As questões objetivas são objetivas?

18 de abril de 2019

Você certamente imagina que as chamadas questões objetivas dos exames vestibulares são realmente objetivas, de modo que é só ler o enunciado e procurar a alternativa verdadeira. Não exagere muito nessa forma de considerar. Essa é apenas uma parte da verdade, razão por que pode conduzir a equívocos.

De fato, quando se presta uma prova objetiva, procura-se a alternativa correta. Mas como chegar até ela?

As bancas elaboradoras dos diferentes exames não trabalham com tanta simplicidade. Uma vez estabelecido o enunciado da questão, buscam elas o enunciado da alternativa que preencha todas as condições como resposta adequada. Isso é fato. O problema começa nesse instante: estabelecer a resposta adequada é fácil; difícil é disfarçá-la no meio das outras quatro incorretas. Aí começa a técnica de cada elaborador. Um deles, certa vez, confessou ao Blogueiro que, estabelecida e conferida a alternativa correta, começa o verdadeiro trabalho para não facilitar aos candidatos encontrá-la. Por isso, busca em seguida uma segunda alternativa que seja o máximo parecida com a primeira, mas com um pequeno erro que a torne incorreta. A terceira alternativa pode ser estabelecida por semelhante método, mas com um aumento dos componentes errados, de sorte que possa ser também equiparada à correta. Isso não é fácil de fazer. Já a quarta e a quinta podem conter diferenças maiores, mas de modo a confundir, como se respondessem a outra questão. O que não faz nunca o elaborador é apresentar alternativas inteiramente erradas, que se revelem por si mesmas como tais. Resultado: esse processo de elaboração de questões acaba não sendo tão objetivo assim, dependendo até de certa imaginação do elaborador.

Elaborar, neste sentido, acaba sendo uma técnica e uma arte. Por esta razão, responder terá também elementos de técnica e de arte. Ocorre que, por vezes, o candidato tem uma opinião sobre o que foi indagado bem diferente da opinião do elaborador. Se percebe isso, que faz? Responde com a sua ou com a que percebe na questão. Claríssimo que deve responder de acordo com a questão. O próprio Blogueiro, certa vez, percebeu, ao prestar um concurso, que o elaborador tinha um ponto de vista diferente do seu, que serviu para produzir uma série de questões. Que fez? Acompanhou o elaborador e acertou as questões de toda a série, mesmo sabendo que sua opinião sobre o tema era melhor que a do elaborador. Para atingir essa percepção, evidentemente, não é só contar com a objetividade, mas usar um pouco de imaginação e subjetividade. Sem isso, embarca-se no equívoco.

Percebeu agora a razão do título deste artigo: As questões objetivas são objetivas? Deveriam ser, deveriam ser como matemática, com formulação e resultados exatos. Mas você sabe agora que não ocorre bem assim. Por isso, trate a partir deste momento de encará-las de modo diferente, com maior sutileza. Assim, você penetrará melhor nas intenções do elaborador e no modo como organizou as alternativas. Boas provas!

 

Orações reduzidas: melhor a teoria ou a prática?

15 de abril de 2019

Seus professores muitas vezes ensinaram, no estudo da sintaxe, a diferença entre orações desenvolvidas e orações reduzidas. Não é verdade? É, sim. Mas chega um momento em que você se pergunta: Afinal, para que saber isso?

De fato, a sintaxe, mesmo sendo um dos tópicos dos programas de língua portuguesa dos exames vestibulares, não é hoje em dia lá muito exigida. Uma ou outra questão, e olha lá! Isso quer dizer que seu estudo seja desprezível? Na verdade, não é tão desprezível assim. O próprio ensino tradicional da sintaxe sempre foi um tanto equivocado, privilegiando mais a teoria, puro conhecimento, do que a prática, aprendizado do que pode fazer com que sua capacidade de expressão melhore bastante. O Blogueiro vem insistindo muito neste fato: o ensino de língua portuguesa deve ter como meta principal auxiliar o estudante a aumentar sua capacidade expressiva, tanto em discurso oral, como em redação.

