Redundâncias perigosas

April 23rd, 2014

Você já reparou no perigo que representam certas redundâncias, tanto em sua fala quanto nos textos que escreve? Não reparou? Pois está bem na hora de observar e de consertar as desestruturações que repetições desnecessárias causam a seu discurso, perturbando o significado de muitas frases e, pior, servindo como atestado de que você tem dificuldades de expressão.

Não me refiro às redundâncias comuns, que seus professores chamam de pleonasmo ou de pleonasmo vicioso, como, por exemplo: subir para cima, descer para baixo, indicar uma indicação, etc., etc. Estas você já sabe como evitar, de tanto ouvir advertências e conselhos dos professores. O problema aqui é mais profundo e contundente, diz respeito às redundâncias surgidas de um procedimento que torna a frase tortuosa e prolixa, como se o escritor sentisse que não fez a coisa certa e fosse colocando remendos para consertar a falha. Observe:

 

O empresário acusado, que passamos a tarde toda conversando com ele, declarou diversas vezes que não provocou nenhum dano ao meio ambiente.

 

Frases como essas singram a todo instante os mares de textos da internet, por vezes em jornais conceituados. Para entender a escorregadela do autor da passagem exemplificada, observe que “o empresário acusado”, “que” e “ele” se referem a uma só pessoa. Há um exagero nisso, portanto, que se deve ao fato de o autor não ter colocado com no lugar adequado (logo após a vírgula de O empresário acusado,) e, sentindo necessidade dessa preposição, exigida pelo verbo “conversar”, teve de colocá-la mais adiante, o que obrigou também a redundar com o emprego do pronome “ele”, isto é, “o empresário”. Complicado, não? E tudo poderia ser muito simples, se estivesse em seu devido lugar:

 

O empresário acusado, com quem passamos toda a tarde conversando, declarou diversas vezes que não provocou nenhum dano ao meio ambiente.

 

Em lugar de com quem ainda poderiam ser usados com que e com o qual. Ficou bem mais simples, não? E muito mais claro e eficiente em termos de significado.

Examine este outro exemplo:

 

O vereador Carlos, que por muitas razões o prefeito acabou se afastando dele, ainda se julga um injustiçado.

 

Também complicadinho, não? Numa pequena frase, há referência demais para um só político: vereador Carlos, que, dele. E a origem dessa redundância e dessa desestruturação ainda é a mesma, o emprego da preposição de fora do lugar que a estrutura sintática normal da frase lhe reserva. Observe: O vereador Carlos, do qual por muitas razões o prefeito acabou se afastando, ainda se julga um injustiçado. Em lugar de do qual você ainda poderia empregar de quem ou mesmo de que.

Pelos dois exemplos apontados e comentados, você percebe que não empregar a preposição pedida pelo verbo no lugar adequado, antes do pronome relativo, força o falante ou o escritor a buscar um lugar mais para a frente, numa espécie de remendo sintático. Como dizem os literatos, a emenda acaba ficando pior que o soneto.

Não custa, portanto, reestudar os pronomes relativos, especialmente quando a estrutura da frase pede uma preposição antecedente, para ter melhor noção do problema apontado. E estudar muitos exemplos nessas condições, para assimilar bem tais estruturas e torná-las habituais em seu discurso.

Vale a pena, não vale?

 

“Por causa que o quê?!”

April 14th, 2014

Certo professor de língua portuguesa sempre dizia que, por método, considerava a mente de cada aluno uma fortaleza cercada por sete muralhas de difícil ultrapassagem. Por isso, repetia muitas vezes cada explicação, sempre com novas palavras, expressões e exemplos, certo de que em cada tentativa transpunha uma das muralhas que, em alguns alunos, ainda resistiam. Não por acaso, portanto, era considerado o melhor professor da escola, aquele cujas lições os estudantes aprendiam sem fazer muito esforço. O mestre fazia por eles.

Seguindo-lhe os passos e o método, o Blogue retoma aqui um ponto já estudado sob outra forma de abordagem. Um rapaz diz a outro: “Não pude ir à festa por causa que mamãe me obrigou a aparar toda a grama do jardim e do quintal.” O colega, surpreso e indignado, retruca: “Por causa que o quê?”

