Navegar é preciso? Sim, mas…

August 29th, 2014

A era da comunicação global em que vivemos pode muitas vezes iludir aqueles que observam fatos e fenômenos sem o necessário senso crítico. Um exemplo é a internet:  facilita e acelera as comunicações, disponibiliza instantaneamente boa parte do conhecimento humano, pode ensinar muito… mas também muito desensinar. Alguma novidade nessa conclusão? Nenhuma. Qualquer coisa nova, desde os tempos mais remotos da História, é planejada para determinado uso e, na prática, acaba revelando possibilidade de uso bem diferente do idealizado, por vezes mau uso. Assim, os homens que procuravam inventar o avião imaginavam estar criando algo muito útil para a humanidade; os aviões, no entanto, apesar dessa grande utilidade, de que somos testemunhas ainda hoje, acabou sendo usado para a guerra e o assassinato em massa de populações. E ainda é!

A internet não é diferente. Criada para o bem, para o progresso das comunicações, também acaba sendo usada para o mal, para a prática de crimes, para a imoral espionagem de uns países a outros. Isso não quer dizer, porém, que devamos bani-la em virtude do mau uso. Ao contrário, devemos aproveitar todas as suas boas potencialidades, torná-la um instrumento do bem, das boas relações entre pessoas e entre países.

Este Blogue já ressaltou muitos dos benefícios que a navegação na rede pode trazer aos candidatos a exames vestibulares, desde, é claro, que saibam como navegar e onde aportar. Os numerosos sites dedicados ao conhecimento científico, à informação e ao ensino são portos seguros. Os jornais e revistas, que aos poucos estão abandonando o papel e assumindo o formato difital, igualmente representam bons pontos de chegada para a busca de informação, para a atualização das pessoas com relação ao mundo em que vivem. Cursos online ministrados por universidades e instituições dedicadas a preparar pessoas para os mais diferentes concursos são excelentes ancoradouros a quem busca o melhor para sua vida.

Tudo isso é verdade. Todavia, não devemos nos iludir. É preciso sempre estar com um pé à frente e outro atrás, porque a web é como o mundo cá fora: numa esquina se pode encontrar um benfeitor; noutra, um assaltante. Não é, porém, para falar de assaltos a seu bolso ou sua bolsa que este artigo está sendo postado; é para falar de assaltos à sua distração, caro vestibulando e caro candidato a concursos, ao seu descuido em não julgar o que está lendo e, por isso, sem querer, assimilar como certo o que está errado.

Para exemplificar esse perigo, o Blogueiro usou dez minutos de leitura na internet e flagrou textos com erros que, na gíria, se denominam cabeludos. Os exemplos foram ligeiramente alterados, para evitar reclamações dos redatores. Eis o primeiro:

 

O candidato propôs um governo multisetorial e aberto aos mais capazes.

 

Parece que tudo está certo na frase. Não está. Observe como foi escrito multisetorial. Está errado: falta um s; deve-se escrever multissetorial.

É bom tomar cuidado, portanto, com tais cochilos (ou erros mesmo) dos redatores de textos da mídia. Eis outro, cabeludíssimo:

 

A negociação entre o clube estrangeiro e o nacional evoluíram bastante nos últimos três dias.

 

Na verdade, o redator quis dizer que a negociação evoluiu. Fez confusão, no entanto, com a menção a dois clubes. O plural, nesse caso, é um verdadeiro assalto digital à Língua Portuguesa.

Às vezes, um cochilo acaba gerando outro:

 

A prefeitura promove, no próximo dia 5 de setembro um encontro de músicos da região.

 

Embora não seja raro na linguagem coloquial e em jornais o emprego do presente do indicativo em lugar do futuro do presente, no exemplo acima ficaria muito mais claro e eficiente promoverá em lugar de promove, em virtude da referência à data. A mesma referência à data, aliás, gerou outro problema: o emprego da vírgula após a forma verbal promove, separando o sujeito do predicado. Trata-se de erro de pontuação, que poderia ser evitado com o emprego de vírgula também após setembro (A prefeitura promoverá, no próximo dia 5 de setembro, um encontro de músicos da região.) ou com a simples supressão da vírgula após promove (A prefeitura promoverá no próximo dia 5 de setembro um encontro de músicos da região.)  Já no exemplo abaixo. a vontade de acertar conduz ao erro:

 

O empresário do craque tem o oferecido a numerosos clubes estrangeiros.

 

Você, evidentemente, notou que o redator buscou evitar “tem oferecido ele”, uso coloquial de “ele” que não é permitido pela norma-padrão. Não soube, porém, empregar a variante pronominal átona adequada. Nesse caso, não há desculpa, houve erro mesmo por desconhecimento. A frase deveria ser: O empresário do craque tem-no oferecido a numerosos clubes estrangeiros. Se julgasse que “tem-no” ficaria demasiadamente formal, o redator podia ter escrito: O empresário está negociando com numerosos clubes estrangeiros a transferência do craque. Ou: O empresário do craque ofereceu-o a numerosos clubes estrangeiros.