A redação é fundamental nesse caso, pois você será exigido nessa habilitação não apenas em vestibulares e concursos, mas ao longo de toda a sua vida profissional. Em resumo: o principal objetivo do ensino de língua portuguesa na escola é dotar o estudante de capacidade mais que razoável de expressão oral e escrita, porque isso ser-lhe-á exigido ao longo de toda a sua vida como um de seus instrumentos de trabalho.

No caso das chamadas orações reduzidas, que podem ter verbos no gerúndio, no particípio e o infinitivo, opostas às desenvolvidas, saber usar e alternar as duas formas representa um ganho de poder expressivo muito bom. Examine estes exemplos fornecidos por João Barbosa de Moraes:

Comprei um terreno tendo quinze metros de frente e vinte de fundo.

Não sairei daqui sem ver a partida do navio.

Ninguém afirmou termos vendido a geladeira.

Rompidos os cordões de isolamento, o povo penetrou na praça.

Viajando pela Europa, não foi a Paris.

Sendo aprovado, estarei, consequentemente, nomeado.

É necessário considerares teus chefes com respeito e amizade.

Trabalhou toda a noite, crente de ser o seu trabalho escolhido pelo júri.

Comendo demais ao almoço, achou-se, pouco depois, bastante mal.

O artista, aclamado pela assistência vultosa do espetáculo, sentiu-se comovido.

 

Na verdade, é menos importante classificar as orações reduzidas que aparecem nesses períodos do que saber alterná-las, para escolher a melhor forma para cada caso. Observe, a este respeito, como ficariam com as orações desenvolvidas:

 

Comprei um terreno que tem quinze metros de frente e vinte de fundo.

Não sairei daqui sem que veja a partida do navio.

Ninguém afirmou que tínhamos vendido a geladeira.

Logo que rompeu os cordões de isolamento, o povo penetrou na praça.

Quando viajou pela Europa, não foi a Paris.

É necessário que consideres teus chefes com respeito e amizade.

Trabalhou toda a noite, crente de que seria o seu trabalho escolhido pelo júri.

Como comeu demais ao almoço, achou-se, pouco depois, bastante mal.

O artista, depois que foi aclamado pela assistência vultosa do espetáculo, sentiu-se comovido.

 

Compreendeu? A língua portuguesa não é algo árido, com poucas soluções. Ao contrário, oferece ao falante e ao escritores inúmeras possibilidades de escolha pela forma que seja mais adequada e cabível ao período que está criando.

Pense nisso e tome amostras de qualquer texto de livro ou jornal, verificando os dois tipos de orações e fazendo as conversões para uma ou outra forma. Será um ótimo exercício para melhorar seu domínio de discurso.

 

 

Ausências mais expressivas que presenças

4 de abril de 2019

O estudioso João Batista de Moraes, em seu útil livro Para as classes de português, apresenta-nos exemplos excelentes de períodos em que a omissão de certos elementos torna o significado das frases mais expressivo do que o seria com a sua presença. É o caso da omissão, em certas passagens, da palavra que. Observe com atenção os exemplos que Moraes fornece e julgue por si mesmo. Em primeiro lugar as frases e períodos com a presença de que:

 

Pediu-me que te apresentasse suas escusas, visto que não podia comparecer à festividade.

Imploravam-lhe a as pobres crianças chorosas e amedrontadas que não mais fizesse sofrer aquela infeliz criatura.

Determino-te, a fim de que se evitem novos prejuízos, que tenhas cuidado daqui para o futuro.

Posto que não achasse já nenhum conhecido antigo, Nóbrega tinha medo de tornar ao bairro.

Tal fato sucedeu mais ou menos comigo, em Paris, se bem que de maneira menos interessante.

O consórcio realizar-se-á no mês próximo futuro, dado que não mais surjam contrariedades ou impedimentos como das outras vezes.

 

São períodos perfeitamente corretos, não cabendo qualquer reparo de ordem gramatical. Todavia, observe como, omitindo-se que em certos pontos e promovendo-se em alguns casos as alterações necessárias, tornam-se bem mais expressivos:

Pediu-me te apresentasse suas escusas, visto não poder comparecer à festividade.

