A vírgula, amiga ou inimiga?

16 de maio de 2019

Quem vai fazer prova discursiva, para responder a questões e elaborar uma redação, tem de tomar muitas cautelas com relação à vírgula. As regras de pontuação falam em ponto, ponto final, ponto e vírgula, dois pontos, ponto de interrogação, de exclamação, etc., etc.  Mas, de todos, realmente, a vírgula é o mais importante, porque mais empregada e porque define muitos sentidos para um texto.

Sendo o sinal de pontuação mais empregado, evidentemente é aquele com que o estudante deve mais se preocupar, pois as possibilidades de equívocos, por vezes inesperados, são muito fortes e de consequências péssimas. Um velho mas enfático exemplo disso é a historinha, provavelmente folclórica, da comutação de pena de morte pelo presidente de certo país. O condenado seria executado em horas e seu advogado pediu comutação da pena, para ser transformada em perpétua. O presidente se apiedou e, percebendo que as acusações tinham alguns problemas, resolveu transformar a pena em prisão perpétua e telegrafou ao diretor do presídio para não executar o réu. O funcionário que transcreveu o telegrama, porém, colocou uma vírgula onde não era necessária, e a mensagem, que era Não execute, transformou-se em Não, execute. A vírgula, colocada por engano, alterou para o oposto o sentido da frase.

Embora possa se tratar apenas de uma anedota, o exemplo é bem sintomático sobre a importância da vírgula, não é? E acaba se tornando um padrão, pois muitas outras frases podem sofrer idêntico equívoco: Não pense, com vírgula, pode transformar-se em Não, pense; Não corra, com vírgula, torna-se Não, corra. E assim por diante. Este sinalzinho, portanto, apesar de muito pequeno, encerra muitas armadilhas.

Por isso mesmo, dedique atenção às propriedades da vírgula, especialmente àquelas que podem prejudicar ou até inviabilizar uma oração ou um período inteiro de seu texto de redação ou de resposta discursiva. Um erro bastante apontado, criticado e penalizado em correções de concursos e vestibulares é o de colocar a vírgula entre o sujeito e o predicado. Não faça isso jamais. A relação entre o sujeito e o predicado nas orações é indissolúvel, os dois termos são inseparáveis. Dizer, por exemplo, O candidato fez, a prova é um lapso lamentável. O correto será sempre O candidato fez a prova. Tome bastante cuidado para não colocar distraidamente a vírgula nesses casos. O mesmo se pode dizer da relação entre o verbo e seus complementos; são inseparáveis e não admitem vírgula, como por exemplo: Meu amigo comprou, muitos livros. Errado. O certo é Meu amigo comprou muitos livros. Pode surgir a vírgula, porém, em caso de elipse, para não repetir o verbo numa segunda oração: Meu amigo comprou muitos livros; sua esposa, muitas canetas. A vírgula, neste exemplo sinaliza a omissão do verbo.

Muito cuidado também em certas enumerações de termos separados por vírgula. O último deles não deve ser virgulado: Pedro comprou computadores, laptops, tablets e celulares, do importador. Errado. O último termo desse tipo de enumeração não deve ser virgulado, para não ter interrompida a relação da série enumerativa com o verbo. O correto, pois, será: Pedro comprou computadores, laptops, tablets e celulares do importador.

Percebeu? O Blogueiro apontou apenas alguns exemplos da importância e dos riscos da vírgula. Trate de dar uma boa revisada em livros sobre o assunto, para não cometer nenhuma “mancada” em suas provas.

Pois é. A vírgula, pode crer, é uma boa amiga do texto. Mas pode ser uma  terrível inimiga. Boas provas!

 

 

 

Caligrafia: bela escrita

13 de maio de 2019

O Blogueiro já tem explorado esse tema algumas vezes, para alertar os candidatos sobre os perigos de grafar mal.

Antigamente, os professores do ensino fundamental insistiam bastante em exercícios de caligrafia, para que os alunos tivessem letra pelo menos clara e legível. Evidentemente, nem todos os estudantes têm o dom de escrever letras como se desenhassem, que fazem um texto manuscrito perfeito. Alguns têm mesmo letra mais bela que a dos próprios professores.