Vale fazer, para encerrar, uma reflexão bem curiosa: em tempos passados eram comuns as citações em jornais de erros cometidos por vestibulandos em suas provas discursivas, particularmente em redações. Pejorativamente, tais erros eram chamados “pérolas”. Tratava-se, na verdade, não de intenção de corrigir, mas de debochar dos candidatos responsáveis por tais erros. Por antiética, tal atitude foi banida.  Curiosamente, hoje as “pérolas”, como você acaba de notar, se espalham por toda a rede, em jornais, revistas, sites, blogues. Em vez fazer deboche a seus autores, porém, devemos aprender com os erros flagrados  e, com isso, aperfeiçoar nosso domínio da Língua Portuguesa.

Para o vestibulando, portanto, navegar na rede é preciso. Mas sempre tomando cuidado com a profundidade das águas e o perigo dos recifes, para que o barco de sua redação siga seguro até o porto.

 

Não fuja da concordância

August 14th, 2014

Você por certo tem muitas dúvidas de concordância. Não se envergonhe disso. Professores, jornalistas, blogueiros e escritores também têm. Quem vive a escrever vive tendo dúvidas. É normalíssimo, portanto. Anormal será não procurar resolver e deixar como está.

Obviamente, você já estudou mais de uma vez na escola os fundamentos da concordância nominal, que implica o acordo entre as flexões do substantivo e seus modificadores, e da concordância verbal, que impõe o acordo entre as flexões do sujeito e do verbo. Não adianta, portanto, chover no molhado e falar sobre isso desde o comecinho. Um artigo de blogue não tem tanto espaço e também não é uma teoria, é um bate-papo construtivo em que o blogueiro procura passar sua experiência aos leitores e fazer alguns alertas. E é geralmente baseado em um tema do dia a dia.

Pois o tema de hoje é justamente uma dúvida de concordância nominal. Observe os exemplos forjados:

 

O governo, ao autorizar o funcionamento daquela indústria, parece não haver pensado nos impactos ambiental e social.

O governo, ao autorizar o funcionamento daquela indústria, parece não haver pensado no impacto ambiental e social.

Qual das duas está certa? você pergunta ao escrever. Resposta: as duas. Os gramáticos defendem ambas as formas, embora reconheçam que a primeira (com o substantivo impactos no plural), é regularmente usada e, de certo modo, bem mais clara (e elegante) que a segunda. Note que a concordância, em cada caso, pode ter uma explicação diferente: no primeiro exemplo, a pluralização do substantivo (impactos) responde antecipadamente à presença dos dois adjetivos que o modificam (ambiental, social). O segundo exemplo pode ser entendido com base numa elipse: impacto ambiental e (impacto) social.

Pois o blogueiro, hoje cedo, deu uma derrapada nesses exemplos e sentiu uma ligeira dúvida. Que fazer? Recorrer aos gramáticos. Uma leitura rápida das gramáticas de Maria Helena de Moura Neves e de Evanildo Bechara revelou que podia usar sem susto qualquer dos dois exemplos. Assim, é válido empregar qualquer das frases abaixo:

 

Apesar de novatos, conseguimos obter o primeiro e o segundo lugar.

Apesar de novatos, conseguimos obter o primeiro e o segundo lugares.

O estudo da literatura portuguesa e brasileira é bastante necessário.

O estudo das literaturas portuguesa e brasileira é bastante necessário.

 

O blogueiro prefere a concordância no plural; outros escritores, no plural. E você?

É isso aí. Não fuja da concordância. Quando tiver uma dúvida, nada de dar de ombros e dizer, como quem não quer nada: Não sei, porque ninguém me ensinou. Errado. Diga sempre: Ninguém me ensinou, mas vou descobrir por mim mesmo. Você se espantaria, aliás, se pudesse fazer uma estatística sobre sua vida e descobrir o quando aprendeu por si mesmo e por sua vontade de aprender!

 

Há palavras “difíceis”?

August 6th, 2014

Reza um dito popular que “o que não entra não pode sair”. Parece brincadeira, mas não é. Se você procurar descobrir a filosofia que está por trás desse dito, perceberá que ele carrega um belíssimo conselho.

Pense, por exemplo, na questão do vocabulário. Você reclama que há muitas palavras difíceis em certos livros, seja de literatura, seja de ciências em geral, e por essa razão não consegue entender esses livros. Ora, pense bem: não há palavras fáceis ou difíceis; palavras são palavras, servem ao propósito a que foram criadas: transportar conceitos. Nada mais, nada menos. Quando conhecer esses conceitos, elas deixarão de ser difíceis.

