Tiras, charges e vestibulares

May 27th, 2015

Tornou-se comum, nas provas de diferentes disciplinas dos exames vestibulares, o emprego de tiras e charges. Você por certo já fez provas ou simulados em que surgem esses e outros textos análogos. A justificativa para essa utilização reside não apenas no fato de se tratar de textos com muita qualidade de conteúdo, atuais, mas também largamente utilizados na mídia: jornais, revistas, internet.

Aparentemente, as questões baseadas em charges e tiras parecem facilitar tudo. Nem tanto. Como exploram aspectos da realidade por meio de muito humor, de ironias refinadíssimas e, mesmo, sarcasmos, a aparente facilidade devida ao tamanho se torna ilusória. A utilização extremamente inteligente de recursos expressivos nos planos das imagens e do discurso torna charges e tiras muitas vezes mais ricas em significações que textos de maior extensão. Os cartunistas possuem uma formação intelectual muito refinada e se tornam, com suas obras, verdadeiros críticos da realidade social, em que a política e os políticos são, em boa parte das vezes, o principal alvo.

Para compreender bem charges, tiras, caricaturas, portanto, é preciso estar plugado, como estão os seus autores, na realidade circundante. É preciso ter boa dose de raciocínio e malícia, ter plena noção de tudo o que vai no país e é noticiado na mídia. E, sobretudo, é necessário conhecer razoavelmente recursos expressivos como o da ironia, da metáfora e da alegoria. Tudo isso, mais um pouco de espírito lúdico, fornece os elementos necessários para não tropeçar nas divertidas críticas que charges e tiras apresentam.

Esteja alerta, portanto. A facilidade dos textos produzidos pelos cartunistas esconde na realidade estruturas de complexo raciocínio, que se expressa pelo humor, pela ironia, pelo sarcasmo, pela alegoria, pela sátira, pelas alusões filosóficas e princípios éticos. Estas qualidades justificam sua presença em provas de concursos e de vestibulares.

Não vá perder pontos preciosos menosprezando esses textos diminutos, mas muito densos e ricos em significados.

Valeu?

 

 

A melhor maneira de se preparar para a segunda fase

May 21st, 2015

Agora que a primeira fase do Vestibular Meio de Ano da Unesp foi realizada e você, com certeza, vai receber aprovação, prepare-se adequadamente para a segunda, respeitando os seguintes pontos:

 

1 – Em vez de alternativas a escolher, as respostas serão discursivas.

2 – A interpretação de texto será ainda mais importante para responder.

3 – A redação tem grande peso na média final.

 

O primeiro ponto é um alerta até para a forma de você estudar e se preparar. Em respostas a questões objetivas, a correta já vem escrita como uma das alternativas. Nas respostas discursivas, você é que tem de construir a correta. Tudo ficará, portanto, na dependência de seu discurso. Esta constatação demonstra que a forma de estudar está mudada. O tempo todo você deve imaginar perguntas sobre os pontos que estuda e redigir respostas adequadas. Com isso, estará se preparando para apresentar um discurso claro, objetivo e bem estruturado.

O segundo ponto ataca também um aspecto essencial: a interpretação. Nas questões de alternativas, se você não consegue de pronto a resposta correta, a interpretação pode surgir de comparações entre o que você entendeu numa primeira leitura e o que dizem as alternativas, até que você possa chegar à interpretação e à alternativa adequadas. O mesmo não é possível nas questões discursivas: você terá apenas a sua interpretação como guia. Por isso, será preciso uma leitura muito atenta e repetida da pergunta, para ter certeza do que é realmente indagado. Um pequeno erro de leitura da questão poderá levá-lo a um sério equívoco na resposta. Exercite-se mais, portanto, estudando enunciados de questões discursivas de vestibulares anteriores.