Houve uma época, porém, sabe-se lá se vinda de fontes oficiais, sabe-se lá se inventada pelos próprios estudantes, em que se dizia que a caligrafia não importa, já que a letra é uma característica da personalidade do próprio indivíduo. Nessa época, passou-se a dar menos importância ao traço das letras que à própria clareza. Isso foi péssimo. Os corretores de concursos e de vestibulares muitas vezes sofrem para “decifrar” as letras dos candidatos. Quando não o conseguem, a questão discursiva fica anulada, zerada. Nenhum corretor tem obrigação de ser especialista em decifrar enigmas, hieróglifos ou escrita cuneiforme.

Num tempo em que corrigiu redações, o Blogueiro se deparou com inúmeros exemplos de escrita tão personalizada, que, no fim, provavelmente, só o próprio candidato podia entender. Ou talvez até nem ele mesmo!

Falando sério, a estória de que a letra revela a personalidade do escritor só tem servido para prejudicar os próprios estudantes que aderem a essa tese bastante duvidosa. Na verdade, tudo o que fazemos revela a nossa personalidade: o modo como andamos, como nos vestimos, como nos comportamos, como seguramos o lápis ou a caneta, etc., etc. A letra é apenas uma parte dessa revelação. De fato, ninguém quer andar como um palhaço, vestir-se com desmazelo, comportar-se de modo ridículo. E ninguém deveria, também, desejar ter uma letra praticamente ilegível. Por quê? Porque ninguém quer reprovar em concurso ou vestibular. Desejamos passar, dar um show com nossas respostas, tirar notas muito altas. Mas isso não será possível se não formos entendidos no que escrevemos.

Se você é frequentemente advertido por seus garranchos, pode ter certeza de que sua letra vai mal. E, se não tomar providências, irá de mal a pior. Está na hora, portanto, de melhorar o curso e o contorno de suas letras, arrendondar o a e o o, botar o pingo nos is e nos jotas, deixar bem nítidos o g e o q, para que não possam ser confundidos, dar contorno adequado ao s final, arrendondar as curvas do m e do n, para que não se confundam com o u, etc., etc., etc. Nesse caminho, não pode haver preguiça. O objetivo final é ser plenamente entendido pelos corretores, para que não possa vir um desconto na média final que lhe levará embora a vaga. Vagas, como mais de uma vez disse o Blogueiro, se decidem por milésimos.

A melhor forma de afirmar sua personalidade é saber demonstrar, com o máximo de clareza, que sabe muito, que estudou bastante para chegar aonde chegou, uma prova muito bem feita, exemplar, elogiável. Busque esse objetivo. Se julgar necessário, faça até exercícios de caligrafia para um melhor desempenho. Pense que, atualmente, caligrafia não corresponde necessariamente a uma escrita bela, mas a uma escrita clara, perfeitamente inteligível à leitura de qualquer pessoa. Pense e execute. Ou espere alguns anos até que a tecnologia crie carteiras onde possa digitar suas provas discursivas, valendo lembrar que, nessa hipótese, você terá de treinar muito para ser um excelente digitador.

 

Cuidados com o verbo haver

8 de maio de 2019

Outro dia um entrevistado na tevê, focalizando a tramitação de um projeto na Câmara Federal, disse ao jornalista: Houveram muitos problemas nessa sessão, mas o projeto acabou sendo aprovado.

Se você não percebeu o erro crasso, preste bem atenção neste artigo.