Você sabe onde procurar os sentidos das palavras. Desde as primeiras séries do ensino fundamental, as professoras exigiam que levasse sempre à escola um minidicionário, justamente para ajudá-lo a aumentar seu vocabulário, sempre que nos textos surgisse uma palavra desconhecida. Nas aulas das diferentes disciplinas, muitas vezes os próprios professores apresentaram os significados ou os próprios textos continham essa explicação. Certo? Depois, à medida que o tempo ia passando, você aprendeu a consultar dicionários com maior número de vocábulos. Hoje, o progresso da Informática faz com que você possa contar com dicionários eletrônicos, quer instalados como programas em seu computador, quer por meio da internet.

Talvez você diga, ao encerrar a leitura do parágrafo acima, que sabe muito bem de tudo isso. É bom que saiba. Mas será ótimo se souber usar com regularidade e método: cada vez que surgir uma palavra desconhecida ou não muito conhecida, você deve buscar ajuda imediata do dicionário. Nunca deixe para depois. Se deixar, esquece e não volta até que a palavra apareça de novo. O problema é que esse de novo bem pode ser uma pergunta de prova. E aí a coisa fica feia, não fica?

Pois é. Vamos dar um exemplo: você está lendo um jornal ou revista (seja em papel ou online) ou assistindo a um telejornal e se depara com a palavra inflação. Não dá a mínima bola, porque esse negócio de economia não é assunto seu. Claro que é. Tudo o que ocorre à sua volta é assunto seu. E, quer queira quer não queira, você vive mergulhado na economia e o tempo todo sofre os seus efeitos. A atitude certa, portanto, não seria ignorar a palavra, mas imediatamente verificar o sentido. Muita gente, nesse momento, diria que economia é difícil de entender, é coisa de especialistas. Errado. Sendo o sistema econômico a base de quase tudo o que acontece atualmente no planeta, é bom procurarmos entendê-lo o máximo possível, para não nos tornarmos verdadeiros extraterrestres.

Muito bem. Você se convence de que precisa ir ao dicionário e lá descobre que a inflação se caracteriza pela intensa alta do nível geral de preços e pela desvalorização da moeda. Vale dizer: o aumento persistente dos preços dos produtos provoca uma contínua desvalorização da moeda. São várias as causas desse problema, mas, em todas elas, os órgãos econômicos do governo estão, como diz o povo, mais perdidos que cachorro que caiu de mudança. O salário do papai sobe, para compensar a inflação, mas a inflação continua e aquele dinheiro a mais não vale muita coisa. O Brasíl já viveu um fenômeno intenso de inflação, chamado de hiperinflação (você sabe que o elemento hiper intensifica o sentido), lá por fins dos anos 80 e inícios dos 90. Seus avós o viveram. Era terrível: recebia-se o salário e corria-se para os supermercados e lojas para comprar de uma vez todo os produtos necessários aos próximos trinta dias. Guardar o dinheiro no bolso? Nem pensar! A inflação “comeria” boa parte do seu valor durante o resto do mês.

Percebeu? Até mesmo seus avós podem ajudá-lo a entender o que seja inflação. Claro que não podem provavelmente auxiliá-lo a entender o que seja deflação ou estagflação. Você mesmo poderia procurar saber, não para se tornar um economista, mas para ter uma ideia, como pessoa comum, do que está acontecendo e do que pode acontecer na economia. E vai que de repente uma pergunta ou uma redação de vestibular focalizam esse tema!?

Na verdade, para encerrar, não há palavras difíceis: há certa má vontade nossa de procurar-lhes os sentidos.

 

 

Ler livros é estar no mundo

July 30th, 2014

Num blogue sobre exames vestibulares, a abordagem de muitos temas nem sempre aponta diretamente para a prática das provas. Vai muito mais longe. A questão da necessidade de leitura é um desses temas. Por quê? Porque, especialmente nos dias atuais, de tanta tecnologia de comunicação oferecida com facilidade a todas as pessoas, frequentemente se percebe que o comunicar-se por via eletrônica pode acabar provocando efeito contrário ao que se espera.

Muitos estudiosos começam a manifestar preocupação com esse fenômeno. Não são poucas as matérias veiculadas na mídia e na rede sobre o fato de boa parte das pessoas viverem um período do dia plugadas, olhinhos acesos e dedinhos ágeis manipulando seus celulares e tablets para enviar e receber mensagens. Até esse ponto, tudo seria maravilhoso, se esses contatos implicassem uma troca de informações mais densas e carregadas de conteúdo. O que ocorre, porém, especialmente nas redes sociais, é a vulgarização dos recadinhos, das fofocas, dos fatos inusitados, dos exibicionismos individuais, das piadinhas, das bobagens e besteiras de que logo se arrependem os seus autores. E tudo isso prende as pessoas a seus aparelhinhos por horas, afasta-as do convívio concreto com aqueles que estão em volta, familiares, amigos, pais, mães, filhos, irmãos, colegas. De certo modo, afasta as pessoas do mundo real e as coloca num planetinha virtual multicolorido e inteiramente banalizado.