O terceiro ponto é igualmente verdadeiro: a redação tem peso valioso na nota. Intensifique suas práticas. Escreva mais redações sobre temas de outros vestibulares. Visite sites e blogues sobre vestibulares e redações: todos fornecem alguma informação útil. E não esqueça do que sempre o blogueiro alerta: redação não é sorte, é prática. Escreve-se bem na medida em que se pratica com regularidade o ato de escrever. Escritores não nascem sabendo escrever. Aprendem e, depois de muita prática, conseguem chegar a um estilo claro e eficiente para encorpar suas obras. Jornalistas, por exemplo, vão escrevendo cada vez melhor na mesma medida em que o tempo vai passando: cada dia é um novo exercício que os leva a aperfeiçoar mais e mais seu discurso. E você? Terá de praticar todo dia só para passar no vestibular? Nada disso. Como profissional de nível universitário, você terá de escrever muito durante seu curso, e muito mais fora dele, em relatórios, solicitações, artigos de divulgação e até mesmo artigos científicos, caso enverede para a pesquisa. Sem falar que profissionais de nível universitário são convidados a escrever para jornais, revistas e, mesmo, podem decidir escrever guias sobre o que fazem em seu trabalho diário e tudo o que acontece nele. Daí para tornarem-se escritores literários é só um passo. Há escritores que se formaram médicos, outros que se formaram engenheiros, e assim por diante. Em conclusão: a redação é um instrumento útil para a vida toda, independentemente da profissão.

Com estes alertas e muito empenho, pode ter certeza de que será aprovado também na segunda fase e poderá fazer o curso com que sonha. Boa sorte!

 

O inverno pode ser primavera

May 14th, 2015

Quem está prestando o Vestibular Meio de Ano da Unesp ou os de outras universidades públicas está abrindo com maior facilidade sua porta para o futuro, sem o atropelo dos vestibulares de fim de ano e com oportunidades redobradas de sucesso, em virtude do número bem menor de candidatos inscritos, isto é, de concorrentes a enfrentar. Se o curso que você pretende conquistar é oferecido num desses chamados vestibulares de inverno, não tenha dúvidas: são promissoras suas chances de aprovação.

Como já ficou dito em artigos anteriores, renovados todos os anos, os vestibulares de inverno de todas as universidades públicas surgem em virtude da criação de novos cursos, que, pela divisão das disciplinas em semestres, tiveram de iniciar na metade do ano. Deste modo, nada há que desvalorize ou descaracterize tais cursos, já que são ministrados nas mesmas unidades que oferecem cursos também no final de ano. A qualidade é idêntica, e assim também a formação obtida pelos estudantes. Os próprios exames têm o mesmo fundamento e a mesma característica.

Você que se inscreveu e está prestado os exames aproveite a oportunidade que tem de obter aprovação e, caso isso ocorra também na segunda fase, matricule-se com a certeza de que está dando um passo muito inteligente e lúcido pela sua formação profissional, em tudo semelhante ao que daria se fosse aprovado no final do ano.

Utilizar os vestibulares de inverso como aferição de suas potencialidades para os de final de ano é válido? Claríssimo que é. Mas tome cuidado para não se arrepender dessa decisão. As dificuldades enormes de aprovação no final do ano podem não ser uma boa meta e oferecem o risco de causar a extrema decepção de mais um ano sem acesso ao ensino superior. O simples fato de você estar testando suas possibilidades é uma prova dessa grande dificuldade. Por outro lado, todos os que aproveitaram a oportunidade oferecida pelos vestibulares de inverno se declaram satisfeitos com a escolha, por verificarem que a formação é a mesma, em alguns casos até mais rigorosa. A ideia dos vestibulares de fim de ano como uma griffe, portanto, não tem sustentação lógica.

Faça suas provas e não perca seu momento, caso aprovado. Esse negócio de curso de griffe é mero engano de avaliação. Mesmo que não o fosse, não seria a griffe que o faria melhor ou pior aluno, mas você e suas escolhas dentro do curso. Qualquer curso pode levá-lo a ser um profissional de primeira linha, como também a um emprego secundário pela vida toda. Dependerá de sua dedicação. Pense nisso. E pense também num conceito indiscutível sobre o ensino em qualquer nível: não é a escola que faz o aluno, é o aluno que faz a escola.  Em outras palavras: não é a escola que ensina, é o aluno que aprende.