O verbo haver apresenta muitos significados, o que pode ocasionar diferentes regências verbais. Por isso, é bom tomar cuidado, pois uma dessas regências é a que induz a mais erros, até mesmo de pessoas bem informadas. O Aurélio apresenta informações muito úteis a este respeito. Informa que haver pode ser transitivo direto nos sentidos de ter, possuir, alcançar, obter, conseguir, sentir, experimentar, considerar, julgar, entender. Pode ser também impessoal, nos sentidos de existir, suceder, acontecer, ocorrer, dar-se, realizar-se, efetuar-se, ocorrer, dar-se, fazer. Pode ser transitivo direto e indireto nos sentidos de obter, conseguir, alcançar. Pode ser transobjetivo nos sentidos de ter na conta de, julgar, supor, considerar. Pode ser intransitivo nos sentidos de existir meio de, ser possível. Pode ser pronominal nos sentidos de proceder, portar-se, comportar-se,  entender-se, arranjar-se, avir-se. Além de tudo isso, pode ser um verbo auxiliar: precedendo um particípio, constitui tempos compostos do pretérito. Sem esquecer que haver pode surgir como substantivo, no sentido de “pertences” e também como indicador  da parte do crédito da escrituração contábil. Tudo isso para um verbo só, hem? Observe alguns exemplos:

Naquela cidade hei um grande amigo. (tenho, possuo)

Estudou bastante, mas não houve o resultado que esperava (alcançou, obteve)

Meus colegas houveram grande medo de entrar naquela casa. (sentiram)

Houveram que era risco demasiado investir naquelas ações. (consideraram)

Haverá muitos prêmios nos sorteios daquela festa. (existirão muitos prêmios)

Houve sérios desentendimentos antes de chegarem a um acordo. (ocorreram)

Havia meses que não chovia. (fazia)

Os filhos mais velhos houveram dos pais a licença para ir à Europa (conseguiram)

Todos os policiais o haviam por arruaceiro. (consideravam, tinham na conta de)

Não há mais contê-los. (não existe meio, é possível)

Havia começado o jogo pouco antes de ele chegar. (haver como verbo auxiliar)

É muito significado e muita regência para um verbo só, não é? Pois é. E note que o Blogueiro não deu todos os exemplos fornecidos pelo Aurélio. Convém completar o que diz este artigo com uma visitinha ao dicionário.

Aqui nos interessa apenas um aspecto, porque nos demais provavelmente você não erra. É o caso da frase do entrevistado:

Houveram muitos problemas nessa sessão, mas o projeto acabou sendo aprovado.

Agora você já deve ter percebido que o entrevistado deveria ter dito:

Houve muitos problemas nessa sessão, mas o projeto acabou sendo aprovado.

E por quê? Porque o verbo haver, no sentido em que é empregado na frase, significando “existir”, é impessoal, apresenta-se sempre na terceira pessoa do singular, não importando se o complemento que surge depois está no singular ou no plural. Confira no Aurélio.

Neste artigo, como deve ter notado, você leva dois conselhos: empregar adequadamente o verbo haver, sobretudo quando é impessoal, e perceber que deve consultar usualmente os significados e as regências dos verbos. Aprenderá muito, pode ter certeza, e evitará muitos erros crassos, que poderiam fazê-lo perder alguns décimos ou centésimos de sua nota e, com isso, até deixar escapar sua vaga.

 

 

Existe a dica perfeita?

25 de abril de 2019

Muitos vestibulandos procuram encontrar em livros, apostilas, sites e em professores especializados a tal dica perfeita. Isso existe? Tentativas, sim, mas realidade, não. Quem conseguisse as tais dicas perfeitas para passar a estudantes acabaria ficando rico. Mas, que o Blogueiro saiba, ninguém ainda ficou rico fornecendo tais informações eficientíssimas, simplesmente porque, no caso do estudo para vestibulares e concursos, o valor não reside apenas na dica, mas na relação que o candidato tem com ela.

De fato, não há dois estudantes iguais: o que pode funcionar com um não funciona com outro, porque depende do temperamento, dos conhecimentos acumulados e da experiência de cada um. Isso explica a decepção que tem um estudante ao receber de outro ou de um professor a informação de que em tal livro ou em tal apostila ou em tal site encontrará sugestões perfeitas para aumentar em muito sua capacidade de fazer provas. O estudante, por exemplo, entra no site indicado por um colega e não encontra nada capaz de melhorar seu domínio. Uma decepção total.