Imploravam-lhe as pobres crianças chorosas e amedrontadas não mais fizesse sofrer aquela infeliz criatura.

Determino-te, a fim de se evitarem novos prejuízos, tenhas cuidado daqui para o futuro.

Posto não achasse já nenhum conhecido antigo, Nóbrega tinha medo de tornar ao bairro.

Tal fato sucedeu mais ou menos comigo, em Paris, se bem de maneira menos interessante.

O consórcio realizar-se-á no mês próximo futuro, dado não mais surjam contrariedades ou impedimentos como das outras vezes.

 

Observou bem as alterações? Que achou? Se você não se sente muito confortável em fazê-las em seus textos, não é preciso. Deixe-as com a presença do que. Mas se é daqueles que pretende sempre tornar mais formal, culto e expressivo seu estilo, comece a praticar desde já, para acostumar-se.

Omitir, portanto, é muitas vezes ganhar vigor e elegância. Bons escritores se servem com naturalidade desse recurso, muitas vezes para evitar a repetição de muitos quês, que deixam as frases um tanto pesadas e monótonas.

 

Armadilhas ortográficas

29 de março de 2019

É claro que você conhece ortografia, de tanto os professores dos ensinos fundamental e médio insistirem e repetirem, corrigindo sem piedade seus erros. Graças a essa “impiedade” sua ortografia é bastante razoável, a ponto de deixá-lo tranquilo para prestar as provas.

O problema não é, portanto, não saber, de modo geral, escrever com ortografia aceitável. Nosso Sistema Ortográfico, porém, muito amarrado nas antigas grafias, desde o grego e o latim, sem falar nas palavras importadas de línguas estrangeiras, acaba criando numerosas armadilhas, nas quais, sem querer, caímos vez por outra. Algumas pessoas caem sempre, por assumir como corretas grafias geradas por falsas semelhanças.

Neste começo de preparação para os vestibulares deste ano, portanto, é bom começar verificando se você já caiu algumas vezes ou sempre cai nas arapucas do sistema. O Blogueiro tem focalizado bastante esses problemas, por isso que volta e meia repete os alertas para que você não se deixe apanhar em erros crassos.

Preste atenção nas palavras abaixo, todas escritas corretamente, e acione sua memória para não esquecer mais. O Blogueiro apresenta apenas as formas corretas, para evitar qualquer possibilidade de confusão. Entre parênteses, quando necessárias, faz as distinções de sentido:

 

Análise            tigela                                      traz      (verbo trazer)              paralisar

Analisar          berinjela                                 trás      (advérbio)                   paralisado

Atraso             caçar   (perseguir animais)    atrás    (advérbio)                   piche

Atrasar            cassar  (tornar nulo)               vaso                                        pichar

Ideia                cessão  (ato de ceder)             vazar                                      chuchu

Apoio              seção   (parte de um todo)      xícara                                     maxixe

Liso                 sessão  (espaço de tempo)      chácara                                  viagem

Alisar              bege                                        cheque    (documento)            beneficente

Deslize                        exceção                                  xeque      (lance de xadrez)     beneficência

Deslizar          ascensão                                 paralisia                                 maleficência

 

Observe bem estes exemplos, que não são os únicos, e tente maliciar para descobrir as armadilhas que encerram, a fim de ficar bem preparado para não incorrer em outras.

 

Equívocos de intenção

27 de março de 2019

Há casos em que, nas respostas às questões discursivas e na redação, os candidatos acreditam que certas atitudes são benéficas ao que respondem, mas, na verdade, podem tornar-se bastante prejudiciais.  O Blogueiro verificou alguns desses casos e passará a comentá-los.