Os pessimistas de plantão anunciam que a população do planeta, por isso, começa a se tornar uma enorme manada, que em breve será dirigida pelo Grande Irmão por meio dos aparelhinhos eletrônicos, quase uma versão modernizada, porém real e assustadora, do 1984, de George Orwell. É claro que talvez alguns leitores (talvez muitos) deste artigo poderão não entender este parágrafo, porque não conhecem George Orwell e não leram nem mesmo resumos sobre seu famoso romance 1984, além de não terem a menor noção sobre o que acontecia nas relações humanas, na tecnologia e na política internacional da época em que o livro foi concebido e publicado. Quer dizer: não leram os livros que lhes garantiriam uma visão privilegiada do que foi a primeira metade do século XX.

Este é exatamente o problema, caro vestibulando. Não devemos ser pessimistas com as conquistas tecnológicas no domínio das comunicações grupais e individuais. Estas são importantes e realmente trazem benefícios para a humanidade, se utilizadas com tal objetivo. O perigo que elas implicam é de outra natureza e, de certa forma, já existia antes de elas haverem sido criadas: a falta de hábito de leitura! a falta da fantástica formação que a leitura pode nos dar! a lamentável falta de visão do mundo!

Sim, mas eu vivo lendo no meu celular os emails e historinhas que chegam a toda hora. Algumas piadas e notícias são até longas! Isso não é ler? dirão alguns. Claro que é ler, mas numa medida limitadíssima e com uma qualidade bastante inferior em termos de informação e de formação. Seus neurônios não dão a mínima bola! Este é o ponto: a leitura de livros, quer literários, quer de divulgação científica, quer de estudos em geral apresenta uma contraparte de formação do indivíduo que os recadinhos dos celulares e tablets nem de longe conseguem atingir. Os celulares, de certo modo, apenas transformam em eletrônica a comunicação diária, que tanto pode ter utilidade quanto futilidade. Um livro, porém, como o Casa Grande e Senzala, que todo brasileiro deveria ler aos dezoito anos, é um verdadeiro curso universitário sobre a formação de nossa nacionalidade. E pode ser lido nos e-readers com muita facilidade e até mesmo nos tablets. Você já leu? E você já leu algum livro de História da Idade Média? Não? Então não sabe o que está perdendo em termos de compreensão do próprio mundo atual, pois a Idade Média é o verdadeiro caldo em que se formou toda a civilização posterior. E muitos hábitos, tanto individuais, quanto políticos persistem até hoje, disfarçados pelo chamado progresso e pelas conquistas tecnológicas.

Conclusão: você precisa ler, meu amigo! Se quer realmente conhecer o mundo como é, se quiser formar-se como um verdadeiro intelectual que honre seu ingresso num curso universitário e, mais ainda, honre seu trabalho profissional futuro e seu estar no mundo; se não quiser ser iludido pelas informações fáceis e vazias ou, pior, se não quiser viver alienado, num mundinho muito lindo de porcelana, completamente alheio ao que a vida humana e a civilização realmente significam, leia! leia muito, meu amigo! Toda a ciência e toda a experiência humanas estão registradas nos livros, e quem os ignora não passa de uma espécie de mamute sonhando ser campeão olímpico de salto em altura!

 

 

Meio de ano: a hora é agora!

July 23rd, 2014

Com a divulgação da primeira chamada do Vestibular Meio de Ano da Unesp, podem ser feitas algumas reflexões sobre os chamados vestibulares de inverno ou de meio de ano. A primeira é que resultam tais vestibulares do esforço permanente das universidades pelo aumento do número de cursos e de vagas para os vestibulandos. Esta é, aliás, uma das preocupações constantes das universidades públicas brasileiras: propiciar continuamente aos vestibulandos a oportunidade de ingressar em seus cursos. Isto significa que as instituições públicas de ensino superior estão fazendo sua parte, estão honrando seu compromisso com a população brasileira.

A segunda reflexão diz respeito à qualidade dos próprios cursos. As universidades públicas brasileiras são, reconhecidamente, aquelas que oferecem cursos de mais alto nível, com maior qualidade de formação. A leitura deste fato deve ser feita na oferta de novos cursos, que terão também a qualidade dos demais. O vestibular de inverno tem o mesmo conceito do vestibular de fim de ano e os cursos oferecidos o mesmo selo de qualidade.