Entendeu? Os fatos da realidade não devem ser avaliados com critérios subjetivos. A visão objetiva é o melhor instrumento de sucesso, qualquer que seja a carreira. Com objetividade, você pode até tornar o inverno a sua primavera.

Boa escolha! Boa sorte!

 

Letras míudas ou atenção redobrada?

May 7th, 2015

Você sabe que existem até leis que obrigam empresas, bancos, seguradoras e laboratórios a apresentar contratos e bulas com letras grandes e claras, sob a justificativa de que letras muito pequenas, difíceis de ler, podem induzir os clientes, usuários e pacientes a errarrem na interpretação. Esta justificativa é em boa parte verdadeira.

Há, por outro lado, uma ressalva a fazer. Em alguns casos, a questão não é propriamente a letra miúda, mas a maior ou menor atenção com que se lê e se interpreta um texto. Leituras apressadas podem gerar compreensão equivocada de certas passagens.

E aqui entramos no foco deste artigo: os guias do candidato nos exames vestibulares. Ninguém poderá dizer que se trata de textos de difícil leitura.  Ao contrário, são sempre elaborados em discurso de fácil entendimento, para ajudar, e não para atrapalhar. Todavia, por incrível que pareça, muitos candidatos não fazem a leitura mais atenta dos guias e acabam se complicando.

Estes equívocos dizem respeito desde os horários de ingressos nos locais e início das provas até as opções por cursos. Não são raros os casos em que candidatos perdem a chance de matricular-se por não manifestarem na data adequada, de acordo com as instruções do manual, o interesse pela matrícula.

Por que tais fatos ocorrem? Por estarem os manuais ou guias de candidatos escritos em letras miúdas? De jeito nenhum. Ainda mais com a publicação pela internet, os guias se tornaram textos de leitura tranquila. Então, por quê? Pelo mesmo motivo que rege a leitura de contratos e bulas: a necessidade de atenção redobrada na leitura. E atenção redobrada até mesmo nas passagens que parecem mais fáceis e óbvias, pois são justamente o fácil e o óbvio que induzem mais erros de leitura e interpretação em qualquer tipo de texto.

Percebeu? O guia do candidato não é apenas um documento bonito e bem escrito. Contém as informações úteis e importantes para todo o processo do vestibular. Requer atenção redobrada, tão redobrada quanto você utiliza no estudo do conteúdo de suas apostilas.

Como costuma dizer o povo, portanto, nessa questão não brinque em serviço. Vale dizer: não transforme um instrumento de auxílio em um motivo de prejuízo.

 

 

O que é que há com o verbo haver?

May 5th, 2015

Muitos estudantes saem do Ensino Médio com a ideia de que saber escrever é resultado de técnicas aprendidas ao longo de seus cursos e cursos de redação dados por especialistas. Esta é uma parte da verdade, não a verdade inteira. O melhor método de redação do melhor especialista não lhe ensinará muita coisa, se você não conquistar o domínio da construção de frases adequadas, que se organizem com harmonia na produção progressiva do sentido gloobal do texto.

O blogueiro está querendo dizer que uma boa construção de frases é o passo principal para uma boa construção de texto. Veja um exemplo dos mais interessantes: o verbo haver. Você pensa que conhece tudo desse verbo? Se conhece, está de parabéns, deve conhecer também muitos outros. Se não conhece, está na hora de desconfiar que há muita coisa na construção de frases que precisa dominar. Considere estes exemplos apresentados no Dicionário Aurélio:

1. Todos houveram medo de se envolver na questão.
2. Houveram que era convardia suportar semelhante afronta.
3. Há pessoas que nunca conseguem um amigo.
4. Houve algumas vezes desentendimentos entre os dois.
5. Havia meses que não chovia.
6. Os sentenciados houveram do juiz a comutação da pena.
7. Todos o havemos por inteligente.
8. Não há entender o comportamento de certas pessoas.
9, O centroavante se houve com grande esforço na partida.
10.  Eusébio não sabia haver-se com mulheres.
11. Marta houve por bem não se cansar com Maurício.
12. Bem hajas tu, que obtiveste a solução do problema.