Alguns professores consideram esse uso errado e horrível, dizendo que se trata de uma distorção da locução prepositiva por causa de. Outros, mais comedidos, dizem que se trata de um interessante e saboroso exemplo de linguagem popular. Na verdade, o por causa que transita livremente e cumpre sua função no domínio do discurso coloquial. É provável até que nós mesmos, vez por outra, no linguajar despreocupado e descontraído, falemos assim. Mas não é assim, seguramente, que devemos falar ou escrever em situação de discurso regido pela norma-padrão. “Por causa que” ou, pior, “por causo que” não são cabíveis no discurso formal; deve-se empregar o velho e claro e bom “porque”: Não pude ir festa, porque minha minha mãe me mandou aparar a grama do jardim e do quintal. Tome cuidado, portanto, em não deixar escapar nenhum “por causa que” ou “por causo que” em sua prova discursiva e na de redação.

E como estamos falando de porque, vale a pena rememorar que existem as formas: porque, porquê, por que e por quê. Como empregá-las? Você já foi bombardeado por dezenas de aulas e explicações a respeito, mas não custa relembrar, para fixar melhor.

 

1 – Porque é um conectivo equivalente a pois, porquanto e até mesmo àquela forma do uso coloquial que acabamos de descrever: por causa que ou por causo que. Exemplos: Não fiz a lição, porque estava com sono. Sempre acordo cedo, porque costumo ir para a cama cedo. Você me detesta porque eu costumo corrigir seus errinhos?

2 – Porquê, com acento circunflexo, é um substantivo com significado equivalente a causa, razão, motivo. Como substantivo, pode apresentar-se no plural: porquês. Exemplos: O político não declarou os verdadeiros porquês de suas ações. Preciso saber o porquê de todos esses fatos. Observe a substituição do porquê, para comprovar: O político não declarou os verdadeiros motivos de suas ações. Preciso saber a razão de todos esses fatos.

3 – Por que pode equivaler a por qual, por quais, quando empregado antes de palavras como razão, motivo, quer tais palavras estejam expressas ou subentendidas. Exemplos: Gostaria de conhecer por que razão você não veio à escola hoje. Meu colega nunca nos contou por que motivo foi demitido. Gostaria de saber por que você não veio à escola hoje. Meu colega nunca nos contou por que foi demitido.

4 – Por que pode equivaler a pelo qual, pela qual, pelos quais, pelas quais, quando antecedido por palavras como razão, motivo. Exemplos: O motivo por que os eleitores se negaram a votar na situação nunca foi conhecido. Ninguém imagina a razão por que a represa se rompeu tão depressa.

5 -  Em interrogações, emprega-se por que e por quê, a primeira forma no início ou no meio da frase, a segunda no fim, antes do ponto de interrogação. Exemplos: Por que você não veio? Você não veio, por quê? Alguns explicam que o acento deve ser colocado em virtude de o monossílabo “que”, nesse caso, se tornar tônico. Esta explicação é um tanto incoerente, pois existem numerosos outros contextos nos quais o “que” se torna tônico e não se usa colocar o circunflexo para marcar essa tonicidade. Não vale a pena, porém, discutir aqui esta questão. Melhor seguir a tradição.

Percebeu? Não é tão difícil assim e também não é necessário muito gramatiquês para entender estes usos da norma-padrão. E continue alerta para não resvalar num “por causa que”.

Valeu?

 

Meu método é infalível

April 10th, 2014

Conversa entre dois candidatos:

— Não consigo acertar o jeito de fazer provas objetivas. Perco muito tempo e sempre me estrepo.
— Siga meu método. É infalível!
— E como você faz?
— Divido o tempo da prova pelo número de questões e, se uma questão vai demorar muito pra responder, chuto. Não sou de perder tempo.
— E já fez quantos vestibulares?
— Uns cinco. E quase passei no fim do ano. Mas, agora, passo com certeza em algum vestibular de inverno. Este é o meu ano!
— É…

Diálogos como este podem ser ouvidos em vestibulares e concursos em geral. Sempre há alguém com um método “infalível”. Mas será que existe mesmo algum método infalível? Na verdade, existe, sim, apenas um método infalível: estar bem preparado, estudar pra valer, pelo menos durante todo o ensino médio. Quem está bem preparado enfrenta as questões de peito aberto, sabe o que sabe e sabe o que não sabe; assim, encontra seu próprio método de prestar as provas.