A terceira reflexão tem a ver com a época desses vestibulares, a metade do ano. Por quê? Por que tais cursos são oferecidos nesse período? Não poderiam ser oferecidos no final do ano também? Evidentemente, há mais de um motivo para justificar tal escolha. O principal deles tem relação com o caráter de semestralidade das disciplinas e a data de aprovação desses cursos pelos órgãos superiores de cada universidade. Aprovado um novo curso, pode-se colocá-lo na pauta dos exames, mas nem sempre de modo imediato. Um curso aprovado no segundo semestre de 2014 não poderá, por razões de planejamento, ser oferecido já no vestibular de dezembro, que foi antecidamente planejado tanto em termo de cursos, quanto em termos de aplicação. Trata-se de uma verdadeira logística, que não pode ser mais alterada em nenhum de seus aspectos. Será contraproducente, porém, esperar o próximo vestibular de dezembro do ano seguinte para oferecê-lo. Há jovens ávidos de ingressar em cursos superiores, cujos anseios precisam ser atendidos o mais rapidamente possível. Os vestibulares de meio de ano, assim, surgem como parte da logística da universidade em sua oferta permanente de novos cursos.

Uma quarta e última reflexão ainda pode ser feita, relacionando-se as características acima apontadas e as decisões tomadas pelos próprios candidatos. Alguns deles consideram os vestibulares de meio de ano como menos charmosos que os de final de ano, e atribuem esse menor charme a uma suposta menor qualidade dos cursos oferecidos. Trata-se de uma inferência totalmente errada. Como ficou dito acima, instituições como as universidades públicas, cujos cursos são de primeira linha, só podem oferecer, no meio de ano, cursos com a mesma qualidade. Os novos cursos, quer no vestibular de final de ano, quer no vestibular de meio de ano, atendem ao interesse permanente das instituições públicas de propiciar a formação de alto nível que as caracteriza.

Deste modo, cabe aos candidatos a escolha consciente: uma vez aprovados, é agarrar a vaga e não largar, pois sua excelente formação profissional na carreira estará garantida, desde que, é claro, deem eles também a sua parte. E aqui cabe uma última ponderação: embora os cursos oferecidos pelas universidades públicas sejam todos de altíssimo nível, é possível que um estudante se forme com menor rendimento que outros? Claríssimo que é, caso ele, estudante, não faça o esforço suficiente para honrar a oferta de qualidade que a universidade coloca em seus cursos. Falando com bom senso, esta é e continuará sendo sempre a realidade da educação, qualquer que seja o nível: os estudantes podem formar-se com maior ou menor qualidade, dependendo do rendimento que apresentem ao longo dos cursos, vale dizer, dependendo da sua maior ou menor determinação e aplicação aos estudos e tarefas que têm de cumprir para obter o diploma. Em resumo: todos os estudantes de universidades públicas se formam com qualidade suficiente, mas alguns se formam com qualidade máxima, em virtude de seu próprio esforço.

Pense nisso. Pense que as universidades públicas brasileiras estão cumprindo a sua parte, oferendo cursos de altíssima qualidade em vestibulares de meio e de fim de ano. E pense em cumprir também a sua parte com a altíssima qualidade de sua aplicação durante o curso.

 

 

O tempo da prova e a prova do tempo

July 17th, 2014

 

Outro dia o blogueiro ouviu um rapaz falar a outros, na praça de alimentação de um shopping, que em certo vestibular o examinador havia recolhido as provas meia hora antes do prazo, e por isso o garoto não pudera resolver as últimas dez questões. É muito difícil que isso tenha acontecido. O tema do tempo, porém, merece uma abordagem mais ampla.

Nem sempre o principal problema encontrado pelos que prestam exames vestibulares e concursos é propriamente o conteúdo. Algumas vezes, como se pode verificar pelo depoimento de muitos vestibulandos e de concurseiros, o grande problema se chama TEMPO. Não deu tempo de resolver todas as questões e as provas foram recolhidas.

Alguns candidatos explicam para seus familiares e colegas que podiam ter ido melhor, se tivessem mais tempo para a resolução. Verdade? Engano? Quem ouve nem sempre acredita e pensa que se trata apenas de uma desculpa. Na maioria das vezes não é. Não é preciso ser psicólogo para descobrir que muitas pessoas fazem suas tarefas, quer físicas, quer intelectuais, de maneira um pouco mais lenta que outras. A experiência dos professores dos ensinos fundamental e médio demonstra isso. E demonstra também que ser mais lento não significa ser menos inteligente. Ao contrário, algumas vezes acaba revelando até mais inteligência. Certas crianças parecem ter nascido com a capacidade de criar para si mesmas métodos de desempenho que demandam um pouco mais de tempo para fazer tarefas, mas, em compensação, implicam quase sempre a obtenção de melhores resultados. Por isso mesmo, sobretudo nos primeiros anos do ensino fundamental, reclamam que as professorinhas não têm paciência com elas na hora das provas, e ficam apressando, por vezes até de maneira não muito polida, para que terminem no mesmo horário em que terminaram as outras. Isso cria uma dúvida: deveriam fazer como outros colegas, que não dão muita bola para maior esforço e respondem tudo rapidamente? Ou mantêm seu método que, mesmo demandando mais tempo, conduz quase sempre às respostas corretas?