Notou a beleza do leque de significados do verbo haver? Este verbo não lhe parecia antes meio fraquinho, um tanto anêmico, nada mais que uma palavrinha a surgir de vez em quando nas frases? Pois é. Agora percebe mais uma vez o acerto do ditado popular: As aparências enganam. No exemplo 1, haver significa sentir, experimentar. No segundo,  significa consideraram, julgaram. No terceiro, existir (sempre lembrando que, neste sentido, haver é um verbo impessoal, empregado na terceira pessoa do singular). No quarto exemplo, o significado do verbo é suceder, acontecer, ocorrer. No quinto, é o mesmo de fazer, como expressão de tempo transcorrido: havia (fazia) meses que não chovia. No sexto exemplo, haver  significa obter, conseguir, alcançar. No sétimo, julgar, supor, considerar.  Já no oitavo exemplo o significado é o de existir meio de, ser possível: não existe meio de entender o comportamento de certas  pessoas; não é possível entender o comportamento de certas pessoas. No nono exemplo, haver-se significa portar-se, comportar-se, proceder. Na décima frase, haver-se equivale a entender-se, relacionar-se, arranjar-se. No décimo exemplo, muito elegante é a locução haver por bem, no sentido de decidir-se, resolver. E a última frase, com o verbo haver precedido pelo advérbio bem, expressa um bom desejo, uma previsão positiva a respeito de alguém.

Notou? Embora tenham sido colocadas apenas algumas possibilidades de emprego e significação, você faz uma boa ideia agora da riqueza expressiva de um só verbo da língua portuguesa. Imagine quantos mais oferecem essa gama de possibilidades.

Dá para perceber, agora, o grande repertório necessário para ser um bom escritor, não dá? Não se espante se não tiver conhecimento de boa parte dos empregos do verbo haver acima, bem como das próprias construções que provocam. Experimente consultar dicionários para familiarizar-se com os usos e os sentidos que ainda não conhecia. É um bom exercício, que não deve parar no verbo haver, mas alcançar muitos outros. O verbo é o sol, o núcleo do sistema da oração, e quanto mais formas verbais e suas variações de significado e capacidade de estruturação frasal dominarmos, mais flexibilidade e criatividade de discurso conquistaremos.

Compreendeu? Este é o filão da mina de diamantes do melhor discurso, exatamente aquele que você procura. Mãos à obra! Apreenda a ser um bom minerador!

Haja vista, hajam vista. Difícil? Que nada!

April 24th, 2015

Se você é daqueles que não gosta de errar, mas não quer deixar de usar expressões que atribuem certo charme de bom escritor a seus textos, por certo já esbarrou em dúvidas sobre o emprego de haja vista e construções semelhantes. Esta expressão significa, de fato, veja, observe, note e acepções semelhantes. E muito provavelmente algum colega já reparou em seu texto para dizer: Escreveu errado, meu amigo! E você acaba não tendo certeza se errou mesmo, ou se seu amigo é que não sabe nada a respeito e imagina que sabe.

Para dirimir tais dúvidas, mestre Arthur Schwab apresentou dez exemplos em seu livro Louçanias de Linguagem. Observando-os com olhos atentos e vontade de aprender de uma vez por todas, você descobrirá que o uso prático de haja vista é bastante elástico em termos de diferentes construções gramaticais, de sorte que o mais difícil, no caso, parece ser não acertar. Eis os dez exemplos pesquisados por Arthur Schwab e dados por ele como português correto:

Hajam vista os lances que seguem. (Sá Nunes)
Haja vista dos excertos seguintes. (Id.)
Haja vista, por exemplo, ao que se encontra no Manual do Cristão (Id.)
Haja vista a esses magníficos exemplos. ((Id.)
Haja vista os teus favores às obras do porto da Bahia. (Rui Barbosa)
Hajam também vista as frases… (Cândido Lago)
Haja vista ao Soares dos Passos. (Castilho)
Haja vista às tão graciosas e admiráveis fábulas de La Fontaine. (Id.)
Hajam vista exemplos tais de autores lusitanos. (Lindolfo Gomes)
Haja vista dos elos que eles representam na cadeia da criação. (Camilo Castelo Branco).

