expressões usuais como abraço de tamanduá, levantar acampamento, provar por a+b, descascar um abacaxi, ter um parafuso a menos, engolir  sapos, procurar agulha em palheiro, ser algodão entre cristais, amigo da onça, angu de caroço, etc., etc.

E muito mais cautela você deve ter com o emprego de fraseologia latina. Alguns imaginam que o emprego de expressões típicas latinas revela intelectualidade e conhecimento. Revelará, se você houver estudado latim e souber realmente o significado original da expressão e o que quer atribuir a seu texto. Se não souber, é melhor esquecer. Infelizmente, hoje são poucas as pessoas, como o Blogueiro, que estudaram três ou mais anos de latim nos ensinos fundamental e médio e outro tanto em cursos universitários. Cada expressão originária do latim tem sua história, que adere indissoluvelmente a seu significado, como Jacta est alea ou Alea jacta est. Você talvez já tenha empregado, no sentido de “a sorte está lançada”, como comumente se entende. Alea se refere ao jogo de dados. Mas poderá empregar com muito mais certeza e competência se verificar a história por trás da expressão. Esta foi pronunciada, segundo informa o historiador latino Suetônio, por Júlio César, ao atravessar o rio Rubicão, que separava as províncias das Gálias do território romano. Ao atravessá-lo, César iniciava a guerra civil contra Pompeu, em busca do poder romano, o que veio realmente a acontecer.

Percebeu? Você pode até enriquecer seus textos com expressões como essa ou também mutatis mutandis, deus ex machina, dura lex sed lex, auctoritate legis, in abstracto, etc., etc. E também pode se valer de expressões idiomáticas em outras línguas, como inglês, francês ou espanhol. Tome porém muito cuidado para fazê-lo apropriadamente, de modo a enriquecer seu texto com tons de intelectualidade, e não empobrecê-lo com traços de ingenuidade. Não vá fazer como, segundo reza o foclore futebolístico brasileiro, aquele dirigente de clube que usou, em vez da expressão faca de dois gumes, a por ele mesmo inventada faca de dois legumes!   

 

As quotas: uma universidade justa

October 5th, 2017

Você sabe, é claro, que há muitos anos se desenvolvem as reivindicações de estudantes sobre a necessidade de quotas em todas as universidades. Saiba também que o  Blogueiro sempre foi favorável a essas demandas, por razões inquestionáveis. A principal delas nasce do fato de que, por não ter um índice de investimento tão alto quanto o de escolas particulares, as escolas públicas não conseguiam levar seus alunos a desempenhos suficientes em exames vestibulares, marcados pelo grande predomínio de candidatos egressos de escolas particulares. Se você é ou está se formando agora, sabe muito bem disso.

A solução desse problema não foi fácil. Para o Blogueiro, que prestou seu vestibular ainda sem que houvesse sistema de quotas, a consciência desenvolvida nas universidades públicas a respeito da necessidade de abrir tal sistema foi um processo talvez lento, mas seguro e justo, que atinge hoje seus índices mais elevados. De fato, à medida que o número de universidades públicas aumentou, bem como o número de vagas que foram passando a oferecer, ficava evidente a distorção social nessas ofertas, já que as vagas, particularmente nos cursos mais procurados, eram predominantemente ocupadas por candidatos oriundos de classes mais abastadas, por haverem cursado escolas bem mais estruturadas e cursos preparatórios de alto custo. Poder-se-ia falar em “culpados” dessa distorção? De modo algum. Foi algo que se criou a partir do próprio crescimento populacional, do desenvolvimento do ensino no país e das sucessivas crises que veio enfrentando ao longo do tempo. As reivindicações dos estudantes, neste sentido, foram verdadeiros alertas de que as universidades deveriam criar sistemas em que o problema social do ingresso em seus cursos deveria ser enfrentado e buscadas soluções adequadas. Felizmente, tais soluções acabaram chegando sob a forma de quotas.