Ao longo dos anos, a questão do tempo das provas e de terminar exatamente dentro do horário previsto continua sendo imposta. Muitos conseguem se tornar mais rápidos, outros nem tanto. Quando chegam os vestibulares, mesmo aqueles que nunca tiveram problemas com provas no ensino médio se deparam agora com um problemão: um número enorme de questões e um período de tempo previsto para resolvê-las, pois os examinadores recolhem as provas exatamente quando o último minuto se esgota.

Culpa das provas? Não. As equipes que elaboram exames vestibulares são altamente especializadas e procuram criar questões que possam ser respondidas sem susto dentro do tempo previsto. É claro que trabalham com critérios que levam em consideração uma média de desempenho. Apesar de todo esse cuidado, alguns candidatos, por razões diferentes, têm problemas de tempo. E agora, José? como diria o Drummond. Pedir que as universidades mudem os critérios dos vestibulares? Ou buscar solução própria?

E você? O que poderia fazer para uma rapidez maior na solução das questões? Na verdade, não há solução pré-fabricada, embora seus professores deem muitos conselhos a respeito. A conclusão é que você deve descobrir o que é necessário, no seu caso, para dar conta das respostas dentro do período previsto. A solução pode estar, como aconselham alguns professores, em resolver primeiro as questões fáceis; em seguida, as questões que seriam mais trabalhosas e depois partir para as que considerou, à primeira leitura, muito difíceis. Assim, se não der tempo de resolver algumas difíceis, pelo menos terá respondido as que sabia. Isso, porém, é só uma sugestão. O julgamento é seu e tem de surgir de uma espécie de autoanálise: por que costuma demorar mais? em que tipos de questões perde mais tempo que o necessário? Com base nisso, você criará seu próprio método. Para testá-lo, pode encontrar provas de exames vestibulares de anos passados e cronometrar como se estivesse em situação real.

É possível conseguir? Claro que é. Os seres humanos fomos sempre desafiados nas mais diferentes situações e geralmente conseguimos vencer, porque é sempre possível melhorar aspectos de nossas atividades. Conta-se que certo fabricante de rodas apresentou a uma montadora ao longo de alguns anos, onze protótipos de rodas para automóveis, e todos foram recusados, por apresentarem este ou aquele defeito. No décimo segundo protótipo, porém, a roda foi julgada favoravelmente e aceita pela montadora.

Imagine se o fabricante de rodas houvesse desistido na segunda ou terceira, ou até mesmo na décima?

Não desista. E tenha em consideração que a resolução de exames vestibulares não é questão apenas de conteúdo, mas de método. Aliás, nem só exames vestibulares: tudo na vida é questão de método!

 

Honrar Camões e Rui: a ultima lição da Copa

July 10th, 2014

Com a derrota acachapante da seleção brasileira de futebol, até mesmo os vestibulandos esqueceram por algumas horas dos exames que irão prestar no final do ano. Jornais, revistas, televisão, redes sociais, em todas essas fontes não se tem falado noutra coisa nas últimas horas, com as mais variadas reclamações, acusações e piadinhas sobre o grande fracasso esportivo.

É claro que todos sentimos. Mas isso tem um nome: chama-se esporte. E esporte implica sempre vencer ou perder. Perdemos, desta vez, venceremos numa próxima. Aliás, no futebol e no vôlei somos o país que tem maior número de títulos.

Lamentações e consolações à parte, sempre se pode tirar uma lição de algo que a maioria das pessoas provavelmente não observaram nas transmissões dos jogos e nas entrevistas dos nossos atletas. Sempre se disse que nossos atletas jogavam muito bem e falavam muito mal: o domínio da bola não encontrava correspondência no do idioma. Correm até hoje piadinhas a respeito, como aquela do jogador que perdeu um pênalti que significaria a vitória do seu time. Por que você errou, se treinou tanto? perguntou o treinador, decepcionado. E o atleta: É que o goleiro fez que foi mas não foi e acabou não “fondo”. Nunca saberemos se algum atleta chegou a falar assim ou se trata apenas de invenção do piadista que criou a versão original.