Percebeu a moral da estória? Não? Então entenda assim: o emprego de haja vista é muito variado, praticamente não há possibilidade de errar. Guarde esses dez exemplos com que o mestre procurou cercar a maioria dos empregos. Compare a frase em que você usou a construção com tais exemplos. Muito provavelmente vai ter a mesma estrutura sintática de algum deles. Pode empregar então sem susto. Em pouco tempo você não precisará consultar mais os dez exemplos e saberá o que fazer, sem ter de folhear gramáticas e decorar regras.

Aproveite esta lição: boa linguagem é bom uso, não é ter dez gramáticas na estante. Se começar a observar com mais atenção os usos dos bons escritores que você tem de ler para os exames vestibulares e que continuará lendo ao longo da vida para manter sempre um discurso elegante, não tenha dúvidas de que acabará escrevendo cada vez melhor. E isso é muito importante hoje em dia. Em qualquer profissão, quem escreve bem está três passos adiante dos concorrentes.

Ah! E não confunda: internetês é uma linguagem; português é outra, cada qual válida e eficiente em seu próprio contexto. Valeu?

Leitura oral: a prova definitiva

April 16th, 2015

A série de artigos postados neste blogue sobre as qualidades e defeitos das respostas a perguntas discursivas teve a intenção de fornecer a você instrumentos para garantir um índice maior de acerto ao responder, tudo com base no seguinte fato: não basta saber a resposta; é preciso saber responder. Se levar a cabo algumas das práticas sugeridas, pode ter certeza de que terá uma melhora acentuada em seu rendimento e em suas notas.

Há, no entanto, algo mais a dizer sobre o assunto, como espécie de uma última demão de tinta que o pintor aplica a uma parede para obter o melhor resultado final. Trata-se de uma forma de conferência de sua resposta, espécie de prova dos noves ou prova real do discurso com que respondeu a uma questão. Muitos jornalistas, escritores, pesquisadores e professores mantêm um hábito muito eficiente de fazer uma última correção em seus textos: ler em voz alta o que escreveram. A leitura de um texto em voz alta é um exclente método para descobrir cochilos no discurso, de apontar enganos de concordância, regência, emprego de vocábulos e até mesmo de ortografia. Quando deixamos de fazer essa última verificação, com toda a certeza tais cochilos só irão aparecer aos olhos da banca de correção, no caso de vestibulares e concurso, ou dos leitores, no caso de artigos jornalísticos, textos científicos de teses e dissertações, textos literários em prosa ou em verso. A permanência de tais errinhos até o final da redação se deve ao fato de estarem os escritores durante o processo de escrever mais preocupados com o conteúdo, com as ideias do que propriamente com a forma final de discurso que assumem.

É aí que entra o método final de triagem: a leitura em voz alta. Um texto assim lido revela claramente as virtudes e defeitos do escrito. É evidente que, no caso de provas de vestibulares, os candidatos não podem ficar lendo em voz alta o que respondem, pois os examinadores acabarão pensando que se trata de transmissão de informações de um candidato a outro, ou seja, de “cola”. O método, porém, pode ser aplicado em casa, nas simulações e exercícios, para fazer com que o candidato verifique sua eficácia. Na sala, durante as provas, a conferência deve ser feita em silêncio, com a mente simulando uma leitura oral. É mera questão de treinamento. E pode ter certeza de que, assim fazendo, conseguirá uma verdadeira prova real, final, do que respondeu, pois aqui e ali se deparará com os lapsos normais de discurso, um defeitinho de concordância, um deslize de regência, uma palavra cujo significado não se encaixa bem na resposta e deve ser substituída.