Neste panorama, você deve saber que a UNESP representa um dos mais louváveis exemplos. Em primeiro lugar, porque, mesmo antes do sistema de quotas, sempre foi uma universidade com alto índice de egressos da rede pública. Em segundo, porque, percebendo que isso ainda não bastava, foi elaborando e aperfeiçoando a cada vestibular seu Sistema de Reserva de Vagas para Educação Básica Pública, que atinge, nos exames vestibulares deste ano, a quota de 50% de suas vagas em todos os cursos para candidatos oriundos das escolas públicas. Esta é a melhor resposta às reivindicações dos estudantes, que podem disputar suas vagas em condições de igualdade. Neste sentido, pesquisas demonstram que tais candidatos, quando ingressam nas universidades, têm desempenho inteiramente satisfatório, muitas vezes igual ou até superior ao de egressos de escolas particulares.

Repare agora num importante aspecto das quotas que não o meramente estatístico. Elas representam o fato de anularem as perdas de talentos, que os vestibulares sem quotas, do passado, ocasionavam. São, assim, uma grande vitória na luta em busca de uma Universidade mais justa, de um Brasil mais justo, porque é da soma dos talentos de seus jovens que surgirá o país com que todos sonhamos.

 

 

Sinônimos: use e abuse!

September 28th, 2017

Você por certo já fez muitos exercícios com sinônimos, desde o ensino fundamental. Os professores, acertadamente, o levaram a ver que, em vez de repetir desnecessariamente uma mesma palavra, podemos empregar outras que apresentam o mesmo ou quase o mesmo valor no contexto.

Esta é a questão: o mesmo ou quase o mesmo? Uma professora de linguística muito radical ralhou certa vez com o Blogueiro, que havia falado em sinônimos: Sinônimos não existem! disse ela, como quem encontra um menino roubando biscoitos da lata. O Blogueiro ficou ofendido pelo modo da repreensão e, para não deixar por menos, retrucou: Sim, mas nós os empregamos diariamente!

É claro que a professora tinha certa razão: não existem duas palavras com exatamente, 100%, o mesmo significado. Mas o Blogueiro também tinha parte da sua: em nosso uso tanto oral quanto escrito da língua, vivemos substituindo umas palavras por outras, sem que isso cause grandes males à nossa comunicação. Ao contrário, o emprego da sinonímia serve para evitar repetições que, ao fim e ao cabo, tornariam um texto muito fastidioso, de cansativa leitura.

O estudioso luso Rodrigues Lapa, em seu manual de Estilística Portuguesa, chama atenção para o fato de que há, entre os vocábulos que consideramos sinônimos, diferenças de sentido maiores ou menores. Exemplifica ele com a série: belo, lindo, formoso, bonito em exemplos como:

 

O lutador ergueu-se, belo como uma estátua.

Eram duas raparigas, qual delas a mais formosa.

Simples e linda, a noiva saía da igreja.

Laura trazia um bonito vestido de seda azul.

 

Evidentemente, examinando à primeira vista, notamos que entre estas quatro palavras as diferenças de significação podem ser maiores ou menores, particularmente nas frases dadas. Isso significaria que não podem ser usadas como sinônimas? Nada disso. Significa apenas que em determinadas frases ou contextos, podemos usar umas pelas outras, sem grande prejuízo de significação, mas até com ganhos expressivos. O mesmo se pode dizer para outra série, como casa, residência, lar, domicílio, morada, moradia. Cada uma delas tem sua própria característica e até domínio de uso, mas a grande semelhança de sentido permite alterná-las em muitos contextos. Se queremos ressaltar o aspecto afetivo, dizemos: meu lar; se o aspecto particular: minha casa; se o aspecto jurídico: meu domicílio. Essa possibilidade de alternância é provocada por outro aspecto importante da língua: o acúmulo de usos e significados por uma palavra. Observe o exemplo fornecido por Lapa:

 

A cabeça é a parte superior do corpo.