E quem não está bem preparado?  Muitos têm tanto receio das provas, que acabam mesmo por não se sentirem bem preparados. O primeiro ponto a considerar, neste caso, é que nem sempre acertamos quando avaliamos nossas possibilidades, isto é, nem sempre temos exata noção de quanto sabemos, de quão difíceis serão as provas, nem do tipo de questões que predominará. O primeiro conselho, neste caso, é trocar os julgamentos pessimistas de si mesmo por uma avaliação positiva: acreditar que estamos preparados e podemos conquistar a vaga. Este é o melhor modo de encarar, não apenas vestibulares, mas todos os desafios de nossa vida. Não é um bom método iniciarmos uma luta imaginando que vamos perder. Confiança é um ingrediente insubstituível na receita de sucesso.

Superado o pessimismo, o passo seguinte é experimentar, fazer provas de diferentes anos e universidades, tentar descobrir qual a tática mais adequada a seu modo de ser, a seu temperamento. E testá-la muitas vezes, para ter certeza. O candidato otimista do diálogo que iniciou este artigo não é tão ingênuo como parece. Em primeiro lugar, está armado de bastante otimismo; segundo, acredita firmemente em seu método; terceiro, já prestou alguns vestibulares sem passar e não desanimou, acredita firmemente que vai passar. E vai acabar sendo aprovado, mesmo, porque tem autoconfiança, ou seja: em vez de menosprezar a si mesmo nas derrotas, valoriza os resultados que vai obtendo, por menores que sejam. Seu método de prestar provas, na verdade, não é infalível: ele sabe disso. E sabe, também, que precisa de apenas uma oportunidade, um conjunto de circunstâncias em que o método funcione, para obter a tão sonhada vaga. Vai conseguir.

Esta é a receita. É infalível? Depende de você.

“Para que fazer redação no Vestibular? Não significa nada!”

April 1st, 2014

O Blogueiro ouviu esta frase umas duas semanas atrás, proferida por um estudante do terceiro ano do ensino médio que discutia com outros as provas dos diferentes vestibulares. Alguns colegas concordaram, outros discordaram, mas nem os que concordaram foram capazes de argumentar de modo convincente, nem os que discordaram. Em resumo, nenhum dos estudantes sabia exatamente por que os grandes vestibulares possuem prova de redação.

O Blogueiro pode aqui ajudar um pouco, citando uma passagem do livro A maravilhosa história das línguas, de Ernst Doblhofer:

 

A escrita permite que o ser que pensa se conheça.

Primeiramente, a escrita permitiu-lhe o pensamento coletivo, especulativo em torno da sua origem, do ser e do sentido da vida. Com ela, tornaram-se possíveis as culturas elevadas e as filosofias, as grandes religiões da humanidade; foi a massa de que se serviram os fundadores e construtores dos grandes reinos; nela, é que se apoia a história, como ciência, e a ela é que se deve o enorme desenvolvimento dos demais ramos da ciência humana, entre os quais não figuram em último lugar as ciências naturais. Não precisamos falar da incalculável quantidade de outros bens culturais e civilizacionais que ela legou à humanidade e que, sem ela, seriam inconcebíveis.

A escrita, portanto, criou a própria civilização. Sem ela, todos os conhecimentos acumulados por uma geração só poderiam ser transmitidos à outra oralmente, com as enormes perdas de informação que isso acarretaria, sem falar nas distorções que sofreriam as informações passadas por esse modo. Nossos antepassados sabiam disso ao criar o ditado: Quem conta um conto aumenta um ponto. Foi justamente a partir da invenção da escrita que o homem deu o grande passo no planeta rumo ao que seria no futuro. Todas as experiências, toda a ciência, todas as ações dos seres humanos sobre a terra, assim, puderam ser registradas e conhecidas pelas sucessivas gerações. Em cada campo do conhecimento, passou a existir um aprendizado, pela leitura, e, pela escrita, o registro do conhecimentos obtidos pelos indivíduos. Imagine o que seriam a Medicina, a Engenharia e a Arquitetura sem a escrita! A poesia, se perderia, a música se perderia, a filosofia se perderia, as próprias religiões não teriam seus livros sagrados para alimentar as crenças dos fiéis. Imagine você a quantidade de conhecimentos do mundo antigo conservados por muito tempo na Biblioteca de Alexandria em manuscritos que acabaram se perdendo! Para alguns historiadores, foram destruídos num incêndio e, para outros, acabaram se perdendo em virtude do próprio declínio da Biblioteca, que acompanhou o da cidade em que se localizava!