Para acreditar neste conselho, faça uma experiência e acostume-se a praticar o que escritores de talento têm como hábito. Perceberá como é efiente esta última demão de tinta em seu discurso. E não deixe de fazer o mesmo com seu texto de redação. É mais uma garantia de acerto e mais uma certeza de que sua nota se elevará.

Experimente. Funciona mesmo!

 

Respostas inseguras: um perigo!

April 13th, 2015

Para encerrar este ciclo de artigos postados sobre os modos de responder a questões discursivas de todas as disciplinas, observe hoje o pior tipo de resposta: aquela em que o candidato, ou por excesso de cuidado, ou por insegurança mesmo, parece ao mesmo tempo apresentar uma resposta e uma manifestação de dúvida. Isso é péssimo.

Ora, se existe algo que você, ao responder perguntas discursivas, pode ter certeza é se sabe ou não sabe a resposta plena. Se sabe, nenhum problema, tem de levar em conta os alertas que foram feitos em artigos anteriores para atribuir a sua resposta uma forma clara e transparente, que não vá causar dúvidas às bancas de correção sobre sua certeza. Vale dizer: se você sabe a resposta, só tem de tomar cuidado para não tropeçar no discurso.

O problema começa quando você tem certeza de parte da resposta e não muita da outra parte. O que fazer? Em primeiro lugar deve pensar que, se sabe parte da resposta,  deve conseguir manifestar claramente essa parte, para receber parte da nota. Parece óbvio, mas não é tanto assim, porque você tem de tomar cuidado com o discurso em que demonstrará essa parte que sabe. E é melhor pensar assim: essa parte eu tenho certeza de que está correta; então, não vou deixar que a tentativa de responder também a de que não tenho tanta certeza atrapalhe. Isso mesmo. Boa política essa, que leva a separar, como diz o povo, alhos de bugalhos. É bom deixar os alhos bem claros e separá-los dos bugalhos.

Se o candidato, porém, menospreza tal cuidado e acredita que pode tentar outro caminho, é preciso estar alerta para não demonstrar, sem querer, insegurança. Este alerta é feito com base em experiências de correção e em estudos como o do livro da Vunesp que vem sendo citado desde o primeiro artigo desta série. Observe estes dois exemplos para perceber que, ao tentar esconder a insegurança, podemos fazer exatamente o oposto: revelá-la. Ainda está sendo focalizada a pergunta que serviu de base para os artigos anteriores: Explique o significado que adquire no texto de Darcy Ribeiro a expressão “guerra biológica”.

 

Primeira resposta: Seria o confronto entre os índios saudáveis e os brancos impregnados de doenças. Vivendo no meio da natureza por vários anos os índios não estavam imunes às doenças do velho mundo que seriam trazidas pelos europeus. Dessa forma, os índios morreriam facilmente com qualquer doença, até mesmo as mais fracas gripes. Esse fator seria decisivo para a dizimação dos nativos.

Segunda resposta: A “Guerra Biológica” no texto de Darcy Ribeiro seria a disseminação, entre os índios, das doenças que os brancos traziam, às quais os índios não eram imunes.

 

Se você vem lendo com atenção todos os artigos desta série, por certo detectou a manifestação de insegurança nas respostas causada pelo emprego dos verbos no futuro do pretérito: seria, seriam, morreriam, seria (na primeira resposta) e seria (na segunda resposta). Ora, o futuro do pretérito atribui a essas respostas um teor de incerteza. Afinal, seria ou não seria? Os candidatos estão em dúvida ou com receio de afirmar categoricamente? Esse é o problema. O futuro do pretérito, que na nomenclatura das gramáticas antigas era denominado, talvez com mais propriedade, condicional, acaba nas duas respostas sugerindo uma evasiva: o candidato não sabe direito se quer ou não afirmar. Poderia não ser insegurança, mas apenas um uso equivocado desse tempo verbal? Poderia, mas o efeito é exatamente o mesmo para o leitor da resposta: está ou não afirmando e confirmando?