Toda gente o louva: é uma grande cabeça.

Sabia de cabeça todos os versos do poema.

Ele vinha à cabeça de todos os concorrentes.

Essa vila é a cabeça da comarca.

Pagaram dez tostões por cabeça.

Feriu-se na cabeça do dedo.

O cabeça da conspiração foi aprisionado.

Isso não tem pés nem cabeça.

Deu-lhe agora na cabeça fazer versos.

Cada cabeça, cada sentença.

Então perdeu por completo a cabeça.

 

Deu para notar? Em cada frase, a palavra cabeça assume um sentido diferente, demonstrando a riqueza semântica da palavra. Isso ocorre com muitíssimas outras palavras do idioma, o que abre campo imenso para a conquista de expressividade, tal como ocorre com o emprego dos sinônimos.

Os grandes escritores são muito hábeis, de fato, no emprego dos sinônimos, sabendo o que extrair, em  termos expressivos, de cada exemplo. Mire-se no exemplo deles e passe a observar melhor seu texto, evitando repetições desnecessárias, buscando palavras mais adequadas ao contexto de cada frase que usa. Isso ajudará em muito a tornar-se mais que um mero redator, mas o tornará um escritor capaz de produzir soluções criativas. Para começar, em cada um dos doze exemplos de emprego de cabeça, acima fornecidos, busque substituir esta palavra por outra ou por expressão equivalente. Experimente.   

 

 

Vestibular é uma tarefa normal

September 22nd, 2017

Muito se fala sobre o que significa o vestibular em termos pessoais? Para alguns, é um momento ímpar, é o momento de suas vidas. Para outros, é apenas uma tarefa a mais ao longo das muitas que teve e ainda terá. A primeira atitude é bastante emotiva; a segunda, bastante ponderada. Com qual você ficará? É melhor assumir a segunda hipótese, menos dramática que a primeira.

É claro que isso tem muito a ver com sua personalidade, vale dizer, sua maior ou menor propensão a observar os fatos por meio dos filtros da emoção ou da razão. O Blogueiro decidiu focalizar este tema hoje, pelo fato de ter verificado, nas referências que se fazem na rede sobre vestibulares, haver um certo exagero, que pode até ser prejudicial aos vestibulandos.

É claro que cada candidato observa e sente os vestibulares de um modo distinto. O problema é saber se, bem colocado e orientado, pode alterar esse modo de observar e sentir para um nível em que não possa haver prejuízo em seu desempenho. Isso equivale a dizer que todas as atitudes que assumimos sobre os vestibulares têm de fazer também parte de nosso método de estudar e de prestar as provas. Ora, se você é muito emotivo, não pode deixar de preparar-se antecipadamente para assumir o controle, procurando reduzir ao máximo a possibilidade de a emoção atrapalhá-lo no decorrer dos exames. Não deve atrapalhá-lo, aliás, no decorrer de seus próprios estudos. Mude sua visão, passe a considerar os exames como um fato normal, que poderá até se repetir, caso não seja aprovado na primeira vez. Não deve ser considerada anormal a reprovação numa primeira vez. Trata-se de uma ocorrência corriqueira. Claro que é desagradável não ser aprovado, mas a consideração dessa possibilidade não deve ser motivo de qualquer reação emocional antecipada.

O contrário também é verdadeiro: ausência total de emoções pode ser também fator prejudicial, já que implica excessivo desprezo pelos riscos e pelas possibilidades de erro. Prestar vestibulares como quem apenas está se divertindo, fazendo por fazer, levará fatalmente a aumentar os riscos.

O ideal, portanto, é saber equilibrar-se entre a razão e a emoção, de modo a assumir uma atitude tranquila, calma, ponderada. Estar ciente de que vai resolver uma tarefa normal, uma das muitas tarefas que ainda terá de resolver ao longo da vida.

 

 

 

Rimas e repetições: um horror!