O primeiro surge pelo desconhecimento do que é realmente solicitado na questão ou na redação. O candidato, em vez de responder com palavras, num discurso bem concatenado, imagina que alguns desenhos ou garatujas podem dar ideia do que está respondendo. Para ele, talvez, não para a banca de correção, que espera uma resposta adequada ao que foi indagado. Desenhos, ícones, rabiscos não são resposta que se preze. No caso da redação, então, são desastrosos. O Blogueiro denomina redações camicase aquelas em que o candidato renuncia ao discurso linguístico e apela para os desenhos e imagens. Está frito, como diz o povo. Seu texto pictórico será ignorado e receberá zero. É melhor responder com um discurso bem enquadrado a apelar para esse tipo de subterfúgio, mesmo que o candidato não tenha plena certeza de sua resposta.

Outro engano é imaginar que se pode usar um discurso vulgar, cheio de gírias e coloquialismos, em lugar de um discurso elegante e bem posto. Prova de vestibular, qualquer que seja a disciplina, não é lugar para discurso de mau gosto. Esteja alerta contra isso, portanto, e respeite a norma culta, que é o melhor modelo de comunicação em língua portuguesa na escola e nas comunicações. Em vez de coloquial, seu discurso deve ser formal, bem articulado, sem apelo a vulgarismos.

Outro engano é o de se esconder, na dúvida sobre a resposta, num discurso obscuro, que desvia o tempo todo o tema indagado. Nada disso. É melhor ser claro, mesmo sem ter plena certeza da resposta, em vez de esconder-se por trás de palavras que nada dizem sobre o assunto focalizado.

Do mesmo modo que no caso da obscuridade, não é aconselhável manifestar vacilação em sua resposta. Tomar o máximo cuidado com palavras como talvez, possivelmente, provavelmente, ou frases como eu acho que, eu imagino que, eu penso que, etc. Denotam elas a vacilação no responder. Em alguns casos, a resposta do candidato está certa, mas essas expressões enfraquecem seu discurso e podem ser mal interpretadas. Evite-as. Procure parecer positivo e confiante.

Confiante, sim, mas não em excesso. Muitos candidatos, certos de que dominam o assunto, abusam das repetições e explicações, engordando o discurso de suas respostas. A esse defeito denominamos prolixidade. É bom evitá-la. A concisão, isto é, o emprego econômico e ponderado de palavras e frases nas respostas é sempre o melhor caminho.

Finalmente, um lapso muito comum e pouco observado, particularmente na redação. Como texto, a redação se distribui em parágrafos, que são visualmente identificados pelo maior afastamento da primeira linha em relação às demais. Cada parágrafo possui um significado homogêneo, que em parte transita para o próximo, estabelecendo-se, assim, uma sequência de ideias e argumentos bem definida. Respeite isso. Nada de amontoar os períodos que formam sua redação em uma sequência só, congestionada e turbulenta. Quem vai corrigir um texto com tal defeito quase desanima ao se deparar com esse aglomerado. Acostume-se a paragrafar, que isso fará bem até ao seu modo de conceber e estruturar seu texto.

Percebeu? Intenção é uma coisa; correção é outra.

 

Acentue, sabendo o que faz

19 de março de 2019

Nos dois artigos anteriores, o Blogueiro alertou para o problema dos acentos gráficos. Colocou em primeiro lugar a questão das regras alteradas pelo acordo ortográfico. No segundo artigo, examinou algumas regras em que os estudantes costumam cometer equívocos por pura distração. No artigo de hoje, finalmente, apontará as regras fundamentais, que você tem por obrigação conhecer e praticar, sem esquecer os dois aspectos em que se baseou a criação do sistema: primeiro, o econômico, acentuar o menos possível; segundo, o diferencial: distinguir palavras com terminações idênticas, mas tonicidade diferente. Tendo sempre em mente esses dois aspectos, fica mais fácil e prático acentuar sem cometer erros.

A grande maioria das palavras da língua portuguesa são paroxítonas terminadas em a, e, o, as, es, os. Por isso, não são acentuadas. Seria contraproducente fazê-lo. Já as oxítonas com as mesmas terminações, por serem bem menos numerosas, levam o acento necessário: guaraná, ananás, café, jacarés, avô. Na mesma perspectiva se incluem os monossílabos tônicos com idênticas terminações: má, más (adj.), pá, pás, pé, pés, pó, nós. Assim também as palavras paroxítonas terminadas em em, ens são bem mais numerosas que as oxítonas com a mesma terminação, razão por que estas devem ser acentuadas: porém, também, armazéns, reféns.