Começar a estudar, assim, desde o jardim da infância, é começar a penetrar o universo da comunicação escrita, que vai se tornando cada vez mais complexo ano após ano. Um estudante universitário que começa a fazer o curso de Medicina, começa fundamentalmente pelos livros, quer estes ainda estejam sob a forma de papel impresso, quer já tenham assumido o formato digital, que em breve será predominante. A este respeito, aliás, vale observar que, assim como os gravadores de som, os cassetes, os discos de vinil, os cedês e devedês não acabaram com a escrita, como alguns ingênuos acreditaram no  início, também a internet e a digitalização não o fizeram nem o farão: a internet é ainda um universo governado pela escrita.

Voltando à universidade, pode-se verificar que é um universo também dominado pelos discursos oral e escrito: oral nas aulas expositivas, nas palestras, nas conferências, nas mesas-redondas, etc.; escrito nos livros, nos artigos científicos, nas dissertações, nas teses e também nos trabalhos e nas monografias que você terá de escrever ao longo de cada disciplina. Se alguém ingressasse na universidade sem uma boa capacidade de produção de textos, para não falar também numa boa capacidade de discurso oral, seria como um mamute tentando caminhar na pista da Avenida Paulista às dezoito horas.

À vista dos comentários acima, pode-se concluir que a redação serve como uma prova fornecida por você quanto a estar perfeitamente preparado para um bom desempenho nas inúmeras leituras e produções de texto que terá de fazer. E ponha produção de texto nisso! Pode ter certeza de que terá de escrever muito. A universidade não forma repetidores, forma profissionais capazes de assimilar e produzir conhecimentos.

Entendeu agora a importância da prova de redação?

 

E o internetês? Vale?

March 19th, 2014

Um estudante de curso preparatório perguntou outro dia ao professor de língua portuguesa se podia escrever sua redação com o mesmo tipo de discurso que usava na internet: Afinal, professor, eu consigo ser muito mais rápido e mais claro nos e-mails que escrevo, nos torpedos que envio e nos diálogos dos fóruns. E o importante não é ser claro e rápido no vestibular?Além do mais, os membros da comissão de correção também se comunicam pela internet e pelo celular, não?

A questão colocada pelo estudante não deixa de ter certo fundamento. Ao longo de toda a sua vida escolar só ouviu e reouviu que tinha de escrever com clareza, de modo a ser imediatamente entendido. E como na internet é sempre compreendido, não entende por que não poderia escrever da mesma forma seus textos, tanto em respostas a questões discursivas, quanto em redações.

Diante de perguntas como essas, muitas vezes o professor tem dificuldade para fazer os alunos entenderem que, embora o sistema da língua portuguesa seja um só, o trajeto do sistema aos usos concretos apresenta numerosos e variados caminhos, caminhos que podem também aumentar de acordo com o progresso das tenologias da informação e da comunicação. A internet é um exemplo disso. Possibilitada pela evolução tecnológica, colocou nas mãos de todas as pessoas do planeta aparelhos que permitem a comunicação rápida, instantânea, tanto por meio de mensagens orais como de mensagens escritas. A instantaneidade das comunicações via rede, assim, levou à geração de uma forma de discurso rápido, cheio de abreviações e repleto de gírias, muitas vezes desobediente à sintaxe e ao sistema de pontuação, quando não ao próprio sistema ortográfico. Menos mal se assim a mensagem transita sem dificuldade. É o que ocorre, aliás, em todas as outras formas de uso da língua em redutos profissionais e sociais, além da própria utilização coloquial do sistema. Desses redutos, muitas vezes, se originam usos legitimados pela aceitação da própria norma-padrão. Até mesmo o discurso de cada ciência apresenta um grande vocabulário específico que constitui a sua nomenclatura.

A norma-padrão, todavia, constitui um uso geral, disseminado por todo o território nacional, modelo sacramentado pelos documentos oficiais, meios de comunicação e pela escola, apontado nas leis que regem a educação para ser empregado pelos professores e ensinado aos alunos. É em norma-padrão que se escrevem os artigos jornalísticos, os artigos científicos, os livros, as dissertações, as teses e os trabalhos escolares. E assim também, é claro, as respostas a questões discursivas nas provas e as redações de exames vestibulares, porque estes constituem a porta que dá acesso ao universo do conhecimento e das ciências.