Quem procura dicas desse porte, senão perfeitas, pelo menos úteis para o maior domínio dos conteúdos desta ou daquela matéria, tem de levar em conta sua própria base de conhecimentos e seu modo de considerar as provas. Há disciplinas que o candidato detesta e por isso estuda pouco. Qualquer dica tem de passar por esse verdadeiro muro de preconceitos para poder ser aproveitada.

O caso da redação é sintomático. Há sites e sites que prometem aumentar em muito a capacidade redacional do candidato. Parece bom, mas não é tanto assim. O candidato precisa, primeiro, avaliar sua capacidade atual e em que pontos julga que falha e pode melhorar. Precisa, também, verificar sua própria boa vontade em aprender. De que adianta uma dica sugerindo que, para a redação, os conteúdos da atualidade social, política e científica são muito necessários, se o candidato não é chegado à leitura de jornais, revistas e sites da rede que fornecem esses conteúdos e os renovam permanentemente. Redação não é só escrever bem; é escrever bem sobre atualidades, porque os temas solicitados pelos vestibulares diversos se enquadram geralmente nesse campo.

O mesmo vale para as diferentes disciplinas. O candidato tem de abandonar o preconceito do gosto/não gosto e avaliar o quanto sabe, para depois procurar as dicas, não necessariamente para atingir dez, mas para fazê-lo subir patamares de desempenho com relação ao que sabe.

Finalizando, em resposta ao próprio título deste artigo, pode-se dizer que a dica se torna perfeita na medida em que o candidato consegue mobilizá-la para os seus conhecimentos. Pense bastante nisso e estabeleça sua procura de acordo com suas próprias expectativas.

 

 

As questões objetivas são objetivas?

18 de abril de 2019

Você certamente imagina que as chamadas questões objetivas dos exames vestibulares são realmente objetivas, de modo que é só ler o enunciado e procurar a alternativa verdadeira. Não exagere muito nessa forma de considerar. Essa é apenas uma parte da verdade, razão por que pode conduzir a equívocos.

De fato, quando se presta uma prova objetiva, procura-se a alternativa correta. Mas como chegar até ela?

As bancas elaboradoras dos diferentes exames não trabalham com tanta simplicidade. Uma vez estabelecido o enunciado da questão, buscam elas o enunciado da alternativa que preencha todas as condições como resposta adequada. Isso é fato. O problema começa nesse instante: estabelecer a resposta adequada é fácil; difícil é disfarçá-la no meio das outras quatro incorretas. Aí começa a técnica de cada elaborador. Um deles, certa vez, confessou ao Blogueiro que, estabelecida e conferida a alternativa correta, começa o verdadeiro trabalho para não facilitar aos candidatos encontrá-la. Por isso, busca em seguida uma segunda alternativa que seja o máximo parecida com a primeira, mas com um pequeno erro que a torne incorreta. A terceira alternativa pode ser estabelecida por semelhante método, mas com um aumento dos componentes errados, de sorte que possa ser também equiparada à correta. Isso não é fácil de fazer. Já a quarta e a quinta podem conter diferenças maiores, mas de modo a confundir, como se respondessem a outra questão. O que não faz nunca o elaborador é apresentar alternativas inteiramente erradas, que se revelem por si mesmas como tais. Resultado: esse processo de elaboração de questões acaba não sendo tão objetivo assim, dependendo até de certa imaginação do elaborador.

Elaborar, neste sentido, acaba sendo uma técnica e uma arte. Por esta razão, responder terá também elementos de técnica e de arte. Ocorre que, por vezes, o candidato tem uma opinião sobre o que foi indagado bem diferente da opinião do elaborador. Se percebe isso, que faz? Responde com a sua ou com a que percebe na questão. Claríssimo que deve responder de acordo com a questão. O próprio Blogueiro, certa vez, percebeu, ao prestar um concurso, que o elaborador tinha um ponto de vista diferente do seu, que serviu para produzir uma série de questões. Que fez? Acompanhou o elaborador e acertou as questões de toda a série, mesmo sabendo que sua opinião sobre o tema era melhor que a do elaborador. Para atingir essa percepção, evidentemente, não é só contar com a objetividade, mas usar um pouco de imaginação e subjetividade. Sem isso, embarca-se no equívoco.