September 15th, 2017

O Blogueiro vem insistindo, nos artigos que posta, em aspectos estilísticos da redação. Observa sempre que não basta escrever de acordo com a norma-padrão, nem tampouco conforme as regras de ortografia e de gramática. Escrever vai muito além dessa base, requer cuidados com o estilo de quem cria o texto. Os grandes escritores são justamente aqueles que se distinguem por dominarem um estilo, um modo muito particular e pessoal de elaboração do texto, quer na criação dos períodos, quer na organização destes em parágrafos, quer nas escolhas vocabulares que faz.

Pois você tem também seu modo próprio de escrever, ou seja, seu estilo, que requer cuidados muito especiais e se vai elaborando e enriquecendo ao longo do tempo e de seu hábito de criar textos.

Que quer dizer, afinal, o Blogueiro? Muito simples: que um texto pode estar correto sob diferentes aspectos gramaticais e de coesão textual, mas ainda pode não estar satisfatório sob o ponto de vista estilístico. Observe, abaixo, um exemplo que um velho professor sempre apresentava, ao manifestar-se a seus alunos sobre o assunto:

 

Cruz! Faltou a luz quando eu propus a solução que não reduz a produção.

 

É claro que todos os alunos (o Blogueiro entre eles) riam bastante, em função do exagero da frase apresentada, que está cheia de rimas. Alguns alunos diziam que jamais diriam ou escreveriam uma frase como aquela. Será? Na verdade, o que o velho professor queria alertar era simples: o perigo que a língua portuguesa apresenta em função do grande número de palavras terminadas em –uz, -us e em -ão. Essa profusão de vocábulos nos faz cair muitas vezes em armadilhas como a que gerou o exemplo apresentado. O português, além disso, possui também numerosas palavras terminadas em –ente, -ida, -ido, -indo, -ando, -endo, etc., etc. Cair na armadilha dos ecos e das rimas, por isso, é muito fácil. Todo o cuidado é pouco para evitar essas repetições que empobrecem estilisticamente nosso texto.

Você poderá dizer que isso não acontece mais hoje. Claríssimo que acontece. O Blogueiro escreveu este artigo exatamente por ter sido provocado pela leitura de notícias de jornais publicadas na rede. Observe os dois exemplos abaixo, encontrados nos últimos dias (algumas palavras foram mudadas, para evitar reclamações):

 

Acompanhou, par e passo, cada passo do andamento dessa operação.

De propriedade do empresário, que também foi denunciado, a indústria foi, segundo o promotor, o canal utilizado para receber e distribuir a propina.

 

Notou? Na primeira frase, o jornalista, para mostrar competência no escrever, se deu ao luxo de empregar a locução par e passo, quando deveria empregar pari passu, expressão latina que significa simultaneamente, a passo igual. E escorregou também ao empregar novamente a palavra passo na sequência, o que criou um eco indesejável. Com um pouco mais de cuidado, perceberia que poderia substituir pari passu por a passo igual ou por simultaneamente, ao mesmo tempo. Ou então deixar pari passu e substituir cada passo por cada fase.

Já na segunda frase, temos a repetição indesejável e desnecessária da forma verbal foi, quando seria muito fácil substituir que também foi denunciado por também denunciado, o que deixaria até mais leve a sequência. E assim poderiam ser feitas outras modificações para evitar o eco entre as duas formas verbais. Note também a rima entre denunciado e utilizado, que poderia ser evitada com a substituição de uma dessas duas formas por outra com diferente terminação.

Pois é. O Blogueiro tem certeza de que você entendeu direitinho os recados: primeiro, evitar repetições desnecessárias, que geram ecos e rimas em seu texto; segundo, não tentar demonstrar competência no emprego de certas expressões, particularmente de origem latina, se não tem plena certeza do que está fazendo.

Conclusão: ter estilo não significa exibir-se, mas ser autêntico, fazer com que seu texto reflita exatamente quem você é. Valeu?