Um dos princípios da racionalização do trabalho nos alerta para o fato de que deve haver um lugar para cada coisa e cada coisa deve estar em seu lugar. Podemos estender esse princípio para as diferentes formas de uso da língua. Se você se tornar jogador de futebol, assimilará fatalmente o vocabulário e os dizeres desse campo de atividade; se você se tornar um físico, aprenderá a empregar o discurso e toda a vasta nomenclatura da física. Agora, quando um jogador de futebol, um físico e você trocam mensagens pela internet, igualam-se pela forma de discurso ágil e breve característica desse meio.

Podemos terminar este artigo, colocando a questão apresentada como título: E o internetês? Vale?

Vale, sim. Na internet! rsrsrsrsrs

 

Você escreve bem? Escreve, mesmo?

March 12th, 2014

O título deste artigo parece provocativo. Sugere aquele tipo de pessoa “chata” que gosta de colocar sempre uma pitada de pessimismo na gente. O problema é que as pessoas “chatas” muitas vezes estão certas, mas, sendo incômodas em seu modo de falar, nos induzem a não levá-las a sério. Não é o caso deste artigo nem deste blogue: aqui se procura sempre apresentar um conselho útil e provocar reflexões nos candidatos, para que refinem cada vez mais seu desempenho. O título do artigo está simplesmente sugerindo que, muitas vezes, imaginamos ter um ótimo desempenho nesta ou naquela atividade, embora tal desempenho não seja tão bom quanto imaginamos. Quer um exemplo?

Em tese, esperamos que notícias publicadas em revistas e jornais na internet, bem como em outros tipos de sites e blogues apresentem sempre um português à toda prova, perfeitamente enquadrado na norma-padrão. Em tese. Na prática, muitas vezes ocorre o contrário. Outro dia o Blogueiro estava passeando por publicações online quando se deparou com alguns parágrafos assustadores de uma notícia sobre tema atual. Vamos citá-los, mas fazendo alterações de dados e nomes próprios, para evitar problemas de identificação da fonte, mas todos os deslizes expressivos e gramaticais serão mantidos. Observe:

 

O alfaiate Nicolau, entrou com uma ação na justiça contra a costureira Leonalda Lima, 23 anos, classificando como crime contra honra e calúnia. Isso aconteceu porque a cerca de 7 meses atrás, a costureira foi a imprensa e disse publicamente que visitou Curitiba a convite dele, mas não estava com ele, entretanto, afirmou que o viu traindo a na época esposa, Belmira Motas. Após este acontecimento, houveram muitos comentários e rumores, que resultou no fim do relacionamento dos dois. Nicolau negou conhecer Leonalda. O processo foi registrado na cidade onde a costureira mora, em Puritópolis.

Para quem quer conhecer apenas a informação geral, o parágrafo dá o seu recado. Mas para quem considera que notícias veiculadas por jornais e revistas online devem seguir a norma-padrão, o discurso é um desastre. Anote alguns problemas sérios:

1)      O alfaiate Nicolau, entrou com uma ação na justiça [...] – Erro crasso de virgulação: a vírgula aparece indevidamente separando o sujeito do predicado. O adequado seria eliminá-la: O alfaiate Nicolau entrou com uma ação na justiça.

2)      Isso aconteceu porque a cerca de 7 meses atrás [...] – Equívoco sério em escrever “a cerca” em lugar de “há cerca”. Redundância no emprego de “atrás”, já que “há cerca de sete meses” já se refere ao passado. O adequado, portanto, seria escrever: Isso aconteceu porque há cerca de sete meses [...].

3)      A costureira foi a imprensa [...] – Falta de sinalização da crase com o acento grave. Assim como está, a frase significa, absurdamente, que a costureira da história foi a  imprensa, e não uma mulher. Com a sinalização da crase, tudo se normaliza: A costureira foi à imprensa [...].

4)      A costureira foi a imprensa e disse publicamente [...] – Ora, se a costureira foi à imprensa e fez declarações, essas declarações se tornam públicas. Portanto, publicamente constitui mais uma redundância no parágrafo.

5)      Após este acontecimento, houveram muitos comentários e rumores [...] – Lapso terrível, porque nossos professores falam todo o santo dia sobre a impessoalidade do verbo haver, que, quando significa existir, deve ser empregado no singular. Devemos dizer e escrever há pessoas na sala, e não hão pessoas na sala; houve feridos no acidente, e não houveram feridos no acidente. Cochilo imperdoável do redator da notícia, que deveria ter escrito: Após este acontecimento, houve muitos comentários e rumores [...].