Já as palavras proparoxítonas são relativamente poucas no idioma. Acentuá-las, portanto, resolve um belo problema, diferenciando-as de todas as paroxítonas e oxítonas. Esta é a motivação da regra que manda marcar com o competente acento gráfico todas as palavras proparoxítonas: árvore, árvores, pérola, pérolas, ótimo, ótimos, tâmara, tâmaras, pêndulo, pêndulos, cômodo, cômodos. Fácil, não é?

Finalmente, a maior dificuldade da acentuação gráfica está nas paroxítonas terminadas em l, n, r, os, x, us, i, is, om, ons, um, uns, ã, ãs, ão, ãos e em ditongo oral (seguido ou não de s). Devem receber o acento adequado na sílaba tônica: tátil, fácil, hífen, éden, gérmen, líquen, abdômen, pólen, cadáver, revólver, bíceps, tríceps, quadríceps, tórax, bórax, ônix, vírus, ânus, lápis, tênis, júri, júris, íon, íons, fóton, próton, elétron, bárion, nêutron, álbum, álbuns, órfão, órfãos, órfã, órfãs, jóquei, jóqueis, túneis. O máximo cuidado com palavras como estas, portanto! É bom rever sempre os exemplos, para evitar cochilos.

Finalmente, uma última regra que provoca muitos enganos: a acentuação das paroxítonas terminadas em ditongo crescente. A regra é clara, mas muita gente parece adorar escrever algumas dessas palavras sem acento gráfico, como, por exemplo, magoa, regua, carie, ingenuo, inicio. Nada disso. Todas devem ser acentuadas: água, mágoa, régua, cárie, ingênuo, início, precipício, espécie. Note que magoa sem acento deve ser pronunciada com tonicidade sobre o o, já que a palavra passa a ser uma forma verbal de magoar; assim também carie passa a ser uma forma do verbo cariar, e inicio se torna uma forma do verbo iniciar.

Neste final, o Blogueiro faz uma pequena pergunta, um tanto brincalhona, a você: Se hífen, como vimos, deve levar acento gráfico sobre a sílaba tônica, por que hifens não deve? E quais palavras dos exemplos dados se encaixam neste mesmo caso?

É isso aí. Não se descuide com a acentuação gráfica, para não ter descontos na nota. Por menores que possam ser, por vezes significam a perda da vaga. Boa acentuação para você.

 

Uma prova ortograficamente limpa

15 de março de 2019

No artigo anterior, o Blogueiro colocou a questão da necessidade de se observar muito bem a questão ortográfica nas provas. Neste, continuando, vai focalizar alguns aspectos da acentuação que foram alterados pela reforma causada pelo acordo ortográfico com os demais países de língua portuguesa. Sempre lembrando que ortografar bem não é favor, é obrigação, e obrigação legal, pois o sistema ortográfico é oficial em nosso país. Não podemos, portanto, escrever como queremos, mas como devemos, segundo o sistema. Muitas vezes, a título de exemplo, se coloca no ensino de literatura que o escritor Monteiro Lobato escrevia “como queria”, isto é, de acordo com um sistema que ele mesmo criara. Mas Monteiro Lobato era Monteiro Lobato, um gênio que tinha o direito de escrever de acordo com sua própria visão do idioma; e nós, pobres mortais, não podemos nos dar a esse luxo ou mania sem sermos penalizados em provas de concursos, vestibulares e textos que escrevemos. Além do mais, nas edições publicadas após a morte de nosso grande escritor, a ortografia oficial voltou a ser obedecida em seus livros. E se ele estivesse vivo hoje e prestasse vestibular, teria de obedecer às regras vigentes.