Percebeu agora a razão do título deste artigo: As questões objetivas são objetivas? Deveriam ser, deveriam ser como matemática, com formulação e resultados exatos. Mas você sabe agora que não ocorre bem assim. Por isso, trate a partir deste momento de encará-las de modo diferente, com maior sutileza. Assim, você penetrará melhor nas intenções do elaborador e no modo como organizou as alternativas. Boas provas!

 

Orações reduzidas: melhor a teoria ou a prática?

15 de abril de 2019

Seus professores muitas vezes ensinaram, no estudo da sintaxe, a diferença entre orações desenvolvidas e orações reduzidas. Não é verdade? É, sim. Mas chega um momento em que você se pergunta: Afinal, para que saber isso?

De fato, a sintaxe, mesmo sendo um dos tópicos dos programas de língua portuguesa dos exames vestibulares, não é hoje em dia lá muito exigida. Uma ou outra questão, e olha lá! Isso quer dizer que seu estudo seja desprezível? Na verdade, não é tão desprezível assim. O próprio ensino tradicional da sintaxe sempre foi um tanto equivocado, privilegiando mais a teoria, puro conhecimento, do que a prática, aprendizado do que pode fazer com que sua capacidade de expressão melhore bastante. O Blogueiro vem insistindo muito neste fato: o ensino de língua portuguesa deve ter como meta principal auxiliar o estudante a aumentar sua capacidade expressiva, tanto em discurso oral, como em redação.

A redação é fundamental nesse caso, pois você será exigido nessa habilitação não apenas em vestibulares e concursos, mas ao longo de toda a sua vida profissional. Em resumo: o principal objetivo do ensino de língua portuguesa na escola é dotar o estudante de capacidade mais que razoável de expressão oral e escrita, porque isso ser-lhe-á exigido ao longo de toda a sua vida como um de seus instrumentos de trabalho.

No caso das chamadas orações reduzidas, que podem ter verbos no gerúndio, no particípio e o infinitivo, opostas às desenvolvidas, saber usar e alternar as duas formas representa um ganho de poder expressivo muito bom. Examine estes exemplos fornecidos por João Barbosa de Moraes:

Comprei um terreno tendo quinze metros de frente e vinte de fundo.

Não sairei daqui sem ver a partida do navio.

Ninguém afirmou termos vendido a geladeira.

Rompidos os cordões de isolamento, o povo penetrou na praça.

Viajando pela Europa, não foi a Paris.

Sendo aprovado, estarei, consequentemente, nomeado.

É necessário considerares teus chefes com respeito e amizade.

Trabalhou toda a noite, crente de ser o seu trabalho escolhido pelo júri.

Comendo demais ao almoço, achou-se, pouco depois, bastante mal.

O artista, aclamado pela assistência vultosa do espetáculo, sentiu-se comovido.

 

Na verdade, é menos importante classificar as orações reduzidas que aparecem nesses períodos do que saber alterná-las, para escolher a melhor forma para cada caso. Observe, a este respeito, como ficariam com as orações desenvolvidas:

 

Comprei um terreno que tem quinze metros de frente e vinte de fundo.

Não sairei daqui sem que veja a partida do navio.

Ninguém afirmou que tínhamos vendido a geladeira.

Logo que rompeu os cordões de isolamento, o povo penetrou na praça.

Quando viajou pela Europa, não foi a Paris.

É necessário que consideres teus chefes com respeito e amizade.

Trabalhou toda a noite, crente de que seria o seu trabalho escolhido pelo júri.

Como comeu demais ao almoço, achou-se, pouco depois, bastante mal.

O artista, depois que foi aclamado pela assistência vultosa do espetáculo, sentiu-se comovido.

 

Compreendeu? A língua portuguesa não é algo árido, com poucas soluções. Ao contrário, oferece ao falante e ao escritores inúmeras possibilidades de escolha pela forma que seja mais adequada e cabível ao período que está criando.