6)      Após este acontecimento, houveram muitos comentários e rumores, que resultou no fim do relacionamento dos dois [...]  – Curiosamente, na primeira oração, como comentado, o redator usou o plural em lugar do singular em “houveram”, e na segunda oração fez o oposto, empregando “que resultou”, quando deveria ter empregado “que resultaram”. Além disso, o leitor fica em dúvida, ante a expressão “dos dois”, se se trata do final do relacionamento de Nicolau com Leonalda, ou de Nicolau com Belmira.

 

Haveria mais alguns reparos a fazer sobre o parágrafo mencionado. Estes seis, todavia, são suficientes para entender que textos difundidos pela internet não são necessariamente modelos de discurso em norma-padrão. Deveriam ser, é claro.

E aqui surge a reflexão sugerida pelo título do artigo: Você escreve bem? Escreve, mesmo? Seu próprio julgamento talvez não seja muito adequado: pode dizer que sim e estar enganado; pode dizer que não e estar enganado. Não estaria na hora de encaminhar suas redações a professores ou colegas muito competentes, para que façam um diagnóstico preciso, impessoal, talvez rigoroso, mas verdadeiro?

 

O choque do seu futuro

March 10th, 2014

Alvin Toffler, em seu livro O choque do futuro, publicado na década de 1970, colocava muitas questões que, vislumbradas naquele tempo, se tornaram atualíssimas nesta segunda década do século XXI. Como anunciava o mencionado autor, o mundo superindustrial e repleto de inovações tecnológicas em que vivemos hoje afeta o comportamento das pessoas, das famílias, dos grupos, das comunidades, de toda a sociedade, enfim, colocando em choque e em xeque todas as formas de relacionamento, do pessoal ao profissional.

Sentimo-nos hoje, muitas vezes, atarantados com a extrema complexidade que nos cerca. E, quando começamos a entender determinados aspectos, surgem rapidamente novas mudanças que nos deixam ainda mais perplexos. Viver no século XXI, altissimamente tecnológico, tornou-se um permanente processo de adaptação às novas formas de organização social, incluídas as alterações por que passam até mesmo os modos de afetividade e de amor. Tudo ocorre em grande velocidade e tudo nos obriga a seguir também velozes, para não perder o trem dessa modernidade em mutação contínua. Ser moderno, hoje, não é apenas contar com tecnologia e adquirir padrões de modernidade, mas é saber aferir os momentos de avaliar as mudanças e acompanhá-las.

O que vai dito nos dois parágrafos anteriores tem muitas implicações com respeito a você, estudante, quer seja ainda candidato, quer já tenha sido aprovado, quer esteja na metade de seu curso universitário. Você vem experimentando há um bom tempo essa perplexidade ante os fatos. Algumas dezenas de anos atrás, um estudante egresso do ensino médio inscrevia-se numa universidade para fazer o vestibular e ser aprovado ou reprovado. Em alguns cursos, o número de candidatos era menor que o de vagas. Hoje, um candidato faz três ou mais vestibulares em seu estado ou em estados diferentes, podendo até candidatar-se a uma vaga em universidade estrangeira. Ao mesmo tempo, pode também fazer a prova do Enem, abrindo assim um pouco mais o leque de possibilidades de obtenção de vaga em universidades espalhadas por todo o país. E pode dar-se até à satisfação de escolher a universidade, caso seja aprovado em duas ou mais de duas.

Obter uma vaga, ingressar num curso superior e inserir-se no mercado de trabalho, todavia, é apenas uma parte do seu projeto de futuro. A outra é pensar permanentemente esse futuro, acompanhar e avaliar passo a passo as mudanças que a sociedade apresenta e relacionar sua formação e suas expectativas com o veloz processo de mutação constante por que todas as atividades humanas passam. O seguinte parágrafo do livro de Toffler parecem um recado a você e a todos que, como você, vivem essa expectativa do futuro:

 

Num mundo assim, os atributos mais valiosos da era industrial se tornam prejuízo. A tecnologia do amanhã requer não milhões de homens levemente alfabetizados, prontos para trabalhar em uníssono em tarefas infinitamente repetitivas, nem homens que recebem ordens sem piscar, conscientes de que o pão se consegue com a submissão mecânica à autoridade, mas sim de homens que possam fazer julgamentos críticos, que possam abrir caminho através dos ambientes novos, que sejam rápidos na identificação de novos relacionamentos numa sociedade em rápida mutação. Requer homens que, na terminologia sugestiva de C. P. Snow, “têm o futuro no tutano de seus ossos”. (Alvin Toffler. O choque do futuro. Trad. Eduardo F. Alves. Rio de Janeiro. Editora Record, 1970. p. 323-324)

Olhe para seu futuro e pense nisso.