Pare de pensar também que seguir o que os professores ensinam nas aulas e os livros e apostilas em suas páginas é fazer um favor aos professores. As universidades adotam também oficialmente o acordo ortográfico, que surge como uma parte dos regulamentos das provas.

A grafia das palavras e a acentuação, por exemplo, devem ser seguidas rigidamente pelos candidatos, se querem que sua prova seja “limpa” a esse respeito.

Você já estudou muito e deve conhecer bem as regras fundamentais de acentuação. Observe nas seguintes listas de exemplos o que o acordo ortográfico alterou:

 

1 – Linguiça, pinguim, tranquilo, equino, eloquente, frequente, cinquenta.

2 – Apoio, epopeia, ideia, androide, heroico. Alcateia, geleia, plateia.

3 – Feiura, baiuca, bocaiuva, reiuno.

4 – Creem, deem, leem, veem, enjoo, voo, perdoo.

5 – Apazigue, arguem, averiguem, redarguem, argui.

 

Examinou bem? Então atente para as explicações respectivas:

 

1 – Não se usa em hipótese alguma o trema, antigamente empregado nessas palavras. O trema foi banido da ortografia, embora possamos usá-lo em nomes próprios oriundos de outras línguas.

2 – Em palavras paroxítonas, os encontros oi e ei não recebem acento gráfico. Mas, cuidado: se as palavras forem oxítonas e monossílabas tônicas, o acento é obrigatório: anzóis, pastéis, léu, faróis, chapéu, réu.

3 – Não se acentua o u de ditongos em palavras paroxítonas como as exemplificadas. Mas, se forem oxítonas, receberão o devido acento: teiú, teiús, sucuruiú, sucuruiús, tuiuiú, tuiuiús, Piauí.

4 – Encontros de vogais idênticas, ee, oo cuja primeira vogal é tônica de palavras paroxítonas não devem ser acentuados. Nada de escrever erradamente vôo, enjôo. É tudo sem acento.

5 – Não se acentua o u tônico de palavras como as exemplificadas.

 

Beleza? Então só falta lembrar que palavras oxítonas terminadas em em continuam recebendo o competente acento gráfico. No caso de verbos derivados de ter, entretanto, diferencia-se o plural com acento circunflexo: ele entretém, eles entretêm, ele mantém, eles mantêm, ele retém, eles retêm, etc. E tome muito cuidado com a forma verbal monossilábica: ele tem, eles têm. A esse respeito, vale lembrar que devemos acentuar pôde (verbo poder, pretérito perfeito do indicativo), para diferençar de pode (verbo poder, presente do indicativo); e assim também acentuamos pôr (verbo) para diferençar de por (preposição).

Entendeu? Muita gente ainda comete equívocos nesses casos, colocando o acento onde não deve ser colocado, ou não colocando onde tem de estar. Então dê uma boa lida nas regras de acentuação, para ter em mente o que sempre deve ser feito. Sua prova ortograficamente limpa começa por aí. No próximo artigo o Blogueiro vai focalizar as regras que o acordo não alterou.

 

 

Preparação: ortografia é muito importante

28 de fevereiro de 2019

No artigo anterior, o Blogueiro sugeriu uma visão geral ao candidato dos estudos que tem de realizar na reta final. A partir do artigo de hoje, vai apresentar uma série de sugestões derivadas dessa visão, muito importantes para a eficácia do desempenho nas provas.

A primeira delas diz respeito à ortografia. Para alguns, a ortografia não é tão importante, dá para cometer alguns errinhos. Não é bem assim. Quando se busca um resultado final ótimo, tudo passa a se tornar importante nesse caminho. É preciso observar que a ortografia atinge todas as provas, não apenas a de língua portuguesa. As questões discursivas são respondidas em língua portuguesa, e o discurso do candidato deve privilegiar todas as possibilidades de acerto, para evitar, inclusive, escrever palavras que funcionem no texto com sentido diferente do pretendido.