Essas e outras anedotas, que representavam inofensivos deboches dos torcedores em geral à pouca instrução de alguns atletas, não condizem mais com a realidade. Quem acompanhou as entrevistas de atletas brasileiros pôde perceber que se expressam muito bem, revelando boa formação. Alguns, inclusive, se expressam muitíssimo bem, como o goleiro Júlio César. Dá gosto ouvir suas respostas às perguntas de jornalistas, porque revelam sempre um português muito claro, sem erros de flexão verbal nem de concordância e uma fluidez elogiável. Para falar a verdade, nosso goleiro fala melhor que a maior parte daqueles que o entrevistaram, assim como dos comentaristas de rádio e de televisão, e por isso mesmo não faria feio em uma conferência acadêmica.

Menos mal. Perdemos no esporte, não no idioma. E será pelo idioma que obteremos nossa vaga nos vestibulares e conquistaremos nossa formação ao longo do curso superior. Na universidade não faz mal ser ruim de bola, faz mal ser ruim de fala. Na verdade, há muito maior valor em honrar a herança de Camões, Fernando Pessoa, Machado de Assis e Rui Barbosa do que vencer um adversário porque o nosso goleiro fez que foi mas não foi e acabou não “fondo”.

 

Falar bem faz mal?

July 3rd, 2014

Você gosta de falar bem ou de falar mal? A esta pergunta, obviamente, todos responderão que gostam de falar bem. Mas todos falam bem? Esta é a questão: o que é falar bem? Seguramente não é ficar dizendo “nóis vai, nóis fica”, como se ouve muito por aí, inclusive entre pessoas de classe média.

A escola o tempo todo nos pressiona a adquirir e aperfeiçoar nosso discurso escrito formal, ou seja, regido pela norma-padrão. E com um argumento irrefutável: é exigido nos exames vestibulares e nos concursos públicos. Quem enfrenta essas provas sem dominar a norma-padrão já parte perdendo muito.

Quando ao discurso falado, nem sempre se enfatiza que deve ser igualmente cuidadoso e atento ao uso formal. Este é o problema. As próprias provas de língua portuguesa dos exames vestibulares e concursos costumam servir-se das diferenças entre discurso coloquial e discurso formal, explorando o fato de o primeiro apresentar bem mais liberdade e variedade de empregos que nem sempre coincidem com o estipulado pela norma-padrão. Este e outros fatores talvez levem muitos jovens a imaginar que se pode falar mal, desde que se escreva bem, ou seja, que podemos na fala diária dizer “nóis consegue, eles pode”, desde que, ao escrever, empreguemos “nós conseguimos, eles podem”.  Há uma ilusão, portanto, de que o discurso formal escrito está subordinado à norma-padrão, mas o discurso oral é livre, pode-se falar de qualquer jeito que estará bom.

Está aí um equívoco que só pode trazer más consequências, quer em termos pessoais, quer em termos profissionais. É preciso entender que ao lado do discurso formal escrito existe o discurso formal oral, que é empregado, por exemplo, nos telejornais e nos bons programas de televisão, cujos apresentadores se veem na obrigação de comunicar-se com o público de modo mais formal que o da fala diária e descompromissada. É esse mesmo discurso que procuram utilizar os professores na sala de aula, para conduzir os estudantes a um domínio de fala semelhante ao domínio de discurso escrito. Por quê? Porque a organização social em que vivemos é toda estratificada, e em cada um desses estratos se requer o discurso mais adequado. Não se emprega o discurso coloquial num debate acadêmico, numa conferência universitária, numa sessão da câmara dos deputados, do congresso, nem de tribunal regional ou do supremo. Nesses e em muitos outros ambientes se impõe o discurso oral formal, regido pela norma-padrão.

Agora ficou claro, não ficou? Você, que ingressará numa universidade servindo-se do discurso escrito formal, obediente à norma-padrão, precisa entender que seu discurso oral como estudante e, mais tarde, como profissional formado, deve ser também formal. O discurso oral formal e o escrito representam, assim, fatores de prestígio social e profissional. Na vida universitária, são ferramentas imprescindíveis ao seu desempenho em trabalhos escritos e em apresentações orais em sala de aula ou em seminários e congressos. Se você já assimilou e assumiu um discurso formal oral, está bastante adiantado e não terá dificuldades nesse trajeto. Mas se ainda não é esse seu caso, terá de mudar de atitude desde os primeiros momentos em que ingressar na universidade.

Depois de todos estes comentários, podemos retomar o título deste artigo para entendê-lo melhor: falar bem faz mal? Claríssimo que não. Falar bem, em todos os momentos em que se impõe um uso formal do discurso, só pode fazer bem.

 

Copa, vestibular, profissão, dignidade

July 2nd, 2014

O Vestibular Meio de Ano passou, a Copa está passando, restam agora as expectativas para a linha de chegada: que seleção passará na Copa e levará o “caneco”?

E você? Boas perspectivas para a aprovação? Claro que sim. O vestibular da Unesp foi tranquilo, com perguntas muito bem preparadas, que por certo não ofereceram  dificuldade de solução, e um tema de redação focado na realidade cotidiana. Você foi muito bem, com certeza.