 

Vestibulares de Inverno: novas oportunidades

March 6th, 2014

Você  reclamou bastante por não haver sido aprovado em nenhum dos vestibulares que fez e refletiu muito sobre o assunto. Já tem uma opinião formada. Agora, basta. A questão é olhar para a frente, pois os vestibulares de meio de ano, que a população em geral prefere chamar vestibulares de inverno, estão próximos. São novas oportunidades que surgem e  devem ser aproveitadas.

A esse respeito, há algo bastante interessante a comentar. Alguns candidatos e professores revelam certo preconceito sobre vestibulares de inverno. Imaginam que os cursos oferecidos sejam inferiores aos do final de ano. Não são. Talvez o charme dos vestibulares de final de ano leve muita gente a menosprezar os de inverno. Que há de objetivo nisso? Nada. São meras opiniões nascidas da subjetividade e até da falta de informações. Nenhuma universidade pública ofereceria cursos ruins em vestibulares de inverno, simplesmente porque prezam seu conceito e  imprimem em cada novo curso o selo de qualidade que as caracteriza.

Este é exatamente o caso do Vestibular Meio de Ano da Unesp. Todos os cursos oferecidos levam o selo de qualidade Unesp. O fato de serem oferecidos na metade do ano decorre da própria data de criação dos cursos ou das novas unidades que a Unesp implantou, em seu objetivo de expandir-se para todo o território do estado de São Paulo. A maioria dessas unidades foi criada há quase quinze anos e, portanto, seus cursos já estão muito mais que consolidados e avaliados pela própria universidade. E vêm formando excelentes profissionais. Você já observou bem o mapa da Unesp, que aparece nos manuais do candidato e em sites e textos oficiais da Universidade? Observe bem como a Unesp abraça todo o Estado com suas unidades nos mais diversos municípios. Muitas dessas unidades oferecem cursos no Vestibular Meio de Ano.

Neste ponto, vale lembrar de nossos avós, que nos diziam, quando tínhamos algum resultado ruim nos estudos ou no trabalho: Tenha confiança, rapaz! Não há nada de mal que não venha para bem. Sábias palavras, que podem ser aplicadas ao tema deste artigo. O preconceito com que alguns estudantes e professores julgam os vestibulares de inverno nas universidades brasileiras faz com que muitos candidatos que pretendem prestar o vestibular de final de ano se inscrevam nos de inverno, mesmo sem intenção de matricular-se, caso aprovados. E muitos são aprovados. Isto significa que a própria relação candidatos x vagas é, de fato, muito inferior ao usualmente divulgado. E constitui um fator a mais para estimular aqueles que fazem os vestibulares de inverno com a intenção de matricular-se e fazer os cursos.

Percebeu? A Unesp se expandiu consideravelmente nos últimos anos, e expandiu-se com a intenção de beneficiar cada vez mais estudantes com seus cursos. Se você está realmente decidido a fazer um curso universitário de qualidade, prepare-se, inscreva-se, preste os exames e seja feliz. A obstinação é uma das virtudes dos vencedores.

 

Insista! Não insista!

February 12th, 2014

Usualmente tratamos neste blogue de assuntos que interessam aos candidatos, ao longo do ano, procurando fornecer-lhes informações, comentários úteis, dicas sobre conteúdos, bem como anotações sobre a filosofia das provas de exames vestibulares e critérios de avaliação. Entre o final e o começo do ano, dedicamo-nos bastante a estimular os candidatos que ficam na expectativa das relações de classificados e das listas de chamada para as matrículas.

Nunca deixamos, porém, de pensar naqueles que, depois de tanto esforço e tanto trabalho, não conseguiram obter a vaga em nenhum vestibular. E é justamente para eles que postamos o artigo de hoje.

Você tentou, tentou, mas não conseguiu. E vamos supor que não tenha entrado em nenhuma lista de espera. Enquanto alguns festejam e outros aguardam ainda ansiosos as divulgações de listas de segunda ou terceira chamadas, você já sabe que não terá mais chance. Experimentou três ou quatro vestibulares e não foi aprovado em nenhum. Se um amigo disser que isso é normal, por certo você exclamará, com irritação: Normal? Que nada! Normal seria eu ter sido aprovado. Era o que eu mais desejava!