Uma das coisas que deve conhecer o candidato é que o sistema ortográfico é um dispositivo legal a ser obedecido no país e, simultaneamente, um acordo entre países de língua portuguesa, que uniformizaram seus sistemas em 1990. No Brasil, o acordo começou a ser obedecido há questão de dez anos, e a partir de 2016 tornou-se obrigatório. Neste caso, é imperioso escrever conforme estipulam as regras assumidas pelo acordo.

Outro aspecto importante é o fato de que o sistema ortográfico foi criado para ser econômico, vale dizer, fazer-nos usar o menor número possível de palavras acentuadas, para diferençar das não acentuadas. Seus dois princípios reguladores são, portanto, diferenciar e economizar. Ao estabelecer tal sistema, os estudiosos encarregados poderiam, por exemplo, como se faz no inglês, decidir simplesmente não acentuar nenhum vocábulo, o que seria altamente econômico, mas poderia gerar muitas dificuldades no aprendizado do português escrito, pela confusão de palavras diferentes que se escrevem com as mesmas letras, embora tenham tonicidade distinta. Por isso, escolheram um meio-termo: acentuar apenas algumas palavras. Esta decisão tem sua lógica. A língua portuguesa tem como grande maioria de seu vocabulário palavras paroxítonas terminadas em -a, -e, -o, seguidos ou não de -s. É por esta razão que não acentuamos palavras como mesa, mesas, carne, carnes, caderno, cadernos. Já as oxítonas com idênticas terminações, muitíssimo menos numerosas, são acentuadas: guaraná, ananás, café, chaminés, avô, propôs.

Percebeu? Por trás de cada regrinha de acentuação a que você tem de obedecer, existem esses princípios de diferenciação e de economia. Você deve acentuar revólver, por exemplo, para evitar confusão com revolver (verbo). E acentua a paroxítona porque as oxítonas terminadas em -er são muito mais numerosas (pense no infinitivo dos verbos da segunda conjugação, só para ter uma ideia).

Por isso mesmo e por todas estas razões, tenha sempre presente, ao obedecer a uma regra de acentuação, os dois princípios: diferenciação e economia. Assim, ficará mais fácil compreender e evitar erros.

No próximo artigo o Blogueiro vai focalizar alguns exemplos que podem levar a enganos. Bom estudo!

Saber começar para saber terminar

25 de fevereiro de 2019

Você vai prestar os vestibulares deste ano e por isso deve estar acompanhando os resultados dos atuais, as listas de chamadas, as alegrias de colegas mais velhos que foram aprovados e se matricularam.

E você? Agora é a sua vez. É claro que vem estudando há um bom tempo e acompanhando as provas e as correções, e agora percebe que está na hora de programar uma série de atividades para chegar “tinindo” aos exames. O Blogueiro, por isso, faz algumas sugestões para que estabeleça bem concretamente sua rota.

Primeiro ponto: estude com muita atenção as questões objetivas de diferentes vestibulares. Procure captar a “malícia” das questões e entender o modo como os elaboradores geram as alternativas. Existe aí uma técnica que pode ser detectada e compreendida. Isso aumentará em muito sua capacidade de identificar as respostas corretas e evitar cochilos.

Segundo ponto: sua expressão nas questões discursivas e na redação é fundamental. Trate de fazer uma análise de sua capacidade de escrita: clareza, concisão, vocabulário adequado, pontuação, acentuação, ortografia. Temos tendência em julgar que escrevemos muito bem, mas isso é perigoso, pode nos levar a enganos. É melhor usar o critério da desconfiança e achar que temos alguns defeitos que precisamos descobrir e sanar.

Terceiro ponto: além de estudar com atenção as diferentes disciplinas, trate de fazer sempre uma revisão da terminologia dessas disciplinas, para evitar erros de conceito em suas respostas discursivas e de compreensão na leitura das questões objetivas. É muito comum julgarmos que conhecemos a terminologia e dominamos todos os conceitos expressos pelos seus termos, mas volta e meia nos equivocamos. É bom, por isso, rever a cada passo tais vocábulos e conceitos.