Pense nisso e tome amostras de qualquer texto de livro ou jornal, verificando os dois tipos de orações e fazendo as conversões para uma ou outra forma. Será um ótimo exercício para melhorar seu domínio de discurso.

 

 

Ausências mais expressivas que presenças

4 de abril de 2019

O estudioso João Batista de Moraes, em seu útil livro Para as classes de português, apresenta-nos exemplos excelentes de períodos em que a omissão de certos elementos torna o significado das frases mais expressivo do que o seria com a sua presença. É o caso da omissão, em certas passagens, da palavra que. Observe com atenção os exemplos que Moraes fornece e julgue por si mesmo. Em primeiro lugar as frases e períodos com a presença de que:

 

Pediu-me que te apresentasse suas escusas, visto que não podia comparecer à festividade.

Imploravam-lhe a as pobres crianças chorosas e amedrontadas que não mais fizesse sofrer aquela infeliz criatura.

Determino-te, a fim de que se evitem novos prejuízos, que tenhas cuidado daqui para o futuro.

Posto que não achasse já nenhum conhecido antigo, Nóbrega tinha medo de tornar ao bairro.

Tal fato sucedeu mais ou menos comigo, em Paris, se bem que de maneira menos interessante.

O consórcio realizar-se-á no mês próximo futuro, dado que não mais surjam contrariedades ou impedimentos como das outras vezes.

 

São períodos perfeitamente corretos, não cabendo qualquer reparo de ordem gramatical. Todavia, observe como, omitindo-se que em certos pontos e promovendo-se em alguns casos as alterações necessárias, tornam-se bem mais expressivos:

Pediu-me te apresentasse suas escusas, visto não poder comparecer à festividade.

Imploravam-lhe as pobres crianças chorosas e amedrontadas não mais fizesse sofrer aquela infeliz criatura.

Determino-te, a fim de se evitarem novos prejuízos, tenhas cuidado daqui para o futuro.

Posto não achasse já nenhum conhecido antigo, Nóbrega tinha medo de tornar ao bairro.

Tal fato sucedeu mais ou menos comigo, em Paris, se bem de maneira menos interessante.

O consórcio realizar-se-á no mês próximo futuro, dado não mais surjam contrariedades ou impedimentos como das outras vezes.

 

Observou bem as alterações? Que achou? Se você não se sente muito confortável em fazê-las em seus textos, não é preciso. Deixe-as com a presença do que. Mas se é daqueles que pretende sempre tornar mais formal, culto e expressivo seu estilo, comece a praticar desde já, para acostumar-se.

Omitir, portanto, é muitas vezes ganhar vigor e elegância. Bons escritores se servem com naturalidade desse recurso, muitas vezes para evitar a repetição de muitos quês, que deixam as frases um tanto pesadas e monótonas.

 

Armadilhas ortográficas

29 de março de 2019

É claro que você conhece ortografia, de tanto os professores dos ensinos fundamental e médio insistirem e repetirem, corrigindo sem piedade seus erros. Graças a essa “impiedade” sua ortografia é bastante razoável, a ponto de deixá-lo tranquilo para prestar as provas.

O problema não é, portanto, não saber, de modo geral, escrever com ortografia aceitável. Nosso Sistema Ortográfico, porém, muito amarrado nas antigas grafias, desde o grego e o latim, sem falar nas palavras importadas de línguas estrangeiras, acaba criando numerosas armadilhas, nas quais, sem querer, caímos vez por outra. Algumas pessoas caem sempre, por assumir como corretas grafias geradas por falsas semelhanças.

Neste começo de preparação para os vestibulares deste ano, portanto, é bom começar verificando se você já caiu algumas vezes ou sempre cai nas arapucas do sistema. O Blogueiro tem focalizado bastante esses problemas, por isso que volta e meia repete os alertas para que você não se deixe apanhar em erros crassos.