Pelo que ficou dito, tome muito cuidado, em suas respostas, com o futuro do pretérito, para evitar que, como nas duas respostas acima, uma certeza se torne, na sua resposta, incerteza ou seja tomada como insegurança. Note que, em ambas as respostas, a simples mudança do tempo verbal para o imperfeito e o perfeito do indicativo elimina o problema: era, eram, morriam, foi (na primeira resposta) e era (na segunda resposta), sendo que nesta, em termos de discurso, ficasse melhor empregar o presente do indicativo e dizer significa, já que se faz menção direta ao texto de Darcy Ribeiro.

Valeu o alerta? Respostas precisam dar sempre sugestão de segurança, de certeza. Manifestação de dúvida não é resposta adequada.

 

 

Resposta pouca? Pode ser pouco

April 8th, 2015

Você é da Lacônia?

Pergunta inesperada, não? Se uma pessoa faz essa indagação a outra com intenção crítica, está fazendo uma referência à antiguidade clássica, mais precisamente à Grécia. A Lacônia, também chamada Lacedemônia, região da Grécia onde ficava Esparta, caracterizava-se, além do espírito altamente guerreiro dos espartanos, pela concisão, por vezes extrema, no modo de falar. Foi desse passado que os termos lacônico e laconismo, chegaram até o presente, com o significado de fala muito concisa, isto é, muito econômica em palavras. O conceito de concisão, assim, se opõe ao de prolixidade, que é o excesso ou desperdício de palavras no discurso.

A concisão tem sido considerada uma virtude da fala e da redação exatamente por essa economia. No entanto, um passinho a mais na economia produz o laconismo, que é considerado um defeito, pois faz com que um ponto ou outro do discurso seja difícil de ser entendido.

Esta explicação tornou-se necessária para continuar explicando a questão da qualidade das respostas discursivas em provas, apresentada com base em uma publicação da Vunesp. Mencionam-se nessa pesquisa, além dos tipos de resposta abordados em artigos anteriores, as respostas chamadas lacônicas, que são muito perigosas em termos de correção. Lembra da pergunta, repetida nos artigos anteriores? Lembra, sim: Explique o significado que adquire no texto de Darcy Ribeiro a expressão “guerra biológica”.

Uma resposta concisa a essa questão estaria colocada entre as precisas ou as suficientes, sem qualquer problema. A economia em excesso, porém, produz outro resultado. Examine estas duas respostas:

 

1 – De um lado estavam os brancos com doenças perigosas, transmissíveis e de outro estavam os índios inocentes e que não sabiam o que era aquilo.

2 – A dominação das doenças sobre os sistemas imunológicos despreparados dos índios.

 

Em ambas, como você observa, atinge-se um aspecto da resposta certa e ficam outros a mencionar para o candidato deixar claro que entendeu perfeitamente a questão. Com esse problema, a nota do candidato fica dependente da banca de correção e da planilha que lhe serve de base. Isso não é lá muito confortável, não é verdade? As duas respostas acima revelam que os candidatos pareciam conhecer bem a resposta plena, mas preferiram economizar ou, talvez, ficaram com receio de dizer um pouquinho mais.

Percebeu bem o problema? Com receio excessivo da prolixidade, que representa desperdício, os candidatos caíram no extremo oposto, o laconismo, ou seja, a economia exagerada de palavras e explicações.

Ficou claro? Então trate de fazer uma verificação atenta em seu modo de responder, para compreender a diferença vital entre concisão, que é virtude, e laconismo, que é defeito de expressão.

Vale aqui, como fecho, repetir o título deste artigo, que agora você compreende bem: Resposta pouca? Pode ser pouco.