Na verdade, tanto seu amigo quanto você estão certos, porque falam de temas distintos: seu amigo parte da evidência de que todos os anos, nos exames vestibulares, muitíssimos candidatos não conseguem vagas. Já você considera o seu anseio, o seu sonho, o seu esforço para atingir o objetivo final de uma classificação. Esse, de fato, não é o verdadeiro problema: o que importa mesmo é a sua decisão em face do acontecido. Muitos, em seu lugar, pensariam em desistir, mudar de rumo, buscar outra forma de trabalho que nada tenha a ver com tantas apostilas, tanta internet, tantas provas. Se é isso o que pensa, não está lá muito certo. Qualquer que seja o trabalho, qualquer que seja a carreira, universitária ou não, a vitória é fruto de muito esforço, muito preparo, muita concentração. Nada é fácil no universo do trabalho.

O que você não deve colocar para si mesmo nunca é a imagem do fracassado. Quem se esforça, quem sonha, quem busca jamais será um fracassado, será sempre um lutador. E é essa a imagem que deve considerar como sua. Você pode até desistir de prestar vestibulares e buscar carreira fora da universidade. Mas não deve desistir por julgar que fracassou nas tentativas. Na verdade, fez tentativas que ainda não deram certo, mas, com esforço, com perseverança, poderão dar. Muitos homens ao longo da História só realizaram seus sonhos após muitos anos de tentativas, de enganos, de tropeços. E chegaram porque acreditavam em si mesmos, porque sabiam que todos nascem para a vitória, não para a derrota, e que cada derrota deve ser vista como mais um degrau necessário para levar à vitória final.

Acredite, portanto, firmemente, que você é uma pessoa destinada à vitória e que, por isso, mais cedo ou mais tarde, atingirá todos os seus objetivos na vida. Olhe-se ao espelho como quem já venceu, porque não parou de lutar, e, quando chegar lá, diga a você mesmo, com orgulho: Viu? Eu sabia que iria conseguir! Só dependia de mim!

Pense nisso. Insista! Não desista! Programe sua vida apenas para o sucesso!

 

Seu idioma, seu passaporte

February 5th, 2014

No momento em que você toma as providências para matricular-se e iniciar seu curso universitário, vale lembrar algo muito importante, tão importante que já representou parte de sua aprovação nos exames e, no futuro, representará muito mais: seu idioma.

Realmente, o domínio do idioma, em qualquer país e por qualquer profissional é meio caminho andado para o sucesso. Um discurso oral bem estruturado e um discurso escrito claro e eficiente, de acordo com a norma-padrão, tornam-se ao profissional verdadeiros passaportes para o sucesso. Assim como as roupas que usa e os comportamentos que assume, todo profissional não deve descuidar-se do discurso. Você pode até retrucar que conhece profissionais universitários que se expressam mal. Claro que existem, mas esses não constituem o melhor modelo e, por certo, enfrentam muitos problemas pela carência de uma expressão mais adequada. O desenho ideal que você faz de você em seu futuro com certeza não é esse.

Então, qual é? Você se imagina, no momento em que estiver assumindo uma carreira em que acabou de formar-se, uma pessoa com presença, com porte, com atitude, vestindo-se de modo adequado a seu trabalho e usando de um discurso, quer oral, quer escrito, capaz de demonstrar quem você é, o que você sabe, de que você é capaz para cumprir cada uma de suas tarefas.

Por tudo isso o domínio de seu idioma é essencial. Uma pessoa que fala bem impressiona seu interlocutor, quer tenha este igual ou inferior domínio de discurso. Se tiver igual, o reconhecerá como igual; se tiver inferior, admirá-lo-á por sua maior capacidade.

Além de tudo isso, não se pode negar que há uma fortíssima relação entre o domínio do idioma e a capacidade de compreender conteúdos das mais diferentes disciplinas, inclusive nas ciências exatas. É possível equivocar-se na solução de um problema de Física por não compreender adequadamente o significado de uma palavra ou expressão; ou do próprio enunciado como um todo.

Assim, ao iniciar seu curso universitário, seja este qual for, não deixe de continuar exercitando e aumentando sua capacidade de expressão oral e escrita. E continue enriquecendo seu vocabulário. Em conjunto, constituem seu passaporte para uma formação mais eficiente e uma carreira de maior sucesso.

Desejamos toda a felicidade a você. E um excelente discurso.