Preste atenção nas palavras abaixo, todas escritas corretamente, e acione sua memória para não esquecer mais. O Blogueiro apresenta apenas as formas corretas, para evitar qualquer possibilidade de confusão. Entre parênteses, quando necessárias, faz as distinções de sentido:

 

Análise            tigela                                      traz      (verbo trazer)              paralisar

Analisar          berinjela                                 trás      (advérbio)                   paralisado

Atraso             caçar   (perseguir animais)    atrás    (advérbio)                   piche

Atrasar            cassar  (tornar nulo)               vaso                                        pichar

Ideia                cessão  (ato de ceder)             vazar                                      chuchu

Apoio              seção   (parte de um todo)      xícara                                     maxixe

Liso                 sessão  (espaço de tempo)      chácara                                  viagem

Alisar              bege                                        cheque    (documento)            beneficente

Deslize                        exceção                                  xeque      (lance de xadrez)     beneficência

Deslizar          ascensão                                 paralisia                                 maleficência

 

Observe bem estes exemplos, que não são os únicos, e tente maliciar para descobrir as armadilhas que encerram, a fim de ficar bem preparado para não incorrer em outras.

 

Equívocos de intenção

27 de março de 2019

Há casos em que, nas respostas às questões discursivas e na redação, os candidatos acreditam que certas atitudes são benéficas ao que respondem, mas, na verdade, podem tornar-se bastante prejudiciais.  O Blogueiro verificou alguns desses casos e passará a comentá-los.

O primeiro surge pelo desconhecimento do que é realmente solicitado na questão ou na redação. O candidato, em vez de responder com palavras, num discurso bem concatenado, imagina que alguns desenhos ou garatujas podem dar ideia do que está respondendo. Para ele, talvez, não para a banca de correção, que espera uma resposta adequada ao que foi indagado. Desenhos, ícones, rabiscos não são resposta que se preze. No caso da redação, então, são desastrosos. O Blogueiro denomina redações camicase aquelas em que o candidato renuncia ao discurso linguístico e apela para os desenhos e imagens. Está frito, como diz o povo. Seu texto pictórico será ignorado e receberá zero. É melhor responder com um discurso bem enquadrado a apelar para esse tipo de subterfúgio, mesmo que o candidato não tenha plena certeza de sua resposta.

Outro engano é imaginar que se pode usar um discurso vulgar, cheio de gírias e coloquialismos, em lugar de um discurso elegante e bem posto. Prova de vestibular, qualquer que seja a disciplina, não é lugar para discurso de mau gosto. Esteja alerta contra isso, portanto, e respeite a norma culta, que é o melhor modelo de comunicação em língua portuguesa na escola e nas comunicações. Em vez de coloquial, seu discurso deve ser formal, bem articulado, sem apelo a vulgarismos.

Outro engano é o de se esconder, na dúvida sobre a resposta, num discurso obscuro, que desvia o tempo todo o tema indagado. Nada disso. É melhor ser claro, mesmo sem ter plena certeza da resposta, em vez de esconder-se por trás de palavras que nada dizem sobre o assunto focalizado.

Do mesmo modo que no caso da obscuridade, não é aconselhável manifestar vacilação em sua resposta. Tomar o máximo cuidado com palavras como talvez, possivelmente, provavelmente, ou frases como eu acho que, eu imagino que, eu penso que, etc. Denotam elas a vacilação no responder. Em alguns casos, a resposta do candidato está certa, mas essas expressões enfraquecem seu discurso e podem ser mal interpretadas. Evite-as. Procure parecer positivo e confiante.

Confiante, sim, mas não em excesso. Muitos candidatos, certos de que dominam o assunto, abusam das repetições e explicações, engordando o discurso de suas respostas. A esse defeito denominamos prolixidade. É bom evitá-la. A concisão, isto é, o emprego econômico e ponderado de palavras e frases nas respostas é sempre o melhor caminho.

Finalmente, um lapso muito comum e pouco observado, particularmente na redação. Como texto, a redação se distribui em parágrafos, que são visualmente identificados pelo maior afastamento da primeira linha em relação às demais. Cada parágrafo possui um significado homogêneo, que em parte transita para o próximo, estabelecendo-se, assim, uma sequência de ideias e argumentos bem definida. Respeite isso. Nada de amontoar os períodos que formam sua redação em uma sequência só, congestionada e turbulenta. Quem vai corrigir um texto com tal defeito quase desanima ao se deparar com esse aglomerado. Acostume-se a paragrafar, que isso fará bem até ao seu modo de conceber e estruturar seu texto.