 

Falar demais, dizer de menos

March 27th, 2015

Retomando a série de artigos sobre as respostas discursivas e aproveitando para lembrar que o que o blogueiro explica serve para todas as disciplinas, e não apenas língua portuguesa, repare no título deste artigo. Reparou?  Não parece um paradoxo? Parece, mas não é, trata-se de um fato comprovável. Você mesmo critica livros que é obrigado a ler, afirmando que são muito complicados, que escrevem muito, para a gente no final não entender quase nada. Não é fato? É, sim. E sua conclusão é verdadeira. Há escritores que adoram frases longas, enfeitadas e que acabam não dizendo muita coisa para nós. Isto ocorre mesmo em artigos de jornais assinados por pesquisadores, especialistas, políticos, empresários. Alguns têm o dom de dizer exatamente o que querem dizer, fazendo com que nosso entendimento seja pleno. Têm o dom da precisão. Outros parecem ter o dom ou o prazer oposto: preferem encompridar os períodos, tornando-os às vezes muito longos, longos demais, o que prejudica nossa compreensão: Afinal, o que esse cara está querendo dizer? perguntamos, insatisfeitos, não é verdade? É a pura verdade.

O problema, porém, pode merecer rótulo pelo provérbio Quem tem telhado de vidro não atira pedras no do vizinho. Quando se faz crítica a outros, temos antes de ter certeza se o defeito apontado não é praticado por nós mesmos. E é o que por vezes acontece: você não gosta de ler textos com essas características, mas não percebe que, ao escrever, apresenta as mesmas. É esse o problema que as bancas de correção encontram muitas vezes: respostas que falam demais e dizem de menos.

No estudo publicado pela Vunesp que o blogueiro está tomando por base, tais respostas são denominadas abundantes e prolixas. O adjetivo abundante é da mesma família do substantivo abundância. Não é preciso explicar muito o que significa: que revela abundância, abundoso, em grande número. Uma resposta abundante, por isso, é uma resposta que apresenta um discurso com muitos elementos, no fundo desnecessários. O livro mencionado oferece um ótimo exemplo. Você lembra da pergunta apresentada nos dois artigos anteriores sobre a “guerra biológica”: “Explique o significado que adquire no texto de Darcy Ribeiro a expressão ‘guerra biológica’”. Então observe esta resposta abundante:

 

Os índios da época não conheciam doenças, além de coceiras e desvanecimentos por perda momentânea da alma (como diz o autor do texto), por outro lado, os portugueses chegaram trazendo consigo muitas doenças, tais como tuberculose, sarampo, coqueluche, e com o passar do tempo os índios começaram, a contrair essas doenças, consequentemente muitos deles chegando à morte. Portanto além de os próprios portugueses contraírem e adoecerem de tais doenças, os índios os acompanhavam, não por opção.

 

Se você leu o exemplo de resposta precisa e resposta suficiente, nos dois artigos anteriores, é capaz de pereceber que a resposta acima foi alongada um tanto desnecessariamente em um aspecto, o que fez o candidato esquecer de mencionar “guerra biológica”. Mas a resposta não está certa? perguntará você. Sim, está, mas a nota que recebeu passou a depender do modo como foi corrigida.

Já as respostas prolixas complicam mais um pouquinho, porque além de abundarem apresentam elementos em confusão, por vezes difíceis de serem entendidos. Eis um exemplo:

 

Os colonos (seja português ou qualquer europeu) que vieram para o Brasil na época colonial, trouxeram consigo doenças seculares, que viriam a contribuir para a dizimação do indígena. Tais enfermidades, sendo antigas e muito dizimadas, às vezes não eram tão prejudiciais aos colonos. No entanto, os indígenas (ou nativos), nunca houveram entrado em contato com essas pragas, ao contrário dos europeus, que já eram resistentes à muitas delas. Consequentemente, populações inteiras de nativos padeceram ou morreram.

 

Como você pode perceber, quase deve ter faltado espaço para a resposta acima no local adequado. Tentando ser explicativo demais, o candidato se excedeu em detalhes, cometeu alguns errinhos no emprego de palavras e acabou não relacionando todos os aspectos, embora tenha atingido uma parte correta da resposta. A prolixidade levou o candidato até a esquecer-se de empregar o termo “guerra biológica” e relacionar seu significado ao que descreveu.

Percebeu? Muitas vezes, falar demais é dizer de menos. Observe seu modo de responder, seus exemplos em provas e tarefas para verificar se, afinal, você não tem os vícios da abundância e da prolixidade. É bom que não tenha, mas, se tiver, trate de estabelecer um método para eliminá-los. Valeu?