E como estamos em tempo de Copa do Mundo, vale a pena traçar mais uma relação, desta vez entre Copa, vestibular e profissão. Temos visto durante estas duas semanas algumas seleções europeias fortes, inclusive a Espanha, última campeã do mundo, serem eliminadas já na primeira fase. O esporte é assim, nem sempre previsível. Enquanto os comentaristas da mídia procuram analisar os pontos fracos que levaram tais seleções, entre outras da Ásia e da América, à eliminação, o blogueiro reparou num aspecto pouco observado: a atitude dessas e de outras seleções que foram eliminadas. Mostraram que souberam perder e, assim como se comportam com dignidade nas vitórias, mostraram a mesma dignidade na derrota. O esporte ensina isso, mostra que a vida é feita de sucessos e fracassos. Ninguém ganha sempre, ninguém perde sempre.

Essa reflexão é muito importante quando direcionada para o mundo dos vestibulares. Você talvez não tenha conseguido aprovação em outros vestibulares que fez. Mas soube “encarar” o fato sem ficar inventando acusações às provas, aos examinadores, à universidade, ao sistema de ensino. Tratou de continuar estudando e prestando exames, até que agora chegou a um bom prognóstico: provavelmente passará. Vencerá. A vitória não o tornará mais digno do que a derrota, ambas são faces distintas de um mesmo processo e em ambas você foi coerente e merecedor de louvor e admiração.

Você passará. E então? Vai ter de se esforçar muito mais ao longo de seu curso. Como se diz na própria gíria do futebol, “vai ter que rebolar”. O curso universitário não é fácil, as disciplinas são exigentes, as práticas pedem bastante empenho. É como ganhar um campeonato estadual de futebol e, depois, disputar o nacional. Em alguns momentos, lembrará da preparação para o vestibular com saudades. É óbvio, porém, que conseguirá fazer todo o esforço, dar tudo de si mesmo para se formar. Vai conseguir.

Este é o ponto: você vai se formar. E daí? Tudo estará resolvido em sua vida? Na verdade, não. Ao iniciar sua profissão você começará de novo da estaca zero a participação em um campeonato ainda mais difícil, uma verdadeira copa. Como fazer para vencer? Descobrirá isso aos poucos, mas dá para adiantar que a mesma dignidade que você vê nos atletas ao vencer e ao perder, a mesma dignidade que você teve ao não passar em um vestibular e passar em outro, esta será a sua grande chave também para o sucesso profissional. Profissionais não desempenham tão bem quando iniciam e chegam a errar mesmo depois de adquirir alguma experiência. Aos poucos, porém, sempre mantendo a atitude, vão se tornando cada vez melhores e recebem o reconhecimento da sociedade por isso.

Está aí a analogia entre Copa, vestibular e profissão. Pense nisso. E mantenha por toda a sua vida a dignidade.

 

Lições da Copa

June 25th, 2014

A Copa do Mundo de futebol, que está em andamento, traz muitas lições no plano esportivo, mas também no plano das atividades em geral, até mesmo dos exames vestibulares.

Como? Bastante simples. A seleção brasileira pode ser comparada a um vestibulando: quer porque quer vencer e se enche de muito otimismo, após um bom período de preparação, que incluiu a vitória recente em outra competição do gênero. É assim, de fato, que todo vestibulando deve se portar, assumindo uma atitude positiva e de busca obstinada do sucesso.

A Copa, porém, traz outro tipo de lição: algumas seleções, embora julgando-se superiores e bem preparadas, acabaram sofrendo derrotas para equipes tradicionalmente mais fracas. Só tradicionalmente, porque o esporte, como qualquer outra atividade, não vive de tradição, mas de evolução em cada país. Hoje em dia, de fato, como dizem os comentaristas de futebol, não há equipes fracas, ninguém é mais ingênuo, a evolução das comunicações fez com que os pequenos deixassem de ser pequenos e os grandes não serem mais tão grandes assim. O mesmo vale para o vestibular. Quem presta vestibulares não é ingênuo, sabe o que está fazendo, soube se preparar e tem certeza de até onde pode chegar. Candidatos fracos? É melhor não contar com a presença de candidatos fracos para passar. O fraco de ontem pode ser o forte de hoje. Como no futebol, a derrota de ontem conduz à vitória de hoje. O mais importante, assim, é contar com suas próprias forças e seu preparo para o embate.

A grande diferença, porém, entre a Copa e os vestibulares, está no ponto de chegada. No futebol, interessa ser o número um; o dois é desprezível. No vestibular, ao contrário, se de oitenta vagas disponíveis o candidato conseguiu o octogésimo lugar, o valor da vitória é o mesmo de todos os demais. E a comemoração, por vezes, até maior que a do primeiro.

Esta é a lição que os vestibulares podem dar ao futebol.