Percebeu? Intenção é uma coisa; correção é outra.

 

Acentue, sabendo o que faz

19 de março de 2019

Nos dois artigos anteriores, o Blogueiro alertou para o problema dos acentos gráficos. Colocou em primeiro lugar a questão das regras alteradas pelo acordo ortográfico. No segundo artigo, examinou algumas regras em que os estudantes costumam cometer equívocos por pura distração. No artigo de hoje, finalmente, apontará as regras fundamentais, que você tem por obrigação conhecer e praticar, sem esquecer os dois aspectos em que se baseou a criação do sistema: primeiro, o econômico, acentuar o menos possível; segundo, o diferencial: distinguir palavras com terminações idênticas, mas tonicidade diferente. Tendo sempre em mente esses dois aspectos, fica mais fácil e prático acentuar sem cometer erros.

A grande maioria das palavras da língua portuguesa são paroxítonas terminadas em a, e, o, as, es, os. Por isso, não são acentuadas. Seria contraproducente fazê-lo. Já as oxítonas com as mesmas terminações, por serem bem menos numerosas, levam o acento necessário: guaraná, ananás, café, jacarés, avô. Na mesma perspectiva se incluem os monossílabos tônicos com idênticas terminações: má, más (adj.), pá, pás, pé, pés, pó, nós. Assim também as palavras paroxítonas terminadas em em, ens são bem mais numerosas que as oxítonas com a mesma terminação, razão por que estas devem ser acentuadas: porém, também, armazéns, reféns.

Já as palavras proparoxítonas são relativamente poucas no idioma. Acentuá-las, portanto, resolve um belo problema, diferenciando-as de todas as paroxítonas e oxítonas. Esta é a motivação da regra que manda marcar com o competente acento gráfico todas as palavras proparoxítonas: árvore, árvores, pérola, pérolas, ótimo, ótimos, tâmara, tâmaras, pêndulo, pêndulos, cômodo, cômodos. Fácil, não é?

Finalmente, a maior dificuldade da acentuação gráfica está nas paroxítonas terminadas em l, n, r, os, x, us, i, is, om, ons, um, uns, ã, ãs, ão, ãos e em ditongo oral (seguido ou não de s). Devem receber o acento adequado na sílaba tônica: tátil, fácil, hífen, éden, gérmen, líquen, abdômen, pólen, cadáver, revólver, bíceps, tríceps, quadríceps, tórax, bórax, ônix, vírus, ânus, lápis, tênis, júri, júris, íon, íons, fóton, próton, elétron, bárion, nêutron, álbum, álbuns, órfão, órfãos, órfã, órfãs, jóquei, jóqueis, túneis. O máximo cuidado com palavras como estas, portanto! É bom rever sempre os exemplos, para evitar cochilos.

Finalmente, uma última regra que provoca muitos enganos: a acentuação das paroxítonas terminadas em ditongo crescente. A regra é clara, mas muita gente parece adorar escrever algumas dessas palavras sem acento gráfico, como, por exemplo, magoa, regua, carie, ingenuo, inicio. Nada disso. Todas devem ser acentuadas: água, mágoa, régua, cárie, ingênuo, início, precipício, espécie. Note que magoa sem acento deve ser pronunciada com tonicidade sobre o o, já que a palavra passa a ser uma forma verbal de magoar; assim também carie passa a ser uma forma do verbo cariar, e inicio se torna uma forma do verbo iniciar.

Neste final, o Blogueiro faz uma pequena pergunta, um tanto brincalhona, a você: Se hífen, como vimos, deve levar acento gráfico sobre a sílaba tônica, por que hifens não deve? E quais palavras dos exemplos dados se encaixam neste mesmo caso?

É isso aí. Não se descuide com a acentuação gráfica, para não ter descontos na nota. Por menores que possam ser, por vezes significam a perda da vaga. Boa acentuação para você.