Quarto ponto: redação é redação. Dissertação é dissertação. Nada de inventar, em vez de dissertação, desenhos, caricaturas, charges. Esses gêneros de texto não são solicitados e, se você insistir, sua “redação” será anulada. É claro que alguma vez na escola você fez isso e pode ter sido até elogiado pela criatividade. Mas vestibulares em geral pedem dissertações e é nelas que você tem de demonstrar sua capacidade de raciocínio, de argumentação, de conhecimento do tema e de sugerir soluções para os problemas analisados. Certo especialista em vestibulares denomina redações-camicase essas tentativas de substituir a dissertação por desenhos.

Quinto ponto: não se distraia com os eventos de início de ano, festas, carnaval, eventos esportivos. Sua hora é agora. Está na reta final e cada minuto é importante para aumentar suas chances. Vestibular é como uma prova esportiva: você tem de dar tudo e mais um pouco para vencer.

Pense bastante nesses cinco pontos e elabore seu plano de ação, tendo em mente que para sair-se bem nos exames não é suficiente apenas estudar, mas saber como preparar-se para prestar as provas com segurança.

 

Tudo novo sob o sol

14 de fevereiro de 2019

Depois da fase de matrículas, começa tudo de novo. Os que terminarão este ano o ensino médio são os novos pelejadores em busca de cursos e vagas. E a cada ano, felizmente, as competências parecem aumentar, o que é bom em termos de ensino e melhor ainda em termos de universidade.

Muitas vezes na vida percebemos que boa parte da realidade que nos cerca é cíclica, isto é, seus processos têm inícios, desenvolvimentos e términos, para em seguida terem novamente inícios, desenvolvimentos e términos, e assim por diante. Num dos livros da Bíblia, o Eclesiastes, que alguns atribuem à autoria do rei Salomão, esta constatação da natureza cíclica da realidade gerou belas páginas de verdadeira filosofia, ainda atualíssima. Se você algum dia disse ou ouviu uma frase como, por exemplo, Nada novo sob o Sol, está ou citando ou plagiando o Eclesiastes, que afirma também: O que é que foi? É o mesmo que há de ser. Que é o que se fez? O mesmo que se há de fazer. Não há nada novo debaixo do sol, e ninguém pode dizer: Eis aqui está uma coisa nova, porque ela já existiu nos séculos que passaram antes de nós.” (trad. de Matos Soares).

Belo, não é? Belíssimo. É o que acharam muitos escritores ao longo do tempo, que não se esquivaram de citar passagens do Eclesiastes ou de desenvolver seus temas. O próprio Machado de Assis, nosso maior escritor, era um desses admiradores do texto.

Pois é. Mas devemos convir que, para cada um de nós, em tudo o que fazemos parece que estamos a fazer sempre algo novo. É o que você deve sentir ao entrar na reta final dos exames vestibulares. Por isso mesmo, é bom lembrar o que diz o Eclesiastes, justamente para evitar que, nos momentos de desânimo, que volta e meia acontecem em nossas vidas, você se sinta o único culpado por não conseguir atingir algumas metas de estudo. Na verdade, você apenas está iniciando individualmente um ciclo pelo qual inúmeros jovens vêm passando há anos e anos. O que lhe acontecer de bom ou de mau já aconteceu a muitos outros ao longo desse tempo.

Não se preocupe demasiadamente, portanto. Se o ciclo de vestibulares do ano em curso não lhe for favorável, haverá outros e outros e, num desses, com certeza você passará, como tantos outros estudantes que enfrentaram as mesmas dificuldades.

Então, mãos à obra. Neste ano final, é preciso estabelecer com a máxima atenção seu plano de estudos e segui-lo à risca. Você sabe quais são suas forças e quais as suas fraquezas. Pondere. Estabeleça metas. Dedique-se como o candidato recém-aprovado no vestibular de medicina de grandes universidades, depois de anos de dedicação que chegaram a incluir fechar-se no banheiro para poder estudar. Você pode se inserir em processo semelhante de grande esforço e dedicação, repetindo o ciclo. Não pode?

Claro que pode. Pode fazer com que para você surja tudo novo debaixo do Sol.